Faça-me, Quero Ser Tua.
59 Cercada por sentimentos
Notas iniciais
"Acordo em um sobressalto. Que horas são? Sobre o criado mudo agarro meu celular. 14:30hrs.
Não há chamadas. Não há mensagem.
Levanto-me da cama sem vontade alguma, procurando por algo para comer. Encontro biscoitos no armário e leite na geladeira. Largo os biscoitos em um pote, aqueço o leite, e na imensidão daquela sala vazia, sento-me contemplando o horizonte, tentando esquece-lo. Isso não acontece.
Durmo um pouco mais e assim que acordo começo a me arrumar. Saio de casa quase 8 da noite. Pego o ônibus e então 45 minutos depois já estou chegando a boate. Entro antes de meu horário para ter algum tempo para trocar de roupa, arrumar melhor o cabelo e preparar as coisas no bar.
Mais uma noite se arrasta. A música toca alta e freneticamente fazendo-me esquecer ele por algum tempo. Por um curto tempo. Um Cabelo, um sorriso... infinitude de atos alheios lembraram-me ele. É sempre assim.
Saio da Boate as 6hrs e então faço meu trajeto do dia anterior.
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Já estou na boate a aproximadamente 15 dias. Estou contente. Meu trabalho é um tanto corrido. São quase 9 horas de trabalho direto. Mas gosto. Me deixa leve e acabo esquecendo dele as vezes. Depois daquele dia, nunca mais o vi pessoalmente. Meus sonhos ele continua os invadindo. Ora me amando, ora com outra mulher... As vezes dizendo que me ama, as vezes deixando-me dar prazer a ele. Acabo sempre acordando suada e precisando de um banho frio.
É sexta-feira, o dia de maior movimento da Boate. Como Manu sempre faz, sequei meu cabelo com a escova, deixando-o mais liso que o normal. Delineador e batom vermelho. Perfeito. Querendo ou não, é Sexta-Feira!
Entrego vários drinks, passo uma infinitude de cartões até que meus olhos batem naquele rosto tão familiar. Atendo outras pessoas, esperando que alguma das outras meninas o atenda, mas ele está exatamente frente a minha máquina. Sem saída, engulo em seco e caminho até ele.
—Oi minha princesa. -Diz tranquilo, entregando-me seu cartão.
Meu coração falha uma batida.
—Whisky? -pergunto-lhe rapidamente, tentando ignorar minha voz que parece nem sair.
—Sim, um duplo, por favor.
Seus olhos perseguem-me sem pena. Registro o código no cartão e em seguida sirvo sua dose, levando-a até ele.
—Sinto sua falta. -Diz agarrando meus dedos que envolvem o copo.
—Por Favor... -murmuro sem forças.
Eu também, meu amor... eu também.
—Quantas doses terei que virar nessa pia hoje para que me escute? Hoje não irei desistir.
Seu sorriso que a muito tempo eu não via, aparece. Ele senta-se ali, e quando me afasto para atender outros clientes, sei que ele me observa a todo momento.
Ele está mais magro. Pude perceber de longe.
Algum tempo depois, ele estende seu cartão novamente.
—Vamos conversar, por favor. -Diz enquanto digito o código na máquina. -Esperei qualquer mensagem tua durante todos esses dias, mas não estou mais suportando esse mal entendido.
Entrego o cartão a ele, e então vou servir sua dose.
Ah Carlos Daniel... não sei mais o que pensar... e se realmente foi um mal entendido?
Quando a entrego, segurando minha mão, ele leva seus dedos até meu rosto. Meu corpo congela. Nossos olhares se encontram enquanto meu coração pulsa freneticamente dentro do peito. Caramba!
—Por favor... -murmura.
—Saio as 6hrs. -digo-lhe afastando-me de seu toque. Indo atender outro cliente. Quando digito o código que a moça pediu, vejo de relance o brilho nos olhos daquele homem. Ele parece mais tranquilo.
A noite parece levar uma semana para acabar. As horas se arrastam. Em um momento, Carlos Daniel some, deixando-me nervosa. Será que ele mudou de ideia logo agora que baixei a guarda? Quando ouso pensar coisas a mais, ele regressa com um copo de suco. Não consigo evitar um sorriso.
—Cadê o homem das trevas? -pergunto-lhe brevemente quando passo por ele, indo para a máquina.
—Você o prefere? -pergunta-me com um brilho de fome nos olhos. Ah, se eu não te conhecesse!
—As vezes sim. -Digo virando-me para esconder meu sorriso enquanto continuo atendendo outros clientes.
Quando chega a hora de meu intervalo, uma das meninas da outra copa vem me substituir.
—É meu intervalo. -Digo a Carlos Daniel, apoiando-me ao balcão.
—Posso pagar uma bebida a essa linda atendente? -diz ele com um sorriso.
—Infelizmente não. -Fecho a cara e vejo que ele faz um beicinho. -Saio em uma hora e meia. Se quiser...
—Irei te esperar. -Diz ele com os olhos fixos aos meus.
Saio balançando a cabeça em concordância, o coração ainda acelerado.
Quando chego na pequena cozinha onde é nosso intervalo, minha chefe está encostada a um dos armários comendo uma tortilla.
—Aquele é o homem dono do seu coraçãozinho, senhorita Martins? -Diz ela olhando-me com o canto do olho.
Ai, será que...
—Desculpe-me, Senhora Maldonado, eu...
—Não se desculpe, Paulina. -Diz ela sentando-se ao meu lado. -Você está com um brilho nos olhos que nunca tinha visto. Fico contente pela senhorita.
Olho para sua face, e vejo que ela esboça um sorriso.
—Sinto muito por ele estar aqui... -murmuro com a voz quase sumindo.
—Fique tranquila. Se não está afetando seu trabalho nem causando problemas com outras pessoas, pra mim, não há problemas também. Fique calma.
Dou um breve sorriso a ela e então depois de semanas me arrisco a pegar o celular na mão. Como muito tempo também não acontece, tem uma mensagem dele.
"Você é a moça mais bonita daqui. Acho que estou ficando com ciúmes... :( 04:41hrs"
"Não tenha. 04:45hrs" Respondo rapidamente. Ah querido, se você soubesse que meu coração é só teu... somente teu.
A Resposta vem instantaneamente, acredito que ele estava digitando antes que eu enviasse a minha.
"Te juro por tudo que é mais sagrado, jamais trairia você. Não estaria te procurando tanto, insistindo tanto, se sua ausência não estivesse destruindo minha vida. Preciso que me escute, que me entenda e que volte a ser minha. Você precisa me escutar... 04:46hrs"
Releio as mensagens infinitas vezes. Devoro um potinho com pedaços de frutas picadas e então volto ao trabalho. As 5:15hrs, quando a copa fecha, vejo Carlos Daniel se afastando e sentando em um dos bancos próximo a porta.
Acelero meu trabalho, ansiosa por sair dali, quando de repente a Senhora Maldonado para ao meu lado.
—Ele gosta mesmo de você. -Diz com um sorriso.
—A senhora acha? -pergunto-lhe colocando os últimos copos na prateleira.
—Sem dúvidas. -sorri para ele ao longe, que distraído mexe no celular. -Manoel me olhava assim também.
—E o que aconteceu? -ouso perguntar. Seu sorriso some.
—Ele teve um infarto alguns anos atrás.
—Sinto muito. -digo-lhe sincera.
Passo um pano na borda do balcão quando Sônia, a senhora Maldonado retira o pano de minhas mãos.
—Já deu por hoje, o homem está te esperando.
—Mas Senhora...
—Vá Paulina.
Agradeço a ela com um sorriso e então saio esbaforida para pegar minha bolsa no armário. Rapidamente, como uma menina que se apaixona pelo colega de escola, arrumo os cabelos e tiro meu uniforme. Na bolsa, encontro o batom e o retoco. Com minhas pernas bambas e a ansiedade corroendo meus ossos, saio detrás do balcão e caminho até ele. De certo modo, ele merece que eu lhe escute. Querendo ou não, o amo e não posso ficar com essa dor eternamente.
—Oi. -murmuro com um fio de voz, quando finalmente ele me nota ali. -Você disse que queria falar comigo.
—Sim. -diz ele rapidamente, levantando-se. -Preciso de ti.
—Você parecia bastante distraído ai. -falo mirando seus olhos.
—Estava pensando em como te fazer entender que te quero mais que tudo.
—Carlos Daniel, eu...
—Sh... -interrompe. Seus dedos, antes que eu desmaie, tocam meus lábios provocando uma onda de anseios quase que matadora. -Vamos sair daqui.
Ele então pega seu blazer sobre um dos sofás e me guia até a porta. Os olhos de Carlos Daniel se estreitam quando passamos pela porta e um dos seguranças se despede de mim. Finjo que não vejo, mas ai então ele adianta seu passo, parando ao meu lado e depositando sua mão as minhas costas. Meu corpo se incendeia.
—Podemos ir para seu apartamento? -pergunta-me ele com a voz baixa, guiando-me já para seu carro.
Ah Meu Deus... podemos? será?
—Tudo bem... -murmuro quase sem voz, virando-me para encarar seus olhos.
Ele me encara também e então aproxima seu corpo do meu, virando-me para abrir a porta do carro.
Entro ali, embriagando-me com o cheiro dele que sempre fica nesse carro. Esse carro, somente nesse. Como pode?
Ele entra do outro lado, ficando atrás do volante e então me encara por alguns segundos. Fujo de sua mirada, o coração acelerado, a vontade de esquecer o mundo e dizer que mesmo com tudo, mesmo de certo modo odiando-o, não consigo deixar de querê-lo.
—Você tem coisas para tomarmos café da manhã em casa? -pergunta-me com a voz baixa.
—É... -Não tenho praticamente nada em casa! -Não... não tenho... -digo baixando a mirada.
—Vamos pegar algumas coisas em um supermercado, então.
Ele, desviando seus olhos dos meus, liga o motor do carro e seguimos pelas ruas da cidade.
Quando chegamos no estacionamento de um dos supermercados, ele desce e abre a porta pra mim, estendendo-me sua mão.
—Vamos, não sei o que você quer comer.
Meus olhos receosos o miram com a dúvida de ir ou não ir. Seus olhos me encaram fixos, esperando que me entregue a ele mais uma vez, como tantas outras vezes fiz. Mas, agora é diferente. Fujo minha mirada da sua.
Não entrego minha mão a ele mas então saio do carro, deixando-o com um olhar confuso. Ele fecha a porta do automóvel e então segue-me. Assim que passamos pela porta do supermercado, ele agarra minha mão possessivamente.
Encaro-o por um breve momento, repreendendo-o, mas quando aquela energia tão familiar toca minha pele, sou vencida e acabo enlaçando meus dedos aos seus. Ele não consegue evitar um suspiro.
O supermercado está completamente vazio. Com um pequeno cestinho, pegamos algumas tortinhas prontas e café. Nossas mãos não se soltam em momento algum. É como se não pudêssemos fazer tal ato. Procuramos por mais algumas coisas como açúcar, geleias e torradas. Quando chegamos a um dos caixas para pagar as compras, faço menção de soltar sua mão, mas ele a pressiona firme. Com apenas uma das mãos, de forma desajeitada, ele retira a carteira do bolso e entrega um cartão a moça do caixa. Ela nos observa com uma expressão de susto. Será que somos tão estranhos?
Quando saímos dali, ainda sem nada dizer, entramos no carro e seguimos para meu apartamento. Pela primeira vez desde que vim morar aqui estou usando o controle da garagem subterrânea. Quando chegamos lá embaixo, ele desliga o motor e então me olha daquela maneira tão fixa.
—Prometo que não vai se arrepender...-diz num fio de voz.
Minha pele inteira se arrepia. No fundo, sei que não. Sei que o que ele fez foi errado, e sei todas as outras coisas, mas no momento, meu coração pulsa frenético por ouvir o que ele tem a dizer. Balanço a cabeça em concordância e antes que ele pensa em descer do carro, já estou indo em direção ao elevador.
Ele sai de lá em passos largos e parando ao meu lado, tira as sacolas de minha mão.
Entramos naquela caixa de aço juntos. Tentando esconder a reviravolta que está em meu pensamento, abro a bolsa e pego as chaves do apartamento.
Ali, seu cheiro parece se multiplicar. Não sei o que me passa quando estou com esse homem. É uma loucura total.
O plim do elevador tira-me do transe e então saio dali caminhando em direção a porta do apartamento.
Abro a porta com uma facilidade que nem sei de onde vem.Agradeço mentalmente ao destino por isso. Entro ali, já largando a bolsa e acendendo algumas das luzes. Caminho até a sala e afasto as cortinas.
Quando viro-me, Carlos Daniel está observando tudo com minúcia. Seus olhos correm pelo lugar como se jamais o tivesse visto.
É, meu querido... foi tudo você quem pagou. E, estragando meus planos, você deixou de frequentar esse lugar, deixando-me com a dor de sua ausência.
—Ficou a sua cara. -diz ele olhando o sofá preto e o grande tapete amarelo. É a primeira frase em longos minutos.
Caminho até ele, esboçando sem querer um pequeno sorriso. Querendo ou não, cada pedaço desse lugar escolhi pensando em o agradar também. Tiro as sacolas de sua mão, e então caminho até a cozinha.
—Fique a vontade. -Digo abrindo alguns dos armários.
Ao longe, vejo-o balançar a cabeça em concordância, então tirando o blazer novamente, o larga sobre o sofá e caminha até a cozinha comigo, sentando-se em um dos bancos.
—Você está com fome? -pergunto sem saber o que dizer.
—Na verdade, não. Gostaria apenas do café preto. -diz observando-me. É, eu também...
Guardo o restante das coisas na geladeira e então coloco o café na cafeteira. Com as mãos trêmulas, sentindo seu olhar sobre mim, pego um par de xícaras e coloco sobre a bancada. Seus olhos encaram cada movimento meu. Enquanto a cafeteira faz seu trabalho, me encosto na pia ficando de frente para ele.Não consigo falar nada e ele parece estar tão travado quanto eu. Que agonia. Mas... ah esses "mas"... Ele está aqui. O simples fato de estar aqui me conforta. A cafeteira apita e imediatamente levo a jarra com café até a bancada. Sirvo nossas xícaras enquanto ele observa o líquido fumegante. Ouço o sussurro de um "obrigado."
Com mãos trêmulas, sento-me ao seu lado e puxo minha xícara. Tomo um muito bem vindo gole de café.
—Então, Carlos Daniel... -digo em um murmúrio.. -O que você tem a dizer?"
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