Fúria
3 Capítulo 2 - Marcos (2022)
I think I've seen this film before
And I didn't like the ending
— O que ele fez, Penélope? Me explica o que aconteceu.
Estavam sentados à mesa da cozinha e ela tomava o copo de água à sua frente devagar, mais para evitar falar do que qualquer coisa. Marcos conhecia aquele truque, e já tinha perguntado tantas vezes que estava quase implorando para ela, pelo amor de Deus, conversar com ele.
Sempre que ele tinha pensado em Penélope ao longo dos anos imaginava como era aos dezoito, quando foi embora. Ela não tinha mudado nada, mas também mudou completamente. Ainda tinha os mesmos olhos azuis e gelados, a mesma expressão irritada, os mesmos cabelos compridos, e estava muito mais bonita. Mas os olhos inchados de tanto chorar, o jeito como ela olhava para a janela sempre que um carro passava e a maneira como não conseguia parar de bater o pé no chão eram novidades, e ele não gostava daquilo.
Não sabia o que o marido tinha feito para ela, mas não precisava saber para ficar com raiva. Marcos seria capaz de matar ele se o desgraçado aparecesse na sua frente naquele momento, e ele se considerava uma pessoa pacífica.
Penélope o olhou mas não respondeu imediatamente. Lily e Giovanna chegariam em casa logo, e ele precisava saber o que dizer para elas.
— Ei. A minha filha vai chegar em casa a qualquer momento, e eu não acho que a gente vai conseguir conversar depois disso. Ela é fofoqueira demais, puxou pra Marina — deu um sorriso, tentando lhe deixar à vontade.
Penélope devolveu um sorriso fraco e isso o deixou um pouco mais aliviado.
— Eu só... — Ela balançou a cabeça, revirou os olhos para o teto — Eu não deveria ter chegado aqui e feito toda essa cena.
— Você pode fazer quantas cenas quiser, só me explica o que aconteceu.
Então Penélope voltou a ser a garota que ele se lembrava, o olhando de cabeça erguida quando falou, a voz sem vacilar independente do que iria dizer, porque ela era esse tipo de garota:
— Louis me prendeu em casa. Ele pegou os meus documentos, todo o meu dinheiro, e não me deixou ir embora. Ele... Fez mais do que apenas isso. Eu não tenho como voltar para casa, e eu não falo com o meu pai há muitos anos. Não tenho dinheiro, não tenho bagagem, não tenho nem documentos. Você foi a única pessoa que eu consegui pensar. Eu não queria te envolver nisso, mas eu preciso de um lugar pra ficar. Eu consegui fugir da casa dele e fui pra Itália. E então eu...
— Encontrou a Marina — completou, e ela acenou.
É claro que a sua irmã estaria envolvida. Era quase impossível Penélope encontrar o seu endereço do nada. Isso explicava a urgência que Marina tinha em falar com ele, e Marcos se arrependeu de ter ignorado as chamadas, mesmo que não tivesse sido de propósito. Todas as vezes em que ela ligava, Marcos estava de plantão.
— É claro que você pode ficar aqui, todo o tempo que precisar.
Ela relaxou, e só então Marcos percebeu o quanto Penélope estava nervosa. Ela realmente achou que ele diria não?
— E o que a sua mulher vai achar disso?
Lily não passou pela sua mente. Ela não iria gostar, mas Marcos não tinha como mandar Penélope embora. Aline nunca permitiria aquilo, mas Lily não sabia da história dos dois. Ele disse a si mesmo que não era uma mentira, e sim uma omissão.
— Noiva — corrigiu. — Ela não vai se importar.
Não havia mais traços de choro no rosto de Penélope além do inchaço nos olhos, e ela deu um sorriso enorme e carinhoso que não deveria lhe afetar tanto quanto afetou. Precisou lembrar a si mesmo que era um homem comprometido.
— Eu tive minhas dúvidas quando Marina disse que você me ajudaria — confessou — Eu pensei que talvez você me mandasse embora.
— Ei, tudo o que aconteceu... Aconteceu. Ficou no passado, certo? Você sempre pode contar comigo para tudo, qualquer coisa mesmo. Nós somos amigos, não somos?
Penélope fez uma careta mas logo mudou de expressão, o abraçando apertado. Ela queria ser mais que amigos? Depois de todos aqueles anos? Ele não podia fazer aquilo de novo, não quando tinha amado aquela mulher muito mais do que deveria. Ela o abraçou com o corpo todo, lhe segurando firme como costumava fazer. As unhas pontudas pressionaram as suas costas, o cabelo longo fazendo cócegas na sua pele.
Era como ter um fantasma no meio da sua cozinha, nos seus braços e cheirando ao mar. Não era o cheiro dela. Quer dizer, ele não deveria mais saber qual era o cheiro dela, mas sabia que não era esse. Não que isso importasse, porque ainda assim era Penélope.
— Para onde você foi? — as palavras escaparam da sua boca antes que ele pudesse evitar, e a mágoa na sua voz o surpreendeu — Eu tentei de encontrar. Te procurei por toda parte.
O corpo dela ficou tenso contra o seu, mas Penélope não se moveu. Marcos quase conseguiu enxergar a sua mente trabalhando, pensando no que dizer. Mas antes que ela dissesse qualquer coisa, ouviram as chaves na porta da frente e Penélope se afastou, nervosa.
— Paaaai — Giovanna cantarolou animada assim que entrou em casa.
Mas ela ficou confusa quando os encontrou na cozinha, talvez percebendo a estranheza da situação. Marcos sabia que Lily não tinha falado nada para ela, talvez para lhe preservar ou porque achou que Penélope não estaria mais ali. Pela maneira como a sua noiva o olhava, ele tinha certeza que era a última opção.
— Que bom que vocês conseguiram conversar e acalmar os ânimos — Lily se aproximou com um sorriso educado, estendendo a mão para Penélope. — Eu sou a Lily. Você está melhor?
Penélope deu um sorriso ensaiado, arrumou a postura e até sua voz mudou ao responder. Marcos se perguntou se era tão óbvio para mais alguém que ela estava atuando.
— É um prazer. Bem, vou subir um pouco e deixar vocês conversarem.
— O quarto de hóspedes é no final do corredor. Você pode ficar no meu quarto se quiser, porque ele tem banheiro, nós arrumamos melhor as coisas depois.
Ela subiu as escadas como se tivesse vivido ali uma vida inteira, e Marcos não conseguiu evitar reparar como ela cambaleou por um segundo, se segurando no corrimão. Não era como se a casa fosse grande e ela tivesse algum problema para encontrar o quarto, mas ele sabia que a maneira como ela se afastou deles sem pedir ajuda era apenas porque ela queria evitar o contato.
Lily cruzou os braços, incomodada e esperando uma explicação, e Giovanna ficou ainda mais interessada na situação, ansiando por uma história. Ele reprimiu sua vontade de ir atrás de Penélope, de se certificar de que estava tudo bem. Disse a si mesmo que era apenas a preocupação de um bom anfitrião.
— O que significa isso, Marcos? O que essa mulher vai fazer no seu quarto?
— Penélope é uma amiga de Marina, ela foi nossa vizinha — Ele omitiu que ela foi sua namorada por quatro anos, porque isso só adicionaria mais drama na situação. — Ela está com problemas, e eu disse que ela poderia ficar aqui por um tempo.
— Quanto tempo? — Giovanna perguntou.
O silêncio fez Lily bufar, exasperada.
— Como você pode fazer uma promessa dessas sem falar comigo antes? O nosso casamento está quase chegando e você decide abrigar uma pessoa sem nem me avisar nada? Isso é uma falta de respeito!
— Deixa de ser dramática — Giovanna revirou os olhos, e Marcos sabia que ela fazia isso só para provocar Lily. — A casa é do meu pai e ele pode abrigar quem quiser, se toca.
— Giovanna! — o seu tom era de aviso, mas a adolescente simplesmente deu de ombros.
Giovanna ainda não tinha aceitado muito bem o noivado, mesmo que ela não tivesse dito isso abertamente em nenhuma das vezes que Marcos perguntou. Ela sentia saudades da mãe, que agora conseguia ver apenas nas férias. Mas a resistência não dita da filha era o motivo de ainda não terem marcado uma data.
— Vai pro seu quarto, por favor. Eu converso com você depois.
— Ah, pera aí, né? — ela bateu o pé no chão, irritada, e apontou pra Lily — Então ela pode dar pitaco em quem fica e quem vai e eu não? Ela nem mora aqui ainda, nem deveria ter direito a voto.
— Isso não é uma votação, Giovanna — A conversa começou a lhe dar dor de cabeça — Eu só quero conversar com Lily e explicar a situação.
Ela cruzou os braços novamente e não se moveu. Lily foi em direção a sala, provavelmente porque já estava ficando irritada. Ela era muito paciente com as birras de Giovanna, mas Marcos conhecia a noiva e sabia que ela estava chegando ao seu limite.
— Pois se tiver uma votação eu quero que a Pâmela fique! Esse é o meu voto, ouviram? E o meu voto vale por dois porque eu voto pela minha mãe também.
— Penélope — corrigiu. Então ouviu a porta bater, e sabia que Lily estava indo embora. — Giovanna, não tem votação. Ela fica e ponto final. Agora vai mostrar a casa para a Penélope, que tal? E nós vamos ter uma conversa séria depois!
Ela ainda estava resmungando quando Marcos saiu, correndo para alcançar Lily antes que ela entrasse no carro.
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