Evocação
9 Uma festa para relaxar
Notas iniciais
Acabara de tocar o sinal que demarcava o final de mais uma semana de aulas, Nadya seguia pelo corredor pronta para ir para a república e cair direto na cama, quando Charlie, o garoto gótico, cruzou seu caminho.
– E aí, pronta para a festa de hoje?
Sem desapressar o passo, respondeu:
– Sinto muito, não vou poder ir...
– Mas vai ter muita gente da faculdade lá e eu e meus colegas conseguimos fazer uma “vaquinha” para alugar um ótimo salão de festas, vai ser incrível! Você é caloura, não é? Será uma ótima oportunidade de você conhecer a galera e deixar que eles te conheçam!
O sorriso desse garoto não desaparece do rosto dele nunca! Pensou Nadya.
– Olha, eu realmente...
Mas sua frase foi cortada pela metade, logo na porta da faculdade, estava Rebecca com os olhos totalmente vermelhos como se tivesse chorado muito, rapidamente Nadya checou o celular para ver se não tinha alguma mensagem da amiga, mas não havia nada. Apenas o nome de David. Para variar.
Caminhou apressadamente até a amiga com Charlie atrás dela.
– Está tudo bem com você Rebecca?
– Vocês são amigas? – Perguntou Charlie.
Ambas acenaram que sim com a cabeça e a resposta dele não poderia ter sido diferente:
– Ótimo, então que tal ir as duas a festa? Será divertido!
Antes que Nadya pudesse recusar mais uma vez, Rebecca respondeu:
– Eu adoraria ir, você vem também não é, Nadya? Podemos aproveitar e conversar...
Nadya notou que o sorriso no rosto de Rebecca era forçado e sentiu algo estranho na amiga.
– Acho melhor não, sequer estou vestida com roupa de festa.
– Imagina garota, você está linda! – Falou Charlie, batendo as mãos para dar ênfase a frase. – Meu primo já deve estar chegando para me levar à festa, vocês vão querer ir com a gente no carro?
– Não, tudo bem. – Respondeu Rebecca. – Eu tenho carro, podemos seguir vocês até o local sem problemas.
Alguns minutos depois, o tal primo do garoto chegou e todos partiram em direção a festa.
〔〄〕
Havia meia hora que eles tinham deixado a entrada da faculdade e ainda não se via sinal do salão que Charlie tinha mencionado e tudo que na Nadya podia pensar era em que inferno de lugar ela estaria se metendo. Cinco minutos depois o carro que ia à frente entrou numa estrada de terra e logo as duas perceberam que estavam próximas do local, devido ao som estridente de Highway To Hell, do AC/DC explodindo nas caixas de som.
Chegaram ao tal salão, que visto de fora, não parecia nada com um salão e sim com uma casa térrea enorme, a propriedade tinha uma longa extensão em gramado e era rodeada por uma cerca de madeira, não havia sinal de outras chácaras por perto. Rebecca estacionou o carro em um dos cantos do gramado, ao lado de muitos outros que já estavam ali. Charlie e seu primo as conduziram para dentro da casa.
Ao entrarem, Nadya percebeu que a casa, na verdade, não era uma casa, afinal, ela não tinha divisórias para cômodos, realmente era um espaço bem parecido com um salão, havia um pequeno palco improvisado onde estava o DJ e uma pequena bancada atrás que parecia dar acesso a uma cozinha. Havia janelas por toda a extensão do espaço, e encostada nas paredes, diversas mesas e cadeiras. Sobre as mesas, jaziam pratos e talheres de plástico, já os copos eram de vidro, no centro de cada uma das mesas, havia um mini refrigerador recheado de todos os tipos de bebidas alcoólicas e alguns refrigerantes, para o caso de ter algum bom samaritano na festa. Garçons circulavam pelo salão empunhando bandejas que de longe exalavam um cheiro delicioso, mas nada saudável, de todos os tipos de frituras. O salão ainda não estava lotado, mas tinha uma quantidade razoável de convidados. Não havia pista de dança, o que fazia Nadya imaginar que todo aquele espaço – dentro e fora do salão – serviria de pista de dança mais tarde.
– É isso aí garotas, sirvam-se, tem bebidas para meses aqui, e aproveitem a festa! – Disse Charlie, já correndo para a multidão para cumprimentar algumas garotas com micro vestidos sentadas nas cadeiras.
Rebecca e Nadya se dirigiram para um canto próximo a porta de entrada e sentaram-se, logo um garçom foi servi-las, Nadya aceitou um copo de refrigerante e Rebecca, uma batida de maracujá.
– Para me acalmar. – Disse ela, com um sorriso de dentes trincados, dando uma golada no líquido. – Acho que não vai funcionar, isso aqui está vodca pura!
As duas começaram a conversar, ou melhor, a gritar uma com a outra, porque o som era ensurdecedor. Agora tocava The Trooper, do Iron Maiden, o que fazia Nadya se sentir feliz, porque pelo menos, aquele pessoal tinha bom gosto musical.
Após algum tempo, Rebecca já havia deixado a amiga a par da situação pela qual estava passando.
〔〄〕
Rebecca estava jantando para ir à faculdade, ainda se deliciava lembrando-se dos momentos que havia passado com Victor a pouco e ansiava para que pudesse repeti-los logo. A porta da sala se abriu, e seu pai entrou, o que a fez rapidamente se livrar daqueles pensamentos, por medo de que por alguma mágica, seu pai lesse o que ela estava pensando.
– Olá querida, como foi seu dia?
– Bem e o seu?
– Corrido, com sempre. O Victor voltou com aquela última ex dele?
Rebecca se engasgou com a comida, o que fez seu pai se dirigir para a mesa onde ela estava sentada com a preocupação estampada no rosto, mas ela mostrou a mão num sinal de que estava tudo bem, dizendo que tinha sido apenas um pequeno grão de arroz que quis seguir o caminho errado, ao tomar um gole de água e se recuperar do susto inicial, perguntou:
– Até onde eu sei, ele está solteiro no momento pai, por quê?
– Quando estava voltando do serviço, vi a garota montando na garupa da moto dele, o que estava bem errado, já que ela estava sem capacete e todos sabem o quanto isso é perigoso.
– Vai ver ele ia dar uma carona a ela ou sei lá... Mas tenho certeza que eles não voltaram.
Ela não queria acreditar. Victor era dela agora. E ela sabia disso.
– Se fosse apenas isso, qual seria o sentido dele ter dado um beijo daqueles na garota antes de colocar o capacete?
E instantaneamente, Rebecca perdeu a fome.
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