FUJA

6 Um brinde às possibilidades


Notas iniciais
"FUJA" está chegando ao fim :( Foi divertido e totalmente fora da minha zona de conforto escrever essa história. Agradeço a quem acompanhou desde o primeiro capítulo. Espero de coração que tenham gostado! Fiquem agora com o último capítulo, e até a próxima fic ❤️ Um brinde às possibilidades!

Mac respira fundo.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Na quarta, ele abre os olhos.

Suas pálpebras pesam um pouco, obrigando-o a piscar algumas vezes.

Logo ele se acostuma à claridade que entra pela frestinha da jenela. Ao olhar para o lado, ele a vê. Stella dorme serenamente.

Instantaneamente, Mac toca a testa dela. Não há febre, nem qualquer indício de que ela esteja mal. Ele suspira, aliviado.

A dona dos cachos esparramados pelo travesseiro se mexe. Ela abre os olhos, encontrando Mac a olhando.

— Bom dia. — Diz de forma preguiçosa.

— Bom dia. — Ele tira uma mecha de cabelo do rosto dela. — Dormiu bem?

— Muito. É estranho, parece que não durmo assim há anos. — Stella se ajeita e senta na cama, recostando na cabeceira. — Acho que julguei esse lugar mal. Mas, em minha defesa, eu estava extremamente cansada.

Mac sorri, sem humor. Ele está certo de que tudo aquilo, de fato, aconteceu. Mas Stella não lembra de nada. Ao mesmo tempo que gera um certo alívio, também se torna meio frustrante. Ele disse coisas importantes. Coisas que queria, com todas as suas forças, que ela se lembrasse.

— Você está bem? Parece pensativo.

— Está tudo bem. Só estou feliz que esteja aqui.

E então, ela sorri. Aquele sorriso que ilumina todas as manhãs dele. Que transmite paz, e aquela sensação de que tudo ficará bem.

Eles ficarão bem.

Na recepção, tudo parece estranhamente em ordem. Há hóspedes transitando pela hall de entrada; risos, conversas. A sensação é de estarem em um lugar completamente diferente.

— Aqui é bem menos medonho de dia. — Murmura Stella baixinho para que apenas Mac ouça.

— O suficiente pra te fazer querer voltar? — Ele pergunta, tentando soar descontraído. Stella parece não perceber seu desconforto. Ela pensa por alguns segundos, parando em frente ao balcão.

— Acho que não tenho motivos pra não voltar, principalmente se você estiver comigo. — Fala, naturalmente, sem fazer ideia do impacto que suas palavras causam em Mac. Ele sente seu peito arder, como se de alguma forma a estivesse enganando.

"Você quase morreu", ele pensa. "E a culpa foi minha"

Ignorando os próprios pensamentos, Mac força um sorriso.

— Quer me esperar no carro? Só vou pagar e já te encontro.

— Está bem. — Mac entrega as chaves do carro a ela, que agradece com um sorriso antes de sair do motel. Ele a acompanha com o olhar, sentindo um nó se formar na garganta.

— Bom dia! Em que posso ajudá-lo?

Com certa relutância, Mac se vira. Sua atenção agora está na senhora atrás do balcão. A mesma de quando eles chegaram.

— Bom dia! Nós já estamos indo embora. Só queria pagar a diária. — Ele emfia a mão no bolso interno do casaco, retirando uma nota de 20 dólares. A sensação de já ter feito isso antes, o incomoda. A senhora, todavia, recusa o dinheiro educadamente.

— Não precisa. Sua breve estadia ficou por conta da casa. — Mac apenas a observa, desconfiado. — Sei que pode não ser muito, mas foi a forma que eu encontrei de te agradecer por tudo o que fez.

— E o que foi que eu fiz, exatamente? — Questiona. Os olhos estreitos.

— Você me ensinou que tenho poder pra fazer minhas próprias escolhas. — Confessa. — Você me salvou, Mac. Salvou a todos nós.

A senhora olha em volta. Mac faz o mesmo. O falatório e os risos param. Alguns dos hóspedes olham para Mac, enviando um agradecimento silencioso através do olhar. Logo, voltam aos seus afazeres.

— Mas, como... — Ele começa, confuso e sem reação. Ela o interrompe.

— Sei que uma parte sua se sente mal por Stella não se lembrar. — Mac volta a olhar para a mulher. — Você passou anos tentando se convencer de que amá-la não é errado. E quando finalmente consegue dizer como se sente, ela esquece. Acredite, Mac, eu conheço esse sentimento. Mas, se me permite te dar um conselho: Não foque nos momentos que Stella esqueceu, mas sim nas várias lembranças que vocês tem um com o outro. Essas lembranças são responsáveis por terem se apaixonado. — Mac desvia o olhar para o lado de fora. Stella está recostada no carro. Volta e meia ela sorri e acena para algum morador. Seus cachos voam conforme a brisa suave sopra seu rosto. Isso o faz sorrir. — Aceita um conselho extra?

— Por favor. — Responde ele, voltando a olhá-la.

— Precisa seguir em frente. As lembranças que criou aqui, devem permanecer aqui. Diferente de antes, essas memórias não serão tiradas de você. Então, não pensar nelas deve ser uma escolha sua.

— Não é fácil esquecer o que aconteceu.

— Eu não disse que seria. Mas há um mundo de possibilidades lá fora aguardando para serem exploradas. Foque em criar novas lembranças ao lado de Stella. Cumpra todas as promessas que fez a ela enquanto estava naquela sala. Mostre a ela o quanto você a ama, dia após dia. Atitudes são mais importantes do que palavras. — Os olhos da simpática senhora brilham com intensidade. — Saia daqui com a convicção de que você cumpriu uma missão importante. Agora, há coisas mais importantes para você se preocupar.

Mac sente aquela ardência em seu peito desaparecer. O peso em seus ombros se esvai.

— Obrigado, Anna. — Ela ri.

— Oh, não. Meu nome é Anastácia. Mas não tem problema. No final das contas, todos aqui em Ashbourne temos um pouco da Ana dentro de si, incluindo você.

Anastácia pisca para Mac, que solta uma risada sincera.

— Eu vou me lembrar disso.

Com um aceno, ele se despede. Stella o vê se aproximando e sorri.

— Será que a estrada ainda está interditada?

— Tenho quase certeza que não. — Ele para à sua frente, mais leve e descontraído do que esteve desde que chegou à cidade.

— Ótimo! Não vejo a hora de voltar pra casa.

Mac se lembra da conversa que tiveram no túnel, e de tudo que aconteceu dentro da sala do seu apartamento.

— Aceita jantar na minha casa essa noite? Quero cozinhar pra você.

— Sabe que eu jamais recusaria um convite desses. Amo quando cozinha pra mim. — O detetive sorri, passa por Stella e abre a porta do carona. — Me diz, o que faremos depois do jantar?

— Bom, eu pensei em... — Mac para de falar. Ele se lembra das palavras de Anastácia. "Há um mundo de possibilidades lá fora aguardando para serem exploradas." — O que me diz de explorarmos as possibilidades juntos?

— Eu gosto disso.

Mac e Stella entram no carro e partem em direção a Nova York. Ao chegarem na entrada de Ashbourne, ao lado da enorme placa de "Bem-vindos", Mac para. Stella o olha, levemente confusa.

— O que foi? Por que paramos?

— Só me certificando de que não estou esquecendo nada, nem levando algo que não me pertence. — Ele afasta as mãos do volante e apenas olha pelo retrovisor, observando a estrada vazia que deixa para trás.

— Por que eu acho que isso é bem mais profundo do que realmente parece?

— Porque talvez seja.

Stella tira o cinto e se vira no banco.

— Olha pra mim. — E assim ele o faz. — Sei que vir aqui, por algum motivo, teve algum significado pra você. E também sei que provavelmente há coisas acontecendo dentro dessa sua cabecinha que você não está pronto para compartilhar.

Sim, há.

Túnel.

Doença.

Anna.

Uma versão deles dois que Stella jamais lembraria.

Mas Anastácia estava certa. Algumas verdades não precisam ser ditas imediatamente, apenas vividas.

— Talvez haja.

Stella estreita os olhos.

— Isso foi extremamente misterioso. Sabe que vou descobrir, seja lá o que for, não sabe?

— É, eu sei. — Mac sustenta o olhar dela. — Não tenho dúvidas disso.

Stella sorri e se senta corretamente no banco, afivelando novamente o cinto.

Mais uma vez, Mac olha pelo retrovisor. Não há nada, nem ninguém. Apenas Ashbourne.

Ele respira fundo e põe novamente as mãos no volante, seguindo seu caminho.

— Depois do jantar, podíamos ver um filme. O que acha? — Propõe a grega, olhando distraidamente pela janela.

— Por mim tudo bem.

— E que tal pipoca? — Mac sorri.

— Eu faço!

— E vinho? Não dá pra desperdiçar aquela vista maravilhosa do seu apartamento.

— Eu topo tudo o que você quiser.

O som da risada dela faz alguma coisa dentro dele se acomodar. No retrovisor, não há mais nenhum sinal daquilo que foi deixado para trás.

— Um brinde às possibilidades. — Stella diz, recebendo o olhar de Mac.

— Um brinde às possibilidades.


The end.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!