Exício

2 Capítulo II - Penumbra


A menina caminhava no relento de uma noite fria de inverno em direção a um pequeno e afastado casebre. Aquela deveria ser a sua ultima atividade do dia e ainda não sabia ao certo como as coisas iriam transcorrer a partir de sua chegada. Apenas sabia que a última pessoa que deveria ser resgatada para o outro lado da vida estava no seu aguardo. Não era uma surpresa saber que algumas almas aguardavam por ela de livre e espontânea vontade quando aceitavam a hora de partirem deste mundo, porém a última coisa que a menina encapuzada precisava era ser vista até mesmo por quem sabia de sua existência. Ela precisava ser cautelosa.

Mas acompanhada de seus ares da morte também percebeu que existia algo estranho quando chegou no local. Uma ou duas presenças a mais, tais como ela. E sem se deixar abalar por aquilo a menina baixou novamente o capuz de seu manto e então foi levada até o local onde a futura alma iria despojar-se. E ao chegar até um corredor escuro e úmido, a menina começou a procurar por dentre os quartos a razão para a sua presença. Nem sempre iria resultar em levar uma alma consigo, por vezes os humanos eram capazes de intervir no destino e afastá-la. A menina estava confusa, pois algo embaçava seus sentidos naquele local e ao notar isso logo adentrou em um dos quartos que encontrou. E lá estava uma velha senhora, adormecida em uma poltrona em frente a uma pequena janela, por mais que ela exalasse a essência da morte, a menina sabia que não era de sua conta cuidar daquela alma. Não pertencia a ela.

A senhora estava predestinada a morrer de um ataque cardíaco naquela noite e aquilo não condizia com o padrão realizado pela menina, ela levava as almas para o outro lado com a ausência de dor e sofrimento, as guiava na serenidade e na calmitude de seus atos. O risco de levar as almas sem sequer dar uma chance de reverter no plano dos humanos pertencia a outro ser, que era mais antigo e insensível do que ela e que já estava acostumado a presenciar e causar dor e arrependimento por onde quer que passasse.

A menina sabia que a presença daquele ser aproximava-se da janela e que não permitia divertir-se com o destino imprevisível, simplesmente o reescrevia de acordo com sua vontade em levar a alma predestinada consigo. E em poucos segundos surgiu sob a luz de um relâmpago uma outra figura feminina, era uma jovem de manto cinza e cabelos longos e loiros, praticamente as mesmas características da menina, com a exceção de seus lábios serem costurados. E quando os olhos brancos da moça entraram em contato com a figura da menina, logo houve surpresa de ambas ao se reconhecerem. Era raro o destino unir dois seres como elas em um mesmo local.

As duas cumprimentaram-se e então a moça fez um estralo para a menina sair do local, ela deveria aguardar o momento certo para agarrar a alma antes que se esvaísse na penumbra da noite. A menina então retirou-se do quarto e começou a zanzar por outros cômodos da casa, chegando até uma porta entreaberta notou gritos e gemidos de um parto em andamento. Ela atravessou a porta e sentiu a presença de três pessoas e um outro ser desconhecido, lá estavam a mãe que iria dar a luz, uma parteira e um menino encostado na cama apenas observando tudo.

Aquela situação confundiu a menina e pouco antes que pudesse captar corretamente tudo o que estava acontecendo naquele lugar, outra presença adentrou o quarto. Era uma mulher que exalava muita luz ao redor de si, que fez com que a presença da menina fosse ofuscada, mas ela já sabia quem era ali presente. Era uma mulher encarregada dos nascimentos, ela trazia ao mundo outras almas que futuramente seriam levadas de volta pela menina encapuzada, também portava um cajado e uma alma presa a ele.

A presença daquela mulher iluminada não durou muito tempo, assim como chegou ela se esvaiu subitamente, apenas ajustou a alma em seu novo corpo e tornou aquele simples gesto em um cena incrível. A menina estava quieta em um canto do quarto presenciando aquele momento único em sua existência naquela função e no aguardo do fim da entrega da nova alma no mundo ela resolveu esperar um minuto a mais, dando a chance da mãe olhar para o seu filho recém-nascido pelo menos uma vez. Depois que aguardou o momento certo a menina agarrou a alma da mãe da criança com o seu cajado, fazendo-a adormecer com o bebê no seu colo, mas não a soltou novamente em seu plano pois notou que a presença de apenas duas pessoas vivas naquele quarto depois daquilo. Mesmo tendo certeza de que havia mais alguém por ali sem ser as suas colegas e já concluído o seu objetivo, mas estava impedida de sair daquele lugar e por motivos de segurança a alma permaneceu envolta do cajado.

A jovem dos lábios costurados adentrou no quarto também com a alma que havia acabado de coletar presa em seu cajado e então tocou no ombro da menina encapuzada e deixou com que ela a reconhecesse antes de virar o seu rosto na direção de onde estava o menino pequeno, escorado na cama. E a partir daquele momento as risadas da criança puderam ser ouvidas em todos os cômodos da casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.