Félix & Niko - Dias Inesquecíveis

33 O Pequeno Príncipe Carneirinho - parte 2


Notas iniciais
continuação... Nada é complicado para as crianças... O mais simples é o mais inteligente e inteligível!

Félix pensou... Coçou a cabeça... Pigarreou... Tentou... Mas, não esperava por aquela pergunta, muito menos fazia ideia do que responder.

– É... Por que... É... Quer saber, Fabrício, é melhor você perguntar isso a seu papi Niko, por que ele sim vai saber o que dizer...

– Mas você não disse que era o mais inteligente daqui, papai Félix?!

– E sou, ora, mas... Ele vai te explicar isso melhor, tá?!

– Tá...

Félix tratou de distraí-lo antes que ele fizesse outras perguntas como essa.

– É... Então Fabrício... Quer jogar um jogo no computador?!

Eles ficaram brincando. Fabrício se distraiu naquele momento, mas Félix nunca havia reparado que crianças têm boa memória.

–--

Niko voltou pra casa à tarde.

– Tudo bem por aqui? – Perguntou a Félix, depois de dar-lhe um beijo.

– Tudo, carneirinho... Bem...

– Tudo mesmo?! Cadê os meninos?

– Estão lá em cima... O Jayme, finalmente, largou o tablet para brincar um pouquinho com o Fabrício! Mas, eles acabam brigando quase todo dia...

– O Jayme já é, praticamente, um adolescente, aí as brincadeiras do Fabrício ficam sem graça pra ele!

– Pois é... Por falar no mini-carneirinho, ele está com a curiosidade à flor da pele... Prepare-se!

– Me preparar? Para quê?!

Félix jogaria a responsabilidade de responder as perguntas de Fabrício para Niko, mas, ele não admitiria isso.

– Bom, carneirinho... Ontem você ficou com um ciúme bobo por que eu passo mais tempo com o Fabrício e, consequentemente, acabo ensinando mais coisas a ele, o que faz o menino preferir ficar comigo! Então, eu disse ao nosso filho que hoje você que responderia as perguntas dele... Que tal?!

– Ah... Tá, tudo bem! Eu respondo tudo que ele quiser saber!

No mesmo momento, Fabrício veio ao encontro do pai.

– Papai Niko...

– Oi, meu filho!

– Papai... Por que os outros têm mãe e eu tenho dois pais?!

Niko olhou para Félix, que disse:

– Eu te avisei... Agora responde!

Niko notou que Félix havia jogado para ele “descascar o abacaxi”, já Félix notou que Niko não se surpreendeu tanto com a pergunta do menino quanto ele.

– Olha, meu filho, eu vou te explicar! Vamos lá pra cima...

Niko levou Fabrício, mas, Félix não aguentou a curiosidade e foi ouvir como Niko explicaria essa questão.

Sentado de frente para Fabrício, no quarto do menino, Niko começou.

– Meu filho, por que você resolveu fazer essa pergunta hoje?

– A tia mandou a gente desenhar a família e depois mostrar quem era cada um no desenho... – Fabrício tirou o desenho da mochila e mostrou a Niko. – Eu desenhei você, aqui o papai Félix, o Jayme e eu! – Foi mostrando apontando cada um. – A tia disse que ficou lindo e aí o Bernardo que senta perto de mim me perguntou por que é que eu tenho dois pais e não tenho mãe!

– Ah... Então, foi por isso?! Seu coleguinha te perguntou e você quer saber?!

– É!

– Bom, Fabrício, me diz uma coisa... Esse seu coleguinha, Bernardo, tem pai e mãe?

– Tem!

– E o coleguinha que senta do outro lado, qual o nome dele?

– É uma menina, a Júlia!

– A Júlia tem pai e mãe?

– Tem... Mas, a Júlia mora com a avó dela, ela desenhou...

– Ah, a Júlia mora com a avó... E você sabe por que sua coleguinha mora com a avó?

– Hum... Ela disse uma vez que o pai dela mora longe e a mãe dela trabalha o dia todo, aí quem cuida dela é a avó!

– Ah... Sabe, meu filho, cada família é diferente umas das outras! Seu coleguinha Bernardo tem pai e tem mãe, já sua coleguinha Júlia quase não vê o pai porque ele não mora com ela, mas, em compensação, ela tem a mãe e avó que cuida dela...

– E uma irmãzinha... – Lembrou Fabrício.

Niko riu. – É, e uma irmãzinha também! Olha, Fabrício, entre as crianças lá da escola onde você e seu irmão estudam deve haver crianças que moram com o pai e a mãe, outras que moram só com a mãe, outras só com o pai, até outras que têm dois pais e outras que têm duas mães! Algumas crianças até, meu filho, não tem nem mãe nem pai; muitas moram com um parente, que pode ser os avós, tios, padrinhos, irmãos mais velhos... – Ele pegou nas mãozinhas de Fabrício quando percebeu que o menino estava compreendendo. – Existem vários tipos de família! O importante é que a família, seja como for, tenha amor! As pessoas têm que amar umas as outras, por que é do amor que é formada uma família!

O pequeno permanecia olhando fixamente para o pai, ouvindo tudo que ele dizia. Niko, porém, enquanto explicava, já havia notado Félix olhando pela fresta da porta.

– Fabrício, da próxima vez que algum coleguinha perguntar, diga que você pode não ter mãe, mas tem dois pais que te amam muito, muito, muito, e isso basta! Entendeu?!

– Entendi!

– Isso, meu pequeno gênio, me dá um abraço! – Niko abriu os braços e Fabrício pulou nele, abraçando-o. – E sempre que quiser perguntar qualquer coisa pode contar comigo... E com seu papai Félix também, viu! Não é Félix?!

Félix notou que havia sido descoberto. Saiu de detrás da porta e pôs as mãos na cintura dizendo: – Será que eu salguei a santa ceia para ser descoberto tão facilmente?! Não posso mais nem espiar?! — Eles riram e Félix também foi abraçar o filho. Depois, satisfeito com a explicação do pai, Fabrício foi atrás de Jayme para chamá-lo para brincar. Niko e Félix ficaram a sós.

– Viu Félix... Foi mais simples do que você pensou, não foi?!

– Tenho que admitir que foi! Mas, outras perguntas virão...

– Eu sei, e nós estaremos preparados para todas! Conforme as questões forem surgindo, conforme o Fabrício for crescendo, a gente vai esclarecendo, e pronto, simples assim!

– Incrível como você transforma algumas coisas que eu vejo tão complicadas em coisas tão simples, carneirinho!

– E você perdeu a chance de explicar primeiro para nosso filho e bancar o inteligente, não foi, Félix?!

– Ah, mas será que eu pintei de rosa o mar vermelho?! Carneirinho, eu não banco o inteligente, eu sou! Como diria minha querida Márcia, eu sou inteligência pura! E você não fique se achando só por causa dessa conversinha com o Fabrício... Você é bom nisso, mas, inteligência é diferente de discernimento, meu querido!

– Ai Félix, você hein?! Pelo menos, você admite que eu sou muito bom mesmo!

– Ah, isso sim... – Félix levantou e foi saindo, mas antes segurou nos ombros de Niko e susssurrou em seu ouvido. – Você é muito bom... Todo bom!

Félix saiu rindo e Niko pensou: — Esse Félix... Ah, a quem tô enganando... Eu adoro quando ele faz isso!

Depois, Félix foi ficar um tempinho com os filhos, para evitar discussões entre os meninos, enquanto Niko preparava o jantar. Mas, após o jantar, quem discutia era Fabrício e Niko.

– Não Fabrício, meu filho, me dá essa barra, eu já disse que você não pode comer chocolate depois do jantar!

Fabrício não queria entregar a barra de chocolate que havia acabado de pegar da geladeira, mas Niko acabou tomando dele. O menino levou as mãozinhas à cintura e bateu o pé no chão, exclamando:

– Será que eu salguei a santa ceia pra o papai não me deixar comer nada!

Ele saiu para a sala. Niko olhou indignado para Félix que ainda estava sentado à mesa. Félix não conteve o riso.

– É isso que você anda ensinando pro nosso filho, Félix?!

– Eu?!

– Você!

– Ah... Será que eu salguei a santa ceia para você me recriminar agora?! Vou te contar viu...

Ele saiu e Niko continuou indignado pela cara de cínico de Félix. Mas, resolveu chamar todos para se arrumarem para irem ao shopping como haviam combinado no dia anterior.

–--

No shopping...

– Papai, me bota no chão! – Pedia Fabrício que estava nos braços de Félix.

– Tá, mas não corra na frente da gente! – Félix o colocou no chão enquanto caminhavam no parque. Jayme ia distraído, ao lado de Niko.

– Não devia ter posto ele no chão, Félix, sabe que o Fabrício gosta de dar umas disparadas sem esperar por ninguém! Tenho medo que ele se perca...

– Então pega ele, carneirinho, por que eu não vou ficar andando o tempo inteiro carregando o Fabrício! Ele está ficando muito pesadinho... Aliás, puxou a você né?!

– Félix, não me faz brigar com você aqui no shopping, por favor! Isso é um passeio em família, poxa, dá pra parar com suas gracinhas!

– Hum... Dá sim, carneirinho! Desculpa!

– Ainda bem...

Mal Niko acabou de falar, Fabrício correu na frente deles até uma vitrine. O menino olhava para os brinquedos gigantes que estavam do outro lado da loja e dava para ver através da vitrine. Ele nem percebeu que uma mulher o observava de lá de dentro da loja, quando seu pai se aproximou.

– Fabrício, o que foi que eu disse para não correr na nossa frente?! – Reclamou Félix.

– Papai, quero ir no brinquedo! Naquele que roda, no balanço, no pula-pula...

– Você vai! Vem que não é por aqui que entra, é lá do outro lado! Seu papi e seu irmão já estão lá!

Félix o pegou no colo de novo e o levou. A mulher que o observava saiu, se perguntando: — Esse menino... Com o Félix?! Não é possível que seja filho dele! Será que... – Ela o seguiu.

Félix já havia colocado Fabrício no pula-pula que estava cheio de crianças da idade dele, e Jayme foi jogar no fliperama. Ele e Niko então deixaram os meninos lá se divertindo, já que o local era cercado e tinha dois seguranças do shopping cuidando de tudo, e foram ver umas lojas próximas.

Poucos minutos passaram e Fabrício cansou do pula-pula. Saiu e correu até onde Jayme estava com uns garotos maiores.

– Jayme, posso jogar?

– Não! Aqui é para os mais velhos!

– Por quê?!

– Porque sim! Por que você não vai para o balanço?!

– Eu vou mesmo! – O pequeno correu e se sentou no balanço. Quando Jayme viu que o irmãozinho tinha voltado a brincar, ele se distraiu de novo jogando.

A mulher que havia observado Fabrício antes se aproximou do menino.

– Oi! Quer que eu te balance?

Os pais já haviam ensinado Fabrício a não falar com estranhos, então o menino não respondeu de primeira para ela. Mas, ela insistiu:

– Ei, não quer que eu te empurre no balanço?! Você gosta de ir lá no alto? Eu te empurro mais alto que os outros, quer?!

O pequeno balançou a cabeça dizendo que sim. Ela começou a empurrá-lo. O menino estava gostando, balançava os pezinhos e sorria. Depois de alguns minutos ela parou.

– Agora que a gente já se conhece, eu já te empurrei no balanço, me diz... Qual seu nome?

O menino titubeou um pouco, mas acabou respondendo:

– Fabrício!

Ela se surpreendeu... E sorriu.

– Fabrício?! Que nome lindo! E quantos anos você tem, Fabrício?!

– Quatro!

Ela sorriu de novo e pensou: — É ele! Eu sabia! É a cara do Niko! Como está lindo meu Fabrício!

Ela pegou na mãozinha dele.

– Fabrício... Sabia que eu já te conhecia?! Vem comigo?!

O menino não queria, mas ela insistiu.

– Vem, Fabrício! Olha, eu vou me apresentar, meu nome é Amarylis e eu te conheço desde que você nasceu!

Fabrício, esperto, retrucou: — Eu não conheço você! Eu não lembro!

– Ah, é porque você era muito pequenininho para lembrar... Mas, fui eu quem te dei para o seu papai! Aliás, o Félix é o que seu?

– É meu papai!

– É? E o Niko?

– É meu outro papai!

– Ah... – Amarylis pensou: — Então o Niko e o Félix ficaram mesmo juntos! E estão até hoje... Quem diria... – Ela pegou na mão de Fabrício. – Vem cá... Você gosta de pipoca? A tia Amarylis vai comprar pipoca pra você, Fabrício, meu amor...

Quando estava prestes a sair daquele local com o menino, Félix e Niko saiam de uma loja. Félix já ia mais na frente e a viu antes e gritou:

– Ei! Amarylis?! Solta o Fabrício, sua bruxa!

Ela virou ainda segurando na mão de Fabrício. Niko chegou e também se surpreendeu.

– Amarylis?!

– Niko, Félix, há quanto tempo!

Félix não queria saber de conversa com ela.

– Há quanto tempo mesmo, e parece que você não muda! Ainda pretende levar criancinhas indefesas? Sua bruxa!

– Você também não muda não é Félix?! Continua com o mesmo sarcasmo de sempre!

Eles se aproximaram mais dela.

– Te chamar de bruxa não é ser sarcástico, Amarylis, é ser sincero! Posso saber para onde você ia levar meu filho?!

– Ah! Seu filho?!

– É, meu filho! Meu! Meu e do Niko!

– Seu e do Niko?! Por favor, Félix, isso soa tão ridículo vindo de você...

– Ridícula vai ficar sua cara quando eu arranhá-la inteira...

Niko segurou as mãos de Félix que estavam prestes a fazer o que ele tinha dito.

– Espera Félix, não vamos armar um escândalo aqui no shopping! – Virou para ela e ordenou: — Amarylis, solta já meu filho!

Ela soltou, dizendo: — Ah, ele vinha comigo só até ali... Eu estava morrendo de saudade de Fabrício...

Félix interrompeu puxando o menino para perto deles. – Pois vai continuar morrendo, sua bruxa... Melhor, por que não vira logo um zumbi, a zumbi dos cílios postiços!

– Já chega! O Fabrício vem comigo e você não chega mais perto do meu filho, nunca mais! – Exclamou Niko pegando Fabrício nos braços.

– Niko, por favor... Já se passaram quatro anos, será que você nunca vai me perdoar?! – Ela começou a chorar. – Será que nós nunca poderemos voltar a sermos amigos?!

Félix logo se impôs. – Já começou com as lágrimas de jacaroa! Olha aqui, Amarylis, você é, foi e sempre vai ser uma falsa!

– Você não se cansa de me xingar não, Félix?!

– Nunca!

Niko levou Fabrício para onde Jayme estava e o mandou ficar de olho no irmãozinho. Enquanto isso, Félix e Amarylis discutiam.

– Quer dizer que você se tornou um homem de família, o pai dos filhos do Niko?! Vai Félix, fala a verdade... Você é mais falso que eu! Aposto que ficou com o Niko só porque sua situação financeira não era das melhores e como o Niko tinha uma vida muito boa, além de ser bonito...

– Olha aqui, Vacarylis, eu fiquei com o Niko, eu me casei com ele, porque eu o amo! Eu amo o Niko, amo os filhos dele que são meus filhos também desde que me casei com ele e você não vai nos envenenar, sua cascavel!

– Seus filhos também?! Não foi você que ficou com o Fabrício nove meses na barriga...

– Não vem com essa pra cima de mim, Amarylis! Se lembro bem fui eu que te convenci a ser a barriga solidária do carneirinho! E tudo que você fez, foi fazer o Niko sofrer!

– Vai dizer que você virou o bom samaritano e se arrependeu de tudo que fez?! Esqueceu o quanto você fez minha amiga Paloma sofrer?!

– Ah... Mas eu devo ter pulado corda durante a destruição de Sodoma pra merecer ver sua cara outra vez! Primeiro, sua bruxa, não estamos falando disso, eu sei muito bem o que eu fiz, mas a Paloma e a Paulinha já me perdoaram! Segundo, eu fui capaz de me arrepender, mas você, pelo visto, não se arrependeu de nada, não mudou nada, porque se a gente não tivesse saído daquela loja a tempo você teria levado de novo o meu filho, montada em sua vassoura!

Niko já ia voltando e ficou ouvindo.

– Eu não ia levar o Fabrício, Félix! É só que eu ainda sinto como se ele fosse meu filho!

– Mas ele não é! Põe isso na sua cabeça... Ter te convencido a ser a barriga solidária do carneirinho foi uma das coisas das quais eu teria que me arrepender... Mas, não...

– Ah, está dizendo que você não se arrepende disso?! Ouviu Niko?!

Niko chegou mais perto.

– Você não se arrepende de ter feito a Amarylis aceitar ser minha barriga solidária, Félix?!

– Não, carneirinho! Eu sinto sim por cada lágrima que você derramou... Mas, não me arrependo! Sabe por quê?! Por que se isso não tivesse acontecido, você não teria se livrado daquela lacraia, não teria o Fabrício, e não seria meu! Por isso que não me arrependo...

Niko compreendeu e sorriu, mas Amarylis interrompeu aquele momento.

– Ah que meigo! Félix, você não faz o tipo romântico!

Dessa vez, Niko foi quem respondeu.

– Ah Ele faz sim, Amarylis! O Félix é romântico quando quer ser, e é o homem da minha vida!

– Quanto amor... – Ela foi claramente irônica. – Quer dizer que o Félix é o pai dos seus filhos... Eles não sentem falta de uma mãe?!

– Não! Não sentem! Por que o amor que nós dois temos por eles dá e sobra!

– Niko, pensa... Se nós retomássemos a nossa amizade, o Fabrício cresceria com uma figura feminina...

Félix interrompeu: — Como pode ser uma mulherzinha tão venenosa, cobra cascavel... Afinal, o que você quer, hein?! Najarylis... Está querendo se tornar amiguinha do carneirinho de novo, para esperar a hora certa de dar o bote outra vez?! Não conseguiu dar o golpe em mais ninguém, foi isso?!

Niko continuou: – E agora, agora eu vejo como eu fui burro... Você nunca foi minha amiga! Nunca! Tudo que você sentia por mim se chamava inveja!

– Inveja, Niko?!

– Inveja! Inveja, sim! Você sempre teve inveja de mim, da minha família, da minha felicidade... Você já quase roubou minha felicidade, até que o Félix entrou na minha vida e eu descobri o que era felicidade de verdade! E agora?! Você pensa que eu não ouvi o que vocês falavam o tempo todo?! Olha aqui, Amarylis, nada do que você diga vai mudar nada do que já aconteceu! Você esqueceu que já sequestrou meu filho?!

– Não, Niko, mas... Naquela ocasião, eu estava muito confusa, fora de mim... E eu te perguntei, lembra que eu te perguntei se, quem sabe, algum dia, você me deixaria visitar o Fabrício?! Por que não me dá o endereço de vocês, só para eu poder vê-lo?!

– E parece que você não lembra minha resposta naquela ocasião! A mesma que eu vou te dar agora... Nunca!

Félix continuou: — E parece que também não lembra o que eu te disse, Amarylis! Que se você tentasse se aproximar do Fabrício de novo, eu chamaria a polícia! Então?! Os seguranças do shopping estão bem ali...

Ela enxugou as lágrimas e logo mudou de expressão. – Eu vou! Já vi que vocês nunca vão mudar a ideia que têm de mim!

– Ah pode ter certeza que não! Só pensamos o pior de você!

Ela virou com raiva e saiu. Antes, ainda se aproximou de onde Fabrício estava com Jayme e deu um beijo no menino antes de ir embora. Eles viram essa cena e Félix logo chamou: — Vamos carneirinho, temos que ir para casa o mais rápido possível...

– Por quê?!

– Ora, por quê?! Temos que dar um banho no Fabrício... Vai que o coitado do nosso filhinho começa a ter dor de barriga por causa do veneno daquela jararaca!

Niko riu com a resposta de Félix. Mas, já estava mesmo tarde e eles voltaram para casa.

–--

À noite, no quarto de Fabrício, Niko ia pegando um dos livrinhos de historinhas infantis que Fabrício gostava tanto. Ele sempre pedia para o pai ler uma história antes de ele dormir, quando Niko não fazia isso, o próprio Fabrício pegava um dos livros e ficava vendo, tentando ler. Ele já estava começando a aprender algumas palavrinhas, pois sempre perguntava aos pais o que estava escrito em todos os lugares.

– Não papai Niko! Livro não! Me conta a história de quando a bruxa tentou me roubar de você!

– Ah, é mesmo, a que eu disse ontem... Bem, deixa eu ver por onde começo... – Niko sentou perto dele como sempre fazia para lhe contar uma história, mas, essa noite, ele contaria com mais alguém na plateia.

Félix havia acabado de dar boa noite a Jayme quando foi em direção ao quarto de Fabrício e, pela fresta da porta, ficou observando o marido e o filho e começou a ouvir também a história.

Era uma vez, um rei muito sonhador chamado Rei Nicolas. Ele sonhava em ter um filho para ser seu herdeiro. Ele gostava muito de ver as crianças brincarem felizes, e, um dia, ele encontrou um menino sozinho e perdido. O Rei Nicolas cuidou do menino e o adotou, e este menino passou a se chamar Príncipe Jayme. Só que o rei ainda sonhava em ter um filho que fosse... Muito parecido com ele. Foi aí que, um dia, uma fada-madrinha surgiu do nada e disse que atenderia o desejo do rei. O rei ficou super feliz, mas, o que o coitado não sabia era que, na verdade, aquela fada era uma bruxa disfarçada.

Félix já havia entendido a forma como Niko escolheu para contar essa história para Fabrício. Então, entrou no quarto em silêncio, sorriu para eles e sentou na poltrona, dizendo: — Também quero ouvir a história!

Niko sorriu e continuou:

A bruxa disfarçada de fada realizou o desejo do rei e lhe deu um lindo bebê, ao qual o rei deu o nome de Príncipe Fabrício. – Fabrício deu um sorrisinho como se soubesse que o pai estava falando dele. – Porém, o rei descobriu que em troca do príncipe, a bruxa queria se apoderar de todo o reino. Como o rei não deixou, a bruxa lhe fez muito mal, afastando o príncipe Jayme dele e levando o príncipe Fabrício. O rei ficou sozinho e muito triste.

Niko deu uma pausa e olhou para Félix. Fabrício pediu: — Continua, papai!

No Principado do Norte, uma terra um pouco distante do reino do Rei Nicolas, havia um nobre que havia feito muitas coisas erradas e foi expulso das suas terras. Depois de vagar pelas ruas e conviver com camponeses, esse nobre se arrependeu de tudo que tinha feito. Mas, não podia voltar. Então, ele apareceu, um dia, no reino do Rei Nicolas. Eles ficaram amigos e o nobre disse que o ajudaria. Enquanto esteve com camponeses e gente humilde, o nobre, que antes era muito rico, havia se transformado num guerreiro corajoso. Ele convocou suas tropas para resgatarem os príncipes das garras da terrível bruxa.

– E ele conseguiu? – Perguntou Fabrício.

– Conseguiu! Ele era muito inteligente e levou os príncipes Jayme e Fabrício de volta para o rei Nicolas. O rei ficou muito agradecido e lhe ofereceu o cargo de conselheiro real, mas tudo que o nobre mais queria era poder voltar para suas terras. O rei o ajudou, indo falar com a sacerdotisa do Principado do Norte, para que ela perdoasse os crimes do nobre. Quando ela viu que o nobre tinha virado um homem bom, ela o deixou voltar.

Félix sorria assim como Fabrício ouvindo a história. O menino perguntou: — E a bruxa não voltou mais?!

– Ah voltou! Ia tudo bem no reino. O rei Nicolas vivia feliz com seus filhos e a amizade do nobre, mas, um dia, a bruxa voltou para se vingar. Ela raptou o pequeno príncipe Fabrício, levando-o para mais longe que da última vez. O rei ficou desesperado. Mas aí, o rei se lembrou de chamar o nobre que foi correndo vestir sua armadura de guerreiro e pegar sua carruagem mais veloz, e foi até o castelo. Ao chegar lá, encontrou o rei desconsolado, mas prometeu que descobriria para onde a bruxa tinha levado seu bebê.

– E ele descobriu?

– Claro! O nobre investigou o sumiço da bruxa e descobriu o seu esconderijo. Ele levou o rei Nicolas para juntos resgatarem o pequeno príncipe Fabrício. Quando encontraram, a bruxa já ia fugir de novo, mas o nobre ajudou o rei a tirar o príncipe das garras daquela bruxa malvada. Depois, ele levou o rei e o príncipe de volta para o reino em sua carruagem.

Nesse momento, Félix interrompeu.

– Posso contar o final dessa história, carneirinho?

– Claro que pode!

Félix começou:

– Aí, Fabrício... Esse tal nobre foi embora de volta para suas terras quando viu que os príncipes estavam seguros com seu papi, o rei. Claro, que ainda havia outros perigos no reino, como uma lacraia gigante que soltava fogo pelos olhos e que era louca para devorar o rei...

Niko sorria balançando a cabeça. Félix continuou:

– Enfim... Essa parte não é importante, até porque o nobre salvou o rei desse monstro também! Mas, o final dessa história é o seguinte... – Félix suspirou. – O nobre viu que não era mais feliz morando em sua terra natal! Na verdade, ele nunca foi feliz antes! Ele descobriu que não podia mais viver sem estar ao lado do rei. Então, ele o procurou em seu reino e pediu para ficar por lá. E percebeu que gostava demais de ficar com o rei e com os pequenos príncipes e... Só se ficasse com eles seria feliz para sempre.

Com o final que Félix contou, Niko sorria mais que Fabrício. Os dois deram um beijinho de boa noite no filho e Félix saiu para esperar seu carneirinho no quarto. Niko terminou de cobrir Fabrício e ia apagar a luz, quando o menino perguntou:

– Papai... Por que você não disse qual é o nome do nobre?

– Hum... Foi mesmo... Qual você acha que é o nome desse nobre, hein?

– É Félix?

Niko percebeu que o menino talvez tenha entendido mais do que ele imaginou. Sorrindo, ele respondeu:

– É sim, meu filho... Meu pequeno príncipe!

–--

Niko foi para o quarto. Félix o esperava com um sorriso no rosto.

– Gostou da história, meu nobre guerreiro?!

– Claro que gostei, meu rei!

– Hoje, mais uma vez, você nos salvou... A mim e a nosso pequeno príncipe! – Disse Niko sentando na cama.

Félix se curvou e se ajoelhou em frente a Niko, como se cumprimentasse um verdadeiro rei.

– Eu faço o que posso para ser o herói do seu reino, minha amada majestade!

Niko riu, mordeu os lábios e pôs as mãos nos ombros de Félix trazendo-o para mais perto de si.

– Eu te nomeio, Sir Félix... O dono do meu coração!

Notas finais
FIM! E aí, o que acharam?!