Eu tenho 16 anos, quase dezessete. Numa tentativa desesperada de se livrarem de mim, meus pais sugeriram -ou obrigaram- que eu fizesse um tipo de intercâmbio. Não sabia o que era mais irritante, se era o fato dos meus pais estarem tentando se livrar de mim com a desculpa de que isso me traria algum tipo de felicidade, ou a minha namorada, que vez ou outra me ligava insistentemente para dizer o quanto me amava e não queria que eu fosse. Estou deitado no chão do meu quarto. Eu acabei de terminar com a minha namorada, e, por mais que eu queira, não consigo chorar, porque não estou realmente triste. Minhas malas permanecem vazias sobre a minha cama e eu ouço minha mãe e meu pai discutirem em ''sussurros'' na cozinha. Se tem alguma coisa que eu aprendi em anos, é que, quando dois adultos discutem através de cochichos, alguma coisa está muito errada, prefiro que eles gritem bem alto, para que todos os vizinhos percebam o quanto minha vida é irritante.

Peça-a-peça fui jogando as roupas dentro da minha mala, observando com ódio minha passagem com rumo à Amsterdã, na Holanda. Caminhei até o banheiro, enquanto ouvia minha mãe bater na porta do meu quarto, numa tentativa desesperada de me chamar, provavelmente para afagar os meus cabelos e dizer algo como ''está tudo bem, não se preocupe, eu estou aqui''. Mas não estava tudo bem, nunca estava. Bati a porta do banheiro com força, na esperança de que ela ouvisse que eu estava no banheiro e que por isso não poderia respondê-la. Me deitei na banheira, a água quente causando uma ligeira sensação de desconforto na minha pele, mas aquela era a menor das minhas preocupações. Em cerca de seis horas, eu estaria dentro de um avião indo para um lugar que eu não conheço, dormiria na casa de pessoas que eu não conheço, frequentaria uma escola que eu não conheço e por aí vai. Deslizei aos poucos até o fundo da banheira, sentindo o cheiro adocicado da espuma se formando pela água. Agora eu me via no fundo da banheira, a espuma do sabonete ardia meus olhos que eu insistia em manter abertos. As batidas na porta continuavam insistentemente do lado de fora do quarto. Contrariado, saí da banheira e coloquei minhas roupas, um jeans meio esfarrapado, meus tênis allstar e uma blusa qualquer de mangas compridas, num tom preto meio desbotado. Abri a porta, e lá estava minha mãe, o olhar calmo que ela sempre possuía, em meio aos seus olhos tão azuis que quase acertavam um tom irritante de prata. Ela sorriu, e eu pude ver suas covinhas que durante tantos anos eu havia invejado por não ter.

– Vai ficar tudo bem... - Eu sabia. Já esperava por isso. – Você vai adorar lá, viu as fotos que o seu pai trouxe para você? - Só então me lembrei dos milhares de panfletos que meu pai havia arranjado no dia que foi comprar minha passagem, todos amontoados e amassados no fundo de alguma gaveta do meu quarto.

– Vi. - Menti. Enquanto dava as costas para minha mãe e caminhava até minha mala. – É realmente lindo. - Disse, num tom de desconforto. Pude ver minha mãe abaixar a cabeça com pesar pelo canto dos olhos, e por alguns segundos, me senti mal por ela. – Vou sentir sua falta - sussurrei, enquanto puxava a mala de cima da cama e me aproximava dela.

– Eu amo você... - E então ela me abraçou, e eu pude sentir suas lágrimas quentes escorrerem pelo meu ombro. Eu não disse nada. Mas ela sabia que eu a amava, embora nunca demonstrasse aquilo.

Desci as escadas um pouco nervoso, meu pai já me esperava do lado de fora da casa, dentro do fusca que ele insistia em manter, apesar de ter condições para comprar um carro menor. Levei uma das mãos até meu piercing no septo e o acariciei um pouco tenso, aquilo me acalmava. Coloquei a mala sobre os bancos de trás do carro e me sentei na frente, ao lado de meu pai.

Pouco tempo depois, havíamos chegado no aeroporto. Meu pai não disse nada, apenas olhou para mim com um olhar piedoso, como se já soubesse que aqueles seriam os piores meses da minha vida. Assenti com a cabeça e saí do carro. Seria melhor para ambos se não houvesse nenhum tipo de despedida. Passei pelo detector de metais, depois pela sala de embarque e — mais rápido do que eu esperava — eu já estava dentro do meu avião, na poltrona F20. Era na janela, mas a ideia de observar o chão á 10.000 mil pés não me deixava mais calmo, entretanto era melhor do que ficar espremido entre duas pessoas que eu não conhecia.

Já era tarde da noite eu me já me sentia sonolento. O avião estava prestes a decolar e eu apanhei meu celular dentro do meu bolso, sentindo meus olhos pesarem enquanto eu ouvia alguma música do Macklemore. Por mais que eu estivesse sonolento, estava determinado a permanecer acordado... mas quando vi, já estava de olhos fechados e recostado na cadeira.

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Acordei de uma forma um tanto quanto... irritante. Digamos que eu achei que o avião estava caindo. De qualquer forma, me sentia desapontado por ter perdido o voo inteiro. Perguntei para a aeromoça e ela disse que pousaríamos em cerca de 10 minutos, eu havia dormido durante cerca de cinco horas. O sol aparecia no horizonte em meio as colinas, iluminando uma cidade de aparência humilde. Talvez porque eu estava impressionado com a beleza da cidade, mal pude ver os tais dez minutos passarem e quando vi, já estava no aeroporto de Amsterdã. Saí do avião trêmulo, cogitando seriamente a possibilidade de esconder meus piercings, não queria que pensassem que eu sou algum tipo de deliquente, mas não dava tempo, parada ali na frente estava Marcelli, a mulher que seria a minha ''mãe'' a partir dali.

Ela veio andando na minha direção e eu olhava ao redor, pensando se havia algum jeito de fugir, mas não consegui pensar em absolutamente nada.

– Oi...- Murmurei, enquanto observava o chão, não conseguia observar a senhora nos olhos, mas pude notar que ela possuía olhos bonitos e um sorriso contagiante, não aparentava ter a idade que tinha, cerca de 35, de acordo com a minha mãe. Para minha surpresa, a mulher não me respondeu, apenas me puxou para um abraço apertado, me dando a chance de sentir o cheiro de seu cabelo, algo similar a cacau. Não movi um dedo, eu não sabia como reagir diante de coisas assim, não gostava muito de nenhum tipo de contato físico e as pessoas geralmente mantinham distância de mim. A mulher se afastou de mim, e sem dizer nenhuma palavra, me guiou até o estacionamento, minha mala já residia ao lado do carro, uma garota de cabelos castanhos-avermelhados que reconheci como Sophya, minha irmãzinha de intercâmbio estava sentada sobre ela, com um sorriso firme nos lábios.

– Olha, você tem um daqueles piercings de vaca... - Ela disse, metendo a mão na argona abaixo do meu nariz. Involuntariamente, inclinei meu corpo para trás e cobri o rosto, observando a garota com uma expressão meio afetada. Marcelli lançou um olhar irritado para a garota, mas isso não fez que a baixinha desistisse de tocar meu piercing.

– Por favor... não faça isso. - Pedi, enquanto agarrava os pulsos da menina, com cuidado para não machucá-la. Ela tinha a minha idade, mas ainda sim possuía uma aparência infantil, se não soubesse nada sobre aquela família, estimaria que ela possuía cerca de 13 anos.

Sophya apenas riu e entrou no carro, enquanto Marcelli colocava minha mala dentro do porta-malas e abria a porta para mim. Entrei no carro um pouco impaciente, havia cerca de trinta minutos que eu estava ali e uma guria irritante já havia me taxado de vaca. Revirei os olhos e me apoiei na porta do carro, observando as ruas se passarem com desinteresse evidente. Em duas horas eu conheceria a escola e admito que tinha grandes expectativas daquele lugar. Esperava que aquilo fizesse toda essa baboseira valer a pena.

Ao chegarmos na casa, Marcelli disse que eu poderia ficar a vontade e me mostrou o meu quarto. Não era tão grande, mas de certa forma era agradável. Sobre a cama estavam os meus uniformes escolares, junto com o meu material escolar e alguns formulários sobre clubes de canto, teatro ou de música. Apanhei o de teatro no meio dos outros e atirei o restante na lixeira ao lado da escrivaninha, aquele era o único que realmente me interessava. Fui até o banheiro e tomei um longo banho, não havia banheira na suíte do meu quarto, e aquilo me deixou um pouco irritado. Escovei os dentes e vesti o uniforme, me sentindo completamente ridículo com aquela roupa. Era uma espécie de blazzer vermelho sobre uma camisa azul, com uma calça social preta. Dobrei as mangas do casaco até o início do antebraço, revelando uma pequena tatuagem no meu antebraço que eu havia feito no ano anterior sem a permissão dos meus pais. Aquilo me trazia boas lembranças.

Marcelli me ofereceu algum tipo de café da manhã, mas eu não estava com fome, então apenas segui Sophya até a escola. Pude notar que várias pessoas andavam de bicicleta por ali, eu nunca havia sequer sentado em uma. A escola ficava realmente perto da ''minha'' casa, eu poderia acordar meia hora antes do início da aula que chegaria em tempo. Sophya me levou até a coordenação, onde encontramos um garoto alto de cabelos ruivos e sardas. A menina o puxou até um canto e conversou com ele durante alguns minutos, e só então sumiu pelos corredores atrás de suas amigas. Assim que olhei novamente para o garoto, ele já estava praticamente na minha frente e me puxava para um abraço apertado, o que me deixou relativamente sem graça, uma vez que eu devia bater abaixo de seus ombros.

– Hm... por favor, não faça isso novamente. - Pedi, enquanto passava uma das mãos pelos cabelos loiros. Ele me olhou de uma forma meio confusa, e então soltou um riso alto.

– Desculpe, não sabia que franceses não gostavam de abraços. - Retrucou, com um sorriso irritante nos lábios. Senti meu rosto enrubescer, provavelmente pela raiva. Cruzei os braços e olhei para o lado, enquanto pensava em alguma resposta.

– Apenas não aprecio quando holandeses desconhecidos me assediam em público. - Sorri. Ajeitei minha mochila sobre os ombros e voltei meu olhar para o ruivo. O sorriso arrogante que antes permanecia em seus lábios havia dado lugar para uma expressão de surpresa.

– Entendi... - Zombou, enquanto soltava um riso baixo– Bem, é bom conhecer você, estávamos esperando-o. Meu nome é David, eu sou um dos monitores do clube de teatro e aluno do segundo ano.

– Igualmente. - Assenti, secamente. Aquele seria um dia longo e irritante, mas eu aparentemente não tinha nenhuma outra opção além de seguir o tal David pelos corredores da imensa escola. Fiz uma prece silenciosa para que alguma coisa acontecesse e pudesse voltar para casa mais cedo... embora soubesse que aquilo nunca aconteceria.

Notas finais
Genteeee, essa é a minha primeira fic. ASEHIASDÇSDFJDSEspero que vocês gostem ♥