Ferview, 7:40

Suzane já estava naquela prisão novamente, naquele sítio no meio do nada, e não parava de pensar um segundo se quer em sua liberdade; Desde que a palavra fora criada, muitos deram um significado pra ela, uns tanto quanto inútil, outros, nem tanto. Mas agora ela sabia, aquela palavra significava sua vida naquele momento. Giovanni a encontrou perdida em pensamentos, e não ousou em perguntar:

– Está pensando nas guerras que virão? As vezes, nem eu mesmo gostaria de ser um Stracci, me contentaria sendo uma pessoa normal, com uma vida normal, com uma casa, mulher e filhos. Mas sei que isso soa impossível. – Ele se praguejou mentalmente por ter dito aquilo á Suzane, mas percebeu que agora tinha toda a atenção da loura. – O que te atormenta tanto que não consegue pensar em como o futuro será daqui pra frente?

– Se eu continuar aqui, não terei futuro, serei apenas uma marionete, da qual você e o Cappo dão as cordas e as falas, vocês controlam minhas ações, então também podem controlar meu futuro. Não acha? – Ele concordou, pensativo. – E não venha me dizer que tudo isso é besteira, pois você sabe que não é. Você sabe que essa é a verdade, nua e crua.

– Sim, você tem razão. Mas que culpa nós temos? Você nasceu uma Stracci, não pode mudar seu sobrenome de uma hora pra outra, você não é igual Lindsey ou Ashley Rhodes – Aquele pensamento o fez estremecer –, ah, a bela Ash! Nunca teremos outra criminosa que se compare a perfeição dela no trabalho.

– Ela chegou a matar alguém? – Suzane o encarou, pela primeira vez via Giovanni triste e no fundo, ela sabia que tinha culpa disso, mas preferiu ignorar esse sentimento ao invés de encará-lo. Num gesto inesperado, Giovanni soltou um riso ao lembrar de sua companheira e ex-amante.

– Ela não tinha estômago pra isso. A única pessoa que ela queria matar era você. – Giovanni encarou Suzane, que agora estava cabisbaixa, sem saber o que responder para seu parente. – Mas agora ela está finalmente descansando.

– Ela está num lugar melhor. – Suzane comentou.

– Não acredito nessas coisas, se Deus existisse, acha que permitiria todo esse caos? Não, eu acho que não. – Ele sorriu fraco. – Ashley me induziu a pensar assim, mas agora, não sei mais no que acreditar.

– Onde vocês deixaram o corpo dela? – Suzane perguntou.

– Queimamos. – Ele respondeu num tom frio, quase que Ashley Rhodes Stracci não significava nada pra ele, quase que como se ela fosse uma desconhecida. Suzane sentiu arrepios e imediatamente se virou de costas para ele.

– Onde você pensa que vai? – Ele disse, mudando de tom. – Minha putinha morreu mas ainda tenho você.

– Você não tem ninguém, Giovanni. – Suzane ignorava-o. – Agora vou fazer uma coisa que advinha... Não é da sua conta!

Ignorando os gritos de Giovanni na tentativa de pará-la, ela continuou seu caminho, e naquele imenso sítio encontrou um quarto suspeito o bastante para que tivesse sua atenção. De fora daquele quarto se ouvia muitos cochichos e barulhos de teclas, Suzane se atreveu a bater duas vezes, e isso fez com que o silêncio predominasse o local. Ela entrou e todos naquele quarto a olharam com pavor nos olhos. Nem quero pensar no que eles passaram, ela pensou.

Todos jovens, com idades aproximadas e por incrível que pareça, todos eram extremamente bonitos. Suzane passou os olhos no quarto, parecia um escritório, com cabines de computadores espalhados, pessoas digitando e falando no telefone estressadamente.

– Alguém pode vir falar comigo? – Suzane estava confusa. – Wuem é que manda aqui?

– Sou eu. – Um homem de descendência indígena se levantou no meio daquele todo e veio em direção a Suzane; ela ficou admirada, seus olhos eram de um verde rubi. – Sou Matteo Stracci, e você, quem é?

– Claricce Stracci. – Ela esticou a mão e ele retribuiu com um sorriso que amoleceria vários corações se ele estivesse nos tempos de colégio. – Sou neta do Cappo, mas, assim como vocês, também fui sequestrada. Você pode me falar o que vocês fazem aqui, e se existe mais de vocês?

– Vamos na minha sala conversar sobre isso. – Matteo conduziu Suzane até uma pequena sala, de aparência agradável no canto sudeste do quarto. – Bem, Claricce, nós aguardamos sua chegada desde que nos sequestraram. Sempre falavam do quanto era bonita e sensível, por isso nos preparamos ao máximo pra recebê-la. Desculpe por todas as expressões que você viu quando bateu na porta, é que aquele toque significa que alguém vai pagar pelo o que fez, e a maioria das vezes, isso é injusto. Infelizmente, somos capachos deles.

Antes de vir aqui e ser o que sou hoje, eu era Bradley Truman, um gerente de banco como qualquer outro, uma vida sem graça, mas eu gostava disso, sabe? Mas acredito que nem sempre a vida sorri pra nós, fruto de nosso passado obscuro.

E sim, há mais de nós. Nós apenas fazemos os contratos e passamos e-mails para seus compradores e fornecedores, e, se você for a tal da Dudek que mandou o e-mail para Valentina, nós estamos com seu aparelho. Sei que não foi certo, mas estávamos desesperados o bastante para fazê-lo. E não se preocupe, somente eu que li e vi aquilo. Qual é o seu plano?

– Avise á todos para que se preparem, pois a qualquer momento alguém pode entrar e – Barulhos de tiros foram ouvidos, todos entraram em pânico e se abaixaram, Suzane estava preocupada. Pode ser nosso fim, ou o nosso recomeço.