Every Road
2 Capítulo 1 - Is this my home?
Notas iniciais
Qual o cheiro de casa? Como me sinto em casa? São perguntas que me fiz nos últimos três anos, e também não obtive resposta. Califórnia nunca deixou de ser a minha casa, e sinto que nunca deixará. Não importa onde quer que eu esteja, este sempre será meu lar, e por um lado, estou feliz por estar de volta, um lado minúsculo.
Assim que cheguei, fui para casa ver meu pai. Ele não me esperava com nada especial, somente comida requentada, mas eu também não estava com fome. Pude abraçá-lo pela primeira vez em três anos, mas eu não era muito sentimental, então não posso falar que foi um momento maravilhoso. Meu pai ainda cheirava estranho, e não havia arranjado uma nova mulher. Aliás, aquela casa precisava de uma mulher. Ele ainda usava a cortina laranja que mamãe deixou, e o mesmo sofá azul. A única coisa que ele havia trocado foi a TV. O cara esperou eu sair de casa para trocar a TV, ele nunca mudaria.
Depois que ele me perguntou como estava tudo em Washington e eu pude ver novamente cada detalhe do seu rosto — nada havia mudado muito, ele continuava com aquela barba estranha, com os mesmos olhos, tudo igual, tudo aquilo que me fazia sentir em casa —, cada detalhe da casa, então finalmente pude me ver sozinho. Não hesitei antes de procurar uma lata de cerveja e subir para o telhado.
Me senti realmente bem com o gosto amargo de cerveja e o céu alaranjado. Era daquilo que eu sentia falta, coisas que eu não teria em Washington. Poder relaxar e esquecer de tudo, viver um dia de cada vez, sem preocupação, sem nada. Olhar pro horizonte e ver a imensidão azul que me cercava, o vento no rosto, me sentir único.
Era isso o que eu precisava, do vento no rosto, me sentir único Pelo que me lembrava, só havia um jeito de fazer isso.
Escorreguei pelo telhado e logo eu já estava na garagem. Procurei pela minha antiga bicicleta e ela havia sido reformada, meu pai havia tido muito tempo livre. Peguei a bicicleta sem pensar muito e logo a adrenalina havia tomado conta do meu corpo novamente. A velocidade nunca me saciava, eu sempre queria mais e mais.
Dessa vez eu tinha velocidade de verdade, não era como um garoto de catorze anos idiota seguindo o amigo. Amigo. Que palavra irônica. Provavelmente ele estava com a Sam enquanto eu estive fora. Ele não estava completamente errado, eu não sentia mais nada por Sam, não tinha mais nada com Stew, e não me importava com o que eles faziam.
Freei a bicicleta bruscamente assim que cheguei à praia — dessa vez não cai, eu havia crescido. Andei lentamente e me sentei na areia. O céu estava com um tom roxo estranho, a areia amarelada recebia confortavelmente meus pés descalços. O mar azulado parecia estar prestes a me engolir, mas mesmo assim me deixando mais calmo.
— O bom filho a casa torna — e sua voz perfurou meus ouvidos. Eu preferia qualquer coisa para não ouvir sua voz novamente na minha vida. Eu não havia pensado muito na minha amizade com Stew, eu não gostava muito de pensar em tudo o que acontecera e no ódio que eu criei depois de tudo aquilo. A verdade é que todo o tempo havia sido em vão. Eu não havia voltado para perdoá-lo, acertar as contas, ou algo do tipo, eu não havia voltado para conversar com Stew. Era a última coisa que eu pretendia.
— O bom filho nunca parte — falei com frieza. Não virei para olhá-lo nenhuma vez, e sem duvida, foi a melhor coisa a se fazer.
Stew não voltou a falar mais nada, ele entendia o abismo que havia entre a nossa antiga amizade. Eu também não falei mais nada, nem fiz algum movimento convidativo. Permaneci o tempo todo parado de frente para o sol que afundava no meio das águas que agora estavam alaranjadas.
A praia continuava quase deserta, eu sabia que em outro ponto eu mal conseguiria me mover, mas aqui era o meu lugar preferido. Eu podia por os pensamentos em dia, conversar comigo mesmo, me enfrentar, qualquer coisa. Mas dessa vez eu não estava relaxado, a companhia de Stew havia mudado de agradável para indesejável.
A culpa era toda minha, basicamente. Eu guardava rancor demais, e era cabeça dura. Eu não sabia ouvir outra pessoa, mas era tarde demais. Ele havia ficado com a Sam, não havia como não esquecer.
Cansado de ficar pensando nessa situação, me levantei e resolvi sair. Sem dizer nada a Stew, peguei a bicicleta e comecei a pedalar suavemente pelas ruas. O vento agora era algo agradável, não aquela coisa agressiva. Também não pensei mais em Stew e Sam, eles eram página virada. Tudo o que eu precisava era uma nova página, e só tinha um lugar de fazer isso.
Pedalei mais rápido até um dar que ficava na esquina da rua do antigo colégio, era um bar mal iluminado, com musica ruim, mas muitas garotas bonitas.
Lá dentro, me sentei em uma mesa que ficava na próxima à janela e pedi uma cerveja. O lugar tinha uma iluminação péssima e uma mobilha rústica. O cheiro também não era do mais agradável, mas o lugar era legal. O que mais me surpreendeu no lugar foram os novos funcionários. Sentado na minha mesa, olhando para os carros passando na rua em mais um dia monótono, uma garota alta e pálida, com cabelos cacheados e um avental vermelho apareceu segurando uma bandeja. Observei bem suas feições familiares e não pude evitar ficar surpreso.
— Amy Lee?! — Amy era uma das garotas mais populares do colégio, a ultima pessoa que eu imaginaria trabalhando em um bar de esquina.
Ela sorriu para mim e pôs o copo na mesa, depois se sentou na minha frente.
— Olha só quem está de volta — disse ela cuidadosamente. Ela ainda tinha o mesmo olhar intimidador. — Não achei que te veria aqui novamente.
Estreitei o olhar, tentando entender do que ela estava falando. Não consegui dizer nada, bebi um gole da minha cerveja e permaneci em silêncio.
— Foram longos anos, Matthew — assenti e bebi mais um gole de cerveja. — Voltou hoje?
— Aham.
— Não devia estar confraternizando a volta com seu pai e amigos? — ela queria algo, era visível no seu olhar. Amy era uma garota legal, mas também muito vingativa.
— Já confraternizei com meu pai, não vejo necessidade de ver meus amigos — fiz aspas imaginarias em "amigos", indicando minha raiva.
Ela soltou um sonoro hm e olhou para a janela. Ela queria dizer algo que estava engasgado, e eu sabia muito bem a que estava relacionado. Ela odiava Sam — assim como eu — e pelo visto, ainda tinha uma vingança para fazer.
— O que tem para me dizer? Tem a ver com Sam, não tem? — coloquei as cartas na mesa, esperando que Amy me dissesse logo tudo, mas não foi bem assim. Ela pareceu incomodada.
— Matt, não sou assim mais. — ela falava pausadamente. — Não sou aquela garota superficial, manipuladora, vingativa. Eu esqueci tudo do passado, não me importo mais com isso, e acho que você devia fazer o mesmo. Não vale a pena ficar se martirizando por pessoas que você não gosta.
Mais uma vez eu não consegui dizer nada. As coisas haviam mudado mesmo enquanto eu estava fora, felizmente, acho. Assenti pra ela, que se levantou e foi para a cozinha do bar. Eu estava realmente sem palavras, pela primeira vez Amy Lee me calou. Era realmente incrível a maneira como agora ela era... não vadia. Eu nunca imaginei essa garota desse jeito, mas ela não me era preocupação. Voltei a ficar olhando os carros passarem pela janela e as luzes da cidade. Eu adorava os pontos alto.
Pouco mais tarde, quando eu estava quase indo embora, Amy voltou da cozinha, agora sem o seu avental e sorridente. Seu cabelo ondulado estava atrás da orelha. Ela tinha um sorriso decidido.
— Vai ter uma festa hoje mais tarde, você precisa entrar na cidade novamente — sorri para ela.
Amy Lee não havia mudado, nem mesmo fisicamente. Ela sempre continuaria a vadia manipuladora, que não conseguia não se aproveitar de alguém. Não importa quanto tempo passe, ela sempre será a vadia. Ela não me chamou porque queria sair comigo, disso eu sabia.
— Conte comigo.
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