Everything Is Changed
17 Bônus - Ninguém vai machucar a minha família
Notas iniciais
Londres, 1994
Eu liguei para James pela décima vez e já estava ficando impaciente. Aquela reunião era extremamente importante se quiséssemos realizar o nosso sonho de abrir uma grande empresa de turismo. Nós dois vínhamos de famílias ricas, mas precisávamos daquele empréstimo para finalizar o processo.
Faltavam apenas cinco minutos e nada do meu melhor amigo. Bufei. James Lancaster, no auge de seus 22 anos, mais parecia um adolescente. Por mais que sempre fosse cheio de boas intenções, era irresponsável e nunca estava presente da maneira que deveria ser necessário para que nossa sociedade desse certo. Até agora, eu havia carregado todo o planejamento sozinho, mas não teria condições de colocar tudo em prática sozinho.
Meu telefone tocou. Olhei o número, torcendo para que fosse James, mas era a namorada dele, Marcela. Ele atendeu, torcendo para que ela tivesse notícias de James.
— Oi Marcela.
— Oi Arthur. – ela cumprimentou – O James está aí com você, né? Ele não atende o telefone há mais de uma hora.
— Não está, não, Marcela. – respondi – Achei que talvez você pudesse saber. Temos uma reunião em dois minutos.
— Eu não acredito! – ela exclamou – Não sei mais o que fazer com ele. Ele se comporta como uma criança e nunca estará preparado para... – ela se interrompeu.
— Para o quê? – questionei
— Nada não. Esquece. Eu preciso ir. Se souber de algo, eu aviso.
E desligou. Aquilo foi estranho. Marcela e eu nunca fomos grandes amigos, mas ela nunca chegou a me esconder algo, principalmente se tinha a ver com o meu melhor amigo. Bufei e conferi o relógio mais uma vez. Faltava um minuto. Se eu não entrasse agora, não teria outra chance.
Quando estava com a mão na maçaneta, ouvi alguém gritar atrás de mim:
— EI, ARTHUR! – era James – Espera aí, já cheguei.
Me virei para ele, sério. Ele sorria e terminava de abotoar a camiseta. Havia uma marca vermelha enorme em seu pescoço. É claro, ele estava com alguma mulher. Típico de James Lancaster. Não fazia ideia de como Marcela nunca desconfiou disso.
— Onde você estava, cara? – questionei, enquanto entrávamos – Isso é importante, James, não podemos perder essa chance.
— Eu sei, disso. Mas relaxa, estou aqui agora.
Balancei a cabeça em negação. James era imaturo pra caralho e eu estava começando a me arrepender de misturar amizade e negócios. Mas não disse isso em voz alta. Prezava demais por ter ele como meu amigo, já que nos conhecíamos desde os primeiros meses de vida.
Nó entramos para a reunião e nos sentamos com o gerente do banco, para conversar sobre o crédito que precisávamos para concretizar a abertura da nossa empresa. Ali eu entendi porque uma sociedade com James era uma ideia boa. Ele tinha muita lábia, sabia ser extremamente persuasivo e conseguiu facilmente convencer o gerente de que teríamos muito sucesso e este era um investimento garantido.
Quando saímos da reunião, James estava sorridente, pois sabia que só conseguimos por causa da habilidade dele. Fomos conversando animadamente, até chegar no assunto de como estava o namoro dele com Marcela.
— Cara, eu gosto muito dela, muito mesmo, mas não sei o que acontece. – ele admitiu – Eu não consigo ser fiel. Mas ela não pode saber, Arthur, não posso perdê-la.
Ponderei por um segundo. Nós três nos conhecíamos desde crianças e eu sempre tive muito carinho por Marcela, mas estava dividido entre os dois. Eu sempre soube que James era louco por ela e vice-versa, mas o relacionamento deles nunca fora saudável. E isso me preocupava muito. Temia pela segurança deles.
— Olha, eu não vou interferir. – falei – Mas você precisa controlar isso, James. Marcela não merece tudo isso.
Ele assentiu e nós nos despedimos. Meu celular tocou e era Helena, me convidando para tomar um sorvete, pois tinha algo importante para me contar. Sorri bobamente e fui até o local combinado.
— ~ -
Quatro anos depois
Eu encarava a conta do cartão de crédito de James, aberto a partir do capital da empresa. Mais uma vez, os gastos estavam astronômicos e isso estava começando a fugir do meu controle. Ele mal aparecia na empresa e raramente me ajudava com muita coisa, mas sempre queria estar presente nas decisões mais importantes. A situação estava ficando insustentável e eu não sabia mais o que fazer.
Pensei em ligar para Helena e me aconselhar, mas ela estava mais ocupada com o casamento dela, cuidando de sua casa e de seus afazeres. Mal tinha tempo pra mim. Isso ainda me doía, ter perdido a mulher que eu sempre amei para um cara que eu sabia que nunca seria bom o suficiente para ela. Ele se contentava com um trabalho meia boca e tratava ela com certa displicência, enquanto ela merecia ser tratada como uma verdadeira rainha.
Tentei abrir os olhos dela para a realidade, mas ela nunca me dava ouvidos e sempre defendia seu casamento. Eu me entristecia, pois estávamos nos afastando cada vez mais e eu temia perder a amizade dela para sempre, simplesmente porque morria de ciúmes.
Respirei fundo e afastei meus pensamentos, guardando a fatura do cartão de James e desligando meu computador, pegando minha pasta e saindo, já afrouxando o nó da gravata, irritado e cansado. Segui em direção a minha casa, pensando em como sairia da situação com James, pois não aguentava mais seguir nessa sociedade que só eu trabalhava e ele só gastava.
Assim que eu entrei na minha casa, porém, tive a maior das surpresas daquele dia. Sentada no sofá da minha sala estava Marcela, encolhida, sem maquiagem e com um roxo no braço. Quase nem a reconheci.
— Marcela, o que aconteceu com você? – questionei, pasmo.
— Eu...Arthur, eu nem sei como explicar. – ela murmurava – É o James.
— O que ele fez dessa vez? – perguntei, cansado de escutar sobre as bobagens do meu melhor amigo.
Ela respirou fundo e eu logo me toquei de que era algo muito grave. Marcela Spring era uma mulher forte, independente, dona de si e, acima de tudo, orgulhosa. Ela jamais admitiria que estava sofrendo ou que alguém conseguiu atingi-la, pois ela sempre dizia que poder era tudo na vida. Por isso, vê-la vulnerável me assustou.
— Nós tivemos uma briga porque...porque eu contei que...estou grávida. – ela começou – Ele ficou irritado, porque disse que não queria um filho agora, queria curtir a vida. Ele começou a me chacoalhar e eu pedi pra ele parar, pois não queria perder o bebê novamente e...
— Espera, novamente? – questionei – Como assim, Marcela???
— É que eu...há alguns anos, eu engravidei do James, mas perdi o bebê. Sofri um aborto espontâneo. Ele ficou uma fera por eu não ter contato e me machucou. Ele me bateu, Arthur e agora eu não sei o que fazer. Estou sozinha e grávida. James passou dos limites e eu não volto para ele por nada nesse mundo.
Absorvi toda aquela informação. Era demais para a minha cabeça. Quando Marcela começou a chorar, eu fui até ela e a abracei, tentando consolá-la e acabei lembrando de outras vezes que nós dois acabamos sendo o consolo num momento de tristeza, como quando Helena me contou que se casaria com outro. Naquele dia, foi Marcela que ficou comigo, me ouvindo desabafar e chorar. Hoje era o oposto. Eu a consolava por meu melhor amigo tê-la decepcionado.
— Me desculpe, Arthur. Isso não é um problema seu, e eu sei disso.
— Não há problema, Marcela. Sabe que somos amigos há muito tempo e que eu sempre estarei aqui com você.
Ela assentiu e eu voltei a abraça-la. Foi quando um flash de memória passou pela minha cabeça. As cenas da noite que eu passei com Marcela após Helena me magoar. Três garrafas de vinho, sapatos e roupas jogados pelo chão, dois corpos entrelaçados sob as cobertas, somente procurando um pouco de carinho.
— Marcela... – sussurrei – Há alguma chance de...esse filho...ser meu??
Ela não me respondeu e eu entrei em pânico. Nunca pensei em como ou quando teria filhos, mas certamente não era nessa situação. Marcela não me olhava nos olhos, com certeza já tinha a confirmação.
— Ele é seu, Arthur.
Não soube o que dizer. Isso não podia estar acontecendo. Eu me arrependia todos os dias por ter traído o meu melhor amigo e agora vinha essa consequência dos meus atos. Olhei para Marcela, que me encarava com expectativa.
— Eu não vou te obrigar a assumir essa criança, Arthur. – ela disse – Só queria que soubesse, porque é o mínimo que eu poderia fazer. Também não queria ter engravidado, porque sempre sonhei em ter uma família com James, mas quando ele souber, nunca vai me perdoar.
— Ele não vai mesmo. – murmurei
— Não sei o que fazer. – ela admitiu – Vou ter esse filho, não vou perder meu bebê de novo, mas não poderei esconder isso de James. Não poderei ficar com ele, com uma criança e ele sendo desse jeito. Eu o amo, mas para mim nosso relacionamento já passou dos limites.
— Eu vou assumir o meu filho, Marcela. – decidi – Não vou abandoná-la. Amanhã vou conversar com James e terminar nossa sociedade, também não aguento mais. E ele bater em você foi o limite. Não tolero covardia.
Ela me encarou, temerosa, pois sabia o quão difícil era lidar com James, ainda mais se ele ficasse com raiva. Mas eu estava decidido porque a situação havia saído do controle e eu não podia colocar o patrimônio da minha família em jogo. Nunca fomos tão ricos como os Lancaster ou os Spring, então não podíamos nos dar ao luxo de fracassar.
— E tem outra coisa. – continuei – Conheço a sua família. Vão te deserdar se souberem que está grávida antes de se casar. Por isso eu acho...que nós...devemos nos casar. E logo. Antes de a sua barriga começar a crescer. Você quer algo grande? Vai ser apertado, mas acho que....
— Não. – ela logo respondeu – Não me entenda mal, Arthur. Mas não sou apaixonada por você. Quero ter um grande casamento com quem eu ame e não parece certo com você.
— Tem razão. Eu concordo. Vou providenciar algo simples, deixe comigo.
Marcela me abraçou forte e eu retribuí. Sabíamos que selávamos um caminho sem volta, que traria sofrimento a nosso melhor amigo e também não nos faria feliz, mas não tínhamos escolha. Era nosso filho, nossa criança e eu queria tê-la. E também daria uma vida digna a Marcela, porque ela merecia um pouco de respeito.
Quando ela foi embora, disquei o número de James, me preparando para a fúria do Lancaster e esperando que, um dia, ele compreendesse a minha decisão.
Presente
Eu chorava como uma criança quando terminei de contar a história a Estela, que ouvia tudo em choque. Todos na sala tinham a mesma reação, pois ninguém sabia destes detalhes, nem mesmo Helena. Ela estava pensativa, pois sabia que muita coisa poderia ter sido diferente. Quando eu me recompus, Estela me abraçou. Ela sempre fora meu tesouro, a melhor coisa que me aconteceu.
Sabia que o casamento forçado com Marcela acabou sendo um fardo para a nossa filha, mas foi necessário na época e hoje as duas se davam bem, realmente como mãe e filha. Já sobre James, eu não conseguia acreditar que ele guardara tanto rancor, e pior, foi capaz de transmitir esse rancor para o filho dele, envolvendo pessoas inocentes nessa loucura que nós mesmos criamos quase vinte anos atrás.
— Você nunca me contou nada disso, Arthur. – disse Helena – Não deveria ter escondido isso de mim.
— Eu sei que não deveria, mas nunca tive coragem de revelar a você, meu amor. – eu respondi – Era algo que eu sempre me envergonhei. Minhas atitudes foram impulsivas e eu acabei magoando muitas gente.
— Pai – chamou Estela – Eu acho que você não magoou ninguém. Pelo contrário, assumiu sua responsabilidade de pai e me amou verdadeiramente, deu uma vida ótima à minha mãe, libertou-a quando viu que ela não estava feliz, me aceitou mesmo sabendo de todos os meus antigos problemas de comportamento e deu uma nova oportunidade ao seu amor.
— Estela tem razão, Arthur. – completou minha mulher – Você não pode se preocupar em ter magoado James. Ele magoou repetidas vezes a Marcela, além de se aproveitar de você várias vezes. James Lancaster não é a vítima.
Ponderei por um minuto. As duas tinham razão. O garoto que fora meu melhor amigo no passado não existia mais. No lugar dele estava um homem frio, calculista, movido a dinheiro e capaz de rejeitar tanto o próprio filho a ponto de ele assumir a raiva do pai. Ele não merecia minha preocupação e sim o meu ódio. Eu ia encontrar Lúcia e acabar com a família Lancaster.
— Concordo, Arthur. – disse Pedro – Não podemos nos dar ao luxo de ter pena deles agora, nem do James e nem do Ethan, senão eles vão se aproveitar de nós e nos destruir. Temos que nos concentrar somente em trazer Lúcia de volta e coloca-los atrás das grades.
Eu assenti. Eles estavam todos certos e eu que precisava assumir essa postura firme de novo. O passado já havia terminado e não importava mais. Endureci minha expressão e Estela sorriu. Aquela era a face de Arthur Cambridge, presidente e proprietário da maior empresa de turismo dos Estados Unidos e não deixaria ninguém machucar a minha família.
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