Eventualmente Claricce Stracci
19 Capítulo 19
Guttenberg, 11:08
– Deixa eu ver se eu entendi direito... Eu sou a eventual da sua amada Claricce? — Suzane o encarava com raiva. — Não, nem fodendo, sem a mínima chance de isso acontecer. Você só pode estar de brincadeira com a minha cara, seu Stracci de merda.
Giovanni foi mais rápido que uma águia, e como um leão, despejou toda a força de suas mãos na garganta de Suzane, fazendo com que ela ficasse meio tonta e com falta de ar.
– Me... Solta... Por... Favor... — Ela falava entre suspiros.
Suzane se debatia contra seu agressor, mas seu esforço era inútil já que Giovanni era, no mínimo, umas cinco vezes mais forte que ela. De repente, ouviram-se passos vindo pra aquele quarto, fazendo com que Giovanni a soltasse de imediato, e isso fez com que ela caísse com tudo no chão. Suzane tentava se recompor, mas parecia que Giovanni tinha sugado todas as forças vitais de seu corpo, e naquele momento, ela desejava estar morta.
Ela começou a tossir, e isso fez com que os passos acelerassem e batessem com mais força, quem quer que seja, estava muito preocupado com Suzane.
Com um único golpe, Nick conseguiu arrebentar a porta e entrar. O suor em sua roupa demonstrava que ele tinha trabalhado a manhã inteira, e isso fez com que ele ficasse sexy. Suzane agora o enxergava como um herói, o seu herói.
– O que você está fazendo aqui? — Suzane podia jurar que tinha visto fumaças saindo do ouvido de Giovanni.
– Vim ver como minha mulher está, e você, o que está fazendo aqui? — Nick o olhava com pena. — Veio ver como seu amor de juventude está? Pois bem, esse seu amor é minha esposa e mãe do meu filho!
Aceite isso, Giovanni, eu ganhei e você perdeu.
Giovanni soltou uma risada irônica.
– Seu filho? O desaparecido? Ainda tem esperanças de que vai encontrar ele, Nick? Ele está morto!! Como você mesmo disse, "aceite isso".
Nick foi pra cima dele, e Suzane juntou todas as forças que tinha pra agarrar o pé dele, ele a olhou com toda a compaixão do mundo e ela retribuiu esse olhar.
– Por favor.. Não. — Ela sussurrou. – Agora não.
– É melhor você ouvir sua mulher, muleque! — Giovanni trincava os dentes.
– Fique sabendo que se eu souber que você tem algo a ver com o desaparecimento do meu filho, eu vou vir atrás de você. E te garanto uma coisa, não venho sozinho. — Nick revezava o olhar entre Suzane e Giovanni. — Não se esqueça de uma coisa, Stracci, eu sei os inimigos que você fez no último ano. Não me faça vir com todos, por que se eu vier, nós vamos matar você.
Nick deu as costas, e deixou um clima de tensão, medo e principalmente, raiva. Quando a porta bateu, Giovanni olhou furioso para Suzane.
– Está vendo o que você fez? — Ele repetia inúmeras vezes. — Está vendo o que você fez?
– Eu não fiz nada, na verdade, foi sua mãe que fez. — Giovanni ficou sem entender nada, então Suzane completou. — Sabe, te parir e tal. A culpa não é minha se ela escolheu trazer uma tamanha desgraça pro mundo. Sem ofensas, claro.
– Você está muito engraçadinha, darling. — Ele andava em direção a porta.
– Onde você pensa que vai? — Perguntou Suzane que estava indignada com a maneira de que todos a tratavam. Não quer ser sequestrada e ser tratada como uma rainha, não? Ela pensou consigo mesma.
– Comprovar minha teoria. — Mesmo de costas, dava pra ver seu sorriso malicioso.
– Teoria? Qual delas? A que você é um doente mental, ou a que eu acabei de falar? — Suzane o metralhava com o olhar. — Seja qual delas for a verdadeira, saiba que no final você vai morrer sozinho. Sem ninguém. Apenas você e Lúcifer, seu nojento.
– A de que o filho de Claricce está morto. — Aquelas palavras deixaram Suzane muito desconfortável, como se tivesse deitada numa cama cheia de agulhas, e cada uma perfurando seu corpo pouco a pouco. Deixando-a sangrar devagar, uma morte lenta e dolorosa.
Como nova integrante da família, sentia-se na obrigação de cuidar dos mais novos, para que não percam tudo aquilo de melhor que tem: sua inocência.
– E-E-e, como você sabe disso? — Suzane gaguejava.
Antes de fechar a porta e sair, Giovanni deu uma última olhada pra Suzane e exibiu um meio sorriso. Seus olhos estavam enfurecidos, seus cabelos bagunçados; aquela era a verdadeira face do diabo.
– Porque fui eu que matei. — Ele falou aquilo como se uma vida de uma criança inocente não importasse, não fizesse efeito na vida dele.
– O que? Não acredito que você fez isso. – Suzane o encarou e pôde ver que ele estava falando sério. – Por que? Só me diz isso.
– Claricce não queria assumir que o filho era meu... Então... — Giovanni a olhava com rancor, como se ela fosse sua amada. — Você sabe o final da história, e viveram felizes para sempre e blá blá blá.
– Você é um monstro! — Suzane gritou, extravasando toda a raiva que sentia.
– Já me chamaram de coisas piores, meu amor. — E saiu da sala, batendo a porta com a máxima de força que encontrou naquele momento.
Giovanni saiu, e o que entrou naquele quarto foram incertezas, medos, e principalmente a insegurança sobre o que estava pra acontecer.
Manhattan, 11:10
No quartel do F.B.I., Valentina andava de um lado pro outro. O barulho de seu salto a tranquilizava enquanto ela pensava numa maneira de tirar Suzane de tamanha enrascada. Cansada de andar, ela sentou em sua mesa e observou a foto de seus irmãos, uma lembrança horrível veio a tona, e ela só pensava em como resolver o problema de Suzane. Imagem mental: Valentina chega em casa e descobre que sua irmã mais velha foi sequestrada. Quatro longos dias após isso, acharam seu corpo mutilado no rio em que as irmãs costumavam brincar.
Ela tentava banir aquela lembrança pra fora da sua vida, mas era inevitável, isso foi um dos motivos pelos quais ela decidiu que queria trabalhar pro F.B.I., para que famílias nunca mais percam suas pessoas mais importantes, para que outras famílias não sofram o que ela sofreu.
– Rockfeller? – Adrian a chamou. Merda, o Adrian!
– O que você quer, Montgomery? – Ela perguntou sem ao menos olhar pra cara dele.
– Temos um novo caso de desaparecimento. Você vai gostar de ver essa.. – Percebendo o desinteresse da agente, ele continuou. – Esse vai dar o que falar, já que ela é considerada a queridinha da máfia.
– Ahh... – Valentina estava desanimada. – Leve isso pro Heigh, ele deve dar conta disso. – Ela o encarou com aqueles belos olhos verdes. – Mais alguma coisa, Montgomery?
Ela não esperou ele responder para lhe dar as costas e deixar o pobre moço encarando sua nuca. Valentina se irritou com a falta de palavras do agente, e cerrou o cílios.
– O que você quer? – Ela disse, ainda sem virar para encará-lo.
– Esse negócio de queridinha da máfia é sério, Rockfeller. Alguém pode sair machucado. – Ele disse. – E o chefe não quer que ela saia machucada.
Valentina se virou para encará-lo.
– Qual o nome dela? – Ela o olhava com impaciência. – Nome. Eu quero um nome.
– Achei que isso não fosse importante pra você, minha querida, mas vendo que você está tão agitada assim... Vou lhe contar toda a história. Se não fosse ela, a máfia jamais viria pros Estados Unidos, e essa moça é como se fosse um imã pra tudo de mal que acontece nesse mundo... Depois que ela foi demitida, máfias se mudaram pra América pra vir justamente atrás dela.
– Nome. – Valentina repetiu.
– Acho que você conhece ela... – Valentina já desconfiava da resposta. – Suzane Dudek.
Valentina pensou num milhão de possibilidades, num milhão de coisas que Suzane poderia estar envolvida; num assalto milionário, numa gangue, e poderia até ser uma assassina em série. Mas, segundo seu parceiro anônimo – ele não queria se identificar, então só mandava e-mail para sua parceira – Suzane era uma das poucas pessoas que faziam a diferença no mundo.
– Valentina? – Ela ouviu Adrian gritar impaciente. – Valentinaaaa?
– Ah, oi? – Ela disse distraída, ainda pensando nas possibilidades.
– Você era amiga dela? – Valentina não estava prestando atenção, então ele repetiu. – Você era amiga dela?
– Era.
– Acho melhor você cortar todas as relações com ela, e principalmente, com aquele família desiquilibrada. Você é a encarregada deste caso, certo?
– Certo. – Como um papagaio, ela repetia o que ouvia.
– Valentina! – Ele gritou, e isso fez com que ela parasse de pensar nas milhares de coisas ruins e voltasse pro planeta Terra. Ela se concentrou nas palavras que iam saindo de sua boca. – Você ouviu o que eu falei, né?
– Não. – Ela o encarou. – Me desculpe, poderia repetir?
– Poxa, Valentina! – Ele abaixou a cabeça e começou a balançar como sinal de negação. – Eu estava falando pras paredes, não estava?
– Poderia repetir?
– Você é a encarregada deste caso. Querendo ou não. – Aquelas palavras foram dolorosas demais pra Valentina.
– O quê? Você está de brincadeira comigo? Você sabia que a regra do Agente Gibbs¹ é “nunca se envolva pessoalmente num caso”? – Ela estava indignada – Meu amigo, você não pode me escolher, já estou envolvida neste caso desde que eu a conheci, vou acabar estragando tudo!
Adrian a segurou de leve no braço, e a fez olhar em seus olhos.
– Olha, você é nossa melhor agente, você vai conseguir. Nós estamos confiando em você. Me desculpe te colocar em uma situação tão delicada assim, é que não temos ninguém melhor, a melhor é você. – Ele se arrependeu de ter dito aquilo em voz alta. – Melhor agente.
– Claro, claro. Me conte mais sobre esse caso, ou sobre Suzane.
– Nós estamos com fortes suspeitas de que ela seja... Hum... Você sabe...
– Não, na verdade eu não sei. – Ela arqueou uma sobrancelha. – O que ela é?
– O que ela é, Adrian? – Ele não queria responde-la.
– Não sabemos de nada concreto, mas desconfiamos de que ela seja... – Valentina perdeu a paciência.
– De que seja o quê, porra?
– A líder da máfia, a mandante dos crimes, a duquesa Stracci. – Ele a encarou. – Desconfiamos de que sua amiga seja uma criminosa profissional, e pelo jeito que ela age, ela é a mais pura veterana.
– O quê? – Seu coração congelou.
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