Nadya tentou consolar Rebecca da melhor maneira que pôde, ela também havia sido traída uma vez e conhecia essa dor, mas a amiga parecia estar em um universo paralelo, sempre olhando para a porta, com uma expressão de preocupação no rosto, como se a qualquer momento, o assassino da moto serra pudesse entrar ali e acabar com toda aquela festa.

– Tem alguma outra coisa incomodando você além de tudo o que aconteceu com o Victor? Você parece preocupada.

O olhar da garota era vago e sem brilho, típico de quem sofre uma desilusão amorosa, mas havia algo a mais ali. Algo que Nadya não conseguia identificar.

Rebecca retirou o colar que estava em seu pescoço, com os olhos marejados, segurando relutantemente o objeto.

– Esse colar, juntamente com o outro par que ele possui faz parte da minha família há gerações, eu entreguei o outro ao Victor, pois acreditava que ele era o amor da minha vida. Agora sem o outro, não faz mais sentido ele ficar comigo. – Nadya segurou o colar que Rebecca colocou em sua mão.

– Não posso aceitar. Fale com ele, pegue de volta o outro.

– Aceite, agora não me importa mais. Quero que você fique com ele. Pelo menos, você não vai me trair. Você dará valor a ele, algo que ele nunca fará!

Nadya aceitou o colar e abraçou afetivamente a amiga.

– Ele não te merece, você é muito especial.

– Eu vou lá fora tomar um ar fresco. – Anunciou Rebecca, ainda com os olhos marejados.

– Quer que eu vá com você? – Perguntou Nadya, carinhosamente.

– Não, tudo bem, eu já volto.

E se foi.

Nadya olhou para o lado e notou que Rebecca tinha deixado sua bolsa na cadeira e a segurou, só para garantir que ela não “sumisse”. Sentiu uma mão no seu braço e olhou para a cadeira ao lado. O garoto que ela tinha visto na pista de corrida estava ali, com um sorriso amistoso nos lábios, fitando-a.

– Olá, sei que isso parece uma cantada um tanto velha e antiga, mas tenho a impressão de que já nos vimos antes.

– Bom, não é só a impressão, essa semana estava fazendo uma corrida de manhã e me lembro de ter visto você rapidamente.

– Olha, temos uma atleta na festa! – Brincou ele, pegando a mão de Nadya e beijando-a. – Meu nome é Bruno, qual a sua graça?

– Atleta? Longe disso! – Riu a garota. – E estou admirada, achava que os cavalheiros que beijam as mãos das damas existissem apenas nos romances que leio. Meu nome é Nadya.

– Lindo nome, você é da USP ou é como eu, que só está aqui por conhecer alguém que foi convidado?

E os dois engajaram uma conversa que abrangia desde a música que tocava no momento, que sempre era Rock ou Pop, a livros.

Uns bons 40 minutos depois, Nadya começou a estranhar o fato de Rebecca ainda não ter voltado e pediu licença para o garoto para ir procurar pela amiga.

Não gostou muito do que viu ao sair do salão, encostado pelos carros, havia garotos e garotas passando de mão em mão um cigarro que pelo que Nadya distinguia, era maconha. Não viu Rebecca por ali, graças a Deus, e deduziu que ela poderia estar no banheiro, que Charlie tinha dito que ficava do lado de fora do salão, nos fundos da propriedade. Encaminhou-se até lá, havia dois banheiros grandes, um masculino e um feminino, adentrou no feminino. Mais uma vez, ficou um tanto perplexa com a cena que viu. Uma garota, já com o vestido na altura das coxas, se agarrava com um rapaz que também já estava sem roupa. Eles poderiam pelo menos entrar em um dos banheiros e fechar a porta. Pensou Nadya, mas já era um pouco tarde para ela voltar para trás, a garota tinha sentido sua presença e a olhava, não com uma cara de vergonha, que seria o esperado por uma pessoa que fosse pega numa situação dessas, mas sim com uma cara de raiva, por ter sido interrompida.

– Desculpe...

Nadya desculpou-se e se retirou do banheiro, era nítido que Rebecca também não estava ali.

Voltou para a área onde o carro da amiga estava estacionado, precisou recusar duas vezes o cigarro que lhe ofereceram. Ela não era disso, não gostava de bebidas e muito menos de drogas.

Ao chegar ao local, ficou completamente sem reação, a vaga, onde deveria estar o carro, estava vazia. Lembrou-se que havia deixado sua bolsa dentro do carro da amiga, o que por um momento a fez achar estranho o fato de Rebecca não ter feito o mesmo com a sua bolsa. Pegou o celular que por bem, tinha deixado no bolso de trás de sua calça jeans e checou as mensagens. Desbloqueou a tela do celular bem na hora que aquele número tão conhecido a ligava e sem querer apertou o botão de atender. Ouviu a voz dele soar do outro lado da linha.

– Amor... Amor, que barulho é esse? Onde você está?

Imediatamente, se lembrou do quanto David era ciumento e para evitar que ele fosse atrás dela naquele momento durante uma crise de ciúmes, falou com ele.

– Tem um carro de som parado bem em frente à república.

– Ah, que bom, por um momento pensei que você estivesse em uma dessas festinhas repletas de drogas e orgias que tem nessas faculdades, ainda bem que sei que você não é disso, meu amor.

Nadya ignorou os comentários e se prontificou a encerrar logo a conversa.

– David? David? O maldito carro está com o som muito alto, não consigo te ouvir. Vou desligar, tudo bem?

– Ligue para a polícia, eles não têm o direito de fazer esse tipo de abuso.

– Ligarei agora, tchau.

E desligou, agora poderia checar as mensagens, além das muitas enviadas por seu ex-namorado obcecado, havia uma de Rebecca, que dizia o seguinte: “Não me senti bem e resolvi ir embora, não se preocupe, conversei com aquele tal de Charlie e ele me prometeu te levar embora no momento que você quiser ir, desculpe mesmo, mas eu precisei fazer isso.”

Não foi possível evitar a raiva que tomou conta de Nadya, mesmo que momentaneamente, porque Rebecca tinha feito isso? Escreveu a seguinte mensagem para ela: “Se você quisesse ir embora, era só ter me falado, iria com você com o maior prazer, nem estava nos meus planos vir para essa droga de festa!” E apertou enviar. Logo depois, se arrependeu, a amiga estava sofrendo, ela ainda se deu ao trabalho de pedir para que Charlie a levasse de volta, então escreveu outra mensagem: “Desculpe, sei o quanto você está chateada, quando se sentir melhor, me ligue. Você pode passar lá na república, minha bolsa ficou no seu carro e a sua está aqui comigo. Melhoras.” E voltou para a festa, para tentar aproveitar mais um pouco.

Por volta das 3:10 da manhã, 95% dos convidados já estavam completamente bêbados, alguns foram para dentro de seus carros acompanhados de garotas, Nadya já imaginava o que eles fossem fazer. Bruno, ainda conversava com ela, um dos poucos ainda sóbrios na festa. Os dois falavam sobre a constituição do país, sob o embalo de Que país é esse?, da banda Legião Urbana, quando subitamente a música parou e Charlie, o garoto gótico, um tanto bêbado, anunciou no microfone:

– Galera! Agora a festa começa de verdade! Pelo menos a MINHA festa e a do meu pessoal!

Algumas pessoas gritaram vivas e outras começaram a se retirar do salão, resmungando coisas como “lá vem esse gótico retardado com os ‘fantasminhas’ dele”. Nadya não entendeu muito bem, então continuou escutando.

– Quem já é familiarizado com essas festas que faço, já sabem do que eu estou falando, mas tem alguns calouros presentes aqui – mandou um beijo para Nadya, como que para dar ênfase ao fato de ter calouros ali – então vou dar uma explicação bem rápida, certo!

– Alguém avisa esse cara que ele está com a boca no microfone e que, portanto não precisa ficar gritando! – Reclamou uma garota, totalmente bêbada, que também se dirigia para fora do salão aos tropeços.

– O negócio é o seguinte! Ei, ei, podem começar com a arrumação, já são 3:20 da manhã, já estamos num horário ideal para falar com eles!

Sob essa ordem, outros garotos, pegaram duas das mesas que estavam nos cantos do salão e a levaram para o centro do espaço, retirando tudo o que tivesse em cima delas.

Charlie terminou a explicação do que seria feito ali, naquele momento, Nadya olhou para o salão e contou as pessoas que permaneceram ali, além dela e Bruno, ficaram outras 12 pessoas, o que era um número infinitamente reduzido se comparado ao número de convidados que tinha na festa.

– Ótimo, cada um puxe uma cadeira e coloque em volta da mesa, vamos começar!

Do lado de fora do salão, Nadya ouviu uma voz masculina que gritava:

– Andem logo com isso! Queremos voltar à festa de verdade!

E foi então que tudo começou.

Sobre a mesa, Charlie colocou uma tabuleiro Ouija que ele havia retirado de sua mochila, o tabuleiro, possuía todas as letras do alfabeto no centro, logo abaixo do alfabeto, ficavam os numerais 1,2,3,4,5,6,7,8,9 e 0, no canto superior esquerdo a palavra “yes” e no canto superior direito a palavra “no”, no canto inferior esquerdo havia a palavra “hello” e logo abaixo dos numerais estava a palavra “goodbye”, o que mostrava que aquele tabuleiro deveria ser importado. Charlie pediu para que todos em volta da mesa dessem as mãos. Nadya ainda pensava porque estaria ali ainda, curiosidade talvez, mas sabia que aquilo era uma brincadeira inocente e completamente sem significado. Sentiu os dedos de Bruno se entrelaçar aos seus e sorriu, talvez aquela festa valesse a pena.

– Peço para todos os presentes esvaziarem a mente de pensamentos negativos. Pensamentos ruins atraem coisas ruins, e não é isso o que queremos aqui. Queremos ser guiados por espíritos bons.

– Quem diria hein, um gótico que não gosta do lado negro da força, não é? – Cochichou Bruno, o que fez Nadya sorrir mais ainda.

– Silêncio, por favor! A partir de agora, quero todos olhando fixamente para o tabuleiro e só EU falarei, se alguém tiver alguma pergunta a ser feita, levante os olhos em minha direção e eu darei autorização de perguntar. Entendidos?

Todos acenaram com a cabeça. Charlie posicionou uma das mãos sobre o indicador que havia no tabuleiro e a evocação começou.

– Há algum espírito querendo se comunicar nessa sala?

Nenhum sinal de movimento. Charlie repetiu a pergunta. Nada novamente.

– Acho que sei o porquê não está funcionando, galera, podem olhar para mim por um momento agora – falou Charlie e todos levantaram o olhar – Como disse, nossa intenção é evocar espíritos bons, mas mesmo assim, preciso avisar que esse ritual não pode, de maneira alguma, ser interrompido antes do fim. Saberemos que o ritual chegou ao fim quando o espírito mover o ponteiro para a palavra “goodbye”, certo?

Todos assentiram e voltaram o olhar para o tabuleiro. Charlie repetiu a pergunta que havia feito antes e dessa vez, houve uma resposta. Muito lentamente o indicador que estava sob o polegar do garoto gótico, começou a se mover em direção da palavra “Hello”. Alguém do grupo sussurrou “começou” e a partir daí, sabiam que não podiam mais voltar atrás.

– Quantos de vocês são?

Perguntou Charlie e lentamente o ponteiro se moveu para o número 1.

Um dos garotos da mesa levantou o olhar, indicando que tinha uma pergunta e Charlie acenou com a cabeça, concedendo-o a permissão.

– Há alguém aqui que lhe chama mais a atenção?

Nadya não entendeu a pergunta, mas começou a ver o ponteiro se mexer novamente, dessa vez em direção a palavra “yes”.

– Quem? – Perguntou Charlie.

O ponteiro dessa vez fez vários movimentos, lentamente, em direção a cinco letras do alfabeto, que quando organizadas formavam o nome de Nadya, um arrepio súbito percorreu toda a extensão de seu corpo.

Outro garoto levantou o olhar e teve sua permissão concedida.

– Tem algo a dizer para a Nadya?

Mais movimentos, o ponteiro foi novamente para o “yes”.

– O quê quer dizer a ela? – Perguntou Charlie, com a testa franzida.

O ponteiro indicou seguidamente sete letras do alfabeto, que quando organizadas, formaram a palavra “CUIDADO”. Outro arrepio percorreu a garota e ela se levantou na mesma hora.

– Ok, acho que isso já foi o bastante para mim.

– Nadya! – Repreendeu Charlie, olhando com uma expressão assustada para ela. – Não podemos nos levantar e encerrar a sessão antes que o espírito dê autorização para tal coisa!

– Vocês podem continuar sem mim, vou ir embora agora.

– Ir embora como? – Indagou o garoto. – Pretende ir a pé pra casa?

Ele estava certo, Nadya precisava dele para levá-la embora.

– Não se preocupe, eu levo você.

Agora, Bruno também tinha se levantado, pronto para se retirar com Nadya.

– Eu não faria isso se fosse você. – Advertiu o gótico. – Nenhum espirito gosta de ser interrompido. Coisas muito ruins acontecem com quem abandona esse tipo de ritual antes do fim.

– Pare de assustar a menina, no fundo todos sabem que isso é baboseira! – Afirmou Bruno, com uma expressão desdenhosa no rosto.

– Se é baboseira, por que aceitou participar? Mas tudo bem, você pode ficar tranquilo, assim como todos nós, afinal, quem resolveu abandonar o jogo primeiro foi ela – e apontou o dedo indicador para Nayda – portanto, se tiver de acontecer alguma punição por isso, recairá sobre ela, não sobre nós.

Nadya continuava sentindo arrepios, mas Bruno a segurou pela mão e a conduziu para fora do salão, sem sequer se despedir do grupo que continuava reunido em volta da mesa.

Do lado de fora, a cena não era menos assustadora, jovens se drogando e tirando a roupa sem o menor pudor, Bruno a conduziu para um carro, que nem de longe se comparava aos carros caros que haviam por ali.

– É do meu pai – disse ele – infelizmente, ainda não tenho dinheiro para comprar o meu próprio.

Nadya sorriu, não se importava com o tipo de carro que fosse, seria bom conhecer alguém que talvez tivesse os mesmos padrões sociais que ela, entrou no carro e os dois foram embora da festa.