Fúria

6 Capítulo 5 - Penélope (2002)


"I left you out there standing

Crestfallen on the landing

Champagne problems"

Penélope esbarrou na porta do quarto minúsculo pela quinta vez naquele dia. Sentia raiva em cada poro do meu corpo, raiva da sua mãe, principalmente, mas também raiva da vida. Queria berrar, se jogar no chão e gritar até que alguém resolvesse a sua vida, até que seu pai fosse lhe buscar.

E ela também queria gritar só para fazer o bebezinho idiota acordar, pois sabia que sua mãe tinha passado quase uma hora para fazê-lo dormir. Penélope sentia algum prazer vendo a mãe cansada e com olheiras, o cabelo oleoso. Uma minúscula compensação por tudo que ela estava lhe fazendo passar.

Eram quatro da tarde e seus braços estavam cansados de carregar coisas, seu corpo inteiro doendo de subir e descer escadas. Não tinha sido um bom dia para pular o café da manhã. Quando finalmente se sentou no sofá duro para descansar, e deu uma espiada em Rodrigo, que dormia profundamente no bebê-conforto, Maria apareceu na porta, com as mãos ocupadas com a mala de roupas do seu filho.

— Penélope! – ela olhou irritada para a filha — Termina de me ajudar e aí descansa, o aluguel do caminhão é só por mais uma hora.

A adolescente não se mexeu, uma dor de cabeça se formou, mas continuou em silêncio. Estava em silêncio desde que a mãe tinha lhe obrigado a sair da minha casa onde tinha crescido e lhe levou para aquele muquifo. Era sexta feira, e pelo menos ela não teria que ir à escola apenas na segunda, a estúpida escola nova que tinha certeza que iria odiar. Na sua mente, a escola era depredada, com pichações e alunos mal encarados nos corredores. Talvez armados. Caricato, mas a única referência de escola de pobres que ela tinha era de filmes e séries.

Ela checou meu celular, pela trigésima vez, mas sua pai ainda não tinha lhe ligado de volta. Tinha uma mensagem de Mimi, que ela ignorou, sem paciência para lidar com a melhor amiga..

Ia ligar de novo para o pai, mas antes que conseguisse terminar de digitar sentiu o celular ser puxado da sua mão.

— Acorda, Penélope! Eu já te pedi um milhão de vezes, ajuda sua tia que vai terminar mais rápido.

Ela respirou fundo, não conseguia sequer olhar para a mãe porque sentia que se o fizesse ia explodir.

Penélope já tinha sentido raiva da mãe antes, é claro. Elas não tinham o melhor dos relacionamentos, mas a raiva que sentiu naquele momento parecia ser tanta que escorria pelo seu corpo. Era ódio, nada que ela já tivesse sentido se comparava com aquilo. Ela respirou fundo, repetindo a técnica que a psicóloga do colégio tinha lhe ensinado.

— Penélope, eu não vou repetir – ela ameaçou.

Foi demais para ela, que se levantou e pegou sua bolsa do chão. Maria se aproximou, mas a garota não permitiu que ela lhe tocasse, desviando da sua direção, se sentindo sufocada pela falta de espaço, pela sua proximidade e pela sua voz.

— Eu odeio você! Eu odeio você, EU ODEIO VOCÊ! – a mãe lhe olhou sem muita emoção, talvez já esperando por aquilo. Elas se encararam, a respiração da mais nova acelerada. Por um segundo Maria ergueu a mão para tocar os cabelos da filha, uma mistura de gentileza e pena em seu rosto, mas Penélope empurrou sua mão — EU ODEIO, ODEIO, ODEIO, ODEIO, ODEIO VOCÊ, CACETE! É tão difícil de entender?!

— Filha...

Mas ela foi interrompida por Rodrigo, que começou a berrar. Sua mãe imediatamente lhe esqueceu, se virando para ele. Ela o pegou no colo, o balançando devagar. Penélope mal conseguia olhar para ele, o seu rosto minúsculo e deformado que lhe assustou e enojou tanto na primeira vez que o viu. Ainda de costas para ela, não havia mais gentileza na sua voz, apenas derrota.

— Vai ajudar sua tia, Penélope.

A garota sentiu as lágrimas rolarem quentes por seu rosto, os soluços chegando, mas não queria que a mãe lhe visse chorando. Segurou sua bolsa com força e saiu correndo daquele apartamento sujo. Desceu as escadas correndo, passando pela tia Vitória, que carregava uma caixa de papelão. As lágrimas lhe cegavam momentaneamente, e ela queria morrer.

Saindo do prédio, esbarrou com força em alguém, a ponto de cair no chão.

— Meu Deus, você tá bem? Eu te machuquei?

— Vai se foder! – ela gritou, estressada. Ignorou a mão que ele lhe ofereceu e se levantou sozinha. As lágrimas ainda caiam, uma confusão de sentimentos dentro do seu coração.

Penélope saiu do prédio sem perceber que ele lhe seguiu, olhando de um lado para o outro da rua, mas é claro que naquele subúrbio não tinha nenhum taxi. O caminhão fretado ainda estava ali, e ela caminhou rápido para longe dele porque sabia que sua tia iria lhe procurar, mas não queria ser encontrada naquele momento. Quando virou a esquina, percebeu que não fazia ideia de onde estava, de como andar por aquelas ruas. Até o momento, sua vida tinha sido restrita ao seu condomínio fechado, os bairros próximos e ir até a casa das suas amigas.

Ela me sentou no chão para a humilhação ser logo completa. Seu choro não era mais de tristeza, mas sim de raiva. Naquele momento ela odiava a sua mãe. A simples ideia de voltar a vê-la lhe causava uma repulsa tão grande que preferia morar na rua. Ou melhor, precisava voltar para a sua casa de verdade, a casa do seu pai.

— Você precisa de ajuda? – a voz dele era gentil, e como ela não o respondeu, o garoto se sentou ao seu lado. – Meu nome é Marcos.

Ela o ignorou na esperança que fosse embora, mas ele permaneceu em silêncio ao seu lado.

— Você sabe onde eu consigo um táxi? – cedeu, ainda sem olhar para ele. Fungou, se sentindo ridícula.

— Não passam muitos por aqui. Você pode andar uns quatro quarteirões por ali até chegar na rua principal.

Ele pareceu perceber sua expressão perdida, e Penélope sentiu ele analisar sua bolsa de marca e os tênis originais. Por um segundo se perguntou se ele iria lhe assaltar.

— Eu posso te dar uma carona, se você quiser.

Ela o olhou desconfiada. A primeira coisa que pensou foi que talvez ele fosse algum maníaco, mas Marcos parecia ter a sua idade. Eu então notou seus olhos castanhos. Ele parecia ser sincero, então decidiu confiar nele.

— Você tem carteira?

— Não — admitiu.

— Penélope! — era a voz de sua tia gritando por ela, não muito longe.

"Claro que ela veio atrás de mim, porque mamãe nunca se importaria comigo o suficiente nem para isso."

Ela concordou com a cabeça e se levantou, aceitando a mãe que ele lhe ofereceu. Não ficou surpresa que fosse um carro simples, mas o garoto estava sendo tão educado que não se importou. Deu o endereço da sua casa, e ele não mudou de ideia mesmo sendo bem longe de onde estavam.

— Tem lenços no porta-luvas.

Ele ri baixinho quando ela se atrapalhou com a quantidade de coisas que pularam para fora assim que o abriu. Enquanto enxugava meu rosto, envergonhada pela maneira como falou com ele antes, Marcos tentou puxar assunto.

— Então, o que você tá fazendo nesse lado da cidade?

— A minha mãe tá morando aqui.

— Você veio ajudar na mudança?

— Mais ou menos isso.

Ele não pediu mais detalhes, pelo que ela ficou grata. A viagem seguiu em silêncio absoluto, pois o carro não tinha rádio. Penélope aproveitou para analisar o garoto que lhe dava carona. "Eu deveria ter anotado a placa do carro antes de entrar e avisado Mimi, caso minha impressão esteja errada e ele de fato seja um sequestrador ou maníaco." Não era a primeira vez que ela entrava no carro de um desconhecido, mas nunca tinha feito isso sozinha. E todos os desconhecidos eram conhecidos de alguém. Mas esse garoto não era como ninguém que ela conhecesse.

Ele tinha uma beleza comum, e se ainda não tinha dezoito anos devia estar quase completando. Era mais alto que ela, e em meio ao turbilhão de emoções que estava sentindo ela ainda assim notou que a maneira como Marcos tamborilava os dedos no volante era adorável, e que seu cabelo era baixo, raspado quase na pele.

— Por que você está me ajudando? – perguntou desconfiada.

Ele deu de ombros como se não fosse nada demais, como se estivesse constantemente atravessando a cidade para deixar uma desconhecida chorona e grossa em casa.

— É a minha boa ação do dia, ok? – ele manteve os olhos fixos na rua.

— O que você vai fazer depois, construir casas para os pobres?

Ele riu, se virando por um segundo para olhar para ela. Quando ele fez isso, Penélope pensou que a beleza dele não era comum coisa nenhuma.

— Qual o seu nome?

— Penélope.

— Olá, Penélope.

— Olá, Marcos — ela sorriu um pouco, sem deixar de observar enquanto ele dirigia.

Quando finalmente chegaram ao seu condomínio, o porteiro os deixou entrar pois conhecia Penélope desde criança. Olhou meio torto para Marcos, mas não questionou. Ela sentiu um alívio em seu peito por finalmente voltar para casa, alguma luz surgindo em sua vida finalmente. Era como se pudesse respirar ar puro novamente.

— Você pode seguir reto e dobrar na última rua. Fica perto da quadra de tênis.

Ele balançou a cabeça, sem esconder o choque conforme passaram pelas casas. Deu uma risada baixa, balançando a cabeça como se as peças do quebra cabeça se encaixassem. Marcos olhou admirado para a sua casa, com três andares e arquitetura luxuosa, o gramado verdejante na frente. Mas Penélope ficou surpresa ao notar o caminhão da loja de móveis.

— É aqui – Apesar da curiosidade, Penélope tinha certeza que tinha alguma explicação. Talvez seu pai tivesse comprado móveis novos. No seu coração, ela sabia que ele iria resolver tudo. Seu pai sempre resolvia – Espera aqui, eu vou falar com meu pai rapidinho e volto pra te trazer o dinheiro da gasolina.

— Não precisa...

— Não, sério – Ela já estava saindo do carro – Eu insisto, é sério, só espera dois minutos.

Penélope entrou saltitando, quase correndo. Precisava falar com seu pai, que ele entendesse que de jeito nenhum ela ficaria com a sua mãe mãe e o novo bebê assustador, ainda mais naquele muquifo. Ela foi em direção à piscina, pois ouviu música. Talvez ele tivesse recebido visitas.

Mas ela se deparou com uma cena completamente inusitada, que a fez ficar plantada. Havia duas garotinhas loiras, que ela nunca tinha visto na vida, rindo e brincando na piscina infantil. Elas usavam bóias redondas e maiôs coloridos. Seu pai estava em uma das espreguiçadeiras, aos beijos com uma mulher tão loira quanto as crianças.

— Papai? – ele não a ouviu, e ela precisou quase gritar para que ele lhe notasse. – Pai!

Quando ele finalmente lhe viu, parada e em choque, Penélope não conseguiu decifrar se ele estava bravo ou surpreso.

— Penélope? O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?

— O que... Quem... Eu não...

A mulher lhe olhou como se ela não fosse nada, um problema resolvido, tomando posse da espreguiçadeira com uma expressão de dona assim que ele se levantou. Penélope decidiu que a odiava. Ela obviamente era a mãe das meninas, os mesmos olhos azuis e boca rosada, como se as três fossem Barbies colecionáveis. As meninas lhe olhavam curiosas, como se ela fosse uma estranha na casa delas, e não o contrário.

— Querida, vamos lá para dentro.

Ela seguiu seu pai casa adentro, dando uma última olhada na mulher, que lhe deu um sorrisinho convencido. Quando chegaram ao escritório ele fechou a porta, como fazia sempre que queria ter uma conversa séria, e se sentou atrás da mesa. Penélope se sentia pequena demais e tola demais.

— Minha querida, aconteceu alguma coisa?

Seu olhar era clínico, e alguma parte dela já tinha entendido tudo. Mas Penélope queria ouvir dele, queria que ele lhe explicasse, o sentimento de traição pulsando em seu coração, uma ferida recém aberta que mesmo naquele momento ela já sabia que nunca iria cicatrizar. Sentiu a garganta fechar e as lágrimas caírem antes mesmo da conversa começar.

— Eu não quero ficar com a mamãe. Quero voltar para casa.

Ele suspira, impaciente, como se ela estivesse insistindo que precisava de um celular novo.

— Filha, nós já conversamos sobre isso. Sua mãe tem a sua guarda, você pode vir ficar comigo a cada quinze dias, e eu vou pagar uma pensão boa para você.

— Eu não quero uma pensão, eu quero ficar com o senhor, na minha casa.

Penélope pensou que o olhar de pena distante era pior do que se ele gritasse com ela. Pior do que quando ele gritou com ela por ter encontrado Iago em seu quarto. Pior que todas aquelas semanas tensas da gravidez, quando ele e sua mãe não ficavam sequer no mesmo cômodo juntos. Ela sentiu a mágoa tomar conta, a revolta escorrendo pela sua voz.

— Quem era aquela mulher?

— Eu vou apresentar vocês daqui a quinze dias – ele frisa, o tom de quem não vai aceitar réplica – quando você vier me visitar. Mas já adianto que ela é sua madrasta agora, e nós vamos nos casar em julho. Maria e Nayara vão ser suas irmãs agora, e eu espero que você seja educada com as três.

— O que caralhos significa isso?

— Exatamente isso – Ele olhou pela janela, para a piscina onde sua nova família o esperava, e então novamente para a filha. Estava com pressa, queria voltar logo para elas – Você precisa de alguma coisa? Alguma coisa que esqueceu de levar? Dinheiro?

Ela balançou a cabeça em afirmação, ainda incapaz de falar. Não reconhecia o homem à sua frente. O jeito distante como lhe olhava, a maneira automática como pegou a carteira e contou o dinheiro, ansioso por se livrar dela. Duas semanas atrás Penélope estava pedindo benção para ele antes de dormir. Ele lhe deu trezentos reais e levantou, como se tivesse concluído um negócio. A frieza dele lhe surpreendeu quase tanto quanto lhe magoou.

— Querida, eu sei que não é fácil para você. Mas eu preciso reconstruir minha vida, você não quer que eu seja infeliz para sempre, não é?

Penélope sentiu seu sangue ferver. Quem ele pensava que era? Por que ele achava que podia tirar tudo que sempre foi dela, a sua casa, a sua piscina, o seu pai, e estender de bandeja para esse grupo de mulheres estranhas?

— Eu quero voltar pra casa.

— A sua casa é com a sua mãe agora.

— O senhor não viu o lugar pra onde ela me levou! É sério, eu...

Ele bateu na mesa, um som alto que a fez pular na cadeira.

— Já chega, Penélope! Você vai voltar para a sua casa, e nós vamos nos ver no dia marcado. Eu não quero ouvir os seus dramas adolescentes sobre isso, você já tem idade o suficiente para entender. — Ela acenou com a cabeça, sentindo as lágrimas raivosas rolarem pelas suas bochechas. Enquanto a loucura da mamãe era o suficiente para que ela tivesse um colapso, a frieza do papai ia o seu coração. — Agora você vai voltar comigo para a piscina, vai cumprimentar todo mundo e então vai embora. Vai ser educada, nem que seja uma vez na vida!

Penélope se deixou ser puxada pelo pai de volta para a área externa, limpando as lágrimas pois não queria que ninguém visse. Se sentiu humilhada, especialmente pelo sorrisinho de deboche da Barbie. Penélope deu um sorriso, sua voz tão limpa que ninguém diria o quanto ela queria explodir todos.

— É uma pena que eu tenha conhecido vocês assim. Tenho certeza que vamos nos dar muito bem.

A Barbie lhe olhou surpresa, não esperando a aceitação. Penélope lhe deu o seu sorriso mais falso quando ela se aproximou para lhe abraçar, e então empurrou a mulher com tanta força que ela caiu na piscina espalhando água para todo lado.

— Sua aproveitadora trambiqueira cafona. — sibilou. — Espero que você se afogue.

Ela não ficou para ouvir o choro das meninas ou os gritos do seu pai, guardando o dinheiro no bolso e marchando para fora.

Quando saiu de casa Marcos lhe esperava no mesmo lugar. Ela fico parada na porta de casa por um momento, ainda em choque no giro de 360º que sua vida tinha dado. Quando saiu da casa da mãe ainda acreditava que tudo iria se resolver, mas algo dentro dela agora lhe dizia que não iria. Era como se seu pai tivesse se divorciado dela também, e isso me fazia odiar todos eles, porque ela precisava odiar alguém.

Marcos falava ao telefone, e parecia discutir com alguém. Quando a viu, se despediu e sorriu.

— Olha, não precisa mesmo do dinheiro, viu? Se você me pagar, deixa de ser uma boa ação – brincou.

Sem responder, ela entrou novamente no carro. Marcos se virou para ela, curioso, mas ela permaneceu olhando para a frente, calada e parada como uma estátua.

— Voltamos? – ele perguntou, sua voz sem brincadeiras.

Penélope assentiu milimetricamente, e ele pareceu entender que ela não estava a fim de conversa. Não me movo por todo o trajeto, e quando ele estacionou o carro novamente em frente ao seu novo lar o céu já estava escuro. Foram horas para ir e horas para voltar, mas ele não reclamou. Penélope queria lhe agradecer, mas tinha medo de chorar se abrisse a boca.

— Eu não quero ficar aqui – deixou escapar sem perceber.

— Para onde você quer ir?

Não fazia sentido para ela que ele estivesse disposto a ficar dando voltas pela cidade. Mas talvez ele também não quisesse ir para casa. Ela sabia que não queria. Encarou o garoto bonito que lhe observa. Será? Por fim, ela sorriu para ele, o melhor que conseguiu. Ela precisava se distrair.

— Eu não sei. – e era verdade. Sentia como se a casa de seu pai estivesse suja agora, e não queria voltar para lá. Não queria ir para a casa de nenhuma amiga pois sabia que iriam fazer muitas perguntas – Para onde você quer ir?

Ele se inclinou mais no banco, ficando mais confortável e se virou para ela. Um dos braços apoiados na janela do motorista e o outro tamborilando na própria coxa. "É um tique", percebeu. Ela gostava de como ele a olhava. Não era desejo ou a maneira faminta da maioria dos homens, mesmo que ela visse um claro interesse no seu olhar.

— A minha avó tem uma casa no interior. Fica bem na beira do rio, e eu gosto de ir para lá quando quero me esconder. Eu iria para lá agora. E você?

— Não sei. Vale um lugar onde eu nunca fui? – ele assentiu – Então eu iria pro Japão, só porque é bem longe daqui.

— Você odiou o prédio, hein? – ele riu, e a risada dele preencheu o carro e arrepiou sua pele – Por isso saiu correndo. Mas dá pra entender, se você morava naquela outra casa antes.

— Eu não quero falar sobre os meus pais – avisou.

— Tudo bem.

— Você mora com seus pais? – tentou puxar assunto, sem entender porque subitamente tinha ficado tão ruim naquilo.

— Eu não quero falar sobre os meus pais – ele fez uma imitação ruim da sua voz, que a fez rir apesar de tudo.

Penélope se sentia um por cento melhor, mas um por cento era pouco demais. Será que sua mãe sabia sobre a nova mulher? Ela devia saber. Ou, se não soubesse, Penélope poderia contar e então ela iria fazer alguma coisa, lutar pelo casamento de alguma forma. Mas Penélope desistiu antes mesmo de começar porque sabia que isso não ia acontecer.

"Ela não se importa com papai ou comigo o suficiente para tentar. Só quer saber do filhinho esquisito"

— A vizinhança não é tão ruim assim — Marcos tentou tranquilizar. — Você vai se acostumar.

— Eu não quero me acostumar. — Sua voz saiu muito mais grosseira do que ela esperava.

Desceu do carro, entrando no prédio sem esperar por ele e sem agradecer. Ele logo a alcançou subindo as escadas, e quando chegaram no seu andar ela pensou que talvez ele estivesse lhe seguindo porque não tinha sido pago.

— Obrigada. – Disse finalmente, estendendo as notas amassadas em sua direção.

— Não precisa mesmo, se você insistir eu vou me ofender. – Ele levantou as mãos, sorrindo.

— Então por que caralhos você ainda tá me seguindo? — Ela disse irritada, parando em frente a porta do apartamento.

Ele levantou as sobrancelhas, mas não parecia ofendido com a grosseria. Marcos tirou um molho de chaves do bolso e inseriu uma delas na porta em frente à dela.

— Eu moro aqui. Boa noite, vizinha.

Ele entrou, a deixando sozinha e arrependida no corredor escuro. Além de se sentir estúpida, Penélope pensou como iria entrar. Para sua sorte, a porta estava aberta, e pôde se deparar com a confusão de caixas que ocupavam a minúscula sala. Podia ouvir sua mãe cantando para Rodrigo no quarto dela, de tão pequena que era aquela casa ridícula. Bateu a porta com força, para Maria saber que a filha tinha chegado, e foi para o seu quarto.

Penélope ficou acordada por horas esperando que a mãe aparecesse. Até mesmo seus gritos seriam bem vindos. O dia tinha sido cheio, e ela estava com dor de cabeça, cansada e confusa. A sua vida mudou da água para o vinho rápido demais: primeiro a gravidez tardia da mãe, o bebê defeituoso, o divórcio e aquele lugar horrível. Mas ela parou de cantar e não apareceu.

Ela não conseguiu se segurar e chorou em silêncio até dormir.

Notas finais
A Penélope adolescente era um porre, vai. Mas acho que qualquer uma que tivesse sido criada como ela foi também seria, especialmente depois de ficar pobre da noite pro dia. Tô ansiosa pra vocês conhecerem mais da origem desse casal ;)