F. E. A. R. S. - Alice Summers

2 # 2 - Alguém que se importe


Notas iniciais
Na noite passada, Alice conseguiu dormir graças aos remédios. Será que o que nos impede de dormir a noite é a falta de remédios? Será mesmo que é só isso? Preciso de respostas, de alguém que se importe em responder. Somente isso.

“Bom dia, espero que tenha dormido bem!” – Era o Doutor Nouss, que continuou – “Os remédios fizeram efeito? Se sim, foi uma longa noite não?” – ouvia-se um sorriso irônico no outro lado da linha.

O Doutor Jacob Nouss era o farmacêutico que havia dado à Alice os comprimidos que prometiam trazer-lhe o sono de volta. Era um homem magro, tinha pelo menos um metro e setenta e cinco de altura e aparentava estar na casa dos 55 anos quando na realidade tinha 45. Não era um homem bonito, seu semblante era assustador. Costumava andar sempre com roupas de cores escuras, de preferência preto ou cinza e, mantinha uma aparência impecável, desde as unhas do pé até o cabelo preto penteado impecavelmente. Apesar de sua exuberância, sua vida nem sempre tivera sido regada por luxúria e vaidade. Em sua infância, morou na rua com sua mãe, que fugira de casa e de seu pai que a espancava.

Enquanto ouvia o Doutor Nouss, Alice olhava para as coisas bagunçadas na sala. Prometeu para si mesma que aquela seria a ultima vez que faria este tipo de bagunça. Pensou consigo mesma: “Como alguém faz tanta bagunça assim? As pessoas todas, em suas casas, fazem aquilo também?” Então, assim que notou que a voz do Doutor Nouss cessou, respondeu raivosa: “SEU CANALHA! AQUELES DOIS PRIMEIROS COMPRIMIDOS, DAS DEZ E MEIA, NÃO ERAM ASPIRINA!” – Seu ódio era crescente – “QUE TIPO DE DROGA VOCÊ ME DEU?”.

Nouss apenas sorriu, era um riso sádico e frio.

“Claro que não eram aspirina...” – continuou em tom irônico, porém sem perder o sadismo. – “Não se curam as dores da alma com analgésicos.” — Ele sabia que se falasse pelo telefone, tudo perderia a graça.

O silêncio tomou conta de ambos. A frase de efeito de Nouss havia funcionado, e isso não agradava Alice nem um pouco. Ela odiava ser contrariada, e, agora, odiou ainda mais ser contrariada por um suposto farmacêutico, que a havia enganado. Quebrando o silêncio, disse Nouss: “Chega desta palhaçada sua insolente! Eu disse que te ajudaria com seu problema, não que aturaria suas crises nervosas. Esteja no meu consultório na hora do almoço, vamos comer alguma coisa em algum lugar que não seja aquele chiqueiro, que você chama de pizzaria.” – Era como se toda a ironia de sua voz tivesse se evaporado, e o substrato fosse composto de pura repugnância. – “Aproveitarei a ocasião e irei lhe apresentar Giselle, minha assistente.” Desligou o telefone. Alice olhou para o relógio, que só fazia contar as horas na parede da sua sala, fiel companheiro da noite angustiante e cruel algoz que mantinha o tempo a passos lentos, quase uma ampulheta analógica. Seus ponteiros marcavam dez e quarenta. Teria pouco mais de uma hora para chegar até o local tacitamente combinado. Correu para se arrumar.

No seu escritório, Nouss pegou o telefone de sua escrivaninha e ligou para sua secretaria. Foi atendido rapidamente. Ao mesmo tempo em que fazia algumas anotações num pequeno caderno disse: “Cancele todos os meus compromissos, temos novos planos para depois do almoço”. Ao telefone, ouviu-se que a assistente fez um som de aprovação. Então Nouss continuou: “Inclusive fecharemos mais cedo nesse período da manhã. pois tenho um trabalho para você. Dirija-se à minha sala”. Mais um som, quase que análogo ao primeiro, de aprovação foi ouvido. Desligaram os telefones. Em instantes, Giselle estava na sala do Doutor Nouss.

Giselle sempre foi uma garota bonita. Na escola, as outras garotas invejavam-na e frequentemente ameaçavam-na. Herdou de sua mãe a beleza natural das Israelenses. A natureza lhe dera seios avantajados e curvas bem definidas, além disso, um semblante cativante, com olhos verdes escuros e um sorriso impecável.

Alice estava pronta. Vestiu seu terno feminino de modelo executivo, um salto baixo e ajeitou seus cabelos vermelhos. Ainda não estava bom. Passou em seu rosto uma maquiagem fraca, que ressaltava seus olhos verde-claros e o semblante angelical e provocador. Preparou sua bolsa, colocou alguns itens femininos, sua agenda, alguns lenços, documentos e o maço de cigarros. Agora sim, estava pronta. Olhou para o relógio, tinha vinte minutos para estar no lugar combinado. Foi até a garagem, mas no meio do caminho voltou correndo. Havia esquecido algo crucial, sua RT88 dentro do roupão. Não poderia sair sem ela, não era seguro. Tão logo pegou a arma, saiu em disparada, pois não gostaria de se atrasar. Não sabia o motivo, só não gostaria.

Como as ruas estavam movimentadas naquele dia! O trânsito, com a chegada do horário de pico, cada vez mais se formava em um congestionamento infernal, num teste de paciência. Alice, por pura sorte, encontrou uma vaga a três quarteirões do consultório do Doutor Nouss. Estacionou o mais rápido que conseguiu, desceu do carro, apertou o alarme e olhou no relógio. Ela já estava quinze minutos atrasada. Não queria se atrasar. Saiu em disparada. Movimentava-se rapidamente entre os mortiços que, andando a passos lentos, lotavam, cada vez mais, as calçadas.

Nouss, segurando a sua bengala, aguardava na entrada do seu consultório, olhando cuidadosamente a cada tique-taque relógio de pulso e ao movimento das ruas, porém sem deixar de atentar para qualquer cabelo ruivo que aparecesse entre a multidão. Então percebeu que, passando dentre a massa desvanecida do centro de Londres, vinha em sua direção um morador de rua. “Que nojo!” – sussurrou com voz doentia, olhando para a figura que, a seu ver, rastejava entre as pessoas. E como que numa ironia do destino, o pobre homem, que aparentava estar machucado e cansado, olhou-o com olhos cheios de uma esperança e compaixão transcendental (queria Nouss que não fosse simulada, como bem sabia.) dizendo: “Uma ajuda para um pobre, senhor!”. A visão da decrepitude do mendigo era demais para Nouss. O odor putrefato que saia de sua boca desdentada, suas vestes sujas e seus olhos... Aquele olhar de quem pede ajuda, mas não quer ajudar-se a si mesmo. O Farmacêutico deu meio passo para trás e, usando sua bengala de luxo, empurrou com força o mendigo, que quase foi ao chão. “Saia daqui”. – Disse ele, acenando como se acena para um cão – “Minha presença não foi feita para pessoas do seu tipo”. O homem, sem entender o ocorrido ficou pasmo. Nouss fez menção de atingi-lo novamente, desta vez mais agressivamente, então o homem afastou-se e foi embora.

Assistindo àquela cena estavam Giselle e Alice. Giselle estava indignada com tamanha brutalidade por parte do Doutor Nouss, porém Alice demonstrou sequer ter notado tal ato. O atraso a preocupava. Nouss, após uma olhar rápido ao redor, percebendo o semblante de reprovação de Giselle, apontou-lhe a bengala e disse-lhe: “Calada, se não você é a próxima”. – Neste momento, notando que Alice havia chegado, colocou a bengala no chão novamente e continuou – “Olha quem vem para o almoço... Alice Summers!”. Alice ameaçou falar, mas foi interrompida por Nouss, que levantou a palma da mão como quem diz pare: “Ainda bem que Giselle cancelou minhas consultas para tarde, já que, provavelmente, eu chegaria atrasado para atender meus pacientes”. – comentou ironicamente o farmacêutico. Percebendo a deixa, Alice retrucou: “Oras, por que me chamou neste horário se sabia que eu não chegaria a tempo?”. – Nouss sorriu e respondeu, caminhando na direção de Alice e olhando dentro dos seus olhos, em tom brando e direto: “Porque eu quis...”. Alice ficou parada e corou. Após alguns instantes, Nouss completou, virando-se e andando enquanto falava: “E a propósito esta é a minha assistente, Giselle”. Parou no meio do caminho, como se quisesse que elas o seguissem. Alice estava perplexa.

Em pouco tempo que conheceu este farmacêutico, ele conseguiu deixá-la constrangida várias vezes. Como poderia ele agir de tal maneira? Porque ele sempre tem uma resposta para tudo? Percebendo que o homem se afastava dela, pouco a pouco, voltou a seu estado normal. Ele por outro lado, percebendo o desconforto que surgia, começou a caminhar em direção ao centro da cidade e as duas garotas seguiram-no. Após cinco minutos de caminhada chegaram a um restaurante, aparentemente caro. Parando na frente do estabelecimento, ele olhou para as duas que vieram caladas o caminho todo e disse: “Aqui estamos!”- seu tom de voz era cômico, como o de um locutor de circo ao apresentar a “Monga”. Então começou a andar para dentro do restaurante. Alice, dirigindo-se a ele disse: “Doutor, este lugar não é muito caro?”. Ele deu de ombros, então elas o seguiram.

O restaurante era muito elegante e tinha as mesas todas limpas, o chão impecável, uma iluminação interna diferenciada e o melhor, abafava o barulho da agitada cidade. Realmente era um lugar de muito bom gosto. O olhar de Alice perdeu-se na decoração do lugar, mas encontrou-se ao olhar para Nouss. Eles andavam até uma mesa vazia. Enquanto seguiam para a mesa, uma voz feminina surgia na cabeça de Alice: “Um dia ainda vou matá-lo, homem nojento!” – Ela corou. As vozes estavam começando a afligi-la novamente.

Ao chegarem na mesa Nouss fez menção de quem, num ato de cavalheirismo, puxaria a cadeira para Alice se sentar. Alice adiantou-se, porém foi impedida pelo Doutor, que se sentou na cadeira. “Que homem nojento! Porque ele faz isso com as pessoas?” – Desta vez era uma voz feminina. Ambas as garotas sentaram-se.

Nouss, enquanto pegava e entregava o cardápio para Alice, disse: “Imagino que os remédios já tenham parado de fazer efeito, não é mesmo Alice?”. Alice ficou sem jeito. Ele não poderia saber quando os remédios parariam de funcionar! Porém lembrou-se que ele estabeleceu horários. Mas a inquietude voltou a assombrá-la, pois se perguntava como ele sabia se ela tinha tomado todos ou não? Apesar de Alice não transparecer, o comportamento de Nouss incomodava-a. Ele agia como se soubesse de tudo, como se fosse melhor que qualquer um, como se fosse melhor que ela.

Ele continuou: “Sabe, estive lendo os relatos mais comuns de pessoas que utilizaram Fluoxetina associada à Sertralina e Escitalopram...” – Ambas fizeram cara de quem não entendeu nada, então ele completou – “Os seis comprimidos que, espero eu, você tomou ontem”. – Enquanto Nouss falava, olhavam-se fixamente. “Dois idiotas se olhando, como palhaços, imbecis” – A voz feminina surgia mais uma vez em sua mente. Logo começaram um fluxo intenso de vozes, bem baixinho... Bem lá no fundo... Como se participassem de uma conversa distante, atrapalhando a concentração de Alice. Giselle pigarreou fortemente, quebrando a troca dos olhares, e disse: “Vamos pedir algo? Acho que o garçom está...” – Nouss estava olhando-a, mas dirigiu a mão à boca, como quem pede silêncio. Então olhou para Alice, que estava imersa em pensamentos, olhando para o vazio. Num instante ela recobrou a consciência e percebeu que ambos olhavam-na: “Está acontecendo de novo?” – Perguntou Nouss. Alice, com olhar assustado acenou que sim com a cabeça. “E o que você está ouvindo, Alice?”.

Ela olhou para o Doutor Nouss e disse: “As vozes falam de você. Falam que você deve morrer” – Alice deteve-se por um momento, mas prosseguiu. – “Elas falam que você não merece estar vivo”. Nouss a interrompeu: “Desculpe, não entendi Alice.”- E sorriu.

Alice indignou-se, pensou estar louca. Se já não estava completamente, agora então estaria piorando de vez. Aquele homem à sua frente tinha usado sarcasmo. Ela estava confusa. O Doutor sorriu.

A voz feminina disse: “Alice, escolha o prato que quiser. Ele vai pagar, depois o mataremos”. Ela olhou para o cardápio em sua mão, e olhou ao redor como quem procura algo.

Nouss disse, então: “Alice, escolha o prato que quiser. Eu pagarei a conta da mesa”.

Alice estava aflita, o Doutor estava confirmando, de certa forma, tudo o que a voz dizia. Porém, sorriu. Entendeu que, se aquilo fosse intencional, ele provavelmente teria uma resposta para dar. Então disse: “Você está repetindo tudo o que a voz fala. Como está fazendo isto? Agora você é algum tipo de professor X ou Vidente?” – disse Alice irritando-se. O garçom aproximou-se da mesa dizendo: “Com licença, o casal já escolheu?” – Ele tinha um olhar de estranhamento. Outra voz, surgida de dentro de sua mente, disse volumosa: “Só você pode nos ouvir Alice, não tema. Seremos juntos para sempre”.

Nouss e Giselle trocaram um rápido olhar e um sorriso. Então, Nouss olhou para Alice e disse sorrindo: “Eu acho que você deveria pedir um prato Alice”. – Alice não conseguia se concentrar no cardápio. Tudo era muito estranho. O lugar, o garçom, as pessoas, a mesa limpa, o chão limpo, o peixe assado que o garçom levou à mesa 13...

Nouss comentou: “Acho que sei qual é o seu problema Alice.” – disse ele, severo – “Conversei com um médico, amigo meu, e concluímos que você apresenta sinais relativos à esquizofrenia”- Alice ficou surpresa, não conseguia crer que realmente poderia ter tamanha doença mental. E não conhecer o motivo a chateava ainda mais.

Descrente, ela perguntou: “O que você disse?”

Nouss, sorrindo com o acontecido, disse novamente: “Esquizofrenia” – E prosseguiu: “Alice, acho que está na hora de você acordar.” – E ainda disse, olhando no seu relógio de luxo – “Seu celular está tocando. Não vai atendê-lo?”

Ela estava tão perplexa que nem percebeu o celular tocar.

Era uma mensagem de texto:

"SAIA DAÍ AGORA, ELE VAI TE MATAR. APAGUE ESTA MENSAGEM, ALGUÉM PODE ESTAR NOS ESPIONANDO. DIGA QUE VAI AO BANHEIRO. O GARÇOM ESTÁ COM ELE. CORRA, CORRA... TE ENCONTRAREI DEPOIS, QUANDO FOR SEGURO. @MITINICK"

Ao olhar para eles novamente, mal conseguindo esconder o pavor, tentou não expressar nenhuma reação. Disse então: “Acho que vou ao banheiro...” – levantando-se. Quase que instantaneamente Giselle também se levantou, dizendo: “Também queria ir, vamos juntas...” – Alice gelou. Sem responder nada, apenas foi. Ao sair da mesa olhou para o garçom, seu olhar era de estranheza maior, como se não esperasse que ela fosse se levantar da mesa. Alice olhou no relógio, era uma hora da tarde, já tinha perdido o horário do serviço. Chegaram as duas, à porta do banheiro. Giselle disse: “pode entrar, vou retocar a maquiagem...”. Alice não discutiu. Abriu a porta e entrou. Entrou no “box” individual e, sem pensar duas vezes, pegou sua arma na bolsa e começou a carregá-la.

Então ouviu o barulho da porta do banheiro sendo fechada. Ouviu também o barulho deu um zíper de bolsa e um barulho de chaves balançando. Engatilhou a arma.

Os passos vinham em direção ao box em que estava. Destravou a arma.

“Alice...”- era Giselle, chamando-a em tom melodioso.

Alguém parou em frente porta do box pelo lado de fora.

Alice apontou a arma, como se mirasse na altura da cabeça.

A porta foi aberta.

Notas finais
"That's all folks!" Até o próximo capítulo... Gostou ? Quer mais ? Comente e Favorite! Obrigado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.