Everything Is Changed
18 Me preparando para o que viria a seguir
Notas iniciais
Observei os olhos de Estela se encherem de lágrimas, e um pequeno sorriso tomar conta de seus lábios. Tirei uma pequena caixinha do bolso, contendo o presente que eu comprei enquanto ela estava em coma. Me ajoelhei devagar e ela cobriu a boca com as mãos.
— Tenho dormido com isso debaixo do meu travesseiro há alguns meses. – comentei e abri a caixinha.
— É claro que eu aceito me casar com você, Superman. – ela respondeu e eu sorri como um idiota.
Coloquei o anel em seu dedo e beijei sua mão, levantando em seguida e a beijando, com todo o amor que eu sentia. Mas nos separamos rápido, pois não sabíamos se era o momento para aquilo, se iriam levar numa boa. Estela pareceu ler meus pensamentos e assentiu, segurando minha mão.
— Não é o momento de contar a todos. – ela disse.
Eu concordei e nós resolvemos voltar para a sala. Estela disse que iria até em casa tomar um banho e trocar a roupa. Eu me sentei no sofá, ao lado de Edmundo, que também parecia perdido. Lúcia sempre fora a minha favorita, mas nos últimos dois anos, era Edmundo que estava frequentemente do seu lado, então eu sabia que os dois estavam muito próximos. E, também, Lúcia era quase como a alma de nossa família. A que sempre estava alegre e que sempre nos manteve unidos. Sem ela, tudo parecia que iria desabar.
Minha mãe e Arthur continuavam a conversar com o investigador da polícia e eu observei os dois outros soldados que estavam em nossa casa, acompanhando. Não colocava nem um pouco de fé neles. Nem um pouco mesmo. Eles tinham cara de lesados e preguiçosos, então com certeza não encontrariam a minha irmã. Eu tinha a vaga sensação de que precisaríamos mexer uns pauzinhos por conta própria.
Porém eu não fazia ideia de como fazer isso. Não sabia por onde começar e nem com quem poderia contar para ter ajuda. Decidi ir até a casa de Estela, conversar com ela e ver o que ela achava. Ela tinha deixado a porta destrancada, então eu entrei e logo fui em direção ao segundo andar, ouvindo o barulho do chuveiro. Quando entrei no seu banheiro, ela levou um susto.
— Pedro! – exclamou – O que está fazendo aqui?
— Vim conversar. – respondi e notei que ela se escondia – Não precisa ter vergonha. Não é como se eu não tivesse visto tudo isso antes.
Seu rosto ficou vermelho escarlate e ela me mostrou o dedo do meio. Dei um riso fraco. Observei o quanto ela era linda, com o corpo perfeito, na medida certa. E, muito em breve, eu poderia chamá-la de minha mulher.
— Mas me diga – ela me chamou – Sobre o que queria falar?
— Estou começando a achar que precisaremos mexer uns pauzinhos por conta própria se quisermos encontrar a Lúcia.
— Por que pensa assim?
— Porque eu vi os caras da polícia. – rosnei – Parecem preguiçosos e lesados e eu não vou deixar o destino da minha irmã na mão deles.
— Você está certo. – ela suspirou – Não podemos esperar nada deles. Eu acho que sei quem pode ajudar, mas precisaremos manter isso entre nós, nossos pais não podem saber.
Pensei por um segundo. Eu sabia que Estela tinha tido uma vida um tanto...complicada antes de me conhecer, mas não sabia que tipo de contatos ela tinha e aquilo me assustava um pouco. Mas resolvi confiar nela.
Estela saiu do banho e foi para o quarto. Eu a segui e esperei que ela se vestisse. Quando isso aconteceu, nós nos sentamos em sua cama e ela ligou seu laptop, procurando o Facebook de alguém. Era um dos amigos dela, Paul MacAlister, de Londres. Eu estava viajando na maionese, então resolvi chamar a sua atenção.
— Como o Paul pode nos ajudar? – questionei
— Paul entende muito de tecnologia e pode rastrear ou hackear qualquer coisa. – ela começou – Precisaremos dele para encontrar o Ethan, buscando qualquer rastro que ele deixou. E tem uma outra pessoa também que poderia ajudar. Mas não sei se é boa ideia chamá-lo.
— Quem é, Estela? – suspirei
— Um ex-aliado. – ela respondeu – Ele era amigo de Stefan quando eu o namorava. E sempre nos ajudava quando precisávamos, mas quase não falei com ele desde que me separei do Stefan. Por isso não sei se é uma boa. É meio barra pesada, mas poderia ajudar.
Ponderei a ideia. Não queria ninguém perigoso rondando mais a minha família, mas talvez precisasse de alguém que fosse capaz de fazer qualquer coisa. Estela me analisava, em silêncio. Não fazia ideia de que ela ainda teria esse tipo de ligação perigosa, mas não podia culpa-la. Mas algo no seu semblante me fez perceber que aquela não era toda a história.
— Estela, tem mais alguma coisa que eu deva saber sobre ele?
Ela respirou fundo e eu sabia que havia mais.
— Quando eu estava em Oxford, lembra que eu contei que estava meio em depressão? – assenti – Então, ele era o cara que estava me dando medicamentos para me “ajudar”, mas por incrível que pareça, éramos meio amigos e ele sempre me ajudou a sair de umas enrascadas. Mesmo assim, é uma fase da minha vida que passou, então ainda acho que pode não ser uma boa ideia ele vir.
Não tinha resposta para aquilo. O cara podia ser considerado um traficante, mas provavelmente tinha um tipo de conhecimento dessa raça que não encontraríamos em outro lugar, e poderia ser útil na busca pela minha irmã. Tomei minha decisão.
— Se não arriscarmos, nunca acharemos a Lúcia. Chame o cara.
Estela me olhou ainda em dúvida, mas decidiu me apoiar e pegou seu celular, indo fazer as ligações. Quando ela saiu, me peguei pensando se aquilo era boa ideia. Estávamos agindo por impulso e provavelmente isso era perigos, mas eu não voltaria atrás. Minha irmã estava nas mãos de um psicopata e eu não podia abandoná-la. Iria até o fim para trazê-la de volta.
— ~ -
No dia seguinte, eu e Estela estávamos no saguão do aeroporto, esperando nossos “convidados”. Paul e Mikayla chegariam primeiro e eu estava nervoso, pois não sabia se me culpavam pelo que aconteceu à Estela no ano passado. Mas ela me tranquilizava, dizendo que tudo estava superado e que não havia mágoa nenhuma. E isso se confirmou quando chegaram, pois me abraçaram e disseram que estavam felizes por nós dois. Ainda não contamos sobre nosso “noivado”. Esse era um segredo que tínhamos que manter por hora.
— Estávamos com saudade, Cambridge. – eles comentaram – Faz um bom tempo desde que voltou para a América.
— Também estava morrendo de saudade, eu e o Ben. – Estela respondeu enquanto os abraçava. Em seguida veio até o meu lado e segurou minha mão. – Bom, como vocês sabem, nós voltamos. Conversamos tudo o que tínhamos para conversar e passamos por maus bocados antes de termos a chance de estar juntos de novo. Espero que entendam.
Paul e Mikayla se entreolharam, sorrindo, depois abraçaram novamente nós dois. Nós retribuímos e eu estava feliz por poder contar com eles como amigos, pois eram muito legais e nos ajudariam bastante. Nos separamos quando ouvimos alguém pigarrear atrás de nós.
— Desculpem atrapalhar o momento família de vocês. – disse o cara – Muito prazer, me chamo Elliot.
Encarei-o em dúvida, pois ele aparentava não ter mais de 17 anos. Porém Estela deu um passo à frente e um pequeno abraço nele. Então deveria ser a pessoa certa.
— Seja bem-vindo a New Haven, Elliot. – ela disse – Este é meu namorado, Pedro. E o Paul e a Mikayla você deve lembrar, da época do Stefan.
— Claro que eu lembro. – respondeu Elliot – Salvei a pele dos dois uma vez com Stefan.
Estela encarou seus dois amigos, claramente confusa por não saber do que se tratava. Vi que Paul apertou a mão da Mikayla e fez um sinal de depois. Eles escondiam alguma coisa. Mas não tínhamos tempo e nem podíamos dar bandeira ali, então rapidamente fomos para o meu carro, partindo em direção ao nosso prédio.
Ali seria outra operação delicada, pois nossos pais não podiam nem sonhar que estávamos fazendo isso. Se descobrissem, ficariam furiosos, mesmo que fosse apenas preocupação com a nossa segurança. Estela resolveu subir na frente, observando se não havia ninguém conhecido no corredor, que pudesse nos dedurar depois.
Quando o caminho estava livre, ela mandou uma mensagem para que nós subíssemos. Graças a Deus, não tivemos nenhuma surpresa, e logo todos estavam no apartamento que Estela e Ben dividiam. Depois de instalarmos todos confortavelmente, decidimos que era hora de voltar ao meu apartamento, pois meu pai logo chegaria e eu precisava estar lá, junto com Estela.
Secretamente, estava com medo do que poderia acontecer quando meu pai chegasse, pois ele nunca gostara muito de Arthur e iria gostar menos ainda quando soubesse da história toda. Assim que entramos no local, nos deparamos com uma pequena discussão. De um lado minha mãe e Arthur, e do outro Susana e Edmundo.
— Ele tem o direito de saber!! – exclamou Susana – Tem o mesmo direito que você, mãe.
— Mas você sabe como ele é, filha! – retrucou dona Helena – Ele vai querer partir para a ignorância e vai atrapalhar todo o processo.
— Não interessa!!! – gritou Edmundo – Ele é nosso pai e esteve com a gente nos últimos anos, enquanto você estava curtindo o seu amor de juventude! Ele merece saber a verdade sobre o que aconteceu com Lúcia. Se vocês não contarem, eu mesmo farei isso!
E saiu, subindo as escadas e batendo a porta do quarto que eu dividia com ele. Minha mãe desabou no sofá, completamente perdida e chorando, pois jamais viu Edmundo daquela maneira. Bem que eu tinha estranhado o comportamento fechado dele nos últimos dias, sem sequer chegar perto de nossa mãe.
Estela correu para junto dela e de seu pai, sendo observada por Susana. Ainda estava assimilando o que eu acabei de ver, pois não esperava esse comportamento de Edmundo. Arthur e Estela tentavam conversar com a minha mãe, enquanto Susana analisava tudo, enquanto fazia carinho em sua barriga. Achei estranho o fato de Susana ter tomado o partido de Edmundo na discussão, já que os dois nunca se deram muito bem.
— Vocês sabem que o Ed está certo, né? – ela comentou – Nosso pai é quem estava cuidando deles, então não podemos mentir em relação ao que aconteceu. Não importa qual será a reação dele.
— Mas isso não quer dizer que pode falar com a mamãe deste jeito. – protestei – Ela tem o direito de ser feliz e não é como se ela tivesse escolhido deixá-los com ele.
— Eu sei disso, Pedro. – respondeu Susana – Mas se mentirmos isso pode ser usado contra nós depois e ninguém quer mais problemas.
Ponderei por alguns segundos. Ela estava certa, não poderíamos nos dar ao luxo de ter mais um problema quando a situação já estava complicada. Mas quem contaria a nosso pai? Ele era uma pessoa difícil e seria uma tarefa bem complexa. Susana me encarou, parecendo pensar no mesmo que eu. Tomei minha decisão. Eu contaria, pois era o único que tinha condições de fazer isso e bater de frente com o papai.
Peguei o telefone e disquei o número, respirando fundo e me preparando para o que viria a seguir.
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