Eventualmente Claricce Stracci
21 Capítulo 21
Fairview, 12:40
Christopher Jane estava irreconhecível, seu terno do caro o deixava com cara de multimilionário, de alguém importante na sociedade. Ele reconheceu Suzane, o que o deixou alarmado o bastante para vir em sua direção. Seus passos eram largos, e não demorou muito para que ele estivesse a encarando.
– Jane... – Ela sussurrou ainda deslumbrada com tal visão divina.
– Que diabos está acontecendo aqui? – Giovanni perguntou enciumado. – Não me diga que você está dormindo com um de nossos inimigos mais poderosos, Claire!
– Se eu durmo ou deixo de dormir, o problema é meu, o corpo é meu e se eu quiser vendê-lo, eu vendo. – Suzane revirou os olhos. – Seu estúpido.
– Eu seria o primeiro a dar algum lance, querida. – Disse Christopher suavemente enquanto arrumava a ponta de seu topete. – Afinal, você é a deusa dos meus sonhos mais profundos e mais secretos.
Sem mais delongas, digo-lhes que honra ter os últimos herdeiros vivos dos Stracci aqui, em nossa casa.
Suzane começou a notar que todos homens ali presente estavam com uma arma em sua cintura, esperando o momento certo para atirar, esperando o mando do líder. Ela deduziu que talvez Chistopher fosse o tal líder, o tal Cappo. Esse pensamento a deixou desesperada pra sair dali o mais rápido possível, ela procurava as palavras certas para conseguir escapar daquele inferno.
– Então, meu querido Vincenzo, — Ela foi interrompida por uma voz feminina que vinha do outro canto da sala. – não perca tempo falando com carne morta, faça um favor para toda a humanidade e para nossa família: mate-os, mostre que você merece ser dessa essa família. Mostre ser o homem que achamos que é.
– Vin o quê? – Suzane riu baixinho. – Porra, poderiam escolher um nome melhor tipo Pedro, Mateus, mas Vincenzo? – Ela continuava a rir. – Você tem nome de velho! – Ela tentava distrair seu maior inimigo, seu verdadeiro inimigo mortal.
– Não mude de assunto, Claricce, sabemos muito bem quem você é! – A voz vinha de uma morena. – E aqui, nada terás além da morte. Não pense que esquecemos de você, Giovanni, ainda lembramos do favor que fez para nossa família e ficamos honrados com isso, e por conta dessa decisão, iremos te matar por último.
Suzane deu um passo a frente para encará-la; a moça tinha todo seu cabelo negro escovado para trás, e seus olhos estavam ansiosos para que a matança começasse logo, ela imediatamente arqueou uma sobrancelha pra Suzane e exibiu seus dentes perfeitos.
Suzane sabia que a moça conhecia a Claricce verdadeira, e pelo jeito que ela a encarava, dava pra perceber um único sentimento: rancor. Normalmente esse tipo de rancor vem num pacote chamado amizade. Ela sabia exatamente como deveria agir, ou até melhor, como Claricce deveria agir diante a situação.
– Sabe, estou penando em nas palavras certas pra te dar um conselho sobre aqueles tantos anos atrás... Depois daquela noite nunca mais nos falamos, e tudo isso por causa de um homem? – Ela rezava para que Deus fosse bondoso e esse fosse o desfecho real da linda história de amizade. – Depois daquele dia não dormi mais, mal comia, quase morri! E tudo isso pra eu chegar aqui numa boa e você me ameaçar de morte? Quem deveria te ameaçar de morte sou eu, sua piranha! Da onde já se viu fazer isso com uma amiga? Quer dizer, se eu fosse uma simples amiga até fosse, talvez até uma colega... Mas melhor amiga? Quase que como uma irmã? – Suzane limpava o rosto, fingindo que estava chorando.
– Vamos Giovanni, me leva pra casa, não quero ficar sob o mesmo teto que essa traidora. Não quero mais olhar pra cara dela. Não quero!
Suzane agarrou Giovanni pelas costas e o chutou seu joelho, fazendo o andar pra frente. Ela ouvia fungadas da moça, e quando olhou pra trás, parecia que tinha pisado em seu coração e queimado os pedaços que restaram.
– Como pôde falar assim comigo? – A moça a encarava com lágrimas pingando em seu rosto. Ela estava desesperada. – Você sabe que tudo que eu fiz, foi por você!
– Sua vagabunda, nunca mais ouse desafiar minha autoridade! Enquanto eu me chamar Claricce, ahn, – Suzane tinha esquecido seu nome do meio. – Claricce Stracci e estiver viva, você não falará um “a” de minha pessoa, ou terá que se ver com meu avô, a pessoa mais influente de toda a Itália. Estamos entendidas? – A moça concordava. – Vamos Giovanni, vamos logo antes que eu exploda a cara dessa vadia.
– É, mas você esqueceu que essa vadia matou sua mãe. — Giovanni cochichava para sua prima.
– Vamos sair o mais rápido daqui. — Suzane o puxava pelo braço até que sentiu uma dor em sua cabeça, alguém estava a puxando pelo cabelo.
A dor era insuportável e não poder ver quem era o autor do crime a castigava ainda mais, a arrastaram pela aquela casa escura, e ela podia ter certeza de uma coisa: A escuridão estava a engolindo cada vez mais rápido e a dor aumentava conforme isso acontecia, ela não sabia quanto tempo iria aguentar tudo isso, ou se iria aguentar.
A soltaram e ela deu de cara com um pastor alemão pronto pra atacar. Seus dentes estavam a mostra, mostrando o quão pontiagudos e perigosos eram, e ela podia ver seu reflexo na baba do animal raivoso. Ela olhou cuidadosamente a sua volta; era tudo preto, não tinha nenhum móvel ou janela naquele pequeno espaço, e Suzane começou a pensar na ideia de se entregar totalmente á Morte, de virar sua amante.
– Puta que me pariu! — Ela gritava. — Vão se foder seus merdas! Não tem capacidade suficiente para baterem em mim e colocam um cachorro?
– Não façam isso com ela, por favor! — Ela ouviu Giovanni gritar. — Vamos fazer um acordo, talvez... Vocês lembram quando dei Nicolas pra vocês, vocês se lembram do terror em seus olhos, na inocência desaparecendo rapidamente nos pequenos olhinhos brilhantes do menino, e eu sei que quando lembram disso, vocês tem vontade de matar de novo, só por diversão.
Alguém vinha entrando, os passos eram demorados e longos, até que ela olhou rapidamente para a última coisa que viria nesse mundo: seu torturador e assassino, sua última visão do mundo, sua última certeza em sua vida.
– Você de novo? — Ela ria ironicamente. — Eu sei que não vai me matar, por que se você realmente quisesse isso, já teria feito a tempos, seu babaca.
Chistopher pegou a guia do cachorro que estava no chão e o puxou para trás, ele se sentou do lado de Suzane e a entregou uma arma.
– Vamos! — Suzane não sabia como manusear aquela coisa. — Não quer fazer você mesmo? Não tem coragem o suficiente? Você nada mais é do que um monte de bosta ambulante. Christopher Cafajeste Jane. Oh, sim!
Silêncio absoluto.
– Não vai falar nada? Vai ficar me encarando até eu resolver me matar? Bem, isso é assustador, mas eu te garanto que eu corro mais rápido que você, e quem vence no final são sempre os mais espertos, como dizia minha família, os escolhidos.
A porta se abriu, Giovanni correu para abraça-la, ele a agarrou com todas as forças que guardara até aquele momento, ele precisava daquilo, esperava aquilo a tantos anos.
– Vamos embora daqui antes que o Cappo chegue! — Ele deu as mãos pra ela, mas ela se permaneceu imóvel.
– Vamos sair assim tão facilmente? — Suzane estava desconfiada. — Isso só pode ser uma armadilha.
– Se fosse uma armadilha Luiggi Stracci não estaria nos esperando no portão principal, vamos. — Ele tentou novamente puxa-la, o que fez com que ela aumentasse sua força para ficar parada.
– Pode ir, eu já vou. — Ela encarou Christopher. — E aí, não tem nada a declarar, bonitão?
Ele se levantou cuidadosamente e a olhou nos olhos com um sorriso mesquinho no rosto.
– A única coisa que eu tenho a declarar é que será uma longa guerra, e ela está próxima de começar. Nos vemos por aí, Stracci.
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