Exício
1 Capítulo I - Plenilúnio
Era um dia ensolarado e típico de início de primavera, as flores desabrochavam tímidas do solo que ainda se recuperava da rigorosidade do inverno e os raios de sol levavam para longe os últimos resquícios de neve. Uma família desconhecida decidiu acampar na margem de um riacho ao sul de uma cidade pequena de interior. Aquela região não era muito movimentada e o contato com a natureza era ideal para amantes de acampamentos. Lá estavam pai, mãe e filho armando uma barraca na espera de ainda mais companhia, pois ali era um ponto de encontro para a reunião de famílias muito unidas e amigas.
De longe de toda a movimentação da organização do acampamento estava uma pequena menina coberta por um manto branco e portando um cajado de quase o dobro de sua altura e seus longos cabelos loiros esvoaçavam-se no vento. Ela era invocada quando os ares de morte pairavam uma região e não possuía um nome, apenas uma definição errônea criada por aqueles que a temiam. Enquanto esperava sua hora, a menina aproveitava os detalhes que a cercavam naquela floresta, como o leve som do riacho, a suave brisa em seu rosto e o delicioso perfume de flores da qual estava próxima. Porém, não era dotada de todos os sentidos convencionais, ela era cega e tinha seus olhos cobertos por uma faixa branca quando assumia forma para se aproximar daqueles que iria levar consigo. Enquanto parecia distraída com a natureza e os bichinhos que a cercavam, a menina escutou um grito de um adolescente.
Era picada de cobra, os pais dele e seus amigos que tinham acabado de chegar ficaram desesperados com aquela situação, aquele adolescente havia mexido com algo que não devia. Então a menina puxou o capuz do manto e se despediu dos animais que a faziam companhia, era hora de ir buscar uma pobre alma. Ela não devia ser vista por olhos humanos, nem mesmo por aqueles que levava para o outro lado. Falhar nestes dois quesitos seria o mesmo do que ter sua existência apagada do presente, passado e futuro.
Passado algum tempo aquele adolescente havia desmaiado devido ao veneno que estava presente em sua circulação sanguínea e os adultos estavam preocupados tentando achar uma forma eficaz de ajudá-lo. Já estava anoitecendo e ninguém sabia o caminho mais curto para um hospital, o mais seguro era ir a pé até o centro de ajuda ao turista do parque com a esperança de poder chamar por socorro, pois estava indicado por trilhas e não por uma estrada. Mas restava a dúvida de quem seria o mais rápido e que lembrasse o caminho de volta.
A menina não se importava com tal decisão, mas de qualquer forma que intervissem seria decisivo para a sua presença naquele local. Depois de alguns minutos de discussão, um homem partiu do acampamento correndo no escuro com uma lâmpada embutida no capacete que estava usando, ele tentava seguir a trilha mas sempre havia galhos e teias de aranha no caminho. Os ares da morte se distanciaram do acampamento e foram em direção a este homem. Logo depois da sua partida, o celular da mãe do garoto picado começou a captar um sinal e ela ligou desesperada por socorro.
Uma ambulância estava a caminho e o homem estava incomunicável seguindo pela trilha separada da estrada. A menina pairava próxima a ele, de forma silenciosa e seguia na mesma velocidade em que cada passo era dado naquela corrida contra o tempo. Ela não poderia intervir no destino daquele homem, não podia movimentar uma folha sequer mesmo fazendo parte de seu poder. Aquela trilha era ingrime e só descia colada em um penhasco que requiria muita atenção ao percorre-la depois do escurecer. Mas aquela noite estava irresistível, céu estrelado e limpo e a lua estava em seu plenilúnio.
O homem distraiu-se por um instante para olhar para cima, mas não contava com um galho solto que estava caído na trilha. A menina foi rápida e delicada, não permitia que nenhum dos que levava sentisse a dor de sua morte. Quando o homem caiu no penhasco ela agarrou sua alma com seu cajado e o recolocou na trilha, deixando que o corpo se desmantelasse por completo da queda com ausência de sofrimento. A partir daquele momento ela precisava guiar a alma até seu próximo estagio, sem deixar com que sua presença fosse notada já que desprovido de um corpo material, a alma poderia ver o sobrenatural.
Por questão de instantes o som de sirenes puderam ser ouvidas da outra margem do penhasco, naquele local a trilha e a estrada encontravam-se de vista. A menina sabia que o adolescente picado pela cobra ficaria bem, já que a sua presença naquele local não era mais necessária. Ele apenas precisaria lidar com a morte de seu pai.
Fale com o autor