FUJA

1 Ashbourne


— "A expressão "sinto muito" é o xarope das relações humanas. É o que se diz quando se derrama uma xícara de café ou se joga uma bola fora numa partida de boliche com as garotas da turma. Mas sentir realmente o que aconteceu é raro como o amor verdadeiro."

Mac permanece em silêncio por alguns longos segundos, buscando em sua memória a quem aquele pequeno trecho lido por Stella, pertencia.

— Pode me dar uma dica? — Pede, sem tirar seus olhos da estrada. Stella olha através da janela, contemplando a forte chuva que cai lá fora.

— Esse foi o primeiro livro que eu li e é o meu preferido até hoje. — Relembra.

Mac desenha um sorriso vitorioso, certo de qual era o livro.

— Carrie, A estranha. Stephen King.

— Boa. — Ela recosta a cabeça no banco e continua olhando pela janela. — Sua vez.

Mac bate os dedos distraídamente no volante, pensando em uma boa citação de algum livro.

— "Palavras são, na minha não tão humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de ferir e de curar."

— Não sabia que gostava de Harry Potter. — Comenta a grega um pouco surpresa, virando-se para encará-lo. — Por que essa informação não foi revelada em nenhuma das nossas conversas anteriores?

— Não é que eu goste, só considero uma boa leitura. — Diz, dando de ombros.

— Uma boa leitura? Tipo O código da Vinci?

— Não. Desse eu realmente gosto. — Responde, limitando-se a sorrir. — Você sabe que meu gosto para livros é...

— Peculiar?

— Eu ia dizer específico. — Ele a olha rapidamente antes voltar seu foco a estrada. — Mas eu leio de tudo um pouco, no fim das contas. Sou um apreciador de livros, Bonasera.

Stella solta uma risadinha, voltando a observar a escuridão do lado de fora.

— Droga! — Sussurra Mac.

— O que foi?

— A estrada está interditada. — Mac para o carro no início da estrada que os levaria até Nova York. Uma enorme árvore caída com alguns fios sobre ela, impede a passagem.

— Tem algum outro caminho? — Pergunta, esperançosa.

— Não sei. Aquele mapa que trouxemos está por aí? — Stella olha a sua volta e estende a mão até o banco de trás, pegando-o.

— Aqui. — Mac passa a analisá-lo cautelosamente. Para o seu azar e o de Stella, aquela estrada era a única que servia. Ele respira fundo e joga o mapa de volta no banco de trás.

— Esse é o único caminho. — Stella recosta novamente a cabeça no banco, dessa vez frustrada.

— Me lembre de perguntar aos McAlister porque tinham que fazer uma recepção de casamento em um lugar tão distante e fora de mão. — Murmura, rrancando um pequeno sorriso de Mac.

— Você sabe como eles são. Gostam de ser autênticos em tudo que fazem.

— E o que faremos?

— Bom, temos que encontrar um lugar para passar a noite. A chuva está cada vez mais forte e a escuridão não está ajudando. — Suspira, olhando através da janela. — O lugar mais próximo é Ashbourne. Passamos da entrada a mais ou menos 1 km.

— Parece um bom plano. Será que encontraremos algo aberto a essa hora?

— Para o nosso bem, espero que sim. — Murmura o ex-marine. O tom baixo, mais grave do que o normal, transmite preocupação. Stella percebe, mas se mantém em silêncio.

Mac dá meia volta na pista. Volta e meia os raios desenham o céu. Os olhos de Stella acompanham meio sonolentos. Pouco tempo depois eles adentram a cidade de Ashbourne.

As ruas estão desertas, o que não é uma surpresa.

— Detesto esse lugar. — A voz calma de Mac irrompe o silêncio. — A primeira vez que vim aqui, há uns 5 anos atrás, peguei uma virose que me deixou de cama por umas duas semanas. — Relembra, em tom de chateação. — Acho que tem um motel em algum lugar por aqui. — Ele desacelera o carro, passando a observar cuidadosamente o local. Stella tenta manter os olhos abertos, mas a sonolência a vence. — E lá está ele.

Mac estaciona no acostamento do outro lado da rua onde o motel fica. O lugar parece ser antigo. Algumas janelas estão quebradas, como se tivessem arremessado pedras contra elas. O gramado por fazer deixa o local com ar de abandonado. O detetive suspira, cansado e um tanto quanto frustrado.

— Não é um hotel 5 estrelas, mas acho que dá pra passar a noite. — Diz ele retirando o cinto. — Vamos, antes que você durma aqui mesmo.

— Eu poderia — Stella resmunga, abrindo os olhos com relutância. Mac esboça um sorrisinho.

Já do lado de dentro, o ambiente é medonho e, ao mesmo tempo, estranhamente aconchegante. Stella toca a campainha sobre o balcão da recepção, e então ambos aguardam pacientemente até que alguém apareça.

Não demora muito até que uma senhora com sorriso simpático surge. Mac a observa, discretamente. Apesar de parecer ser inofensiva, o sorriso não o convence. Fosse por causa de seu descontentamento em estar ali ou sua vasta experiência como detetive, ele com certeza não relaxaria enquanto sua breve estadia não terminasse.

— Boa noite — diz Stella, se esforçando para se manter acordada. — Gostaríamos de um quarto com duas camas.

O sorriso da senhora desaparece.

— Oh, eu sinto muito. Só temos dois quartos disponíveis, e ambos tem apenas uma cama de casal. — A grega suspira, cansada demais para qualquer comentário. Enquanto isso, Mac analisa o local. Seus olhos passeam por cada centímetro, desde o vaso rachado no canto superior do hall de entrada, com algumas plantas mortas, à porta dos fundos com um aviso de "Entrada restrita". — São 20 dólares por noite. Se pegarem algo no frigobar, deixem o dinheiro na gaveta da cômoda. — A senhora estende a chave em direção a Stella. — Quarto 08, no fim do corredor. Tenham uma boa noite.

A detetive força um sorriso e pega a chave.

O quarto é simples, mas espaçoso. Há uma cama de casal no centro. Uma cômoda com uma televisão em cima, ao lado da porta, de frente para a cama. Um frigobar no lugar da mesa de cabeceira. Um banheiro pequeno, com um aviso de "com defeito", colado no chuveiro.

Mac tira o casaco e o pendura em um cabideiro improvisado ao lado da cômoda. Stella deixa sua bolsa no chão, ao lado da cama, e retira as botas, antes de abrir o frigobar.

— Temos água, duas coca-cola e... — Ela pega uma garrafinha na porta do frigobar. Tem um líquido amarelado dentro, e está sem rótulo — uma bebida duvidosa.

A grega devolve a garrafa e fecha o frigobar. Mac caminha até a janela, coberta por um fino tecido que fazia a vez de uma cortina.

— Acho melhor não tomarmos nada aqui, por precaução. — Ele afasta o tecido e olha pela janela. De onde ele está, dá para ver seu carro estacionado do outro lado da rua. — Aquela senhora não disse que só tinha dois quartos disponíveis?

— Uhum. Por que?

— Não tem nenhum carro, além do meu, estacionado lá embaixo. Isso é estranho.

— Talvez essas pessoas tenham vindo de táxi, ou andando. Sei que precisamos ficar atentos, mas pode relaxar um pouco? — Contrariado, Mac fecha a cortina e se vira. Stella já estava deitada, com uma fina coberta sobre ela. Um sorriso pequeno surge nos lábios dele. — O que foi?

— Me admira a forma como você se adapta tão rápido a qualquer situação. Não importa o quão desconfortável ela seja. — A detetive sorri, de forma quase imperceptível, vira para o lado e fecha os olhos. Os cachos estão esparramados pelo travesseiro.

— É fácil relaxar quando estou com você. — Confessa. — Vê se descansa um pouco, está bem?

— Vou tentar, prometo. — Ele responde, ainda próximo da janela. Stella está tranquila, e aquilo o relaxa de alguma forma. Ele respira fundo e vai até o banheiro. O reflexo no espelho mostra um rosto cansado e um pouco abatido. Talvez não tenha sido a melhor das ideias ir a uma recepção de casamento em um lugar distante após o turno.

Mac conheceu Andrew McAlister durante um caso em conjunto com a polícia de Los Angeles. Os dois se deram bem logo nas primeiras horas. Foi o mesmo caso com Stella e Lucy, uma das detetives da equipe de Andrew.

Depois de alguns anos, Andrew e Lucy começaram a namorar e, não muito tempo depois, decidiram se casar, convidando Mac e Stella para a recepção.

Mac joga uma água no rosto antes de voltar para o quarto. Ele deixa sua arma sobre a mesa de cabeceira e se deita ao lado de Stella, ligando a TV em seguida. O ex-marine troca de canal algumas vezes. O sinal não é o dos melhores, o que torna a qualidade da imagem inferior. Poucos minutos depois ele a desliga e fecha os olhos, se forçando a descansar um pouco.

Sua missão, no entanto, falha.

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