Everything Will Be Better
2 O fim do início.
Já faz cerca de uma semana que estou aqui, em Amsterdã. Hoje será minha primeira aula no clube de teatro e confesso que estou nervoso. Digamos que, meu único amigo até agora é David, um garoto que foi obrigado a me mostrar a escola nos meus primeiros dias e é claro, também faz parte do clube de teatro. O último sinal que anunciava o fim da aula de matemática tocou e eu joguei minha mochila no ombro, enquanto andava lentamente até o Anfiteatro que ficava do lado de fora do colégio, um pequeno livro de bolso nas minhas mãos e meus olhos percorrendo as palavras das páginas amareladas. Continuei andando e pude sentir minhas mãos suando e minha respiração se acelerar, eu estava sentindo tanto a falta de casa? Faltavam apenas alguns metros para o anfiteatro, e eu desviei o caminho, me sentando com as costas apoiadas em uma das paredes do prédio da escola. Passei ambos os braços ao redor dos joelhos e escondi meu rosto entre ambos, as bochechas num tom irritante de vermelho causado pela raiva.
– O Anfiteatro não é por aqui. - Disse uma voz que já havia se tornado extremamente familiar para mim. Olhei para cima cobrindo o sol com uma das mãos na frente dos olhos e fitei David, o rosto ainda enrubescido.
– Eu não quero mais ir. - Disse, enquanto tentava manter minha voz num tom de indiferença, o que era quase impossível naquele momento. Eu queria ir. Mas a ideia de frequentar um clube de teatro diferente do meu me irritava.
– Sabe, você não precisa ter vergonha... - Murmurou, enquanto se abaixava para ficar na minha altura. Pude sentir uma das suas mãos bagunçar meus cabelos, o que só serviu para me irritar um pouco mais.
– Não estou com vergonha, seu idiota. - Disse, praticamente cuspindo as palavras, uma por uma. Minha voz agora possuía um timbre agressivo e irritado.
– O que é então? - Pude ver David revirar os olhos e soltar um suspiro exausto. Ele afastou sua mão depressa e cruzou os braços.
– Não é da sua conta, David, mas que droga... - Disse, um pouco mais baixo do que gostaria, embora tivesse certeza de que ele estava ouvindo. Voltei a abaixar minha cabeça, eu queria tanto que ele saísse de perto de mim...
– Vamos, Pierre. O quão arrogante você consegue ser? - Retrucou, enquanto se levantava e estendia sua mão na minha direção. Já estava quase mandando aquele maldito ruivo ir se...
– Vamos, Davey. O quão inconveniente você consegue ser? - O imitei, abrindo um sorriso sínico com os lábios. Mas ao contrário do que eu havia pensado, o rapaz não havia se ofendido, havia aberto um enorme sorriso travesso nos lábios – O que foi? - Perguntei, cruzando os braços. Não via graça alguma naquilo.
– Você me chamou de Davey... - riu. Abaixei o rosto no mesmo instante, sentindo-o se avermelhar novamente, só que, agora não era apenas por raiva, e sim por vergonha.
– Vai se foder. - Resmunguei, enquanto me levantava e andava em passos largos na direção do pátio. Eu não queria saber daquele garoto idiota, muito menos daquele teatro idiota. Antes que eu desse cinco passos para longe de David, senti algo me segurar pela mão e me puxar para trás. Quando vi, estava envolto nos braços do ruivo.
– Vaaamos, você me ama, eu sei disso! - Gritou o garoto, me apertando cada vez com mais força. Optei por ficar quieto, pelo menos até que David resolvesse calar a boca. Coloquei uma mão em cada ombro do ruivo e o empurrei, enquanto andava em passos largos para o lado de fora do colégio.
– Você vai me seguir até em casa? - Perguntei, finalmente me virando para trás. Como eu imaginava, David estava ali, me olhando com aqueles enormes olhos verdes. Seu olhar parecia triste e por um segundo eu -quase- me senti mal por tê-lo tratado daquele jeito.
– Por favor, Pierre... Fique lá por alguns minutos, se você não gostar, pode ir embora... - Pediu. Pensei durante algum tempo em silêncio. Não havia ninguém em casa neste momento, e eu ainda não tinha a cópia da chave da porta...
– Tudo bem... - Cedi. Soltei um suspiro calmo e me aproximei dos portões do colégio novamente. David não disse nada, apenas abriu um sorriso radiante e passou um dos braços ao redor dos meus ombros, e permaneceu assim até chegarmos ao Anfiteatro.
Chegamos ao Anfiteatro. Lá estava sentada, de cabelos pretos e olhos extremamente azuis, nossa professora, Katherine. Era baixinha e um pouco... cheia, mas dona de um sorriso encantador. Ela nos fez praticar alguns exercícios de confiança e improviso e eu me saí melhor do que eu esperava. A aula de teatro acabou e eu me despedi de David na porta do Anfiteatro, embora o garoto insistisse em me acompanhar até em casa. Eu havia saído do lugar meio tarde, e o sol já se punha atrás das colinas ao redor da cidade. Andei meio apreensivo até os portões do colégio quando vi dois garotos da minha sala, que aparentemente pertenciam ao clube de Arco e Flecha, Trevor e Allan. Durante algum tempo, eles apenas me observaram e cochicharam algo entre si, em meio de risos e olhares maliciosos. Talvez fosse apenas minha imaginação, mas os garotos pareciam estar vindo em minha direção. Comecei a andar mais rápido e olhei pela rua, nenhum táxi a vista.
– Esse aqui não é o pequeno gringo arrogante e... - Fui congelado pelas palavras de Allan e parei de andar no mesmo segundo. Ele passou um dos braços ao redor dos meus ombros e tocou meu piercing no septo - Interessante esse seu brinquinho no nariz, pensei que fosse coisa de garota - zombou, num tom ameaçador.
– É um piercing. E não é no nariz, é no septo. - Disse, tentando parecer o mais confiante o possível, o que era meio difícil, já que eu estava tremendo e o rosto do garoto estava extremamente próximo do meu. Já o outro, Trevor, estava acendendo um cigarro de... maconha? Ótimo, havia me esquecido de que isso era legalizado ali...
– O que foi? Você nunca experimentou? - Disse Trevor, notando que eu estava encarando o cigarro de um jeito meio assustado. – Vamos, abra a boquinha... - Sussurrou, e Allan jogou minha mochila no chão, passando o braço ao redor do meu pescoço. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o maior enfiou um cigarro entre os meus lábios e o acendeu. – Vamos, trague, juro que será muito pior se você não o fizer... - E então eu fiz. A fumaça invadiu meus pulmões no mesmo instante e -talvez pelo fato de que eu não havia comido nada o dia inteiro- abaixei no chão e simplesmente... vomitei.
– Você é nojento, gringo, céus... - Zombou Allan, enquanto me puxava pela gola do blazzer até que eu ficasse de pé. – Eu vou te fazer um favor, garoto... - E então ele simplesmente levou uma das mãos até meu piercing no septo e o puxou com todas as forças para o lado. O spike do lado esquerdo do piercing se partiu e rolou pela rua, enquanto o garoto continuava a puxar a joia para o lado direito, até que a mesma fosse arrancada do meu nariz. Senti meus olhos lacrimejarem pela dor, enquanto uma mistura nem um pouco agradável de gosto e cheiro de sangue invadiam minha mente, junto com a enorme dor.
– Você vai nos agradecer por isso um dia, loirinho. Ah, e nos vemos amanhã, gostei de você... - Sorriu Trevor. O garoto de cabelos negros me deu um chute próximo a boca do estômago, o que só serviu para aumentar minha dor. Minha visão estava meio turva, mas consegui ver claramente enquanto os dois babacas andavam para longe do colégio, me deixando sozinho na rua com uma pequena mancha de sangue ao meu lado e minha mochila, que havia sido pisoteada. Grande começo de ano letivo.
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Minha ‘’mãe’’ por incrível que pareça, não perguntou sobre o fato de eu ter chegado em casa e corrido para o quarto. Eu havia acordado tarde demais, provavelmente chegaria atrasado na escola, eu fiquei pensando no que Trevor havia dito... eles viriam atrás de mim hoje de novo? Porra, eu queria ir pra casa... mais do que nunca. A região da minha ápice estava avermelhada, mas pelo menos havia parado de sangrar. Eu não havia trago um piercing reserva, então o furo provavelmente se fecharia até eu voltar para Paris, ao menos que eu enfiasse um palito de dente ali, o que não aconteceria de forma alguma.
Estava pensando em algum modo de justificar aquela vermelhidão, mas a única coisa que consegui pensar, era que eu fui tirar a blusa, e de alguma maneira o piercing havia agarrado no tecido, o que era realmente patético e nunca havia acontecido comigo. Tentei ignorar esse problema e me arrumei para a escola. Eu não podia ir com Sophya, ela iria de carro com Marcelli hoje mais cedo, então não tive muita escolha além de ir sozinho. Faltando mais ou menos duas quadras para chegar no colégio, comecei a ficar um pouco... apreensivo? Talvez nervoso, eu não sabia como encarar Allan e Trevor na sala de aula. Continuei andando lentamente, até que me vi em frente aos portões do colégio mais cedo do que gostaria, na verdade. David estava conversando com algumas garotas perto do jardim, e eu não quis incomodá-lo. No fundo — ou talvez nem tão fundo -, eu sabia que ele não devia dedicar toda a sua atenção para mim, até porque ele não era minha babá em Amsterdã ou algo do tipo. Por esses motivos, fui sozinho para a sala. Me sentei na minha carteira ao lado da janela, e poucos minutos depois Allan e Trevor apareceram. Pensei que eles fossem dizer algo, mas apenas me observaram do outro lado da sala de um jeito meio... malicioso. Faltando apenas alguns segundos para bater o sinal, David entrou na sala, estava ofegante e as bochechas possuíam um tom rosado, aparentemente ele viera correndo até a sala.
– Eu estava te esperando lá embaixo... - Optei por simplesmente ignorar a frase do ruivo. Eu odiava quando ele falava esse tipo de coisa em voz alta. Vi ele indo cumprimentar alguns amigos no fundo da sala e depois se sentar ao meu lado.
– Oi... - Murmurei, olhando para David pelos cantos dos olhos. Ele estava me encarando de uma maneira estranha desde que sentara ali.
– Cadê o seu... aquele negocinho...?– Questionou, com um dos dedos apontando para o nariz. Ele estava falando do meu piercing? Fiquei parado durante alguns segundos, apenas observando o garoto com um olhar confuso, até que não consegui conter um pequeno riso.
– Eu... perdi ele. E não trouxe um reserva. - Disse, desinteressado. O professor estava atrasado e eu não queria falar sobre aquilo. Muito menos com David.
– E é claro que isso explica esse machucado no seu nariz... - murmurou, colocando uma das mãos no meu queixo e levantando meu rosto. Afastei a mão do ruivo do meu rosto e o lancei um olhar irritado.
– E é claro que isso não é da sua conta. - Sorri, enquanto me virava para frente. Logo depois, um funcionário do colégio entrou na sala, dizendo que não teríamos o primeiro horário e que estávamos liberados para vadiar pelo colégio até o segundo tempo. Soltei um suspiro baixo e esperei até que todos saíssem da sala. Andei até o corredor em silêncio, quando senti algo tocar meu ombro. Confesso que quase soltei um berro e então vi que a figura que se projetava ao meu lado era David. – Céus, David... você é um idiota.– murmurei, me recuperando do susto.
– Desculpe, não quis te assustar. - Pude ver que o babaca segurava uma risada com todas as forças que possuía – Vamos dar uma volta depois da aula? Abriu uma cafeteria ali perto e eu pensei que nós poderíamos... -
– David. Me dê um belo motivo para eu... - Isso era perfeito. Allan e Trevor não se aproximariam de mim se eu estivesse com o maldito ruivo. – Bem... vai ser divertido. - Disse, enquanto me obrigava a abrir um sorriso.
– Ótimo... eu encontro você lá embaixo, quando as aulas acabarem... - Ele parecia surpreso por eu ter concordado, o que de certa forma, não me surpreendia. Eu realmente não teria aceitado se não estivesse precisando da ajuda dele.
– Certo... até logo. - murmurei, enquanto me virava e andava até o outro lado do corredor. Nós dois só tínhamos um horário em comum na terça, então não tive que me preocupar com David pelo resto do dia
Minha aula acabou mais rápido do que eu esperava, talvez pelo fato de que eu amava as matérias que eu tinha terça feira. Ciências, química, biologia... Enfim, assim que o sinal bateu, desci as escadarias o mais rápido que pude, e para minha surpresa, David já estava me esperando quando eu cheguei lá. Estávamos saindo do colégio, quando pude ver pelos cantos dos olhos Allan e Trevor, do lado de fora do Anfiteatro, nos olhando de uma forma nem um pouco convidativa.
Já estávamos um pouco longe do colégio, quando David passou um dos braços ao redor dos meus ombros. Havia nevado no dia anterior, então as calçadas estavam recobertas por uma faixa branca. Pela primeira vez desde que eu o havia conhecido, não o afastei de mim, — talvez por causa do frio — seu toque havia se tornado uma forma de conforto. Um pouco a frente, estava uma espécie de loja, com mesas ao ar livre que — obviamente — estavam vazias. Garçonetes andavam de um lado para o outro dentro do lugar, mas ainda sim mantinham um sorriso forçado e gentil no rosto. Entramos no lugar, que estava realmente cheio, não haviam mesas vagas, o que me deixou um pouco frustrado.
– Vamos comprar dois cafés e dar uma volta pela cidade, o que acha?– Perguntou David, sorrindo. Assenti com a cabeça, em silêncio, enquanto o ruivo caminhava até o caixa e fazia o pedido. Voltou cerca de 15 minutos depois, carregando dois copos longos brancos com alguns desenhos azuis.
– Aonde vamos? - Perguntei, enquanto o ruivo me guiava para fora da loja com uma das mãos em minhas costas. – Sophya já me mostrou uma boa parte da cidade, se você quer saber.
– Vamos apenas andar por aí... - Sorriu. Provavelmente não tinha ideia do quanto aquilo soava idiota.
– Certo... Como quiser... - Fomos andando pelas ruas largas de Amsterdã, até que vimos um carrinho de doces perto de uma praça. Observei as balas, os chocolates e os pirulitos de... maconha? Certo, aquilo era tão estranho... Foi mais estranho ainda quando David apontou para os maiores pirulitos e disse para o baleiro que iria levá-los. Olhei surpreso para o ruivo, que soltou um riso baixo ao ver minha expressão de espanto.
– Você quer um? - Perguntou, enquanto colocava um deles na boca. Dei um passo para o lado, e balancei a cabeça negativamente. As minhas últimas experiências com aquilo não haviam sido boas. Continuamos a andar em silêncio, enquanto vez ou outra ele insistia para eu provar o doce. – Vamos, você vai gostar... - Antes que eu pudesse recusar novamente, David simplesmente tirou o pirulito de sua boca e... enfiou na minha. Olhei meio assustado para o maior, e então desviei meus pensamentos para o gosto de planta que se formara na minha boca. Aquilo era horrível. Após alguns segundos, o gosto de capim foi sumindo, dando lugar à um sabor adocicado, mas ainda sim não era nada saboroso.
– Não é tão ruim... - murmurei, enquanto tirava o doce da boca e o estendia para David, que o colocou em sua própria boca. – Isso foi estranho... não faça novamente.
– Não prometo nada. - Antes que eu pudesse rebater os comentários ridículos de David, o ruivo passou um dos braços ao redor dos meus ombros de novo.
– Eu odeio você. - Disse, mas soou mais infantil do que eu imaginava. David conseguia ser irritante quando queria, era incrível. David riu e me puxou para mais perto, ainda estávamos andando sem rumo pela cidade, quando o ruivo sugeriu que fóssemos num parque. Assenti com a cabeça e o segui até o tal ''parque''. Não era o que eu imaginava, alguns brinquedos se projetavam aqui e ali, onde luzes coloridas piscavam por todas as partes. Eu imaginei um lugar calmo, com um pequeno lago congelado e... patos andando pela grama.
David foi até um balcão e comprou dezenas de fichas para as diversas atrações do parque, a primeira delas era a roda gigante. Por mais que eu não quisesse entrar ali, o ruivo acabou me empurrando para dentro. Me sentei o mais longe que pude das laterais de vidro do brinquedo, e David sentou bem ao meu lado. O garoto tirou suas luvas e seu casaco e então abriu um sorriso gentil para mim.
– Vamos ficar aqui em cima um bom tempo... - murmurou. Olhei pela janela e vi a altura que estávamos. Ótimo, aquilo era animador. David deve ter notado o meu desconforto, por isso me puxou pela cintura até que estivéssemos bem próximos.– Sinto a falta do seu piercing, loirinho... - Riu, numa tentativa malsucedida de amenizar o clima tenso que se formara ali.
– Você pode ter certeza de quê não é o único. - Sorri, enquanto me levantava e me sentava no banco em frente ao ruivo. David revirou os olhos e olhou pela janela. Não pude evitar soltar um riso abafado ao ver a reação do garoto. – Não vejo graça nenhuma em ficar aqui em cima olhando para o chão. Na verdade, é meio assustador.
– Deve ser porque você acabou de estragar a ''graça''. - Sorriu, de forma cínica e arrogante. Cruzei os braços e voltei meus olhos para a janela. A roda gigante ficou alguns minutos parada no ar, mas desceu pouco tempo depois. Saímos de dentro do brinquedo e nos dirigimos até o centro do parque.
– E agora? Aonde você quer ir? - Perguntei, enquanto ajeitava meu alargador e olhava ao redor. David tirou a cartela de bilhetes do bolso e entregou um papelzinho roxo para mim. Montanha Russa. Ótimo, era tudo o que eu precisava naquele momento. Voltei meu olhar para os trilhos do brinquedo, todos posicionados de maneiras irreguladas e de aparência perigosa.– Você tem certeza? Não podemos seilá, andar no carrossel, ou alugar um barquinho?
– Vamos, não seja covarde, vai ser divertido. - Disse, com um sorriso perturbador nos lábios. Nos aproximamos da fila do brinquedo, e a nossa vez chegou mais rápido do que eu esperava. David me fez sentar bem na frente, na primeira fileira. Ele se sentou ao meu lado e um funcionário do parque colocou uma espécie de cinto de segurança em nós. Ok, aquilo não parecia seguro.
– D-David... eu não quero. - Sussurrei, eu estava sem voz. Meu rosto provavelmente estava pálido e uma expressão de terror devia estar se formando na minha face. O ruivo apenas se virou para mim e... riu. Senti minhas mãos ficarem trêmulas, eu odiava aquilo. O carrinho começou a andar e eu senti meu coração palpitar como se fosse escapar pela boca. Ele começou a subir e eu fechei os olhos com força, tentei pensar em qualquer outra coisa, até que senti a mão de David sobre a minha, o que não serviu para me acalmar nem um pouco. A queda estava bem na nossa frente, quando eu agarrei a manga da blusa de David com força, me segurando para não socá-lo o mais forte que conseguia. O carrinho desceu e um frio na barriga invadiu minha mente, enquanto um grito irrompia dos meus lábios. Eu não conseguia ver nada, e um zumbido soava no meu ouvido. Contei segundo por segundo, até que o ''passeio'' acabou.
– Não foi tão ruim assim, não é? - Perguntou, enquanto me ajudava a sair daquela bosta. Olhei para o garoto da forma mais ameaçadora que eu conseguia olhar enquanto me esforçava para não desmaiar.
– Filho da puta. - Resmunguei, enquanto o empurrava para que saísse da minha frente. O ruivo me seguiu, enquanto eu descia a escada do brinquedo. Pude ver que ele estava segurando um riso, é, devia ser muito engraçado me assistir em prantos. Nos sentamos em uma mesa na praça de alimentação, deitei minha cabeça sobre a mesa e esperei até que a tontura que eu estava sentindo sumisse.
– Você ainda me odeia? - Perguntou, cutucando minha bochecha com a ponta do indicador. Virei minha cabeça de forma que eu pudesse encará-lo. Apesar de tudo, eu estava sim me divertindo.
– Digamos que se você morresse, eu não me importaria muito. - Murmurei, abrindo um pequeno sorriso. David fingiu estar irritado e franziu o cenho, enquanto colocava um pirulito de maconha na boca.
– Você é muito cruel para um garotinho loiro com menos de 1,50 de altura. - Não sabia o que me irritava mais, se era o fato de ele achar que eu tinha 1,50 ou ele me chamar de ''garotinho loiro''.
– Em primeiro lugar, eu tenho 1,65, e de onde eu venho, isso é muito diferente de 1,50. - Zombei, enquanto levantava meu rosto. Eu realmente não considerava 1,65 uma altura ruim.
O ruivo riu e colocou os cotovelos sobre a mesa, apoiando o rosto sobre as mãos. Aquela não seria uma tarde tãaao ruim assim.
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