Exceto Você

1 01. A garrafa de vodka


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos há mais uma história que minha cabecinha bagunçada conseguiu organizar para que eu pudesse, finalmente, conseguir colocar em escrito o Daniel e a Julie, que são os protagonistas. A narração vai ser dividida entre os dois.
Espero que se encantem com eles, tanto quanto eu me apeguei após criá-los. Boa leitura!

Daniel Santiago

—Cara, não seja um fraco!

Patrick nem sequer percebe que está gritando no meu ouvido, ele apenas repete a mesma frase uma dúzia de vezes e aponta a garrafa de vodka que ele roubou em sua casa na minha direção. Balanço a cabeça negativamente e me viro para sair dali, quando Joel diz:

—Ele não é homem o suficiente pra isso.

Não sou o tipo de cara que fica puto quando outros caras dizem que “não sou homem o suficiente”, definitivamente não sou essa pessoa. No meu colégio antigo, eu era o garoto que ficava sentado com fones de ouvido na aula de educação física, enquanto os outros jogavam futebol. Mas agora estou em um colégio novo, e por um segundo desejo que seja diferente do último, seria ótimo conseguir me enturmar, mesmo que Patrick e Joel sejam o tipo de irmãos que sua mãe não quer que você chegue perto. Mas esqueço minha mãe por um tempo, volto até Patrick, roubo a garrada da sua mão e bebo tudo que consigo de uma só vez.

—Esse é meu garoto! -Patrick diz me dando tapinhas nas costas, limpo minha boca com a mão e volto a beber a vodka, que é extremamente ruim, mas não me importo, bebo tudo, até a última gota.

—Seu irmão teria orgulho de você, cara. -Joel fala, me fazendo arrepender de ter contado pra ele sobre meu irmão. Eu não sou burro, devia saber que não se conta histórias pessoais sobre sua vida para garotos que ficam chapados no colégio, mas ao meu ver, agora sou um deles. Consigo sentir o álcool fazendo efeito, e meu corpo parece me dizer “agora você não se importa com nada”, e eu realmente não me importo.

O sinal que anuncia a volta as salas de aula depois do intervalo toca, mas nenhum de nós três sai do lugar, apenas observamos quando é a vez de Joel tirar outra garrafa da mochila.

Apenas cerca de duas horas depois conseguimos sair dali, o sinal anuncia o fim da aula, e nós seguimos a multidão para o ponto de ônibus, mesmo que até meu eu bêbado tenha consciência que não posso chegar em casa assim.

—Daniel, seu filho da mãe. Quase enganou a gente, mas você é exatamente como nós. -Joel diz, ele está andando segurando em pessoas aleatórias na multidão para não cair, todas o empurram uns pros outros e olham assustadas.

—Enganei vocês, seus otários! -grito alto, fazendo algumas pessoas reclamarem. Quando chegamos no ponto o ônibus que me leva pra casa já está parado, então entro nele. Ainda não faço ideia de onde Joel e Patrick moram, mas eles estão atrás de mim quando confiro.

Meu olhar vai direto em Julie Murphy, como sempre. Ela está no fundo do ônibus usando fones de ouvido e com o mesmo moletom verde escuro que usa todos os dias. Ela é minha vizinha, mas toda vez que sorrio pra ela, Julie vira o rosto. Quando olho pra ela no colégio, ela também está sempre sozinha com os fones, acho que nunca a vi conversando de verdade com ninguém além de seu pai. George Murphy é repórter de TV, não sei quão famoso ele é, mas é o suficiente pra ter feito minha mãe pular quando ficou sabendo que seríamos vizinhos dele.

Meu corpo está simplesmente andando até o fundo do ônibus para falar com ela, minha consciência bêbada o segue. Me sento ao seu lado e começo a gargalhar, porque de repente, aquilo é muito engraçado. Joel e Patrick apontam para mim, como quem diz “vai nessa!” e se sentam juntos em um dos assentos do meio quando o ônibus finalmente começa a andar. Olho pra Julie, que está fingindo que eu não existo e olhando pra paisagem do lado de fora da janela. Cutuco ela.

—Por que você está triste? -estou sussurrando, então ela obrigatoriamente retira os fones para me ouvir. -Por que você está triste? -sussurro de novo. Ela deve ter sentido meu bafo de vodka porque se afasta do meu rosto o máximo que pode, considerando que não pode escapar pela janela.

—Você está bêbado? -ela pergunta também sussurrando, o que eu também acho tão engraçado que me faz soltar uma risada.

—Estou tão bêbado quanto você está triste. -respondo.

—Certo. -ela diz, em seguida começa a colocar os fones novamente. Claramente não quer conversar comigo, acho que não iria querer nem se eu estivesse sóbrio.

—Já ouviu aquela frase que diz que garotas felizes são mais bonitas? -ela está me olhando, esperando que eu conclua para que ela possa voltar pra sua música, claramente incomodada. -É uma puta de uma frase mentirosa!

—Seu nome é Daniel, certo? -sorrio como um palhaço e faço que sim com a cabeça várias vezes, por um segundo, tenho certeza que é o dia mais feliz da minha vida.

—Quer sair comigo? Podemos ir ao cinema, ou à praça comprar cd’s? Por que as pessoas não compram mais cd´s? -questiono, ela faz uma expressão confusa e surpresa, como se eu fosse o primeiro garoto a chamá-la pra sair na vida, o que eu sei que não é verdade, porque ela é a garota mais bonita do mundo.

—Você está falando sério? Quer dizer, você está bêbado! -ela afirma, respondendo a própria pergunta. Dou risada, acho que é ela quem está bêbada.

—Eu não bebo! Não faço essas coisas! -Dou risada enquanto respondo, quase vejo um sorriso surgindo em seus lábios, mas ela o retraí rapidamente. -Sou muito sincero quando bebo, sabia? -eu nunca havia bebido tanto assim antes, porém decido rapidamente que faço o tipo bêbado sincero.

—Joel e Patrick repetiram de ano cinco vezes, eles não são exatamente boa companhia. -ela me conta.

—Como sabe se eu também não sou?

Ela dá de ombros. Nesse mesmo instante o ônibus dá sua primeira parada, Joel e Patrick se levantam.

—Vamos te apresentar o centro da cidade, Daniel. Vamos nessa! -Patrick grita pra mim, o centro da cidade é na sexta parada do ônibus, mas deixo minha memória se esquecer disso e me levanto para segui-los.

—Quer ir com a gente? -pergunto a Julie, ela faz que não com a cabeça rapidamente. -Nos vemos por aí! -digo e em seguida, vou atrás de Joel e Patrick.

—Ela tá muito afim de você, cara. -Patrick me diz assim que saímos do ônibus. Dou risada. Graças a Deus não vou lembrar de nada disso amanhã.

Notas finais

(tenho outras histórias originais também no início, e esse é o momento que vocês perguntam "então por que diabos você começou outra?" e é aí que eu respondo que tô tentando me livrar das milhões de histórias inacabadas nos meus documentos, mas dessa vez pretendo dar um fim à pelo menos maioria delas.)

Ficarei imensamente grata se vocês deixassem opiniões! Bjs!