Every Road
3 Capítulo 2 - I See
Notas iniciais
Eles sempre dizem que a criança que você foi deve ter orgulho do homem que você é. Eu não sei se aquele Matt de catorze anos correndo sobre uma bicicleta atrás do amigo teria orgulho do Matt de dezoito anos, na frente de um espelho indo para uma festa com uma das garotas mais odiadas do colégio. Acho que me envergonharia ainda mais pensando que eu não queria realmente ir àquela festa com ela, eu estava indo porque sabia que Sam estaria lá e eu precisava pelo menos ver como ela estava.
Na real, quem são eles para dizer alguma coisa?
Estava de frente para o espelho, arrumando a camisa e repensando se devia mesmo ir até essa festa quando meu pai entrou no quarto sem bater. Não me virei, essa era uma coisa típica dele. Ele se sentou na minha cama e ficou me olhando. Seu olhar tinha uma ponta de melancolia.
— Se enturmou rápido — observou ele. Assenti e continuei a arrumar a camisa, quando terminei, passei um perfume e me joguei na cama junto a ele. — Tá certo. Vai querer o carro?
Estranhei. Ele nunca antes me ofereceria o carro. A distância não fez muito bem a ele.
— Não precisa, é uma festa aqui perto — ele não disse nada. Me senti mal porque ele só queria conversar um pouco com o filho dele, mas eu não conseguia conversar assim. Nunca fomos tão unidos, mas sempre tínhamos um dialogo. Agora tudo se perdeu. — De qualquer jeito, eu não volto tarde.
Me levantei e fui até o espelho novamente. Eu odiava quando não tínhamos o que conversar e um silêncio constrangedor se formava. Não importa com quem fosse, isso era péssimo, e me perseguia. Eu nunca conseguia ter uma boa conversa.
Me despedi dele sem muita cena e sai. Eu estava realmente excitado para essa festa, não por causa da Amy, do Stew ou da Sam. Eu queria viver mesmo, não ficar vivendo pelos outros. Era idiotice isso.
Assim que cheguei à festa, me lembrei o motivo de antigamente eu não frequentar esses lugares. Pessoas suadas e fedidas se agarrando, musica ruim, bebida ruim, pessoas que eu costumava odiar. Eu estava quase partindo quando a mão gelada de Amy tocou a minha e me levou para a pista. Ela arrastava seu corpo no meu em uma espécie de dança que eu nunca havia feito antes. Eu me sentia realmente estranho.
E não muito tempo depois eu já estava completamente bêbado. O lugar era horrível. As pessoas eram horríveis, mas eu logo dei um jeito de aproveitar.
Em uma parte da festa que eu já não tinha mais noção da hora, eu avistei seu bronzeado inconfundível. Ela continuava com o mesmo tipo de vestido praiano, e os mesmos cabelos escuros e ondulados. A única coisa que mudara é que agora ela era um pouco mais alta. Suas feições também mudaram, ela não parecia mais aquela garota sorridente de quando fui embora, mas isso não a impedia de parecer tão perfeita. Tudo nela atraia o meu olhar.
Assim que a avistei pela primeira vez não pude notar de ver sua mão no ombro de Stew. Com certeza ele havia se dado muito bem todo esse tempo. E ainda teve coragem de ir atrás de mim na praia. Ele não tinha esse direito, se fazer dessa maneira, não duvidava nada que em algumas horas ele chegaria até mim e diria que não era nada do que eu estava imaginando. Era tudo o que eu estava imaginando, eles estavam juntos. Stew conduzia Sam suavemente por uma dança alegre. Eu podia ver alegria no seu rosto. Era exatamente isso que eu precisava ver. Ver como eu havia sido tolo. Pensar que um dia eu até cheguei a acreditar que eu estava me precipitando, mas o tempo todo eu estive certo.
Sam notou que era para eles que eu olhava, seu olhar encontrou o meu corpo grudado no de Amy e não pareceu muito feliz a me ver de volta. Tudo o que seus olhos passavam era preocupação. Seus dedos afrouxaram do ombro de Stew, ela murmurou algo pra ele e então saiu.
Eu me sentia ridículo e satisfeito. Meu olhar ficou direcionado para o chão desde então.
— Você não sabia que eles estavam juntos depois que você foi embora? — a voz suave de Amy dava o bote final. Chacoalhei a cabeça negativamente, deixando seu veneno entrar no meu corpo. — Assim que você partiu, eles começaram a namorar — e então eu me arrependi profundamente de ter saído de Washington. Me arrependi do dia em que iniciei uma amizade com Stew, ou que olhei pela primeira vez para Sam. Me arrependi de tudo o que já fiz. Não sabia se estava pronto para tanta informação. Era evidente que não. Amy me afastou um pouco e olhou nos meus olhos. — Me desculpa.
Suas desculpas não eram sinceras, nem tinham efeito algum. Nem mesmo ela queria que tivesse algum efeito, este era o seu objetivo. Pensei em ir atrás de Sam, conversar quem sabe, mas tudo isso seria patético. Na verdade, essa era uma boa palavra pra dizer como eu me sentia. Extremamente patético.
Pousei minha cabeça no ombro de Amy e abracei sua cintura. Era uma musica lenta que tocava. Eu não queria conversar, ela sabia disso. Então somente colocou suas mãos sobre as minhas costas e moveu seu corpo com suavidade. Tentei aproveitar cada segundo daquele momento com ela, não queria pensar em Sam, não era certo para ninguém. Amy tinha cheiro de lírios que me lembrava Washington, que querendo ou não, havia se tornado a melhor parte da minha vida.
As coisas não eram assim algumas horas atrás.
Levantei minha cabeça novamente, e dessa vez Sam não estava apenas incomodada. Eu podia ver terror no seu rosto, o medo. Na sua frente estava um homem da minha altura apontando alguma coisa pra ela. Não era uma arma, algo como um papel. De repente, Sam começou a chorar e tentava disfarçar isso. O homem estava a assustando.
Olhei em volta procurando por Stew, algo precisava ser feito. Do outro lado do salão ele estava me olhando com um olhar apertado e a cabeça curvada. Ele estava me chamando.
— Espera aqui, um minuto — falei para Amy, colocando a mão no seu ombro e saindo. Ela disse alguma coisa, mas não dei ouvidos.
Comecei a correr no salão na direção do homem careca que conversava com Amy, Stew me lançou um olhar assustado e chacoalhou negativamente a cabeça. Ele estava indicando que eu não devia fazer nada. Olhei novamente para o homem, que agora apertava o pulso da Sam, que chorava.
Ele não tinha esse direito, não podia fazê-la chorar.
Stew gritou algo como "não", mas ele não podia mais impedir. Saltei no ar e meu punho atingiu a bochecha do homem que caiu no chão, sobre um casal. Meu pulso começou a arder imediatamente com o impulso, mas agora ele estava no chão, e Sam estava bem.
Pela primeira vez em muito tempo eu estava muito perto dela. Eu poda sentir sua respiração acelerada, sentir as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ver cada um daqueles detalhes que me atraem. As pontas dos meus dedos tocaram seu braço gelado, ambos tremiam.
— Por que você fez isso? — sussurrou ela. Não respondi, nem tive tempo.
O homem que estava caído no chão se levantou rápido e pulou sobre mim. Seu braço agarrou meu pescoço e começou a tirar o meu ar. Senti um peso imenso nas costas, então vi Stew sobre o homem que me atacava.
Sabia que todos os olhares estavam em nós. Havia outros caras que vinham, mas Stew também tinham seus amigos. Logo todos no salão estava brigando.
Caos era uma boa palavra para definir tudo. Alguns que não sabiam brigar jogavam bebidas e comidas pelos ares, outros estavam com cadeira. O homem que ameaçava Sam estava com um olho roxo, Stew tinha um corte no braço e minha boca sangrava. Procurei por Amy no meio da confusão, mas não a encontrei.
Uma voz vinda de trás de mim me pegou de surpresa.
— Você vai se arrepender. — E pam. Senti um peso enorme nas minhas costas e meu rosto havia encontrado o chão. Eu estava um pouco lerdo. Nenhuma palavra saia da minha boca, eu estava quebrado.
Naquele momento me perguntei por que havia feito aquilo. Obviamente não obtive resposta. Eu sentia ódio por Stew e por Sam, eu não queria vê-los, por que eu estava apanhando por eles?
Enquanto estava caído no chão, uma lágrima escorreu do meu rosto. Eu estava realmente patético. No tipo de situação que eu estava certo que evitaria. Eu realmente não queria tudo isso, não queria me afastar de Stew ou de Sam, eu gostava da companhia deles, antes de ir embora. Gostava das tardes de verão em que andávamos de bicicleta e que íamos para a praia ver o por do sol. Não gostava de estradas, mas também sabia que elas sempre nos levaria pra cá. Eu seria sempre o segundo, sempre o cara que pediria pro amigo esperar, o cara que perdia a namorada, ou o garoto que ficava no chão. Talvez este seja o meu papel, com catorze, ou dezoito anos.
O estranho colocou seu pé agressivamente nas minhas costas, me apertando contra o chão. Ele estava realmente irritado. Ele empurrou meu corpo contra o chão e eu senti que não conseguia mais respirar. Sua risada perfurou meus ouvidos.
— Você arranjou um inimigo, garoto novo. — então ele afrouxou seu pé e me deixou respirar novamente.
Todos os olhares se dissiparam, então Sam me ajudou a levantar. Tentei recusar sua ajuda e mostrar que eu não precisava dela, mas estava muito machucado. Depois que me levantei empurrei sua mão, mas ela continuou lá, me olhando com aqueles olhos grandes e azuis como o mar que ele tanto gostava de olhar.
— Vamos andar na praia? — ela falava pausadamente, claramente abalada.
Ela colocou a mão no meu braço machucado enquanto andávamos chacoalhei o corpo a afastando e fui andando na frente. Não era o momento perfeito, mas era o que mais precisávamos.
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