FUJA
5 Parte de mim
Notas iniciais
5 minutos.
5 minutos é o tempo que falta para a famosa e tão esperada "luz no fim do túnel", aparecer.
5 minutos até que tudo volte a ser como era.
5 minutos até a liberdade.
Ou não.
Stella já consegue caminhar sem se apoiar em Mac. Seu rosto ainda está meio abatido, e o cansaço tornou-se seu fiel companheiro. Mas não se compara ao seu estado antes de entrar no túnel.
Mac a observa de rabo de olho de vez em quando, apenas para checá-la.
— Acha mesmo que podemos enfrentar isso juntos? Seja lá o que for.
Ela pergunta, irrompendo o silêncio confortável.
— Eu não tenho dúvidas. Já passamos por coisas piores. — Ela arquea uma sobrancelha.
— Pior do que uma cidade que adoece pessoas e altera memórias?
Mac solta uma risadinha nervosa.
— A situação é realmente bizarra. Mas ainda assim, sei que vamos passar por isso.
— Agora sabe de quem puxei o meu otimismo. — Eles sorriem, pela primeira vez sentindo uma certa leveza que aquele lugar havia roubado anteriormente.
O momento, no entanto, dura pouco.
Eles param de andar. Há uma porta antiga de madeira no meio do caminho.
Tijolos a cercam dos dois lados, os impossibilitando de tomar outra atitude que não fosse abrir aquela porta.
Eles se olham por alguns segundos, o que é o suficiente para entrarem em consenso.
Mac se aproxima. Hesitante, ele abre a porta. Do outro lado não há mais túnel, apenas a sala do seu apartamento.
Eles entram, incertos.
Tudo está em ordem. As fotos. Os livros. Mas, sobre a mesa de centro, há duas taças de vinho pela metade. Na TV, um filme pausado.
— Mac, isso não pode ser coincidência.
— Não, não pode. — Quando Mac olha para Stella, nota algo diferente. — Seu rosto não está mais pálido. Como se sente?
Stella dá alguns passos pela sala. Passos firmes, diferente de antes. Ela se permite sorrir um pouco, mesmo desconfiada.
— Eu estou bem. Ótima, na verdade.
De repente, o semblante de Stella muda. Mac se aproxima, preocupado.
— O que foi? — Com a ausência de resposta, ele segue seu olhar até a porta pela qual entraram. Anna está ali, parada. Uma expressão serena no rosto. As mãos entrelaçadas à frente do corpo. A roupa, contudo, agora é diferente. O jaleco branco deu lugar a um look mais casual. Um conjunto de moletom na cor cinza, e um par de sapatos brancos.
— Anna? O que está havendo? — Mac pergunta, estarrecido. Sua mão instantaneamente busca a de Stella. Discretamente, ele se coloca a frente dela.
— Olá, Mac. Olá, Stella. Imagino que estejam cansados pelo longo percurso. Por que não se sentam?
— Por que estamos aqui? — Questiona, ignorando sua sugestão.
— Não se iludam. Vocês ainda estão em Ashbourne. Essa é apenas uma lembrança sua, Mac. Algo que você criou.
— Eu não criei nada.
— Criou sim. Eu apenas a encontrei.
— Mas, — começa Stella. — se ainda estamos na cidade, por que eu melhorei?
Anna dá alguns passos em sua direção. Mac a olha, com raiva, mantendo Stella atrás de si.
— Não chegue perto.
A mulher para. Um sorriso surge no seu rosto.
— Considerem esse apartamento como uma fronteira entre você, Mac, e a cidade de Ashbourne. Por isso, Stella, você está bem. Não estamos totalmente dentro da cidade, entendem? Sei que pode soar confuso.
— Por que algo me diz que você não é apenas uma médica inocente tentando ajudar? — Indaga a grega.
— Porque eu não sou. — Responde, naturalmente. — Por favor, permitam que eu me apresente novamente. Meu nome é Anna. Sou a personificação de Ashbourne.
Mac e Stella se entreolham, brevemente.
— A personificação da cidade.— Repete Mac.
— É a forma simples de explicar.
— Então tem uma forma complicada? — Pergunta Stella. Anna ri.
— Sempre tem.
A mulher se vira e caminha até a janela.
— Há 5 anos atrás, quando Mac veio a Ashbourne, deixou algo para trás.
— Minhas memórias.
— Parte delas.
— Mas por quê? — Anna se vira, olhando diretamente para ele.
— Porque se tivesse suas memórias, você jamais voltaria. E, bom, a cidade queria que você voltasse. — Mac a escuta, em silêncio. — Quando você saiu de Ashbourne, uma parte dela foi com você.
— Por isso eu adoeci mesmo não estando aqui?
— Sim.
— E por que eu não morri?
— Antes de ir embora, você deixou uma parte sua para trás. Uma parte de quem você é. — Anna dá alguns passos e se senta no sofá, como se estivesse prestes a contar uma história.— Quando as pessoas vêm a Ashbourne, elas sentem medo. Seu único desejo é fugir e nunca mais voltar. Mas, com você foi diferente, e a cidade percebeu. Mesmo percebendo que corria perigo, você não quis fugir. Pelo contrário, você quis ficar.
Mac fecha os olhos com força. Flashs daquela noite voltam à sua memória. Stella aperta sua mão, mostrando que estava com ele.
— Eu queria ajudar. Queria descobrir o que estava acontecendo.
Anna assente.
— Quando você fica muito tempo aqui, a cidade passa a conhecer você. Seus medos. Desejos. Lembranças. Tudo aquilo que torna alguém quem é. E ela viu em você força, determinação, empatia. Tudo aquilo que ela não tinha. — Explica Anna. Ela se ajeita na poltrona, encontrando uma posição mais confortável.
Stella a encara. Algo ainda não fazia sentido.
— Pensei que você fosse a cidade. Por que se refere a ela na terceira pessoa?
— Hm... Digamos que uma parte minha pertença a ela. Querem a explicação longa ou curta?
Mac revira os olhos.
— Não temos tempo para jogos, Anna.
— Tudo bem, tudo bem. Vamos à resposta mais objetiva. — Diz, desanimada. — Há 5 anos, Ashbourne me criou apenas para que pudesse me comunicar com você. Quando você foi embora, eu desapareci. Ela tinha uma parte sua, e você, dela. Não havia mais necessidade da minha presença.
— Então por que está aqui?
— Me diz você, Mac. Foi você quem me trouxe de volta.
— O que? Como?
— Você me conheceu há 5 anos. Mesmo que não se lembre, eu estou aí dentro. Hoje, enquanto Stella estava no seu pior momento e não havia mais ninguém em que pudesse confiar, tudo o que você queria era ver um rosto conhecido. Suas lembranças me trouxeram de volta.
Stella sente as peças se encaixarem.
— Você disse que uma parte sua é a cidade. A outra, então, seria o Mac? — Mac olha para Stella com uma sobrancelha arqueada, depois se volta para Anna. — A cidade te criou, mas foi ele quem te trouxe de volta. Mac tem influência sobre você e sobre essa cidade.
Anna não responde. Mac se pronuncia.
— Eu já entendi que não voltei aqui por acaso. Mas por que Stella está aqui? Vocês queriam a mim. Por que quase a mataram?
— Porque você a ama, Mac. Faria qualquer coisa por ela, para salvá-la. Inclusive ficar.
Mac solta a mão de Stella e se aproxima de Anna.
— Achou mesmo que eu aceitaria ficar depois de quase terem matado a mulher que eu amo?
Anna abaixa os olhos.
— A cidade não pensa de forma lógica. Ela só vai atrás do que quer, e sempre consegue.
— Não dessa vez. — Ele se reaproxima de Stella. — Vamos embora daqui. — Diz, baixinho. Stella sussurra:
— Como?
Mac olha em volta. Seus olhos caem sobre as taças de vinho em cima da mesa, e na TV ligada.
— Você tinha dito que essa era uma lembrança minha. — Anna levanta os olhos.
— E é.
— Não, porque ainda não aconteceu. — Mac se lembra da conversa com Stella no túnel. Tudo que fariam após tomarem vinho e assistirem ao filme. — Não é uma lembrança. Mas também não é o futuro. Você me disse que a cidade conhece meus medos, minhas lembranças. Meus desejos.
Pela primeira vez, Anna parece desconfortável. Stella nota.
— Isso, — diz ele, apontando para as taças e a TV — é algo que eu desejei. Algo que eu imaginei. Uma possibilidade. Não uma lembrança.
Anna se levanta.
— Isso não muda nada.
— Na verdade, isso muda tudo. Stella está certa. Da mesma forma que a cidade exerce uma certa influência sobre mim, eu também exerço sobre ela.
— Não o suficiente, Mac. — Diz Anna, visivelmente preocupada.
— O suficiente para alterar o rumo das coisas. Você mesma disse que a cidade me escolheu porque eu tenho atributos que ela nunca teve. E se ela carrega uma parte de mim, talvez eu possa ensiná-la desejar outras coisas.
— Você não sabe o que está dizendo. — Anna explode.
— Devo ter uma ideia, já que está tão preocupada.
Stella segura seu braço, gentilmente.
— O que pretende fazer? — Indaga.
Mac fecha os olhos e imagina Nova York. As ruas iluminadas. Seu apartamento. No entanto, quando abre os olhos, tudo continua da mesma forma. Frustrado, ele diz:
— Ainda não sei.
— Ótimo plano. — Sussurra Stella. Mac sorri.
— Obrigado pelo apoio.
O detetive olha em volta mais uma vez, pensando no que fazer. Ele repassa todas as informações que descobriu. Sabe que deixou escapar alguma coisa.
Até que...
— Espera. — Diz ele. Stella o olha. — Eu estou tentando mudar o lugar. Talvez seja o oposto.
Anna fica imóvel. Stella franze o cenho.
— Não entendi.
Mac dá alguns passos e passa a mão pelos cabelos.
— Ashbourne mudou esse lugar porque usou uma parte de mim. Mas não conseguiu criar isso apenas com as minhas memórias, porque, como eu disse antes, isso ainda não aconteceu. — Ele observa as taças de vinho. — Essa é uma possibilidade. Possibilidades podem se tornar escolhas. Se Ashbourne pode criar uma versão do que eu quero, então... — Ele caminha até Stella e segura sua mão, esboçando um sorriso. — Talvez eu possa criar uma versão do que eu não quero.
— Não faça isso. — Anna pede.
— Eu não quero ficar aqui. — Ele diz, com firmeza. Anna arregala os olhos. As luzes do apartamento piscam. Stella aperta sua mão ainda mais forte. — Eu não quero que Stella fique doente.
Novamente, as luzes piscam. O apartamento começa a tremer. Como consequência, os livros da estante caem no chão.
— Você não entende.
— Então me ajude a entender. — Ele grita.
— Eu só queria que você soubesse que pertence a essa cidade.
— Isso não significa que Ashbourne me pertence.
— Droga, Mac. Isso vai mudar a cidade.
— Talvez seja exatamente isso que ela quer.
Mac se vira para Stella. Com a mão livre, ele acaricia sua bochecha. As luzes ainda piscam. O apartamento continua tremendo. — Eu só quero sair daqui com você, e explorar as milhares de possibilidades que teremos daqui pra frente. Quero cozinhar pra você. Tomar vinho e assistir a um filme qualquer. Quero te pedir pra ficar, não só por uma noite, mas pelo resto das nossas vidas. É isso o que eu quero, e cidade nenhuma pode mudar isso.
Stella sorri, incrédula. Uma lágrima escapa pelos seus olhos. Em meio àquele caos, ela sussurra olhando nos olhos dele:
— Eu amo você.
As luzes se apagam. Por alguns segundos, tudo fica escuro. De repente, a porta se abre. Uma luz forte invade o apartamento. Mac abraça Stella, se colocando à sua frente novamente. Eles fecham os olhos, com força.
O apartamento para de tremer.
Não há nada além de silêncio.
Continue...
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