FUJA
3 Síndrome de Ashbourne
Notas iniciais
Mac estaciona em frente à clínica de Ashbourne. Diferente do motel, o lugar está bem preservado. O gramado na frente está perfeitamente aparado, com belas flores espalhadas.
— O lugar menos medonho da cidade. — Comenta ele. — Vamos?
Stella não responde, nem mesmo se mexe. Mac toca seu ombro, chamando-a.
— Stell? — Com a ausência de resposta, Mac sai do carro e rapidamente da a volta, abrindo a porta do carona. Stella está pálida. Ela se esforça para abrir os olhos, mas não consegue.
— Mac... — Sussurra.
— Não tente falar. Só descansa, está bem? Eu vou buscar ajuda.
Stella tenta abrir os olhos mais uma vez, vendo de relance Mac correr para dentro da clínica. Quando ela abre os olhos novamente, há uma mulher vestida de branco e um homem carregando uma maca. A chuva começa a cair e aos poucos se intensifica. Ela consegue ver Mac. Há tempos não o via tão desesperado. E então, os olhos fecham novamente.
Na terceira vez, quando abre os olhos, ela está num quarto. Suas mãos apalpam a cama. Há um tecido fino cobrindo parte do seu corpo. Ao virar lentamente a cabeça, Stella repara no curativo em seu braço. Seus olhos vão até o corredor. Pela janela, ela repara nas luzes piscando incessantemente. Seus olhos fecham novamente.
— Ei.
Uma voz calma e meio rouca irrompe o quarto silencioso. Quando seus olhos se abrem de novo, Mac está sentado na beira da cama.
— Ei — sussurra em resposta. Ele segura a mão dela, fazendo movimentos circulares com o polegar.
— Estão analisando o seu sangue para descobrir o que há de errado.
— Eles são de confiança? — Pergunta com a voz baixa. O detetive desvia o olhar dela por um instante, sorrindo de canto.
— No momento prefiro tratar a todos como se não fossem. Temos algumas horas ainda pela frente antes que amanheça. Só preciso te manter em segurança até que esteja forte o suficiente para voltarmos para a estrada.
— E se isso não acontecer? — Mac faz menção em falar, mas Stella o interrompe. — Se realmente há algo de errado com esse lugar, ficar aqui por mais tempo se tornará perigoso. Eu não quero atrasar você... — Uma lágrima solitária escorre pela bochecha de Stella. — Acho que dessa vez não vou conseguir ser sua heroína, detetive.
Mac para de acariciar sua mão e passa a segurá-la com firmeza. Ele se aproxima um pouco mais, fazendo-a olhá-lo nos olhos.
— Eu não vou a lugar algum sem você.
— É da sua vida que estamos falando, Mac. Não pode arriscá-la por causa de mim.
— Você se tornou a minha vida, Stella. — Confessa, sem desviar o olhar. — Nós voltaremos juntos para Nova York, e então eu a convidarei para jantar na minha casa. Vou preparar o seu prato preferido. Te fazer rir durante todo o jantar. Apreciar a vista do apartamento com você, enquanto tomamos uma taça de vinho. — Novamente uma lágrima rola pelo rosto de Stella. Uma mistura de alegria e medo por não conseguir viver aqueles momentos.
— E depois? — Ela pergunta com a voz meio rouca. Antes que Mac possa responder, a mulher de branco que Stella viu antes, entra no quarto.
— Desculpe interrompê-los. Stella, meu nome é Anna. Sou a médica que está cuidando de você, e também responsável pela clínica. — Anna sorri, mas há uma expressão de angústia em seu rosto. E é claro, Mac e Stella percebem.
— O que há de errado comigo? — Anna dá alguns passos em direção a maca. O sorriso, aos poucos, desaparece.
— Não há nada de errado. Nada que possamos tratar aqui, pelo menos. — Os detetives se entreolham, confusos. Anna respira fundo, tentando manter a compostura. — Você tem o que chamamos de síndrome de Ashbourne. Seus sintomas são reais, mas a doença é psicológica. Não há nada que possamos fazer porque, na teoria, você não tem nada.
— Tá me dizendo que tudo o que eu tô sentindo não passa de um surto da minha cabeça? — Questiona, confusa. Mac se levanta, contrariado.
— Isso é loucura, Anna. Espera mesmo que acreditemos nisso?
— Não, mas é a verdade. — Diz. Sua voz agora é mais firme. — Estou arriscando minha vida ao contar isso pra vocês. — A mulher suspira e vai até a porta, a trancando. Depois, fecha as persianas da janela. — Me escutem, por favor. Há algo de muito errado nessa cidade. Ao que parece, ela não gosta de pessoas de fora. Vocês não deveriam estar aqui! Entrar em Ashbourne foi o que adoeceu Stella. Quanto mais ela ficar aqui, mais doente e debilitada ela vai ficar. É como se o corpo dela estivesse enfrentando um câncer agressivo que se espalha rapidamente.
Mac apoia uma das mãos no quadril, e a outra passa pelos cabelos.
— Supondo que isso seja verdade, como sabe de tudo isso? E por que disse que está arriscando sua vida?
Anna se reaproxima.
— Eu moro aqui há mais de 20 anos. Logo quando cheguei, notei que as coisas por aqui funcionavam de uma forma diferente e bizarra. Mas eu precisava de emprego e a clínica estava contratando. — Explica. — Depois de um tempo trabalhando aqui, percebi que todas as pessoas que vinham de fora adoeciam de maneira inexplicável. A maioria delas morria antes de conseguir sair da cidade. Foi quando me dei conta de que toda essa epidemia bizarra não assustava os moradores. Era como se...
— Eles soubessem o que estava acontecendo. — Completa Mac. Anna assente, cruzando os braços contra o peito.
— Eu notei que seguia um padrão. Essas pessoas se hospedavam no motel, e quando chegavam aqui na clínica já estavam tão debilitadas que morriam antes mesmo do amanhecer.
Mac fecha os olhos com força, sentindo o peso daquelas palavras.
— Você tentou ajudá-las? — A voz baixa de Stella questiona.
— Tentei, e quase fui morta por isso. Seja lá o que estiver rondando essa cidade, os moradores não só sabem o que é, como também protegem esse segredo a sete chaves. E se alguém tenta ir contra, é jogado aos lobos. — Suspira, desviando o olhar. — Quando completou 1 ano que eu estava morando aqui, me mandaram parar de tratar os pacientes de fora. Eu deveria apenas mantê-los aqui o máximo que conseguisse, porque quanto mais tempo eles ficassem na cidade...
— Mais rápido morreriam. — Dessa vez é Stella quem completa. Mac se vira abruptamente e começa a ajudar Stella a levantar da cama.
— Nós vamos sair daqui, agora!
— Não sei se isso será possível. Não conheço ninguém que tenha conseguido ir embora depois de ter adoecido.
— Bom, nesse caso, seremos os primeiros então. — Mac abraça Stella pela cintura, enquanto o braço dela está envolto no pescoço dele. Eles começam a caminhar lentamente até a porta. Anna, no entanto, os impede de sair.
— Vocês quebraram o padrão. Não deveriam ter saído do motel no meio da madrugada. Os moradores sabem, e foram alertados. Eles não deixarão vocês irem embora, e se Stella continuar aqui vai morrer.
Mac para de andar, a fitando com raiva.
— Eu não vou ficar parado aqui esperando o pior acontecer. Nós sairemos dessa cidade, custe o que custar. — Eles passam por ela, chegando à porta. Anna está nervosa. Ela sabia que se saírem por aquela porta, não vão durar um minuto.
— Espera, por favor.
Stella para de andar. Mac a olha, preocupado.
— Quero ouvir o que ela tem a dizer. — Sussurra. Mac fecha os olhos brevemente e se vira, sem soltar Stella.
— Não adianta tentar nos convencer. Eu preciso tentar, por ela. Eu dou a minha vida se for necessário. — Uma lágrima escapa pelo olho de Mac. Stella percebe, e aquilo a machuca.
— Eu não vou. Mas precisamos de um plano. Dessa forma, não chegarão nem a porta. — Anna atravessa a sala até a janela que dava para a rua. Ela abre uma frestinha da cortina, o suficiente para ver alguns moradores reunidos do lado de fora. — Eles estão esperando do lado de fora. Se saírem, acabou.
— E o que sugere que façamos? Ficar aqui está fora de cogitação! — Diz Mac, com raiva.
Anna começa a andar de um lado para o outro. Enquanto isso, Stella apoia a cabeça no ombro de Mac e fecha os olhos. Sua saúde está cada vez pior.
— Anna, ela está ficando sem tempo. Se tiver algum plano, precisa me dizer rápido.
De repente, ela para de andar. Seus olhos arregalam, como se pudessem saltar a qualquer momento.
— Os túneis. Eu os descobri depois de uns anos morando aqui. O acesso é pelo porão. Eles os levará direto para fora da cidade. Mas você precisa saber que o caminho é longo. Pelo menos uma hora de caminhada, e pode ser que Stella não tenha esse tempo.
Mac olha para Stella, que permanece com os olhos fechados. Ela está ardendo em febre.
— Quando estávamos perto da entrada de Ashbourne, Stella começou a ficar sonolenta. A febre só começou depois que já estávamos há um tempo no motel. E então ela só piorou conforme nos aproximavamos da clínica. — Ele relembra os acontecimentos, organizando-os em voz alta. — Não se trata apenas do tempo que passamos aqui. Quanto mais adentramos a cidade, mais doente ela fica. O que significa que...
Anna dá um pulo, estranhamente animada.
— Não tem que tirar Stella da cidade, apenas afastá-la o suficiente do centro. Quanto mais longe ela estiver, menos doente estará.
— Mac... — Stella sussurra. Seu corpo fica mole, de repente, e então ela começa a cair. Mac age rápido e a pega no colo.
— Ela não tem muito tempo. Precisa se apressar. — Anna passa pelos dois e, com cautela, abre a porta. Ela checa o corredor e acena discretamente para que Mac a siga.
A clínica é maior do que Mac imaginava, o que torna o trajeto até o porão ainda mais agoniante.
Pouco antes de chegarem à porta do porão, Anna nota um grupo de moradores conversando. Um deles está armado com uma espingarda.
— Droga! — Ela empurra Mac para uma das salas. — Não saia daqui. Eu já volto.
A médica respira fundo, põe um sorriso convincente no rosto e se aproxima do grupo. Pela pequena abertura da porta, Mac consegue vê-los. Seus rostos não esboçam qualquer emoção. É como se tivessem sofrido lavagem cerebral, e então foram treinados para obedecer a seja lá o que for.
Poucos minutos depois, Mac os vê se afastarem. Anna abre a porta.
— Foi por pouco.
— O que disse a eles? — Pergunta o detetive, voltando a segui-la. Anna engole seco.
— Falei que um de fora estava tentando escapar.
— De fora? O que significa?
— É como chamamos os visitantes que não são bem-vindos. — Mac não responde, e Anna agradece mentalmente por isso. — Chegamos!
Ela abre a porta que os levará até o porão, através de dois lances de escadas.
— O túnel principal está escondido atrás de um armário antigo, nos fundos do porão. Sempre que houver dois caminhos, escolha o da direita. Isso é importante, Mac. Não pode esquecer! Seguir pela esquerda os levará para o lado oposto.
Mac assente. Ele ajeita Stella em seus braços e começa a descer as escadas, parando após finalizar o primeiro lance. Ele então se vira. Anna os observa da porta, garantindo sua segurança.
— Obrigado pela ajuda. — A mulher dá um simples aceno, esboçando um sorriso de canto, e depois fecha a porta.
Com Stella desacordada em seus braços e sem Anna para guiá-lo, Mac está por conta própria.
Continue...
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