FUJA
2 A fuga
Notas iniciais
2 horas AM
Mac abre os olhos. Tudo está calmo. Um silêncio quase ensurdecedor. Stella continua dormindo serenamente. Seu peito sobe e desce num ritmo calmo e constante.
Há uma mecha de cabelo caído sobre o rosto Stella. Com delicadeza, Mac a afasta. No processo, seus dedos encostam na testa dela. Está quente, mais do que o aceitável para uma noite de verão.
Ele passa os dedos cuidadosamente pelo rosto, e depois toca sua mão. Preocupado, Mac resolve ir até o seu carro ver se encontra algum antitérmico no seu kit.
Na recepção, um homem na casa dos 50 cochila na cadeira giratória. Mac abre a porta sem fazer barulho. Se não fosse pela sua preocupação por Stella, ele provavelmente focaria no fato de que o motel não tinha segurança alguma.
O detetive abre o porta malas e pega o kit de primeiros socorros que costumava carregar no carro. Dentro há alguns itens para fazer curativos, termômetro, compressas e umas máscaras descartáveis. Para a sua frustração, não há qualquer medicamento.
Ele pega o kit, tranca o carro e volta para o motel. Na recepção, toca a campainha sobre o balcão duas vezes seguidas. O homem acorda com o barulho, dando um pulo da cadeira.
— Pois não? — Diz ele, meio confuso.
— Vocês teriam algum antitérmico? — Indaga, sem dar mais informações. O homem ajeita os óculos no rosto e pega um molho de chaves no balcão.
— Só um instante. — Mac o vê entrar pela porta dos fundos e voltar alguns minutos depois com uma caixinha de remédios. — Esse aqui é muito bom. Mas é bom se certificar de que ela não tem nenhuma alergia.
Ele estende o remédio em direção a Mac, que imediatamente hesita.
— Eu não mencionei pra quem era o remédio. — O homem suspira, deixa o remédio no balcão e ajeita os óculos novamente.
— Sua parceira. A mulher que chegou com você. Não é ela quem está com febre? — Questiona, naturalmente. Mac semicerra os olhos. A estranheza de toda aquela situação o incomodava mais do que ele gostaria de admitir.
— Obrigado, mas vou dar outro jeito. — Responde o detetive, deixando o remédio para trás e voltando em seguida para o quarto.
No quarto, Stella segue dormindo. Mac tranca a porta e vai até ela, pondo novamente a mão em sua testa.
— Ainda está quente. — Murmura. Ele pega o termômetro no kit e checa sua temperatura, que já passava dos 39°. — Stell? — A chama, baixinho. — Stella?
— Hm? — Resmunga em resposta.
— Ei, olha pra mim. — Com certa relutância, Stella abre os olhos. Mac a encara com preocupação.
— O que foi? Por que está me olhando assim?
— Você está com febre. Não sente nada? — Stella se senta e passa a mão pelos cachos, os ajeitando.
— Nada além de um pouco de cansaço. Que horas são? — Pergunta, olhando em volta.
Mac checa o relógio de pulso rapidamente antes de se sentar ao lado dela na cama.
— 1h20. — A grega sorri um pouco.
— Você não consegue descansar mesmo, não é?
— Não sabendo que você não está bem. — Diz. — Eu diria pra você tomar um banho, mas o chuveiro está com defeito. E não encontrei nenhum antitérmico no carro. O rapaz da recepção até tinha, mas...
— Você não quer aceitar nada que venha desse lugar. — Ela completa. Mac divaga, olha em volta e, por fim, suspira.
— Sei que posso parecer paranoico, mas há alguma coisa estranha nesse lugar. E, sinceramente, não quero ficar para descobrir o que é. Vou te levar ao hospital. Passamos o restante da noite lá e de manhã cedo, vamos embora.
Ele a olha, aguardando qualquer manifestação. Para a sua surpresa, não acontece.
— Estou cansada demais para discutir. — Murmura, levantando-se. Mac desenha um sorriso pequeno, mas no fundo, aquilo o preocupa ainda mais. Optar por não discutir mostra que, de fato, Stella não está bem.
No banheiro, ela ajeita os cachos em frente o espelho. Volta e meia, apoia as mãos na pia e respira fundo. O cansaço e a sensação de fraqueza estão cada vez piores.
Stella volta a se olhar no espelho, abrindo os primeiros botões da camisa social branca.
— Ainda não acredito que fui a uma recepção de casamento com roupa do trabalho. — Reclama.
— Você e a maior parte dos que estavam lá. Andrew especificou no convite que a vestimenta era casual. Quer algo mais casual do que roupa de trabalho? — Stella solta uma risadinha. — Sem contar que...
— O que? — Com a ausência de resposta, ela sai do banheiro. Mac está colocando o casaco.
— Estou pensando em uma forma de dizer isso sem que seja estranho. — Ela cruza os braços contra o peito, o observando com diversão. Por fim, ele respira fundo e desvia o olhar, aparentemente envergonhado. — Você fica bem com qualquer roupa.
— Acho que esse é o segundo elogio que você me faz em uns 10 anos. — Zomba, reprimindo um sorriso. Mac fecha o zíper, desconfortável.
— Isso não é verdade. Eu te elogio o tempo todo. — Confessa. Stella o encara com uma sobrancelha arqueada. Ele a olha com um meio sorriso. — Talvez eu só me esqueça de dizer em voz alta, as vezes...
Ela ri. Ao tentar voltar para o banheiro, uma tontura a pega desprevenida, fazendo-a cambalear e se apoiar na parede para não cair. O semblante no rosto de Mac muda instantaneamente. Ele vai até ela e a segura.
— Você está bem?
— Sim, só fiquei um pouco zonza. — Mac a leva até a cama e depois vai até o freegobar, pegando uma garrafa d'água. Antes de entregar a ela, ele analisa o líquido na garrafa.
— Aqui, bebe um pouco. — Ele agacha na frente dela e entrega a garrafa. Stella dá algumas goladas e fecha os olhos por alguns instantes. — Espero que não esteja envenenado. — Brinca.
— Dadas as circunstâncias, acho que não ficaria surpresa se estivesse. — Diz, reabrindo os olhos. — Tem alguma coisa de errado comigo. Não é só o cansaço. Sinto como se estivesse perdendo as forças. Não costumo ficar assim quando estou com febre.
Mac põe sua mão sobre a de Stella e aperta gentilmente.
— Nós vamos resolver isso, está bem? — Ela assente. — Vem, vamos dar o fora daqui!
•••
A recepção está vazia. Mac toca a campainha algumas vezes, mas ninguém aparece. Ele deixa uma nota de 20 sobre o balcão e vai até a porta. Para a sua surpresa, a mesma se encontra trancada.
— Droga! — Resmunga, forçando a maçaneta.
Stella olha em volta. Ela caminha até a parte de trás do balcão, procurando as chaves. Não há nada além de um caderno onde controlam as hospedagens do motel. Ao abri-lo, Stella não encontra nada além de seu nome e o de Mac na primeira página. Ela folhea o restante das páginas, mas estão vazias.
— Tá bom. Isso com certeza é estranho.
— O que foi? — Mac larga a maçaneta, frustrado, e a olha.
— Acho que não tem mais ninguém hospedado nesse lugar. E eu sei que estava muito sonolenta, mas não me lembro de ter falado nossos nomes para aquela senhora. — Eles se encaram por alguns segundos, se dando conta de que, com certeza, não deveriam estar ali.
Mac volta a forçar a maçaneta, de maneira ainda mais urgente do que antes. Ele se afasta alguns centímetros e começa a dar murros na porta. Algumas tentativas depois, ele a abre.
No curto trajeto até o carro, Stella olha em direção ao motel. Há uma mulher os observando através de uma das janelas quebradas. Ela respira fundo e tenta se convencer de que é apenas o cansaço.
Os detetives entram no carro e, sem perder tempo, Mac pisa fundo no acelerador. Só então o ar que estava preso em seus pulmões, ganha liberdade.
— Mac, não é melhor saírmos da cidade?
— Eu me lembro vagamente de ter visto uma clínica no centro de Ashbourne, quando vim aqui da última vez. Sei que é um tiro no escuro, mas o hospital mais próximo fica em Nova York. Não podemos arriscar sua saúde. Você precisa ver um médico!
— Tudo bem. Mas se a coisa ficar feia e eu estiver muito fraca para te acompanhar, você vai embora. — Ele a olha com seriedade. Stella sorri.
— Engraçadinha. — Diz, voltando a olhar para frente. — Eu jamais iria a lugar algum sem você.
— Bom, sendo assim — a detetive abre a bolsa e pega o coldre com a arma, encaixando-o na calça. — Preciso estar preparada. — Stella joga a bolsa no chão e recosta no banco, como se aquela simples ação a tivesse desgastado ainda mais.
— Eu vou te proteger, não importa o que aconteça. — Mac fala, sem tirar os olhos da rua. Stella sorri, fechando os olhos.
— Nem vem, Taylor. Sabe que sou eu que sempre salvo você. Isso não vai mudar. Não importa o quão doente eu esteja.
Apesar de estar tenso, Mac não consegue conter o sorriso. Fato é que Stella Bonasera sempre seria sua maior heroína.
Continue...
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