Ferview, 06:45

Giovanni fez o possível para esquecer aquele pensamento, leva-lô para qualquer lugar do mundo, menos ali. Se ela soubesse de menos, seria um problema pra família, mas agora que ela sabia de mais o problema se multiplicou por mil. Suzane/Claricce era como uma bomba-relógio, esperando o momento certo para explodir e contar tudo que sabe pra todo o mundo. Mas ainda ela poderia mudar de ideia, ah sim! Como herdeira dos Stracci, ela poderia ser o próximo 'Dom', e com sua inteligência e sua grande irônia — ele sorriu por um breve momento ao lembrar do quão sincera e misteriosa ela era ao mesmo tempo — ela poderia dominar o mundo. Principalmente ter grande influência sobre os homens mais ricos e poderosos do mundo. Ela poderia ser quem quisesse, mas Giovanni preferia que ela fosse a sua Dom.

– No que está pensando? — Suzane perguntou, ainda meio fraca.

– Em como você seria uma ótima mãe. — Mentiu ele, forçando um sorriso. — Já pensou nos nomes que dará aos seus filhos?

– Não. — Ela fechou os olhos lentamente, ignorando-o. — Onde está Stracci?

Giovanni olhou para os lados, procurando seu tio. Parecia que Luiggi Stracci tinha a habilidade de sumir como vento, em qualquer lugar e quando quissesse. E mesmo que não soubesse, isso irritava profundamente Giovanni.

– Ele estava aqui agora, não sei pra onde ele foi... — Suzane deu um sorriso por já saber a resposta. Quando tudo fica ruim e o mundo ameaça a desabar, ele some. É sempre assim.

Enquanto isso, o doutor Peter Folwer Rayme levava sua xícara de café lentamente a boca, provando-o enquanto estivesse quente. Quando se deu conta, Luiggi Stracci — ou Richard Anderson, como tinha registrado — estava ali a sua frente, apenas o observando.

– No que posso ajudar, senhor Anderson? — Doutor Rayme arqueou uma sobrancelha e começou a encarar o velho. — Beth está precisando da minha assistência?

– Você acha que eu não notei o jeito que você olhou pra ela? — O velho tentava falar inglês, mas o máximo que saía era alguns verbos misturados com algumas palavras italianas. Ele chegou mais perto do doutor. — Acha que eu não percebi que você pronunciou 'Stracci' corretamente? Sem nenhum erro?

Não sei quem você pensa que é, doutor Rayme, se é que esse é o seu nome verdadeiro. Quero que fique sabendo que eu mandei uma parte da minha família te analisar, pra ver se você é tudo isso que diz ser, ou se tudo não passa de uma mera mentira.

– Uma mera mentira? — Ironizou o doutor Peter Rayme.-Igual a que você fala que você é Richard Anderson que está aqui porque, sua neta, Beth Anderson Davis está passando mal? Acha que ninguém aqui sabe que você é um mafioso que está procurado em mais de oitenta, isso mesmo, OITENTA paises diferentes? Seu nome está em todo jornal, em todo programa. Lhe desejo sorte, Stracci. Pois quando os federais te pegarem não será nada fácil, isso eu posso te garantir.

O sangue do velho gelou, e pela primeira vez na vida estava com medo de morrer. Peter Rayme estava debochando da cara do velho, quando ouviu em sua escuta:

– A Operação Perséfone* começa agora. — Ele ficou sério e parecia que o mundo estava rodando mais depressa agora.

Ferview, 7:10

Suzane estava de saco cheio com Giovanni; ele só sabia falar pelo seu amor por sua irmã gêmea, Alessandra, e como ela correspondia a esse amor. Ela estava quase mandando ele enfiar todas aquelas palavras onde o Sol não bate quando uma infermeira de aparência amistosa e rechonchuda o suficiente para lembrar sua babá quando tinha uns 14 anos entrou na sala.

– Beth Davis, tem alguém querendo falar com você no telefone. Posso transferir a ligação? — No crachá dela, lia-se PORTIA, ISABEL.

– Claro que sim. Obrigada, senhora Portia. — As duas trocaram um sorriso amigável. Isabel saiu da sala e Giovanni ficou encarando o telefone tocando de forma insuportável.

– Não vai atender essa merda? Meus tímpanos vão explodir! — Ele reclamava.

– Saia da sala pra que eu possa atender. — Suzane fez um tchau com as mãos. — Vai pode ir, a porta é ali.

Giovanni saiu batendo os pés e fechou a porta rapidamente, provocando um baque. Suzane pegou calmamente o telefone e atendeu.

– Beth Davis falando. — Ela mentiu.

– Suzane!!! Até que enfim consegui te localizar... Não estava fácil, desculpe. — Ela reconheceu a voz instantaneamente e tal felicidade fez com que ela desse um sorriso de orelha a orelha.

–Valen... Victor! Que saudade de você, mas você terminou comigo verão passado, por que está me ligando? — Ela olhava nervosamente para Giovanni enquanto ele apontava o dedo para o relógio.

– Onde está o celular que você me mandou e-mail?

– Eu devo ter perdido aquele colar, é muito velho, e além de tudo eu emprestei ele de Britney Spilmann, não deve nem me servir mais. Me lembrei agora, esqueci ele na festa de formatura, que merda!

– Ok, ok, escute Suzane, vá concordando com a cabeça e ria quando eu estiver falando para despistar esses mafiosos, certo? — Valentina falava como uma locutora de futebol. — Quero que você pegue todos os inocentes e os proteja, que logo, logo vamos aparecer pra te salvar. Não provoque Luiggi ou Giovanni Stracci, pois agora, com a ajuda do seu doutor bonitão, e com a nossa carta, eles sabem que estamos atrás deles. Mas não se preocupe, ninguém nunca vai desconfiar de você se você continuar com essa pose de ingênua.

Para que você se sinta mais segura, temos agentes infiltrados nessa família e na outra. Meu parceiro pode estar em qualquer uma das duas, então, fique calma. Estamos de olho em você, Dudek! — Valentina desligou seu telefone com um certo orgulho, pois era seu primeiro caso em que seu parceiro estava infiltrado e descrevia todos os chefões. O Cappo Casanostra estava preso junto com sua família, só faltava os famosos Stracci.

Ashley Rhodes invadiu o quarto num soco, ela estava completamente vermelha, como seu cabelo. Atrás dela vinham sua irmã, Giovanni e até mesmo o Cappo. Parecia que ela estava com falta de ar, estava prestes a morrer, seus minutos estavam contados. Ela se lembrou vagamente do homem que tinha servido café a ela, e ela tinha certeza absoluta de que o veneno em que colocaram pra ela foi Cantarella — o temido Cantarella. Havia um traidor entre eles, e ela tinha certeza de que era Claricce Stracci, quem mais seria? Ou, será que tinha mais alguém?

– O que aconteceu? — Giovanni estava preocupado.

– Eles sabem.

– Como eles sabem? Não tem como saber! — Giovanni queria manter a fama da família como tirana, malvada e esperta. Tão esperta que a polícia não conseguiria pega-lá, até agora.

– Foi isso o que eu disse pra ela! — Lindsey chorava.

– O que foi que deram á ela? — Cappo Stracci perguntou, mostrando indiferença.

– Cantarella. — Suzane respondeu. — Foi assim que você matou sua primeira mulher, não foi, Luiggi?

– Como vo-você sabe? — Luiggi e todos na sala olharam pra ela.

– Mamãe sempre nos avisava para não brincar com isso, que isso poderia matar, igual o caso de Pietra Stracci, a mulher mais linda que toda a Itália já conheceu. — Ashley caiu no chão, já morta. — Quantas pessoas mais terão que morrer para que você fique com fama? É isso? Tudo isso se trata de fama? Dinheiro? Mulheres? Armas? Você vive pelo qual motivo?

– Ele não vive por fama, dinheiro, mulheres ou armas. Ele vive por que é uma lenda viva. — Giovanni respondeu, com os olhos vidrados no corpo de Ashley Rhodes Stracci, e percebeu o quanto a vida pode ser traiçoeira.

Notas finais
****Perséfone é a deusa grega que é raptada por Hades, como se Suzane fosse tal personagem em perigo. É uma sátira.