Eventualmente Claricce Stracci
20 Capítulo 20
Guttenberg, 12:00
Parecia que Suzane estava pagando todos os pecados de sua vida – e de outras passadas – em um só dia; agora, o quarto estava frio e várias baratas saíram de sua toca para procurar comida. Ela se sentia zonza, faminta, friorenta, e o mais importante, se sentia totalmente sozinha.
De repente, Suzane ouviu barulhos vindo da janela, alguém estava tentando falar com ela.
Ela se levantou e foi perto da parede pra ouvir o recado.
– Claricce, por favor, diga NÃO! – Ela reconheceu a voz de primeira, era Lindsey que estava cochichando. – Pelo bem de todos, diga não!
– Dizer não pra quem? – Suzane não ouvia mais nada, nem um barulho se quer. – Lindsey? Lindsey?
A porta se abriu num baque, e pela pose que Giovanni fez, ele estava prestes a fazer algo ruim, muito ruim. Seus cabelos estavam amarrados, e ele estava com um terno totalmente preto. Suzane percebeu que ele tinha um pano preto em mãos... Seriam roupas?
– Querida Claire, vista esse pedaço insignificante de pano para que assim, você pareça uma legítima Stracci. – Ele jogou a roupa preta no chão. – E peço que siga todas as instruções que eu der, por favor.
– E se eu não quiser fazer nada disso que está falando? E se eu preferir a morte do que ajudar um bando de bandidos iguais a vocês? – Suzane cerrou os cílios. – Afinal, por que está tão bonzinho assim? Você nunca é assim! Está querendo algo, não?
Capo Stracci se materializou atrás de seu sobrinho, e a olhava com a mais pura decepção.
– Não acredito que ainda haja desrespeitos nessa família! – Ele balançava sua cabeça negativamente, enquanto seus olhos azuis se enchiam de lágrimas. – Principalmente você, minha neta. Nunca esperava algo assim de você, do Giovanni talvez... Mas de você..
Giovanni se remexeu como sinal de desconforto, e o Capo saiu da sala com a cabeça baixa, pensando no que tinha feito pra ser recebido dessa forma pela própria neta.
– Continuando, se você não quiser, acho que terei que mandar Ash ir atrás da sua irmã... Sabe, já que a vida dela vale por duas.
– O quê você acabou de me dizer? Que vai mandar sua prostituta particular ir atrás da minha irmã? – Suzane exibia um sorriso satisfatório. – Sabe, meu amor, se for pra matar minha irmã é só você a encontrar e tocar nela. Você me dá nojo. Você nada mais é do que um maldito pedaço de carne ambulante.
– Ah, é? – Giovanni arqueou sua sobrancelha. – Vejo que ainda continua com essas respostas do Ensino Fundamental, bambola¹. De qualquer forma, terá de fazer o que eu quiser, e nesse momento eu quero que você tire essa roupa e coloque a que eu acabei de jogar.
– E sabe o que eu quero? Eu quero sair dessa merda, eu quero viver, eu preciso disso! Mas nem sempre podermos ter aquilo que tanto queremos, não é mesmo? Que isso sirva de lição pra você, bonitão. – Ela pegou a roupa e a analisou. Era um vestido preto, sem decotes, e tinha a cintura marcada e a saia ampla. Suzane voltou a encarar Giovanni. – É sério isso? Quem foi que escolheu? Uma de suas putinhas particulares? Por que, olha, vou te contar...
Giovanni abaixou a cabeça.
– Achei que ia gostar, minha querida. – Ele a olhou. – Fui eu que escolhi. Coloque logo isso, temos um lugar pra ir, uma hora pra chegar.
– Não tem como piorarem as coisas... Eu coloco, mas só se você me falar por onde anda Eric! Eu quero saber se ele ainda continua vivo. – Ela arqueou uma sobrancelha, e ele concordou.
– Nós o matamos. – Ele disse serenamente, como se aquilo não significasse nada pra ele.
– Como? – Suzane estava em estado de choque.
– Ashley mirou e atirou, satisfeita? – Suzane encarava o chão, sem saber o que dizer. – Agora, coloque esse vestido, temos que chegar em uma reunião.
Suzane ia tirar a camisa quando percebeu o olhar devorador de Giovanni.
– Pode sair se quiser, eu me viro bem por aqui. – Vendo a insistência dele, ela continuou. – Não vou fugir ou algo parecido, por mais que eu queira.
– Não vou sair daqui. – Giovanni continuava com aquele olhar perturbador.
Suzane virou de costas e antes de colocar o vestido, pôde sentir o olhar de Giovanni em suas curvas, o que fez com que ela ficasse irritada. Ela se virou, e o Giovanni estava de boca aberta. Aquele vestido realçava suas curvas, a deixando mais bonita ainda.
– Você está – Ele não conseguia terminar.
– Eu sempre fui, meu querido. – Suzane disse, arqueando as sobrancelhas.
Lindsey chegou, e a primeira coisa que ela notou foi o sorriso no rosto de Giovanni. Ele estava extremamente feliz. Ela entregou um par de sapato preto á Suzane.
– Você está espetacular! – Lindsey disse. – David está esperando por vocês.
Suzane colocou os sapatos, e com uma certa dificuldade andou até a porta.
– Então vamos.
Fairview, 12:25
Chegando lá, Suzane se sentiu estranha ao ver o cenário em que estava para entrar, era uma casa preta que mais parecia um templo com alguns homens engravitados na porta conversando entre si. A conversa parou quando Suzane desceu, e Giovanni a apertou pela cintura.
– Nem pense, mocinha. Aqui nós somos os Stracci, vendedores de armas de fogo. Vamos negociar com um alemão multimilionário, e vê se não estraga tudo. – Ele deu a mão pra ela. – Vamos, por aqui.
Os homens olhavam enciumados para Giovanni, e Suzane mal sabia o papel que iria representar. Eles entraram numa sala que era inteiramente preta, sem nenhuma janela e com somente um abajur, que ficava em cima de uma das mesas mais caras do mundo.
Eles sentaram numa mesa redonda, e esperaram o seu comprador chegar. Era um típico alemão: alto, loiro, com olhos de um azul incrível e tinha um sorriso largo no rosto, junto com ele havia um homem de uns 46 anos, poderia ser seu tradutor.
– Olá, como vão? — O homem mais velho começou, apertando as mãos dos Stracci. — Meu nome é Bruce Dikns e sou tradutor do senhor Andres Breuer, seu comprador.
Andres apertou a mão de Giovanni, e em seguida, beijou a mão de Suzane.
– Erfreut, Dame² Stracci. — E abriu um sorriso largo. Suzane riu baixinho.
– Pra você também. — Ela disse sem entender um pingo do que Andres estava falando.
Eles se sentaram e Bruce jogou uma maleta cheia de papéis na mesa, com o que fez com que Suzane despertasse de curiosidade sobre o jogo que ela estava prestes a jogar. Ia ser divertido.
– Então, com quem eu falo? — Bruce perguntou.
– Com Claricce, ela é a mais nova vendedora de armas da família Stracci. — Giovanni piscou para Suzane. — Não é mesmo, Claire?
– Não. — Suzane fingiu rir. — Claro que é, meu primo querido! Então, por onde começamos?
– Então, quais são as novas mercadorias que Luiggi tanto falava? Meu cliente está curioso a respeito disso...
– Errr... — Suzane olhou pros lados, desesperada, pensando em qualquer coisa que pudesse a tirar dali. — Só um momento, tenho que ir no banheiro. — Vendo a cara de desentendido de Andres, ela continuou enquanto levantava. — B-A-N-H-E-I-R-O, xixi, sabe como é?
Suzane saiu correndo daquela sala e se perdeu naquele corredor imenso e preto. Tudo parecia tão igual, tão sem vida, tão Stracci. Ela se perguntava que diabos ela estaria fazendo naquele lugar, e pra onde iria depois disso.
Bruce veio correndo em sua direção com um sorriso no rosto.
– Fechamos negócio, senhorita Claricce! — Bruce apertava sua mão com alegria. — Meu cliente aceitou a proposta de Giovanni, e ele quer dar um jantar pra compensar esse fato... A senhorita gostaria de ir?
– O quê? Eu? Andres e eu? — Suzane estava completamente perdida, e parecia que a escuridão das paredes podeira a engolir a qualquer momento.
– Não, pequena Stracci! Nesse jantar estarão os burgueses, os mais temidos. Andres me pediu para convidá-la, já que é uma honra ter a senhorita como convidada.
Giovanni veio enfurecido a encontro de Suzane, a puxou pelo braço e a fez seguir em frente.
– Fala pro alemãozinho bonitinho que eu vou sim! — Suzane gritou.
– Não, você não vai! — Giovanni estava furioso. — Temos que sair daqui agora.
– Por que? O que está acontecendo? — A dor em seu braço piorava cada vez mais, parecia que Giovanni estava descontando toda sua frustração e ódio pela humanidade nela.
– Armaram uma armadilha pra gente! — Ele a puxava cada vez mais forte e a obrigava a andar mais rápido.
– O quê? Do que você está falando?
– Este lugar está lotado de Cordopatri! Como não percebi isso antes? — Giovanni resmungava. — Como pude ser tão tolo?
E foi só então no meio daqueles homens todos iguais que Suzane se concentrou numa única pessoa. Essa pessoa marcara sua vida dias atrás, que diabos ela estava fazendo lá? E então foi aí que surgiu o maldito reconhecimento, e o medo de perder quem ela gostaria de estar junto.
Não, ele não. Todo mundo menos ele! Estou vendo uma alucinação, ele não pode estar aqui.
E foi quando seus olhos encararam os dele que ela pôde ver que tudo aquilo era real.
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