Exceto Você

2 02. O que uma criança faz


Notas iniciais
Hello! Acharam o título do capítulo suspeito? É porque será narrado pela Julie, e contará parte da sua infância, porque ela se tornou uma pessoa mais "fechada" e apresentará seu pai também. Espero que gostem!

Julie Murphy

Nunca confie em ninguém, minha querida. As pessoas costumam nos decepcionar, está vendo?

A frase que minha mãe, Denise Murphy, me disse quando eu tinha nove anos ecoa pela minha cabeça até hoje. É claro que essa observação me pareceu inútil quando eu tinha nove anos, tudo que eu queria é que ela saísse da frente da TV para que eu pudesse voltar a assistir Tom e Jerry. Mas depois de um tempo é que eu fui perceber que ela estava se referindo a ela mesma, quando surpreendeu todos nós e me abandonou com o meu pai.

Não que eu a julgue. Também não sei quais efeitos teriam em mim se eu tivesse um irmão que se suicidasse, provavelmente sentiria vontade de fugir também, mas definitivamente não abandonaria uma filha.

Tentei ir atrás dela uma vez, após uma briga com meu pai, mas eu tinha apenas onze anos, então voltei pra casa depois que passei pela esquina, fiquei com medo demais para seguir em frente. Quando contei para meu pai do meu plano, ele me disse para eu escrever uma carta pra ela, disse que ele mesmo levaria ao correio para enviá-la. Então eu dei o máximo que uma criança de onze anos poderia dar: me esforcei para não cometer erros ortográficos, para que a carta não ficasse longa demais e ela sentisse preguiça de ler, fiz o melhor desenhos que consegui de nós duas nos reencontrando e depois usei toda a minha caixa de lápis de cor para colori-lo.

Quando a resposta da carta chegou eu fiquei tão feliz que nem sequer desconfiei de nada. Na carta ela dizia que também sentia minha falta, que havia amado meu desenho e que me amava muito, não disse onde estava ou se voltaria, mas, ainda assim, eu colei a carta na geladeira para que eu pudesse lê-la todos os dias.

Não sei quanto tempo demorei para perceber que tinha sido escrito pelo meu pai, mas quando descobri não fiquei brava e sequer comentei a respeito, apenas joguei a carta no lixo e fiquei feliz por ter um pai que me amava o suficiente para fazer aquilo por mim.

Quando a mãe de uma criança de dez anos a abandona, ela fica imaginando o que é que fez de errado. Eu sabia que ela precisava de um tempo pra ela depois do suicídio do meu tio, Bryan, mas naquela época eu também achava que a morte do meu tio era culpa minha.

Bryan costumava abusar de mim quando eu era criança, ele aparecia no meio da noite, me dava beijos e fazia coisas definitivamente nojentas, mas eu não tinha idade suficiente para saber o quão errado aquilo era. Foi na noite que minha mãe descobriu que tudo mudou, ela me mandou trancar o quarto e os gritos começaram. Não me lembro exatamente de todos os detalhes daquela noite, mas lembro de acordar no dia seguinte e ver meu pai com as mãos sangrando depois de ter dado tantos socos. Meu tio se suicidou duas semanas depois. Minha mãe me abandonou um mês depois.

Meu pai me disse várias vezes que não era minha culpa, e que o tio Bryan era doente desde criança. Mas é claro que as palavras dele e algumas sessões em uma psicóloga não conseguiriam evitar a minha vontade de me isolar do mundo, então foi o que eu fiz, acho que é o que uma criança faz quando acha que nem a própria mãe a amou.

Meu pai, George, é mesmo um ótimo pai, ele deu o melhor de si para que o restante da minha infância fosse normal. Mas quando você tem treze anos e começa a sangrar pela vagina, não sabe se é certo falar sobre isso com seu pai. Ou quando se tem quinze, e um garoto te beija pela primeira vez. Ou quando se tem dezessete e acorda num dia como, sei lá, como hoje e vê uma foto da sua mãe no jornal em uma reportagem sobre cachorrinhos abandonados.

—Irônico, não achou? Eu fiquei sabendo ontem no estúdio. -Meu pai diz assim que entra na cozinha e me encontra lendo a reportagem. -Ela está em algum lugar de Nova Jersey tentando salvar a vida de cachorros abandonados pelos donos. -Ele se aproxima de mim e me dá um beijo na testa, como faz todas as manhãs antes de ir para seu trabalho. Ele é repórter em um canal de TV local.

Olho para Justin, que está no chão ao meu lado. Meu cachorro late pedindo por um pedaço do misto quente que tenho em mãos, o ignoro.

—Como você se sente sobre isso? -meu pai me pergunta.

“Como você sente sobre isso” é definitivamente a frase que mais usamos desde que uma psicóloga recomentou quando eu tinha onze anos.

—Eu não sei. É bom que ela esteja ajudando os animais, não é? Mas isso também me faz sentir… -penso um pouco a respeito antes de dizer a ele. -Raiva. -continuo por fim.

—É, dessa parte eu entendo. Também estou com raiva. Ela nunca nos ligou e agora eu tenho que falar sobre ela no jornal.

—Te mandaram falar sobre esse caso?

—Eu neguei, ninguém entendeu nada, agora eles acham que eu odeio cachorros. -meu pai conta, e faz carinho em Justin enquanto fala. Permaneço em silêncio, ainda tentando entender tudo aquilo, quando acordei nessa manhã sequer sabia se minha mãe estava viva, e agora tudo isso.

—Como foi seu dia ontem? -meu pai volta a fazer perguntas, então saio dos meus pensamentos e volto a vida real.

—Sabe nossos novos vizinhos? -pergunto e ele assente com a cabeça. -O filho mais novo deles estava bêbado no colégio ontem, estava andando com Patrick e Joel. -conto a ele.

Eu e meu pai procuramos contar tudo um para o outro. Somos só nós dois há muito tempo, então gosto de pensar que ele é meu melhor amigo.

—Ah, não. Aqueles meninos são encrenca, e uma vez que se envolve com eles é tarde demais. Lembra quando tive que falar sobre o assalto que eles fizeram no jornal?

—Sim, eles estavam bêbados, fingindo estarem armados, mas só roubaram uma dúzia de maças. -digo, rindo, aquele foi um dia engraçado. Joel e Patrick são conhecidos por ficarem bêbados e fazerem loucuras.

—Certo, tenho que ir. Aturar os olhares de ódio de meus amigos que amam animais.

—Deveria levar o Justin para o trabalho com você. -dou a ideia, nós dois encaramos Justin. Ele é um cachorro vira-lata que meu pai encontrou na frente do estúdio em que ele trabalha, meu pai fez carinho nele uma única vez, mas foi o suficiente para Justin segui-lo até em casa. Quando o vi me apaixonei, e nós três já sabíamos que agora ele pertencia a nós.

—Tudo bem se você quiser entrar em contato com ela, posso conseguir o telefone. -meu pai diz, demoro um segundo pra entender que ele voltou no assunto de minha mãe. Penso na ideia de falar com ela por telefone por um segundo, mas só consigo me imaginar gaguejando.

—Não é o que eu quero, pai. -respondo, a verdade é que eu gostaria de fazer perguntas básicas para elas, perguntas como “Ei, mãe, como conseguiu esquecer que tem uma filha?”, mas não acho que seja a hora certa.

—Tudo bem se mudar de ideia.

—Eu sei.

—Eu amo você. -ele declara me olhando, parece está procurando em mim alguma vertigem de mágoa.

—Eu amo você também. -respondo, ele abre os braços e espera que eu vá até ele para que ele possa me cobrir com seus braços longos demais para um ser humano normal.

Em seguida, observo enquanto meu pai pega sua maleta e sua bicicleta, ele sai de casa, mas antes de ir, coloca sua cabeça na porta entre-aberta e manda um beijo pra mim antes de fechá-la definitivamente. Consigo esperar exatos dois segundos antes de ler a reportagem da minha mãe novamente.