Fúria
4 Capítulo 3 - Penélope (2022)
I didn't have it in myself to go with grace
And so the battleships will sink beneath the waves
Penélope estava olhando pela janela quando viu a mulher sair quase correndo, parecendo raivosa, e Marcos indo até ela. Ela admitiria que ficou com uma pontada de ciúmes. Decidiu não ficar olhando os dois e se sentou na cama. Podia sentir a diferença de fuso horário acabando com ela, mas sabia que se dormisse não acordaria tão cedo.
Por um segundo ela pensou em falar tudo para ele. Pegá-lo pela mão e obrigar ele a se sentar na sua frente, e então passar horas e horas e horas falando sobre a sua vida e tudo que aconteceu, nos mínimos detalhes. Mas era uma idiotice, e ela não conseguia evitar se lembrar de como costumava complicar a vida dele. Então decidiu ficar quieta, fazer o que precisava fazer, se restabelecer e então ir embora.
Ainda estava sentada na beira da cama do quarto de hóspedes e considerando as suas opções quando a filha dele se aproximou, se inclinando contra a porta. Ela lhe olhou curiosa como um gato, analisando. Penélope cruzou as pernas, deu um sorriso falso, e as duas se encararam por um tempo, sem ninguém dar a primeira palavra.
— Eu sei quem você é — revelou finalmente, como se fosse um grande segredo — Minha avó me falou.
Penélope não resistiu a revirar os olhos, e só depois considerou que a adolescente poderia ficar ofendida com isso.
— Acredite em mim, a sua avó nunca gostou de mim. Ela é uma bruxa e não é uma fonte confiável.
Talvez ela gostasse da avó, ficasse ofendida e falasse para Marcos lhe jogar no olho da rua, mas Penélope não considerou isso porque para ela era impossível que alguém goste daquela mulher. Giovanna a olhou, surpresa e chocada com a empáfia, e então deu uma risada tranquila que lembrava muito a do pai.
— Eu também não gosto dela — descruzou os braços, de bom humor, e então instigou, quase acusando: — Mas papai não me deixa chamar ela de bruxa.
— Ah, bem. Que sorte que o seu pai não manda em mim, então.
Ela olhou ao redor do quarto, como se contasse a sua bagagem invisível. Penélope não sabia o que ela imaginava, mas com certeza não queria que uma adolescente ficasse com pena dela. Ela deu um sorriso educado que não parecia falso, apesar de ser. Ela era especialista em sorrisos falsos e mentiras.
— Eu acho que o meu pai gosta de você — comentou — Ele escondeu Lily de mim por meses, sabe, e você já até mora com a gente agora.
— É só por um tempo, até eu me restabelecer. O seu pai sempre teve o péssimo hábito de ajudar as pessoas.
— Lily ficou muito irritada — mas nada na expressão dela dizia que ela se importava. Ela quase sorria.
— Você não gosta dela?
Giovanna revirou os olhos novamente e olhou Penélope como se ela fosse uma grande idiota. Penélope definitivamente tinha se esquecido de como os adolescentes eram bons nisso. Então se afastou da porta e foi para o seu quarto, fechando a porta com um baque.
*
Marcos apareceu pouco depois, com cara de poucos amigos. Ele tinha uma pilha de roupas nas mãos, e as deixou na cama ao seu lado. Ela estava deitada, olhando para o teto e repensando os seus planos, mas se sentou assim que ele se aproximou.
— Eu peguei algumas roupas da Giovanna, mas não sei se dão em você. Eu posso pedir para Lily separar algumas roupas.
Penélope não disse que preferia andar nua a vestir as roupas usadas pela sua noiva, mas ele parecia saber disso porque sorriu para ela. Marcos pegou um vestido preto longo, sem alças, e estendeu na sua direção.
— Acho que esse ficaria bom, que tal? Talvez fique um pouco mais curto. — Ele estava tentando lhe deixar à vontade, sendo gentil, e isso a deixou mais tranquila.
— Deve ficar bom — ele entregou a peça e Penélope ignorou o que o toque dele faz na sua pele. — Eu posso te pedir um favor?
— Todos.
— Você pode me levar até a casa do meu pai? — o sorriso dele desapareceu, e Marcos franziu a testa. — Eu vou tentar falar com Nayara, talvez ela me consiga algum dinheiro.
— Claro. — ele parecia ter engolido alguma coisa amarga, mas tentou disfarçar. — Você se arruma, e eu te espero lá embaixo.
*
Penélope tomou um banho rápido e gelado no banheiro do corredor, tentando ficar acordada, e foi até o quarto de Marcos para pegar uma blusa no seu guarda-roupa. Colocou uma das blusas de botões por cima do vestido longo para esconder seus braços. O conjunto final era algo que ela nunca usaria, e que fez Marcos lhe olhar desconfiado por um momento assim que desceu as escadas.
— Está tudo bem?
— Sim, obrigada. A sua filha não vai implicar pelas roupas?
— Giovanna, estamos saindo. Tranca as portas, eu te amo, vou trazer a janta na volta! — ele gritou, e ela respondeu do seu quarto com um grito de "ok". Só então ele respondeu: — Ela vai implicar com tudo, porque é adolescente. Mas você não precisa se preocupar com isso.
Quando saíram, alguns vizinhos curiosos a observaram enquanto entrava no carro de Marcos. Penélope odiava a vizinhança fofoqueira. Quando ele deu partida no carro, suspirou aliviada por se afastar das pessoas.
— Quando foi que você e Nayara ficaram amigas?
É claro que Marcos ficou surpreso que ela fosse procurar ajuda da meia irmã, pois nos quatro anos em que namoraram elas sequer se falavam e Penélope costumava ter brigas gigantescas com a madrasta. Não que fossem amigas, mas o relacionamento melhorou durante a vida adulta.
— Depois que mamãe morreu. Nós nos encontramos algumas vezes depois que eu me casei, ela foi o único contato que eu mantive com o meu pai. Não somos melhores amigas, sabe... Mas talvez eu consiga alguma coisa dela. — Ela pensou no pai, em Louis e em Franco, e decidiu mudar de assunto. — Já chega de falar de mim. Me fala da sua vida, o que você faz, a sua filha.
Marcos riu e lhe olhou de canto de olho para não tirar os olhos da rua. A risada dele continuava exatamente igual, e ele ainda tamborilava os dedos no volante.
— Você continua tão sutil quanto sempre. Bem, eu me casei. A Giovanna chegou na minha vida e virou tudo de cabeça pra baixo. Me divorciei há uns três anos. Eu conheci Lily no trabalho ano passado, ela também é médica. Nós ficamos noivos uns meses atrás.
— Não acredito que você é médico — mas ela não estava surpresa, não de verdade. Marcos deu uma risada novamente, e Penélope sabia o quanto ele estava se esforçando pra lhe deixar a vontade, fingindo que as coisas continuavam iguais.
— Isso é um elogio ou uma ofensa?
— Não seja ridículo, é claro que é um elogio.
Ela podia sentir o sorriso dele, mesmo que tentasse não olhar tão fixamente para o seu rosto.
— Por que Giovanna não mora com a mãe?
Penélope analisou o rosto dele em busca de algum nervosismo, talvez ele desviasse o olhar ou passasse a mão pelo cabelo. Mas Marcos sorriu tranquilo, parecendo satisfeito com a vida que levava. Isso a deixou feliz. Tudo que ela sempre quis para ele foi um amor tranquilo, uma vida leve e boa, e ele parecia ter conseguido.
— Nós concordamos que seria melhor se ela ficasse comigo. Mas ela passa as férias com a mãe, está aprendendo espanhol. Talvez ela faça faculdade na Argentina, eu morro de saudades só de imaginar.
— Você é um pai babão — Confirmou o que eu sempre soube que ele seria.
— Ela é maravilhosa — ele ri, tamborilando os dedos no volante. – Mas todo pai acha isso, né? Ela vai fazer catorze anos. É muito inteligente, muito engraçada. Muito linda também. Um pouco mimada, mas a culpa é minha. Me lembra um pouco você, sabia? – confessou sorrindo para ela, e o sorriso dele lhe desmontou. — Mimada, rebelde, mas maravilhosa.
Ela ficou enciumada, mas só um pouquinho. Queria ter uma filha sobre quem falar, ou que alguém sorrisse assim ao falar dela. Qualquer um dos dois seria bom.
Penélope não falava com o pai há anos, nem com ninguém da família. Mas se estivesse certa ele deveria estar na casa de praia naquela época do ano, provavelmente com a esposa número 3. A mãe de Nayara foi a número 2, e a dela tinha sido a número 1. Talvez a número 3 fosse a que finalmente daria um filho para ele, e então Carlos pararia de trocar de esposas como se fosse a porra do Henrique VIII.
Na portaria, o segurança sequer olhou para os dois antes de deixá-los entrar. "A segurança costumava ser melhor", ela pensou com satisfação. "Eu fico feliz que a minha vida não seja a única que piorou."
Estranhamente, percorrer as ruas do condomínio onde tinha crescido lhe afetava muito menos do que tinha imaginado. Os gramados enormes, as casas com fachadas quadradas de vidro e concreto, os jovens com roupas de grife que caminham em grupinhos... Ela tinha vivido o suficiente daquilo na França, o bastante para saber que os ricos daqui eram amadores comparados aos de lá.
Marcos dirigiu até a casa do seu pai, e ela disse a si mesma que não significa nada que ele ainda conhecesse o caminho. A casa tinha sido reformada e agora era uma atrocidade de alumínio e vidro que lhe lembrava uma loja de construções. Penélope estremeceu, lembrando da última vez que tinha estado ali com Marcos, no dia que mudou sua vida.
— Você quer que eu espere aqui?
— Não! — a sua resposta foi rápida demais, alta demais, e surpreendeu os dois — Quer dizer... Se você puder vir comigo eu agradeceria. Eu... Não quero ficar sozinha lá.
A campainha também tinha um som diferente, e ela se apoiou contra Marcos por um momento enquanto esperavam alguém atender. Porque estava tão cansada, mas também porque ficou perdida no tempo por um segundo. Estava feliz de ter tomado banho e trocado de roupa, porque assim não pareceria tão destruída naquele reencontro familiar.
Mas não foi Nayara quem atendeu, e sim Mimi.
— Você.
Sua ex-melhor amiga lhe analisou dos pés à cabeça, surpresa, e então olhou para Marcos do jeito que sempre olhou. Penélope deu um sorriso e fez o mesmo. Mimi usava um vestido preto parecido com o seu, mas de marca. A presença dela não era uma novidade bem-vinda e atrapalhava seus planos.
— Mimi! Há quanto tempo! Minha nossa, como você está? — Ela deu uma risadinha que poderia ser divertida se ainda fossem amigas — Ainda me usando como referência, eu posso ver.
Mimi ficou imediatamente furiosa, como sempre. Penélope ficou alegre em ver que ainda podia mexer com ela tão facilmente, uma pequena vitória em meio a toda a sua bagunça.
— O que você está fazendo na minha casa?
Entrou, empurrando a ex-amiga da sua frente e puxando Marcos pela mão. Não queria que ele lhe deixasse sozinha ali. Olho ao redor, mas apesar da decoração diferente aquela ainda era a casa do seu pai.
— Sua casa? Acho que você está confusa, Mimi.
Ela bufou, batendo a porta com tanta força que um dos quadros caiu da parede.
— Ninguém mais me chama por esse apelido. Você tem muito o que se atualizar. O que você está fazendo aqui? O seu maridinho te largou porque percebeu que você é uma víbora? Ou você resolveu assumir a grande vagabunda que sempre foi e trazer o seu amante até aqui para apresentar ao seu pai?
Marcos apertou a sua mão com medo que ela avançasse em Mimi, como já tinha feito no passado, e Penélope sorriu para ela, dessa vez mostrando todos os seus dentes. Quando eram crianças a loira tentava ser uma cópia dela em tudo, mas depois que romperam a amizade ela fez de tudo para ir ficar diferente, como se fosse alérgica a ela.
— Eu sinto muito que os seus sentimentos por mim ainda não tenham passado, Mimi. Mas você precisa entender que nunca vai acontecer nada entre a gente. Me atacar não vai mudar isso.
— Eu não sinto nada por você! — Ela berrou, perdendo o controle. Avançou na sua direção, mais irritada do que nunca, e Penélope permaneceu firme — Eu nunca senti nada por você! Você destruiu a minha vida com as suas mentiras e eu não vou cair mais nos seus joguinhos, sua vadia mentirosa!
Ela ainda tinha muita raiva de si, Penélope comprovou. As mãos apontando para ela, cuspindo quando falava, sem nenhuma compostura. Penélope até se sentiu um pouco mal por tudo que fez para ela no passado, mas não o suficiente para parar de lhe provocar. Sua mente girava com o cansaço, seu coração acelerado por estar ali, e provocar Mimi era uma boa distração.
— Tudo bem — usou a voz que usaria para falar com uma criança, só para lhe irritar mais — Se você está dizendo, nós acreditamos. Você pode chamar Nayara para mim agora, por favor?
Mimi sorriu por um segundo, vitoriosa como se tivesse um trunfo na manga.
— Então você não sabe? — ela estendeu as mãos novamente, e só então os dois viram um anel de diamantes na sua mão esquerda que brilhava quase tanto quanto o seu sorriso — Eu e o seu pai estamos noivos.
Penélope sentiu Marcos ficar tenso, talvez antecipando a sua reação. Ela pensou na sua mãe, na esposa número 2 e na esposa número 3. Em tudo que tinha passado nos últimos anos, e na longa, longa viagem de volta ao Brasil. O pensamento que resumiu tudo foi: "tudo isso é ridículo. A minha vida inteira é ridícula, uma piada."
Deu uma gargalhada alta, sem conseguir se controlar. Talvez fosse a ridicularidade da situação, ou a mudança de fuso horário, ou como Mimi parecia idiota parada alí, no meio da sala onde brincavam de Barbie anos atrás, exibindo o anel de noivado de um homem que colecionava esposas e carros esportes, nunca satisfeito. Era demais, era simplesmente demais para lidar quando ela não dormiu nas últimas 48h.
Se sentou no sofá, ainda rindo, e precisou limpar as lágrimas. Ela nem viu quando Mimi foi na sua direção, ou quando Marcos se colocou na frente, uma barreira entre elas duas.
— Do que você está rindo? — rosnou, ofendida, tentando lhe alcançar — Do que você está rindo? Qual é a graça?!
— Estou rindo porque você é uma idiota — não conseguiu evitar a gargalhada.
— Ah, então é por isso que Iasmim está gritando.
Iago apareceu no corredor usando apenas uma sunga apertada e uma toalha ao redor do pescoço. Ele tinha uma corrente de ouro e um sorriso ridiculamente grande, os mesmos cabelos compridos de quando eram adolescentes e o mesmo ar cafajeste.
Só então Iago passou pela sua mente, acendendo uma luz. Ele costumava ter contatos, costumava fazer mais mal do que bem, protegido pela família rica e pelo status social. Ele já tinha feito coisas por ela antes, não poderia fazer agora? Pela maneira como ele olhou, lhe devorando com os olhos mesmo depois de todos esses anos ela pensou que poderia, sim.
Mas era exatamente pela maneira como ele a devorava com os olhos que ela se retraiu. Iago não era uma boa pessoa, era mais parecido com Louis que com Marcos. Decidiu guardar a lembrança dele, pois poderia ser útil no futuro.
— A sua irmã é uma histérica — respondeu, levantando do sofá enquanto limpava as lágrimas e ficava ao lado de Marcos. O olhar de Iago foi de um para o outro e ele ficou irritado, um vislumbre da rivalidade que só existiu na cabeça dele — Aparentemente ela continua tão obcecada por mim quanto antes, já que resolveu até se casar com o meu pai. Nós vamos até o escritório pegar uma coisa e vamos embora.
Segurou a mão de Marcos novamente, mas Iasmim voltou a se colocar no seu caminho antes que pudessem sair da sala. Penélope podia sentir como Marcos estava tenso, desconfortável, e se perguntou se ele estava lembrando da ultima vez que esteve ali. Mimi estava descabelada, descontrolada, e lhe deixava cansada só de olhar a cena. Sua ex-amiga lhe empurrou com força, e Marcos precisou lhe segurar para que ela não caísse.
— Essa casa é minha e você não vai a lugar nenhum! — apontou o dedo para os dois — Até onde eu sei você e esse bandido invadiram a minha casa e podem fazer sabe-se lá o que comigo e com meu irmão, eu vou chamar a polícia.
Penélope não levou a sério até que ela puxou o celular do bolso e começou a digitar. Imediatamente pensou que a última coisa que precisava era de um escândalo que tornasse mais fácil lhe rastrear. Sabia que Louis está procurando, e ele definitivamente não precisava da ajuda de Iasmim para isso. A sua paciência com ela se esgotou, e Penélope arrancou o celular das mãos da loira antes que pudesse completar a chamada.
Mimi sempre chorava quando ficava nervosa. Ela tinha sido uma criança insuportável de lidar, e então uma adolescente carente e necessitada por atenção. Lutou com Penélope pelo celular, chorando, e gritou mais quando Penélope o jogou dentro do vaso de plantas. Iago riu da cena e Marcos chamou seu nome, preocupado.
— Iago, liga agora pra polícia! — ela estava descontrolada, gritando, e isso irritou Penélope. Se tivesse dormido nos últimos dois dias, teria mais paciência para lidar com Mimi. Se ela não tentasse lhe bater, também. Empurrou Mimi com força e ela tropeçou, caindo contra a mesinha de vidro.
Marcos chamou o seu nome como um aviso e tentou lhe segurar, mas Penélope se desvencilhou dele com facilidade, cega de raiva. Tudo que ela podia ver era a ex-amiga, que continuava no chão gemendo de dor sob o vidro. O sangue de Mimi começou a escorrer pelos seus braços.
— Penélope, já chega! — mas ela desviou de Marcos, indo em direção a Mimi. Sua cabeça doía, os pontos nos seus braços doíam. Ela queria ir pra casa, queria ter uma casa, queria segurança e paz, queria nunca ter tido que voltar ali.
— Essa casa é minha, do meu pai — vociferou para Mimi, se aproximando — Eu poderia te arrastar daqui pelos cabelos se eu quisesse, mas eu não quero. Não me provoque, entendeu? Não me provoque ou vou fazer você se arrepender de novo.
Sentiu Iago lhe puxar pelos braços, lhe afastando da sua irmã. Sabia que não era Marcos porque ele segurava com tanta força que lhe machucou.
— Ela já entendeu, Pê, já chega. Se você continuar com isso eu vou chamar os seguranças. Qual é, se comporta. É a primeira vez que eu te vejo em anos, a gente não pode se divertir ao invés de arrumar confusão?
Mas ele segurava com tanta força que os cortes em seu braço reabriram. Ela sentiu os pontos soltarem e deu um gemido de dor.
— Não encosta a mão nela! — a voz de Marcos era um aviso, mas isso só faz Iago lhe apertar com mais força, um sorriso desafiador nos lábios.
— Ou o que? O que você vai fazer, seu favelado?
— Eu vou quebrar a sua cara de novo — vociferou, ameaçando — E dessa vez ninguém vai me impedir.
Penélope se inclinou e mordeu o ombro de Iago com força, o que fez ele lhe empurrar, assustado. Ele gritou, e ela pensou quantos gritos os vizinhos ainda iriam ouvir antes de chamarem os seguranças ou a polícia.
Marcos estava furioso quando lhe amparou. Ela percebeu que o sangue estava passando pela camisa, pingos vermelhos manchando o tecido azul nos dois braços, exatamente onde Iago tinha segurado. Mimi ainda estava no chão, soluçando, e Iago observava a marca dos dentes no seu ombro. Penélope analisou o caos que instaurou em tão pouco tempo e decidiu que era melhor irem embora antes que algo mais acontecesse.
— Está doendo? — a voz de Marcos era calma, mesmo que ela notasse o quanto ele estava irritado. Ele desabotoou a blusa rapidamente, antes que ela pudesse protestar, e ofegou quando percebeu o longo corte de mal-costurado que se iniciava no meu braço direito, atravessava o colo e terminava no ombro esquerdo. Mas quando notou os cortes menores espalhados nos dois braços, ele lhe encarou, lívido — Penélope...
Ficou com vergonha por ele lhe ver assim. Esse era o sentimento que predominava, mesmo que no fundo Penélope soubesse que não deveria sentir vergonha. Não por isso, pelo menos. Ela fechou a blusa antes que Iago pudesse ver, pois ele se aproximou novamente dos dois.
— Você quer brincar? É isso? Era só ter pedido, Pê. Pra você eu nunca digo não. O seu namoradinho favelado sabe disso, não sabe?
Marcos ignorou Iago, que não parava de falar. Mimi estava choramingando, Iago estava falando, e ela não conseguia prestar atenção no que Marcos tentava dizer. Tudo era um caos, e tudo era demais, demais, demais. Penélope estava com sono, exausta, dolorida, falida, queria chorar, mas não daria o gostinho de chorar na frente daqueles dois.
Ela queria se concentrar o suficiente para esquecer a dor nos braços, o cheiro de sangue que invadiu a sala e a gritaria dos irmãos para que ela pudesse pensar. Mas Iago não estava satisfeito, e quando ele segurou o ombro de Marcos, o empurrando para que saísse do caminho, Penélope podia ver que as coisas iam sair do controle.
— Não encosta a mão em mim. — Marcos não falou, ele ameaçou. Estava furioso de um jeito que ela só viu poucas vezes. Ele sempre se esforçou tanto para não perder o controle.
— Você não quer um segundo round, porra? Então vamos lá!
— Marcos, vamos embora. Você, — ela rosnou para Iago, irritada por ele ter feito Marcos ver esse machucado — controle a histérica da sua irmã. É o mínimo que você pode fazer por mim.
Marcos lhe seguiu para fora de casa, e nenhum dos dois respondeu quando Mimi gritou, chorando, dizendo que a culpa era dela, que tudo sempre era culpa dela. Iago estava ajudando a irmã a se levantar, e piscou para Penélope antes que ela saísse pela porta.
Entraram no carro, e ele dirigiu em silêncio até chegarem na sua casa. Pressionava o volante com tanta força que seus dedos estavam brancos. Penélope dobrou a manga da camisa o suficiente para que o sangue não aparecesse mais, mas ainda cobrisse o corte. Marcos permaneceu em silêncio, e agora com menos adrenalina, Penélope se preocupou que ele estivesse com raiva dela. Raiva por ter se envolvido na sua confusão, raiva por ela ter machucado Mimi. Raiva por ela sempre causar danos, aonde quer que fosse.
Mas uma voz na sua mente lembrou que ele já tinha passado por isso antes, e que ele sabia exatamente no que estava se metendo quando a aceitou de volta na sua vida. A voz estava certa, mas não diminuiu a tristeza de Penélope, ou a culpa.
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