FUJA

4 Um túnel e algumas teorias


Notas iniciais
Amanhã postarei os dois últimos capítulos. Espero muito que vocês estejam gostando! Obs: Sigam pelo túnel e fiquem atentos às teorias

O túnel principal é escuro e úmido.

Mac procurou desesperadamente por uma lanterna no porão, depois de ter afastado o armário antigo e ter percebido que não daria para seguir em frente sem uma.

Por sorte, ele a encontrou.

Ele caminha pelo túnel a passos errantes, tentando manter a constância sem se importar com as dores que começam a aparecer, e o cansaço. Volta e meia seus olhos caem sobre Stella, que permanece desacordada em seus braços.

— Eu vou te tirar daqui. Daqui a pouco você estará melhor. Eu prometo. — Fala, ofegante. Stella treme em seus braços. A cada passo o local parece mais úmido e gelado.

Ao chegar na primeira divisa, onde há dois caminhos, Mac para por um momento e coloca Stella no chão, recostada na parede. Ele rapidamente tira o próprio casaco e põe sobre os ombros dela. Em seguida, a pega novamente no colo e segue o caminho à direita, como Anna havia aconselhado.

— Mac...

Os olhos dela permanecem fechados. A respiração mais lenta a cada minuto que passa.

— Não se esforce, ok? Finja que está descansando na sua cama. Quando acordar, estará segura e longe daqui.

— Você não me contou o que acontecerá depois... — Sussurra. Mac a olha por um momento, confuso. Stella sente seu olhar sobre ela. — Depois de tomarmos vinho enquanto admiramos a vista do seu apartamento.

Mac sente um nó se formar em sua garganta. Ele está cansado. Exausto, na verdade. Mas parar, a mataria. Ele respira fundo e continua.

— Eu vou fazer pipoca, e então veremos um filme sentados no sofá. Você vai deitar no meu ombro, e eu vou te abraçar. Vou respirar fundo, mais vezes do que o necessário, apenas pra sentir o cheiro do seu cabelo. — Mac repara no pequeno sorriso que surge nos lábios de Stella. — No final você vai me perguntar se eu gostei do filme. Mas a verdade é que não conseguirei prestar atenção, pois passarei cada minuto pensando na melhor forma de te dizer que estou apaixonado.

— Parece um bom plano pra mim. — Ela murmura, sem forças.

Ele para de falar. O nó ainda está lá, maior do que antes. Seus olhos marejam.

A segunda divisa aparece. Mac continua pela direita. Seus passos apertam ainda mais.

Ele checa o relógio de pulso. Eles estão no túnel há apenas 20 minutos. Há mais 40 minutos pela frente.

— Você precisa aguentar, está bem?

Stella pesa em seus braços, não porque é pesada, mas porque ele está cansado demais.

Mac continua. Os passos apressados, e as vezes errantes. A respiração ofegante. Coração acelerado.

— Só precisamos nos afastar um pouco mais. Só precisamos nos afastar um pouco mais.

Ele repete, tentando convencer a si mesmo de que se andar por mais alguns minutos, tudo ficará bem.

Então, a luz da lanterna pisca.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Na quarta, ela apaga.

— Não, não, não... — Mac para de andar e coloca Stella no chão, delicadamente. Ele se levanta e começa a bater a lanterna contra a palma da sua mão. Após algumas tentativas, a luz reacende. Fraca, mas está ali.

Ele respira fundo, sentindo uma gota do suor escorrer por cima do nariz.

— Você precisa descansar.

Ele escuta uma voz baixa. Seus olhos caem sobre Stella.

— Não dá. Não agora. — Ele agacha, pronto para pegá-la. Stella, no entanto, não permiti.

— Mac. Só para um pouco.

Contrariado, o detetive checa o relógio. Ainda faltava 30 minutos.

— Quando eu te tirar daqui, prometo que descanso, está bem? Agora, por favor, vamos embora. — A grega sorri, levemente. Suas pálpebras pesam.

— Você é teimoso.

Ele a pega em seus braços e volta a andar.

— Não mais do que você. — Provoca. — Como está se sentindo?

Stella suspira profundamente.

— Fraca, como se fosse desmaiar a qualquer momento. Mas estranhamente melhor do que quando estávamos na clínica. Talvez eu tenha melhorado uns... 2%?

Mac solta uma risada, aliviado por estar escutando a voz dela.

— Isso é bom.

— Então já pode me contar o que vai acontecer depois do filme. — Diz. Mac reprime um sorriso.

— Você vai dizer que precisa ir pra casa, por ter que acordar cedo no dia seguinte. Mas, no fundo, você só quer saber se eu vou te pedir pra ficar.

— E você vai?

— Não tenha dúvidas, Bonasera.

Novamente, a luz da lanterna pisca. Mac tenta disfarçar a preocupação, mas Stella o conhece muito bem.

— Se a lanterna parar de vez, ainda teremos nossos celulares. Não é a mesma coisa, mas pelo menos não estaremos no escuro.

— Amo seu otimismo. — Diz ele em um tom descontraído. Stella se mexe, desconfortável. — Está tudo bem?

— Quero tentar andar. Me sinto um pouco melhor.

— 2%? — Questiona Mac.

— Uns 5, agora. — Ele para de andar. Com cuidado, a coloca no chão. Stella tenta dar um passo sozinha, mas quase cai. De forma ágil, Mac a segura pela cintura. — Pelo menos consegui ficar em pé.

— Você está indo bem. Se apoie em mim. Eu te ajudo.

Ela passa o braço pelos ombros de Mac, e ele permanece segurando sua cintura. Lado a lado, eles voltam a caminhar.

— Nós vamos voltar, não vamos? — Pronuncia Stella, após alguns segundos em silêncio. — Não podemos permitir que essa cidade continue matando pessoas.

— Não é seguro voltar. Você quase morreu.

— Mas você não. — Ele a olha. — Eu tenho uma teoria.

Mac sorri um pouco.

— Já estava com saudades delas.

— Você sobreviveu quando veio aqui há 5 anos. Por isso, a cidade não te considera mais um visitante.

— Mas eu não adoeci como você, só peguei aquela virose. Além do mais, não devo ter ficado mais do que três horas nessa cidade. — Stella para de andar. — O que foi?

— No carro, quando chegamos em Ashbourne, você disse que a virose te deixou de cama por duas semanas. Eu estava sonolenta, por isso não dei muita atenção. Mas não foi isso que aconteceu.

— Do que está falando? — Indaga, confuso. Stella se desvencilha do abraço de Mac e da dois passos até a parede, para se apoiar.

— Mac, você não ficou só duas semanas de cama, e com certeza aquilo não era uma simples virose. Você ficou mal. Muito mal. Nós quase... perdemos você. — Seus olhos se fecham por alguns instantes ao relembrar a situação.

— Não é verdade. — Afirma ele, com o semblante confuso.

— É sim! — Exclama Stella.

— Eu me lembraria se tivesse quase morrido.

— Mac, você não se lembra nem mesmo do tempo que passou aqui. — Ela o olha, ainda apoiada na parede. — Não foram 3 horas. Foram 2 dias.

Mac está parado. A lanterna pisca em sua mão. Não há nada além de confusão estampada em seu rosto.

Stella respira fundo, e continua.

— Você estava voltando de uma conferência. Já era tarde, e você estava cansado. Me ligou por volta das 23 horas dizendo que passaria a noite em algum lugar, e na manhã seguinte voltaria para Nova York. Eu perguntei onde você ficaria. "Em Ashbourne", foi o que respondeu.

Mac esfrega os olhos com uma das mãos, como se tentasse despertar de algum sonho louco.

— Isso não faz sentido. Eu me lembro de ter vindo até aqui, mas era de dia, por volta das 10h. Eu estava voltando para Nova York quando o carro começou a engasgar. Como estava perto daqui, decidi procurar por uma oficina. — Ele relembra. — Um rapaz me ajudou. Disse que resolveria, e que eu poderia esperar em uma lanchonete que tinha lá perto. Foi o que eu fiz. Dei meu número pra ele e esperei, tomando um café. Depois de umas duas horas ele me ligou, dizendo que o carro estava pronto. Eu busquei e depois voltei pra Nova York.

— Isso realmente aconteceu, mas não em Ashbourne. — Mac a olha. Uma sobrancelha arqueada. A lanterna pisca mais algumas vezes. — Quando isso aconteceu, eu estava com você. Mas não entramos em nenhuma cidade. Havia um posto na estrada, e uma lanchonete ao lado. — Diz. — Suas lembranças estão confusas, Mac.

Ele desvia o olhar. Seu semblante muda.

— Eu não entendo. Se foi assim, por que não disse nada quando chegamos à cidade?

Stella se afasta da parede e se reaproxima de Mac. Ela continua cansada, fraca, mas não como antes.

— Porque só agora eu consegui ligar os pontos. Naquela época eu não tive motivos para associar o que estava acontecendo com você, à Ashbourne. E se não tivéssemos vindo pra cá, talvez nunca saberíamos.

— Mas você disse que eu passei dois dias aqui, sendo que era pra eu ter voltado logo pela manhã.

— Mas você me avisou que ficaria por mais um dia, por isso não me preocupei.

— Como assim? Por que eu ficaria?

— Pelo que eu me lembre, você ligou de manhã dizendo que havia surgido um caso, e que ficaria para ajudar a polícia local. Você parecia bem pelo telefone. Não tinha motivos pra desconfiar. Ainda perguntei se precisava de ajuda. Você disse que tinha tudo sob controle.

Mac dá alguns passos para longe de Stella, encarando o restante do caminho que tem pela frente. À passos errantes, ela se aproxima, pondo uma das mãos no ombro dele.

— Eu sei que deve ser frustrante não se lembrar. Mas você está bem, e é isso que importa.

— Eu sei. — Sussurra. — É que me lembrar teria te poupado. Me sinto péssimo por ter te trazido pra cá. Poderíamos ter voltado pra casa dos McAlister, ou sei lá... — Ele bufa, afastando-se novamente.

— Mac, não tinha como você saber. E eu estou bem, ok? Uns 7%, pelo menos. — Mac se vira para olhá-la. Há um sorriso pequeno nos lábios dela, iluminando o semblante abatido. — Você me salvou, detetive Taylor.

— Não. Você me salvou. Você me salva todos os dias. E mesmo agora, é você quem está me salvando. — Ele se aproxima, o suficiente para segurar a mão dela. — Eu não sei o que nos espera do lado de fora, mas eu sei que independentemente do que for, podemos enfrentar juntos. — Mac estende uma das mãos, tocando o rosto de Stella.

Ela fecha os olhos. Dessa vez, não por causa do cansaço, mas apenas para sentir o toque. O polegar dele acaricia sua maçã do rosto, fazendo sorrir.

— Estamos num túnel úmido e gelado, correndo risco de vida. Ainda assim, você consegue ser romântico. — Mac dá de ombros.

— Eu tenho um dom. — Stella ri. Ele afasta a mão de seu rosto e volta a segurar a mão dela. Firme, como se quisesse transmitir segurança. — Consegue continuar andando?

— Depende. Vai me segurar se eu cair? — A pergunta provocativa o faz sorrir.

— Eu não vou te soltar, nunca mais.

E então, eles continuam.

— Ainda há muitas perguntas sem respostas. Por que eu não me lembro daqueles dois dias?

— Por que você adoeceu mesmo estando longe da cidade? Como você sobreviveu? E por que a cidade te deixou ir embora?

Mac suspira. Há uma infinidade de teorias passando pela sua mente. Não saber qual é a correta o deixa frustrado.

— Seja lá quais forem as respostas, algo me diz que não chegamos aqui por acaso.

— Bom, se isso for verdade... será que esse caminho, de fato, nos levará para fora da cidade?


Continue...