Exstinction - Extinction
2 1. Era só mais um dia - Parte 1
Notas iniciais
O barulho de passos medianos à terra seca aumenta gradativamente, enquanto a poeira se agitava com o calçado humilde de borracha sem cor tamanho 53. As canelas são finas e estão esbranquiçadas, talvez por causa da poeira de estradas não asfaltadas, ou por falta de banho, ou por ambos. Seu short camuflado de cor desgastada e remendado até que lhe caía bem. Sua regata sem estampa esbanjava um azul marinho lindo naquele longo dia de 6 meses de muito sol no Quasario, vilarejo onde vive.
Os vizinhos levavam mais um dia comum, mas não havia muito o que fazer. Uns conversam entre si nas portas de suas respectivas casas, algumas crianças corriam brincando descalças e um homem já próximo da terceira idade carregava um balde cheio de excremento para descartar por ali perto.
— Tenho que lembrar de agradecer a dona Fátima quando chegar. — Disse ele sozinho, pensando alto. Kaique se referia a sua regata, ela guardava e limpava quando necessário, já que ele não têm condições de guardar ou lavar suas roupas, mal possui condições de cuidar de si mesmo. Logo essa simples regata azul sem estampa era sua melhor peça de roupa.
Kaique caminha até a capital, um jovem rapaz de 23 anos. Cabelo black, sobrancelhas finas, e um par de olhos ônix. Sua altura é de 2,91 e seu corpo atlético e mãos calejadas o acusam viver uma vida de muito esforço e pouco conforto.
Enquanto deixava sua vila, perdido em seus devaneios, e acostumado com o lugar, ele nem percebia moscas gigantes lhe acompanhando, ou ratos no tamanho de cachorros buscando algum resto alimentar nos becos e vielas.
Ele precisa comprar um presente para sua filha Alicia, por isso não consegue pensar em outra coisa além disso, até mesmo passou por alguns conhecidos que lhe cumprimentaram em vão.
Boa tarde Kaique, como vai você? — Disse uma senhora. Sem resposta. — Ah, está com pressa. Ok, desculpe! — Precisando falar cada vez mais alto. — Ei! Você ouviu sobre os eaters? Houve um ataque na Vila Helênica! Tenha cuidado!!! — E acenou uma despedida sorrindo mesmo sem que ele olhasse para trás. — Bela regata, tá bonitão!!!
Era incrível como ela mesmo já sendo uma senhora, conseguisse andarilhar por aí com ossos frágeis e uma gravidade duas vezes mais forte que na antiguidade. O corpo humano evoluiu, e se adaptou é claro, tendo assim ossos bem maiores e mais espessos, ainda assim, era incrível.
Depois de quase 1 hora caminhando, Kaique chegou em Rilheira, outra vila, esta menos humilde. E lá, fazia o que tinha que fazer, tirava sua regata e fazia todo e qualquer tipo de trabalho braçal. E o pagamento vinha em pão, leite, água ou simplórios semelhantes.
Ele demorou mais que o previsto, já está quase anoitecendo, mas pelo menos conseguiu muitas coisas de valor, até lhe deram um caçamba de madeira com rodas para guardar seu pagamento e empurrar até a capital. Então ele seguiu, cansado, satisfeito, mas ainda não realizado. Cerca de 30 minutos depois, ele chegou na entrada da capital e estava fechada, já não se podia mais entrar pessoas de fora naquele horário.
Ele não ficou desesperado, afinal, o aniversário de Alicia é amanhã, logo ele poderá voltar no dia seguinte e escolher um bom presente.
No caminho de volta para casa, passando novamente por Rilheira onde trabalhou, não pôde deixar de notar uma criança mimada gritando e chorando.
— Não, esse é feio! — Gritou a criança tacando um pelúcia no chão de terra.
O pai tenta acalmar a criança, pega o pelúcia do chão e o menino birrento dá um forte tapa na mão do pai que segurava o presente, fazendo o pelúcia novamente cair no chão.
Kaique se aproxima e diz:
— Olá, boa noite. Perdão, você quer me vender este pelúcia?
O homem fita Kaique de cima a baixo meio desconfiado, mas logo o reconhece.
— Ah, oi. Você é o rapaz que estava trabalhando por aqui hoje mais cedo. — Diz ele.
Kaique confirma e refaz a oferta. O pai então olha pro menino, todo emburrado e olhando para outro canto, então ele aceita vender por 2 litros de leite.
O humilde rapaz então regressa para Quasario bem tarde, mas ainda com mantimentos do seu pagamento, e o presente de sua filha. Ele a conhece, sabe que ela vai adorar este pelúcia.
Gritos ao longe chamou a atenção de Kaique, ele fitou o horizonte da longa estrada de terra com suspeita, mas nada conseguia enxergar. E a cada passo que dava, vozes em desespero se tornavam mais audíveis. Somado todo o barulho, uma cacofonia aparentemente sem fim se formou.
Kaique largou sua carga e correu em direção ao seu vilarejo, pouco tempo depois, ele já podia ver corpos dilacerados espalhados por todos os lados, nos cantos das casas, no canteiros e no meio da estrada.
— O que está acontecendo?! — Se perguntou ele em desespero. — Só podem ser eles... Os eatersestão aqui!
Ainda correndo ele ignora, ou tenta ignorar dezenas de cadáveres abertos de pessoas conhecidas. Até que um em específico lhe fez parar e ajoelhar-se, próximo ao restos mortais que pertenciam áquela senhora que ainda mais cedo tentou falar com ele.
— Não... — Disse Kaique não querendo acreditar em seus olhos.
"Ei! Você ouviu sobre os eaters não? Houve um ataque na Vila Helênica! Tenha cuidado!!! — E acenou uma despedida sorrindo mesmo sem que ele olhasse para trás. — Bela regata, tá bonitão!!!"
Lembrou ele.
Kaique se levanta com uma feição de assustado e decide seguir o caminho por de trás das casas. Mais alguns metros adiante, e ele se depara com pelo menos uma dúzia de pessoas de ajoelhadas em fila. Uns choravam, outros gritavam, e outros pareciam já conformados com seu terrível fim, apenas aguardando sua morte.
Ao seu redor haviam pelo menos 6 eaters, porém muitos outros mais espalhados invadiam casas e devoravam os residentes. Comumente mais altos, e mais fortes, suas peles são secas com leves rachaduras e de uma cor opaca, escura, como se estivessem apodrecendo por dentro, suas escleroticas são negras como a escuridão e as íris são amareladas. Suas roupas não mais que trapos velhos, rasgados.
— Vamos carniceiros! Essa safra já deve bastar para um bom banquete à nossa rainha. — Disse um deles.
Kaique arregalou os olhos em espanto, achou que eles não podiam falar, que eram apenas seres canibais bestializados. Após reparar naquele que falou, percebera que este é diferente. Sua pele é aparentemente saudável, moreno, alto, forte, cabelo curto e alguns fios grisalhos. Apenas seus olhos o denunciavam, a marca inegável de um eater, seus olhos negros com iris amarelas e pupilas também negras.
Enquanto eram escoltados, uma das vítimas se desesperou e começou a gritar e resistir.
— Não! Eu não quero morrer! Por favor, me deixa ir! — Suplicou.
Kaique reparou na senhora e novamente expressou espanto, com preocupação.
Era a dona Fátima, a senhora que tanto lhe cuidou e o ajudou.
Ele baixou a cabeça e serrou os dentes franzindo o cenho enquanto a ouvia ser contida pelos canibais.
"Vai! Se mexe!" — Pensou Kaique com raiva de si mesmo.
"O que há de errado você?! Seu covarde!" — Continuou a lutar contra pensamentos.
— Cala a boca velha! — Disse o eater chefe. — Se não se calar eu vou lhe devorar aqui mesmo!
Neste momento Kaique conseguiu se mexer. Ele levanta, seus punhos estão fechados, e sua expressão é de medo, mas sustentando uma postura valente.
— Não, me larga! — Resistiu Fátima.
"Eu posso pega-los de surpresa" — Pensou ele.
— Cala boca! — Gritou o eater.
"Eu vou salvar a dona Fátima e todo mundo!" — Deu o primeiro passo.
— Eu não vou... — Tentou dizer a senhora.
Antes que pudesse completar, o líder daquele bando de eaters a segurou pelo maxilar e suspendeu com tanta força que sua cabeça foi arrancada, fazendo o corpo jorrar sangue pelas proximidades como um chafariz vermelho.
As pessoas gritam, e Kaique arregala os olhos horrorizado com a cena que acaba de presenciar.
— Opa... Que cheiro é esse? — Disse o eater.
O corpo de Kaique ficou estático mais uma vez quando ouviu.
— Estou sentindo um cheiro diferente dessas nossas presas. Parece que há um telespectador nos admirando em segredo. — Concluiu o canibal sorrindo.
Kaique olhou para trás, vendo aquela pilha de fezes amontoada, não pensou duas vezes, mergulhou fundo, encardindo-se por completo nos dejetos humanos de todo Quasario.
Alguns segundos depois, tentando não vomitar ele acha a saída da montanha de excrementos e respira... E logo em seguida engole a seco, incrédulo e com ainda mais medo. Em sua frente estava o líder daquele bando de canibais, de braços cruzados.
— Rapaz... Você deveria saber mais sobre nós, os eaters não farejam sua carne, e sim seu medo. — Diz ele sorrindo para Kaique.
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