Fúria
5 Capítulo 4 - Marcos (2022)
I persist and resist the temptation to ask you
If one thing had been different
Would everything be different today?
Penélope não falou nada no caminho de volta para casa, mas segurava o ombro onde o corte estava, quase sem perceber. Ela parecia estar com dor, parecia exausta, e Marcos queria voltar para a casa do pai dela e dar uma surra em Iago. De novo.
Marcos estava furioso. Poderia matar quem fez isso com ela. Poderia matar Louis, o bastardo do seu marido. Ele se segurou para não falar nada, não queria piorar a situação com a sua raiva. Assim que parou o carro ela pulou para fora, antes que ele pudesse falar qualquer coisa e praticamente correu escada acima assim que Giovanna abriu a porta.
Estava fugindo dele, Marcos sabia.
Subiu as escadas atrás dela, subindo dois degraus de cada vez para poder lhe alcançar, mas Giovanna lhe chamou, assustada, e o fez parar.
— O que aconteceu?
— Penélope se machucou — minimizou, porque não queria que ela se preocupasse — Pode pegar o kit do meu escritório, filha? Trás pro meu quarto, ela vai precisar levar uns pontos.
A camisa ensanguentada estava no chão do banheiro do corredor, e Penélope pressionava papel higiênico contra o corte. Ela evitava o seu olhar, mesmo quando Marcos se posicionou atrás dela e analisou o estrago pelo espelho. Olhando novamente, o corte maior não está tão feio quanto ele achou, apesar de ainda ser muito recente, e os menores já tinham uma casquinha se formando. Mas a linha usada na sutura estava errada, e era melhor refazer tudo para não infeccionar.
Já estava começando a anoitecer, e ele precisaria ir para o plantão em breve. Pediria para Lily cobrir para ele se pudesse, mas ela ainda estava muito irritada e não atendia o telefone.
— Você quer que eu vá embora?
Penélope o encarou pelo espelho, os olhos azuis olhando tão intensamente que ele demorou a entender o que ela disse. Estava séria, determinada, uma fortaleza. Mas Marcos conhecia Penélope e sabia que ela estava assustada também, com medo.
— Embora, Penélope? É claro que não. Por que eu te mandaria embora?
— Depois de toda aquela cena? — ela se virou para ele, e estavam perto demais. A voz dela tremia apesar dos esforços de se manter firme. — Depois de todo o estresse? Me poupe, Marcos, você não me quer mais aqui.
Marcos não sabia como começar a explicar para ela que ele sempre iria querer ela ali, independente do que acontecesse. Que, na verdade, não queria nem que ela tivesse ido embora em primeiro lugar. Por sorte ele não precisou, porque Giovanna invadiu o banheiro com a bolsinha vermelha de primeiros socorros.
— Aqui! Meu Deus, o que aconteceu com o seu braço? — Sua filha arregalou os olhos, surpresa, e desviou da camisa no chão. Ela puxou Penélope pela mão esquerda, atravessando o corredor e a obrigando a se sentar na cama do quarto de hóspedes — Pai, faz alguma coisa!
— Eu vou limpar o corte e refazer os pontos — avisou. Penélope acenou, olhando pela janela. Ela nunca teve problemas com sangue e agulhas, contanto que não precisasse olhar.
— Como isso aconteceu? — Giovanna não saía de cima dos dois, sentando-se ao lado de Penélope para olhar de perto enquanto seu pai refazia a sutura.
— Eu fui pega por uma onda quando tomava banho de mar. Antes de viajar, é óbvio — Marcos não acreditava em uma palavra do que ela dizia — Eu fui jogada contra as rochas, fiquei com alguns cortes. Esse foi o pior.
— Essa costura tá horrível. Você devia processar o médico que fez isso.
— É, eu devia.
Giovanna enfiou a cabeça na sua frente, e ele precisou cutucar ela para se afastar. A presença de Giovanna facilitava as coisas, calava todas as coisas que ele precisava lutar para não falar para Penélope. Todos os sentimentos que Penélope causou nele com aquela volta repentina iam ficar enterrados, precisavam ficar. Marcos não queria nem pensar sobre isso. Ele tinha uma noiva, uma filha e uma carreira, e não podia agir como um adolescente inconsequente.
Mas ela se retraiu quando ele passou o remédio sobre o corte, e Marcos pensou que talvez não conseguisse fingir tão bem assim.
Ele respirou fundo, terminou de dar os pontos e guardou tudo no lugar.
— Eu preciso ir pro trabalho. Gigi vai ficar de olho em você, ela é minha enfermeira particular treinada — ele beliscou o braço da filha de brincadeira e ela riu. Penélope não parecia prestar atenção na conversa, mas ele continuou mesmo assim. Seus olhos piscavam, cansados — Mas vai ficar tudo bem, eu vou trazer um anti inflamatório quando voltar. Dorme, ok? Você tá caindo de sono.
Penélope concordou sem muita emoção, mas fez como ele disse e se deitou, com cuidado para não deitar por cima do curativo. Ele chamou Giovanna e fechou a cortina e a porta, deixando o quarto no escuro para que ela pudesse dormir melhor.
— Ela acha mesmo que a gente acreditou nessa história?
Giovanna cruzou os braços no corredor, mas não falou de maneira maldosa. Parecia preocupada, seu rosto jovem franzido e angustiado. Ele abraçou a filha, lembrando a si mesmo que a melhor coisa que poderia ter acontecido na sua vida foi Penélope ter lhe deixado, porque caso contrário ele não teria a aquela adolescente respondona e com um coração enorme.
Marcos fez questão que ela ficasse longe de qualquer violência. Desde a primeira vez que ele viu a filha, prometeu a si mesmo que nada daquilo nunca faria parte da vida dela. Mas uma garota inteligente como Giovanna podia reconhecer violência doméstica quando via, mesmo que tivesse sido criada numa bolha de proteção.
— Fica de olho nela por mim? Eu venho direto pra casa quando sair.
Giovanna concordou com a cabeça, seus olhos desconfiados lhe observando de um jeito que ele não conseguiu decifrar. Às vezes Marcos odiava como ela estava crescendo e ele não conseguia mais adivinhar todos os seus pensamentos, mas entendia que aquilo fazia parte da vida.
— Claro, pai.
*
Era madrugada e Marcos estava sozinho no consultório de emergência, uma tranquilidade atípica. Pensou em ligar para Giovanna, mas ela já estaria dormindo naquele horário. Tentou falar novamente com Marina, mas sem sucesso.
Ela trabalhava em um campo de refugiados na Itália e às vezes passava semanas sem dar notícias porque o sinal de telefone era terrível. Mas ele pensou que, dada a situação de Penélope e como ela ajudou a ex-cunhada a voltar para o Brasil, Marina daria notícias. Mandou mais uma mensagem, que também não chegou.
— Pode entrar — guardou o telefone, achando que era um paciente.
— Oi. — Lily entrou na sala envergonhada. Marcos sorriu para ela.
— Então agora nós já estamos de bem?
Sua noiva respondeu atravessando a sala para lhe dar um beijo. Normalmente eles evitavam ficar juntos no trabalho para evitar as fofocas, mas o plantão estava tão tranquilo e Marcos estava tão preocupado com tudo em casa que se permitiu relaxar.
Lily se afastou distribuindo selinhos e lhe fazendo rir. Ele a puxou para que se sentasse no seu colo. Ela sempre tinha um cheiro floral.
— Eu devia ter falado com você antes de dizer pra Penélope que ela podia ficar — Marcos falou. — E eu sei que a Giovanna pode ser implicante...
— Tá tudo bem. — Ela segurou seu rosto, carinhosa. E então brincou: — Eu sabia que uma adolescente tava incluída no pacote quando você implorou pra casar comigo.
Marcos riu do exagero, se sentindo mais leve.
— E eu sei que você não teria dito não pra sua amiga... É por coisas assim que eu te amo. Como ela tá?
— Não consegui conversar direito com ela. Quando saí de casa ela tava dormindo, deixei a Giovanna de enfermeira.
— Por que ela precisa de uma enfermeira? — Lily franziu as sobrancelhas e Marcos se arrependeu de ter falado. Penélope provavelmente queria deixar aquilo entre eles.
— Só pra ficar de olho, me ligar se acontecer alguma coisa... — desconversou, e parecia ter funcionado.
— Vou levar a Giovanna pra jantar amanhã — avisou. — Quero fazer alguma coisa legal com ela, pode convencer ela a ir?
— É claro.
Essa era a sua vida, ele se lembrou. O trabalho, Giovanna, madrugas roubadas com Lily sempre que possível, a tranquilidade de saber como seria o dia seguinte... Era nisso que ele devia focar, mesmo que a presença de Penélope e a vida de Penélope gritassem na sua mente.
*
Marcos chegou do hospital às sete horas da manhã, depois de doze longas horas de plantão e preocupado pensando em Giovanna e Penélope sozinhas em casa.
Marina continuava sem dar notícias.
Quando finalmente entrou em casa, sua filha estava dormindo profundamente, aproveitando o final de semana, e Penélope fazia o mesmo no quarto ao lado. Ele reaplicou o cicatrizante, refez o curativo, e conseguiu que ela acordasse apenas o suficiente para engolir o remédio que ele lhe deu e voltar a dormir.
Giovanna acordou, fez o dever de casa e ajudou com o almoço. Ela concordou com o jantar, distraída enquanto assistiam um filme de fantasia, e Penélope permanecia desmaiada no quarto. Marcos ficou preocupado, mas Giovanna o tranquilizou dizendo que era normal pela mudança de fuso horário. Sabia que ela estava certa, mas isso não o deixou menos preocupado. Ela também fez perguntas demais sobre Penélope, mas ele evitou e deu respostas vagas que infelizmente lhe deixaram mais curiosa.
Quando a noite chegou, Giovanna saiu. Não parecia muito contente mas também não reclamou. Marcos disse que ela não precisava ir se não quisesse, mas ela disse que estava tudo bem. Não era tão tarde, e Marcos estava jogado na cama mexendo no celular quando ouviu os gritos de Penélope. Ele correu tão rápido que em segundos estava no quarto. Penélope estava dormindo ainda, tendo um pesadelo, e lutava contra um inimigo invisível enquanto se debatia na cama.
— Penélope, acorda! Penélope! É só um sonho, é só um sonho.
Ele precisou segurar seus braços para que ela parasse de se debater, e ela ainda chorava quando disse, a voz sussurrando e o olhar mais magoado que ele já tinha visto.
— Louis estava aqui... Estava aqui comigo.
Marcos sabia que tinha sido só um pesadelo, mas acendeu o abajur mesmo assim para que ela visse que não tinha ninguém ali além dos dois.
— Ele não está, foi só um sonho ruim — Ver ela aterrorizada assim partia o seu coração, tanto quanto aumentava a sua raiva.
Penélope se jogou de novo na cama, cobriu os olhos e tentou acalmar a respiração. Marcos ficou feliz que Giovanna não estivesse alí.
Limpou as lágrimas das bochechas dela, ainda sentado ao seu lado, e Penélope entrelaçou os dedos na sua mão livre. Ele sabia que deveria ir embora que sabia que tinha sido só um sonho ruim. Não deveria ficar, não era uma boa ideia.
A verdade era que Penélope tinha partido o seu coração quando foi embora. Ele achou que tinha se recuperado, mas ver ela ali na sua cama, e ainda por cima num momento tão frágil, lhe mostrou que não. Ele não deveria se apegar a ela com tanta facilidade sabendo que ela podia ir embora de novo sem dar aviso.
— Fica aqui comigo — pediu, a voz mais calma agora, mas ainda fungando — Eu não quero ficar sozinha agora.
Ele se deitou ao seu lado e ficaram em silêncio olhando para o teto. Marcos queria perguntar tantas coisas para ela, mas estava dividido entre querer respeitar o seu momento e deixar ela se acalmar e ficar com medo da resposta.
— Eu fui para Malta — ele demorou um momento para entender que ela estava respondendo a pergunta que tinha feito antes. — Fiquei um ano gastando o dinheiro que sobrou da... Do dinheiro do meu pai. Louis me pediu em casamento no dia em que me conheceu. Eu aceitei, porque... Não sei. Porque ele tinha dinheiro, porque eu estava cansada. Foi tudo muito rápido. Louis é... Poderoso. Rico. Não necessariamente de forma legal, mas eu não me importei. No começo a nossa vida era farra depois de farra, sem hora pra acabar. Depois de um tempo isso se torna bem cansativo. Eu me cansei primeiro. Ele se cansou de mim no momento que eu substituí as minissaias e botas de cano alto por roupas de alfaiataria.
Ela se calou, e quando Marcos olhou viu tantas emoções que foi difícil entender de imediato: tristeza, mágoa, raiva. Tanta raiva, tanta indignação que ela lembrava a garota que costumava ser. A adolescente selvagem que roubou o seu coração e virou a sua vida de cabeça para baixo.
— Eu quis matar ele — confessou, a voz tão limpa que Marcos sabia que não era exagero. — Eu ainda quero.
— Essa não é a história completa — notou. — Você vai me contar tudo que aconteceu?
— Não.
Ele respirou fundo e voltou o seu olhar para o teto. Podia sentir os olhos dela nele, e se perguntou se ela podia entender que a raiva não era dela, e sim por tudo que ela passou para chegar até ali. Raiva por ela ter passado por tanta coisa, por ter sofrido tanto.
— Você contou para Marina? — A pergunta a fez rir, uma risada fraca porém sincera. A primeira risada sincera que ele ouviu dela, e acabou lhe fazendo sorrir também. Ele sentiu o clima ficar mais leve, mais confortável. Ela relaxou ao seu lado, e só então Marcos percebeu o quanto ela estava tensa.
— Não, não adianta você tentar trocar fofocas com ela. Vocês dois não mudaram nadinha.
— Você também não.
Ela apertou a sua mão e virou para ele. Marcos estava olhando para o seu curativo, e prestes a perguntar a verdade sobre o machucado quando ela lhe interrompeu:
— Como estão os seus pais?
Marcos não falava sobre os pais, porque não gostava de explicar. Era desconfortável falar que ele não tinha contato com o seu pai desde que ele foi preso, que não o via há anos ou como limitava todo o contato que sua mãe tinha com Giovanna. Como Marina não falava com nenhum dos dois desde que tinha saído de casa.
Mas Penélope conhecia a sua história, conhecia os dois, e ele não tinha motivos para esconder a verdade dela.
— O mesmo de sempre. Eu não tenho mais contato com ele. A minha mãe me encontra às vezes nas datas festivas, mas é... O mesmo de sempre.
— Giovanna não gosta dela — pontuou, e ele não podia negar.
— Quando vocês conversaram sobre a minha mãe?
— Quando você e a sua noiva estavam brigando dentro do carro. Ela vai te perdoar por abrigar uma fugitiva? Ou uma ex-namorada?
— Se ela não pudesse perdoar isso, eu não estaria noivo dela. Você dormiu mais de vinte e quatro horas — mudou de assunto — O seu braço ainda está doendo? Eu mudei o curativo ontem.
— Está melhor, obrigada.
Mas ela se distraiu, seu olhar novamente perdido em pensamentos. Marcos gostaria que ela falasse, que ela se abrisse com ele, que não houvesse tanta tensão e tanta coisa não dita entre eles. Assim ele poderia ajudar.
— Quando eu encontrei Marina... Ela ainda estava com raiva de mim. Por que você não tem raiva de mim?
"Porque você poderia fazer o que quisesse comigo, e eu ainda assim não sentiria raiva de você", pensou.
— Você seguiu a sua vida, Penélope. Eu segui a minha. Nós somos adultos, eu não vou ser infantil e ficar com raiva de você por isso. Eu tenho uma família, você tem...
Ele se calou, porque ela não tinha uma família, e mesmo quando ela tinha eles não eram de muita ajuda. Penélope riu porque ele ficou sem graça, uma risada fraca e um pouco triste. Lhe trazia mais lembranças do que deveria.
Marcos pensou em Lily, e se sentiu mal. Soltou a mão de Penélope e pensou que deveria sair do quarto, mas não podia lhe deixar sozinha assim. Não agora que ela estava rindo e conversando, mesmo que ela se recusasse a contar a história inteira.
— Tudo bem, você pode dizer que eu não tenho família. É verdade. Você consegue acreditar que Mimi está noiva do meu pai? O mundo está mesmo acabando.
— O pior é que eu consigo, sim.
Riram, fracamente, e Marcos podia sentir a frieza entre eles derreter mais um pouco. Se continuasse ali, sentia que em pouco tempo eles seriam apenas eles, o tempo não teria passado, e não sabia se isso era bom ou ruim.
— Ele é tudo que você dizia e eu não enxergava. Depois do... depois de tudo que aconteceu, — ela engoliu em seco e ele pôde ver seus olhos marejarem ao pensar na mãe e no irmão, na delegacia, no sangue nas suas roupas. A voz dela estava carregada de raiva — finalmente percebi isso.
Ficaram em silêncio por um momento.
Penélope sorriu para ele, um sorriso fraco, e passou as mãos pelo seu cabelo assim que voltou a si. Era tão confortável estar deitado ali com ela na meia-luz que ele quase se esqueceu de tudo. Aquela mulher... como alguém pode ter feito mal para ela? Ele precisava saber o que aconteceu.
— Foi o seu marido que te machucou?
— Ele me machucou muitas vezes, Marcos. — A voz dela era calma, mas isso só lhe deixou com mais raiva de Louis — Mas não dessa vez. Foi verdade o que eu disse para a sua filha, eu me bati em uma rocha no mar.
— Não mente pra mim.
— Pra você, Marcos? Você deveria me conhecer melhor do que isso — ela sorriu, o sorriso que ele amava, o sorriso que ela costumava guardar só pra ele. Mas logo ficou séria de novo. — Eu não simplesmente saí de casa e peguei um avião, Marcos. Eu fugi, eu escapei. Eu sei que Louis está procurando por mim, e eu sei que não vou fugir dele para sempre. Ele vai me encontrar em algum momento. Mas quando isso acontecer, eu quero estar pronta.
— Qual é o seu plano, Penélope? O que a gente pode fazer? Podemos perguntar para Marina como funciona a lei nesse caso, já que foi em outro país, mas ela pode conseguir uma ordem de restrição e...
— Nada vai acontecer com ele, Marcos. Nada. Eu já o vi fazer coisas piores, então acredite em mim quando digo que ele é intocável. Eu mesma vou lidar com isso.
— Como? Como você vai fazer isso?
Ela se revirou na cama, sem responder. Marcos acreditava quando ela dizia que um homem rico era intocável, mas precisava saber que ela não iria se colocar em perigo.
— Eu posso ajudar. Eu posso... Eu não sei! O que você precisa? Qual é o seu plano, Penélope? Me diz o que fazer pra te ajudar.
Ela o olhou novamente, os olhos azuis reluzindo como se quisesse chorar. Como ele podia ter tirado todo o brilho dela? Penélope abriu a boca, como se fosse responder, mas se calou. Respirou fundo, e então fez a última coisa que ele pensou que faria: se inclinou na sua direção e lhe beijou.
Foi tão fácil se perder nela novamente. Os lábios macios, o cabelo que engatou nas suas mãos quando ele segurou o seu rosto. Marcos tinha quinze anos novamente e era o primeiro beijo deles, um refúgio para que esquecessem os seus problemas.
Marcos tinha sonhado com aquela mulher pelos últimos dezessete anos e agora ela finalmente estava ali de novo.
— Eu senti sua falta — ela sussurrou, contra os seus lábios — Eu senti tanto a sua falta, Marcos.
O tempo não passou, os últimos anos não existiram.
Lily.
Lily, Lily, Lily.
— Não — Ele se afastou o mais rápido que conseguiu, e quase caiu da cama — Não, Penélope. Eu não posso te beijar. Você pode contar comigo, pode ficar aqui o tempo que precisar. Mas, nada assim vai acontecer. Não pode acontecer.
Ela não parecia surpresa, um sorriso leve ainda nos seus lábios. Talvez um pouco magoada? Ele tentou decifrar sua expressão, mas não conseguiu. Penélope acenou com a cabeça.
— Tudo bem. Eu... — Penélope balançou a cabeça. Sua voz estava baixa — Desculpa.
Penélope se calou, suspirando e olhando para o teto. Estava um pouco irritada apesar de tentar disfarçar, ele decifrou.
— Você está com raiva?
— De mim, Marcos, nunca de você — ela suspirou, e então sorriu para ele — Vai dormir, eu já atrapalhei demais o seu sono.
— Se precisar de alguma coisa...
— Eu vou gritar e você vai me salvar. Mas não espere um beijo no final.
Marcos sorriu. Ficou feliz que ela estivesse de bom humor, parecendo mais tranquila.
— Boa noite, Penélope.
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