Everest

1 1 - Nunca diga nunca




Nem mesmo os fãs achavam que esse dia iria chegar, mas cá estavam eles, posando para a foto que horas depois se tornaria viral pela internet e suscitaria dezenas de teorias malucas pelos fóruns e redes sociais. Não havia registro dos cinco integrantes da Everest desde a separação da banda quatro anos atrás, desde então, cada um seguiu sua vida, tentando carreira a solo, sumindo da mídia ou sendo palco de algum escândalo. Nenhum deles conseguiu chegar perto do sucesso da época da banda, apesar de alguns terem tentado bastante. Todos apostavam que a junção de Brandon, Matt, Nate, Kyle e Jeremy nunca mais iria acontecer.

Nunca diga nunca.

Uma das bandas mais populares e rentáveis dos últimos quinze anos ressurgiu dos mortos ou pelo menos está dando seus primeiros passos em direção da luz. Na foto que alcançou milhares de curtidas em apenas alguns minutos, os cinco integrantes estão sorrindo, como costumavam fazer nos áureos tempos dos primeiros três CDs. Eles não lembram em nada a decadência, na verdade, os garotos (quer dizer, garotos não, afinal, eles já são homens com seus 27 e 28 anos) são o retrato da banda famosa que foram.

Isabella Barnes, Wonderland.com



**



A foto foi tirada na sala de estar de Kyle Morris. Alguém poderia imaginar, vendo apenas a imagem, que as únicas pessoas presentes eram os rapazes e talvez um grupo de amigos. Claro que esse não tinha sido o caso. Três agentes estavam sentados no sofá no lado oposto da sala. O primeiro, Christopher Lee, tinha os braços cruzados rente ao corpo e batia o pé no chão em um ritmo ansioso; a segunda, Olivia Adel, estava um pouco tensa, apesar de demonstrar aparente tranqüilidade; o terceiro, Travis Warren, se mantinha sério e concentrado. Eles tinham um olhar analítico, como se fossem generais de guerra olhando para um mapa e decidindo a melhor estratégia de combate. Alguns diriam que tal preocupação era um tanto exagerada, mas a indústria musical sempre foi um campo de guerra disfarçado.

Além deles havia os que estavam trabalhando sob ordem dos agentes. Diana Nash tirou a foto e a preparou para ser postada, Natalie Wolf, sentada no tapete, mexia furiosamente no celular, esperando para acompanhar a reação na internet, Liam Reed estava em pé, esperando por algum comando e animado com o desafio no qual embarcou.

Não era um reencontro de amigos como a legenda cuidadosamente escrita por Diana deixou transparecer, os sorrisos sumiram no instante seguinte da foto, sendo trocados por expressões cautelosas. Contudo, na internet, ninguém viu essa parte e isso é o que importa.

A explosão de comentários no perfil de Kyle foi assustadora. Depois de alguns minutos, Natalie anunciou que a foto já estava sendo replicada no twitter de quatro sites de fofoca e três de música. Até o fim do dia seguinte, haveria uma infinidade de postagens nas mais diversas páginas. Everest chegaria ao topo dos trending topics. Os três agentes sorriram satisfeitos com o resultado.

– Everest está oficialmente de volta. – Natalie comentou com Diana quando esta se sentou ao seu lado no tapete. Os agentes brindavam com a banda, Christopher planejava enquanto Olivia predizia resultados. Nenhum dos rapazes sorriu, pelo menos não honestamente.

– Vamos vê onde isso vai dar. – sussurrou de volta.



**



Karen foi acordada pelo toque insistente do seu celular. A garota grunhiu ao perceber que seu sonho incrível com o ator de cinema mais quente da temporada estava se diluindo e dando lugar à realidade onde ela era acordada as seis da manhã por uma ligação. Tateou em busca do aparelho e o encontrou no chão, ao lado da cama, ainda conectado ao carregador. O visor dizia que sua antiga companheira de classe no colégio era quem estava ligando. Ela amava Nancy, mas isso não impediu que atendesse com um tom rude.

– O que foi?

– Karen Graves, como você não me disse que a banda iria voltar? – a voz estridente de Nancy a fez retroceder. Sua visão ainda estava nublada pelo sono e seu pensamento lento. Demorou alguns instantes para se tocar sobre o que a amiga estava perguntando.

– Você fala da Everest.

– Do que mais eu iria falar? – ela estava genuinamente surpresa pela garota conseguir estar tão animada em plena manhã de domingo, mas levando em consideração que Nancy foi uma das maiores fãs da banda no passado... Talvez não devesse ser uma surpresa tão grande assim.

Sua amiga tinha a mesma idade que ela, dezenove anos. Quando a Everest acabou oficialmente, Karen tinha quinze, assim como Nancy. A banda foi uma febre entre adolescentes e jovens adultos, a irmã mais velha de Nancy foi uma groupie durante os dois últimos anos da banda. Nessa época Karen não conhecia a garota, mas sabia que a Nancy de quinze anos, assim como muitas outras, chorou com o fim da banda e guardou todas as camisas, pôsteres e lembrancinhas em um baú na base do armário. Ela imaginava que estaria tudo saindo do baú nesse exato momento.

– Não estou sabendo disso. – respondeu se sentando na cama. – Além do mais, como é que você supôs isso?

– A foto que o Kyle postou na madrugada. Eu pirei quando vi e basicamente todo mundo está falando nisso. Todo mundo. Planeta terra para Karen, em que dimensão você se encontra?

– Em uma dimensão onde eu era namorada do Luke Harrison.

Nancy riu e Karen foi capaz de ouvir a amiga teclando no que devia ser seu computador.

– É impossível que você não soubesse. A irmã de Matt gostoso Graves não saber da reunião da banda? Aposto que você tem informações quentes sobre os rapazes e não quer me falar nada. – ela passou a mão pelo cabelo, colocando-o para trás da cabeça. – Isso é cruel.

– Eu juro que não estou sabendo de nada... Pelo menos nada que seja muito relevante. – considerando que Nancy explodiria caso ela falasse às informações que seu irmão tinha dito a ela, Karen não se sentiu nem um pouco culpada em mentir. – É domingo Nan, será que eu posso voltar a dormir?

– Sua louca! Como assim dormir? Você tem noção que o Everest vai voltar? Seu irmão vai ficar famoso, de novo, e nós vamos ter novo CD, show... Eu nunca fui a um show deles, minha mãe dizia que eu era muito nova, mas agora... – Karen afastou o celular do ouvido com um suspiro. Nancy começou a tagarelar e ela pensou na probabilidade da sua amiga não ficar muito irritada caso ela desligasse na sua cara.

– Eu vou dormir.

– Os rapazes vão para sua casa? Meu deus, Brandon Serrano vai para sua casa? Aquele homem é um deus grego. O que não daria para ter Brandon na minha casa.

Seu rosto esquentou ao pensar no vocalista. Ele tinha sido um dos melhores amigos do seu irmão e sua versão criança desenvolveu uma forte queda por ele. Era patético lembrar os momentos em que congelou na frente dele e então gaguejou alguma coisa incompreensível para logo depois sair correndo. Brandon tinha morado com sua família por um ano e meio quando seus pais o expulsaram de casa na adolescência e depois que a banda foi formada e fez sucesso, o rapaz costumava visitá-los com certa freqüência. Karen esperava que ele não tivesse prestado atenção no seu comportamento e, por deus, que nunca tivesse visto seu caderno cheio de corações com seu nome no meio. Ao se lembrar disso, ela se sentiu ainda mais patética.

– Vou desligar Nan. A gente se fala mais tarde.

Sem esperar uma resposta, ela encerrou a ligação e colocou o celular de volta ao chão. Cobriu o corpo com o cobertor e apertou os olhos mentalizando o lindo sorriso de Luke Harrison em um iate na costa francesa.

Infelizmente Luke não deu o ar de sua graça nos seus sonhos novamente e logo se tornou claro que nem dormir seria uma opção pelas vozes levantadas vindas da cozinha. Ela foi até o ponto do corredor em que se tornou possível ouvir claramente o que as vozes estavam dizendo.

— Via twitter Matt. Via twitter — Jared disse.

— Eu não sei por que você está fixado nesse detalhe.

— Porque é um detalhe importante. Meu namorado decide tomar essa decisão enorme que vai mudar as nossas vidas e eu descubro via twitter.

— Eu te disse que um dia eu iria querer voltar a cantar.

— Um dia no futuro indefinido. Não agora.

— Meus amigos precisam agora. Jeremy e Nate não estão indo bem. Até Kyle está meio mal. Everest já acabou há quatro anos, em termos da indústria musical isso é como séculos, se eu esperar mais uns três ou quatro anos é capaz de ninguém se importar se Everest volta ou não.

— E o outro membro da banda?

— O que tem ele?

— Você fica irritado com a Karen por sequer mencionar o nome do cara, como você vai aguentar conviver com ele por um ano ou mais?

— Eu posso lidar com Brandon – ele disse com aquele tom peculiar que Karen conhecia muito bem, era o tom que seu irmão usava quando não sabia ao certo se o que ele estava falando era verdade.



Notas finais
Obrigada por ler, comentários são sempre apreciados.