F. E. A. R. S. - Alice Summers
1 # 1 - Corra Alice, Corra!
Notas iniciais
Faltavam horas para o dia amanhecer. A caixa de pizza ainda estava na sala sobre a mesinha, e ela sentada no sofá. Depois de ter passado a última noite acordada, observando a lareira que, em seus últimos suspiros fazia criar na sala sombras a tremer. Usava um roupão enorme, de cor vinho escuro, de um tecido macio, mas desgastado pelo uso contínuo.
Perdida em si mesma, em pensamentos inarráveis, lá estava esperando. Pelo que espera? Apenas espera.
Passa mais uma hora assim pensando, quase não se mexe, mal respira e após todo esse tempo, como se tivesse perdido a prática, levanta-se desequilibrada. Como que bêbada caminha à passos tortos em direção a cozinha, porém reaprendendo o movimento deu o passo firme. Impacientemente balançava ombros e braços. As mãos estavam agitadas, como se ela tentasse sentir a textura de sua palma.
Com um brilho de repente, um grito de morte da lenha, assustou-se, e rapidamente retirou de dentro do roupão um objeto. Era um revólver pequeno. Apontou-o em direção à lareira, depois o guardou novamente.
Sozinha andou até um aposento escuro, aonde tateou a parede, buscando pelo interruptor. Estava no banheiro, lavou a mão, o rosto e olhou no espelho. Como eram horríveis aquelas olheiras. Precisava dormir.
Após certo tempo, cansada de olhar-se, voltou para a sala. Parecia mais calma, mais sonolenta. Tentou deitar-se na sua cama, mas de nada adiantou. O sono foi embora, tão rápido quanto veio. Olhou no relógio, eram três da manhã.
Apagou as luzes e se ausentou, por mais dois cômodos passo a passo se foi.
Voltou ao sofá, agora sem a lareira e, mais uma vez, contentou-se em aguardar em silêncio. Olhou no relógio, eram três horas e sete minutos.
De dentro de seu roupão retirou o objeto. No mesmo instante estava tudo um tanto quieto.
Era aquela arma cuspidora de fogo, provocadora de mortes. Arma antiga de sua vida que sempre esteve pronta à defesa.
Qual seria naquela noite, para a arma, a nova presa? Seria algum inimigo, algum adoentado, algum maluco, inimigo de seu estado? Quem seria o desgraçado, que logo não mais seria? Quem seria a pessoa que já estava marcada?
Logo são respondidas as pergunta feitas, mas se errada parece à história é porque a vida é assim, imperfeita.
Segura firme a velha amiga, com mão forte e certeira, mira direto em uma direção, como se o alvo fosse a apagada e quieta lareira. Destrava a arma.
Com semblante decidido e vontade de executar em outro alvo pôs-se a mirar. Virou contra sua própria face aquele monstro. Estava lá, a arma apontada para a fonte de seus males. Apontava direto para a cabeça.
Muito séria esperava. Pelo que esperava? Apenas espera. Com um soluço forte, quebrando o silêncio, começa a chorar vigorosamente. O silêncio da casa só fazia ecoar os soluços e respiros fortes e, após algum tempo, vagarosamente, retira a arma de seu rosto, trava-a novamente e a recoloca em seu roupão, com tal calma como se aquilo fosse um ato de precisão. Em um ritual sempre assim a se fazer, outras noites como aquela, poderiam alguns, achar que era lazer.
Cada noite uma impressão e sempre a mesma visão. Ela sentia que morar sozinha era sua prisão.
Olhou no relógio, quatro da manhã. Estava na hora de tomar seus remédios. Eram só alguns 6 comprimidos, receitados pelo farmacêutico. Ele prometeu que eles a ajudariam dormir.
Amargurada por lembranças que nunca iremos saber, não se julga tão digna de na vida poder viver. Tenta matar-se quase toda noite para da dor se aliviar, mas por não se achar da morte merecedora, seu castigo é sempre tentar. Dormiu.
Acordou às dez e meia, com o seu celular a tocar. Não podia deixar-se dormir muito tempo. Sabia que era plena terça-feira, tinha que trabalhar.
Não queria atender. Já sabia quem era. Olhou no visor para ter certeza, e teve.
Ele continuou a tocar, os sons estridentes apunhalando os seus tímpanos e o seu cérebro sonolento, que escaparam na noite anterior.
O telefone continuou tocando.
“Não”, disse ela, com uma voz gutural e rouca.
Tocando. Tocando. Tocando. Tocando.
Então ela respirou fundo e atendeu.
Fale com o autor