Eventualmente Claricce Stracci
24 Capítulo 24
– O que você pensa que está fazendo, mãe? – Suzane mal conseguia olhar diretamente para os olhos de sua semelhante, aquilo a causava enjoo. Ela demonstrava superioridade e maldade em seu olhar, Suzane não conseguiu sustentar o olhar e voltou a fitar o nada.
Lucy estava com um vestido de manga longa azul marinho, acompanhada de uma maquiagem clara o suficiente para combinar com seu batom vermelho queimado e com seu cabelo que agora tinha finas mechas loiras e estava preso de lado. Ela estava completamente irreconhecível. Minha mãe estava completamente irreconhecível.
– Olha quem entrou no personagem! – Giovanni exibia um sorriso de orelha a orelha, apesar de Suzane o encarar com o mais puro nojo. – Finalmente você aceitou o seu destino e desmentiu aquela baboseira toda de “Oh, olhem para mim, eu sou a grande Suzane Dudek, a advogada mais fodona de Manhattan”.
Seus pensamentos estavam bagunçados, seu sangue fluía rápido demais, e ela não entendia quem era quem e quem ela realmente deveria ser. Suzane mordeu seu lábio inferior e voltou a encarar sua mãe, que agora ria e acenava para todos ali presentes, agora todos prestavam atenção em cada movimento que ela fazia. Parecia que todos estavam encantados com sua beleza, ou então, talvez ela fosse a reencarnação da deusa Afrodite.
– O que você pensa que está fazendo, mãe? – Suzane repetiu impaciente.
Lucy continuava ignorando sua própria filha e seduzindo todos a sua volta.
– Ok, essa brincadeira já perdeu a graça a milênios. Cadê a porra da câmera escondida? – Suzane cerrava os punhos e começava a gritar. – Por favor né, eu achava seriamente que eu estava sendo sequestrada e que essa tal de família Stracci de fato existia – Lucy a encarava com uma expressão serena quando a cortou.
– E nós existimos querida. Você é a próxima indicada ao trono. – Lucy andou alguns passos em direção a Suzane e apertou-lhe suas bochechas forte o suficiente para que ficassem vermelhas. – Você é a princesa disso tudo querida. Um brinde á minha amada filha, Claricce Stracci!
Todos gritaram vários “Saúde!”, “Viva a família Stracci!” e “Vida longa a herdeira!”, Giovanni virava uma taça de vinho branco como se fosse água e sorria levemente pra Suzane. Capo Stracci veio marchando em direção a Lucy, que agora estava ao lado da sua filha, e as olhou com uma expressão desafiadora, que logo após algum segundo foi tomado por pura afeição e carinho.
– As duas mulheres mais importantes da minha vida juntas num lugar só! Não consigo acreditar. – Stracci tentava fazer com que sua voz não saísse trêmula, suas mãos estavam suando frio. – Beatrice e Claricce. Minhas duas herdeiras favoritas – Giovanni se remexeu no meio da multidão, visivelmente desconfortável com a possibilidade de ele nunca poder ser o Cappo/Dom. – eu quero parabeniza-las por ter ganho a confiança de todos nessa família, ao ponto de ser privilegiadas de serem chamadas de Doms, líderes, rainhas, como quiserem.
– Invasor! Don Vinton* da outra família está aqui! – Alguém gritava desesperadamente.
Lucy pegou a arma da cintura do Cappo e verificou se tinha balas, ela parecia uma verdadeira assassina, pronta pra matar qualquer um que estivesse atrapalhando em seu caminho. Ela se curvou levemente e fez com que Suzane fosse pra trás dela, ainda meio zonza para entender o que estava acontecendo.
– Então Don Vinton está aqui... – Lucy apontava sua arma para toda a multidão, procurando seu verdadeiro inimigo. – Don, venha aqui! Vamos conversar!
– Mãe você está louca? Pirou de vez? – A visão de Suzane estava embaçada. – Quem diabos é Don? Você não pode matar qualquer um qu – Sua voz se fez desleal quando falhou e ela pôde reconhecer o rosto do invasor no meio da multidão, o rosto dele.
– Don, venha aqui! – Lucy olhava os mínimos detalhes de todos os burgueses, tentando descobrir seu inimigo. – Não queremos guerra, queremos somente a paz!
– Então largue a arma, senhoria Beatrice Stracci. – Uma voz feminina veio do fundo. – Nós também só queremos conversar... Com sua filha caçula, claro. – Aquela revelação chocou a todos, alguns até colocaram a mão na boca, horrorizados com o que estavam ouvindo.
– Vocês não vão falar com ela, seus covardes! – Respondeu Giovanni.
– Você não tem poder algum sobre mim, Giovanni. Você não sabe nada a meu respeito, e a única responsável por minhas ações são eu mesma, então deixa que desse assunto cuido eu. – Suzane o encarava com nojo, lembrando da noite anterior.
– O que quer falar com ela? Vão mata-la do mesmo modo que mataram minha querida Sandra? – Lucy olhou para sua filha e sussurrou: – Desculpe filha, deveria ter te contado.
– Que história é essa, Beatrice? – Stracci a olhou com uma expressão séria, enquanto os olhos de sua filha enchiam-se de lágrimas que não paravam de cair.
– Me contado o quê? Que você não passa de uma puta mentirosa? E que além de ser chifrada pelo marido, ainda é uma bandida descarada? Você deveria estar presa. – Suzane a metralhava com o olhar. – Seja lá quem for você, Senhor Don Vinton, fale o que quiser, eu estou pronta pra ouvir.
– Mas filha – Suzane a ignorou completamente colocando sua mão na cara de sua mãe.
– Claricce, – Aquela voz em meio a multidão fez com que ela tivesse calafrios, pois ela sabia qual era sua origem. O nome dele era... Christopher Jane. – Creio que ainda não saiba, que ainda esteja tão iludida ao ponto de ignorar as provas mais concretas de que essa família é uma farsa. Seu casamento fora arranjado para o bem de sua própria família, Enzo, seu sogro, foi um dos mais importantes fabricadores de armas que nossa Itália teve o prazer de conhecer. Seu filho, que agora descansa em paz, foi mais um truque para segurar seu marido, pois toda Roma sabe que Nick estava de caso com sua melhor amiga, Fernanda Cisetta.
E também há certos rumores que afirmam que Giovanni, seu primo, o matou por puro ódio. Todos aqui sabemos que ele foi apaixonado por você, mas não teve a mínima chance. – Suzane sentiu um arrepio percorrer sua espinha, pois sabia que naquele exato momento, ele estava a encarando. – E vocês, meus nobres cavalheiros, estão se perguntando quem é Sandra, ou a falsa Claricce. Bem, acho que isso nossa querida Beatrice pode responder, não é mesmo?
A voz que vinha das sombras agora estava ganhando poder, principalmente atenção, e era isso que ele queria. Era exatamente isso. Ele estava fazendo as regras do jogo, enquanto os Stracci não tinham outra opção, á não ser jogá-lo.
– Beatrice, você pode dar um fim nisso tudo. – A voz do velho era como uma rocha. – Agora.
– Quem diabos é esse Don? E quem ele pensa que é pra falar tudo isso da nossa família? Quando descobrir quem é, vou mata-lo. – Giovanni rosnava.
– Beatrice. – A voz do Cappo se tornou ameaçadora. Todos ali esperavam uma resposta concreta, esperavam somente a verdade. – Quem é Sandra? Exijo uma resposta agora! E que história é essa de Claricce ser sua filha caçula? Ela é sua única filha. – Cappo a encarava enquanto ela negava nervosamente com a cabeça. – Não é mesmo?
– Sandra é... – Ela sabia que sua voz ia a trair, mas continuou mesmo assim. – Na verdade, Alessandra era minha filha também. E tudo que ela disse é verdade. No dia em que as minhas meninas nasceram, tive que esconder uma pois sabia que a indicada ao trono seria Claricce, pelo simples fato do nome dela ser uma homenagem a sua falecida mãe.
Elas cresceram lindas, mas antes disso, fui á América para resolver uns assuntos que tinha com o senhor Kennedy, e foi lá que eu conheci o doutor Dudek. E fui me apaixonando cada vez mais por esse homem, até que se passaram os meses e eu descobri que estava grávida.
Grávida de uma menina, dá pra acreditar? – Ela sorriu e se lembrou do sorriso preguiçoso de Tânia. – Então, disse á ele que deixaria a menina com ele e voltaria pra minha terra natal. E ele concordou. Quando voltei, ele me recebeu de braços abertos e disse que não teria problema de conviver com a pequena Alessandra, que antes disse que era uma sobrinha minha, mas que depois acabamos adotando-a como pais legais.
O tempo passou, Claricce ficou aqui enquanto vocês achavam que a verdadeira Beatrice estava morta, mas não estava. Sempre mandava e-mails para minha filha, mas ela nunca respondia e eu nunca pôde saber o por quê. Então, Beatrice Agostina Stracci ressurge das sombras, e como se fosse um truque de mágica, manda que seus capangas sequestrem sua própria filha para que assim ela se lembre de que sangue pertence e que aceite seu destino.
Todos ficaram espantados com tamanha confissão, inclusive Suzane, que todos anos pensava ser a legítima Dudek, mas tudo que sua mãe fez foi mentir e mentir. As mentiras aumentaram a medida que ela ia crescendo, até que um dia a casa caiu. Suzane tentava absorver tudo aquilo, a irmã gêmea, seu verdadeiro nome, seu propósito, seu destino.
– O que fizeram com a verdadeira Claricce? – Stracci estava com os olhos cravados no chão.
– Cordopatri a matou. – Lucy soluçava. – Me desculpe não contar tudo isso antes mas... Na época eu achei que era necessário.
– Traidora. – Ashley gritou. – O que você vai fazer a respeito disso, Cappo? Você sabe que só existe uma saída para aqueles que traem a família...
– A morte. – Suzane falou lentamente enquanto as lágrimas se formavam em seus olhos. – Vocês não podem fazer isso, não é? Quer dizer, ela que manda nisso e tudo mais, e além disso tudo, ela é minha mãe! – Ela buscou os olhos de Christopher Jane no meio da multidão, mas já era tarde, ele só atiçou a família para que se tornasse uma verdadeira anarquia. Ele queria ver o circo pegar fogo.
– Nós não podemos – Giovanni a olhou como se fosse mandar algo. – mas você pode.
– Isso mesmo, Giovanni. Pela primeira vez na vida, você está certo. – Stracci a fitou. – Como uma legítima Stracci você deve fazer isso pelo bem da sua família, e para vingar sua irmã.
– O que vocês estão querendo dizer? – Suzane estava em prantos.
– Vocês querem que minha própria filha me mate? Vocês só podem estar de brincadeira! – Lucy ria da cara do velho. – Eu que mando nisso tudo, papai. Você não tem poder sobre nada aqui.
– Agora eu tenho. – E como um gato, ele pegou rapidamente seu revólver e como se fosse em câmera lenta, deu um tiro certeiro no abdômem de sua prole, fazendo com que ela caísse de joelhos, sem entender o que estava acontecendo, a dor infernal rapidamente tomou conta de suas pernas, depois de seus braços e finalmente em sua cabeça. Ela estava zonza, e então a ela sentiu uma tremenda vontade de dormir, mas antes disso pôde ouvir o que Suzane gritava:
– Eu amo ela! Por que vocês fizeram isso? Não tinha um jeito melhor de vocês porem um fim nisso? Vocês são uns monstros! – E então, ela fechou os olhos lentamente, guardando aquelas palavras para si mesma. Ela me ama, e é isso tudo que importa.
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