Evangelion: Shattered Thresholds

12 Episódio 12: Origens Fraturadas


Capítulo 102: Engano Sincronizado / Prelúdio da Queda

A luz da manhã invadiu o quarto de Kai, puxando-o suavemente do sono.

Seu celular vibrou.

Asuka: "Acorda, Selvinha. Nada de preguiça hoje. 😏"

Kai sorriu e respondeu:

Kai: "Bom dia, esquentadinha! Sem chiliques hoje. 😘"

Três vibrações seguidas vieram em resposta.

Asuka: "EU TE ODEIO."

"TÔ INDO AÍ SÓ PRA TE DAR UM SOCO."

"Se apronta. A gente sai pra NERV logo. E EU NÃO SOU ESQUENTADINHA!!! 😡"

Kai riu sozinho, imaginando a fúria ruborizada dela. De algum modo, até quando gritava com ele em caixa alta, Asuka fazia o mundo parecer mais normal. Mais real. Talvez um dia ela realmente fosse aparecer no apartamento dele.

Depois do café e do banho, ele se arrumou e saiu de casa. O dia estava calmo. Mas seu peito estava apertado.

O celular vibrou de novo.

Asuka: "Anda logo, lesma. Já tô a caminho."

Kai: "Ansiosa, é? Relaxa, já tô indo."

Asuka: "NÃO tô ansiosa, idiota. Só não quero que \textbf{VOCÊ se atrase DE NOVO."}


Quando chegou à sede da NERV, ela já estava lá—braços cruzados, pé batendo no chão.

"Demorou, Selvinha," ela resmungou.

Depois, uma pausa. O tom dela suavizou levemente.

"Pronto pra isso?"

"Tô," disse Kai. "E você?"

"Tsc. Sempre."

Ela olhou na direção do complexo. "Sem erros, beleza? A gente faz isso rápido, limpo e cai fora."

Ela jogou o cabelo para trás, a confiança retornando. "Agora vamos. Hora de fazer nosso teatrinho de `bons pilotinhos'."

Enquanto caminhavam, Kai olhou de lado. "Esperar a Misato avisar quando for a hora, certo?"

Asuka assentiu. "Isso, isso. A gente segue o plano. Sem improvisar. Isso significa que você não vai se meter a curioso e sair perambulando como um idiota."

Ela deu um sorrisinho. "Não que eu não fique linda salvando sua pele, mas vamos tentar evitar isso hoje."

Kai riu, mas o som saiu distante. Conforme se aproximavam dos corredores principais da NERV, o peso do que estavam prestes a fazer voltava a recair sobre seus ombros. O riso desapareceu, substituído por algo diferente—algo mais contido.

"Sabe..." ele disse, num tom mais baixo agora, "fiquei pensando sobre ontem. Sobre o que o Shinji falou. Que o Gendo disse que a alma da mãe dele está dentro do Eva-01. Por que ele diria uma coisa dessas pro Shinji? Acho que tá tentando convencer ele a aceitar fazer parte do plano."

Asuka franziu o cenho. "Gendo não faz nada sem motivo. E com certeza não foi pra criar vínculo."

A voz dela ficou mais séria. "Ele quer que o Shinji ache que pilotar não é uma escolha. Que é destino."

Ela clicou a língua. "E o pior? O idiota provavelmente acredita."

Kai assentiu. "Você acreditou naquela história da... alma da Yui?"

Asuka ficou tensa. Não respondeu de imediato. "Tanto faz. Não muda nada. Eu piloto porque sou a melhor—não por causa de um papo estranho de fantasma."

Kai deu uma risada seca. "Sabe de uma coisa? Tem razão. Dane-se. Eu piloto pra ajudar as pessoas. Não por causa de um papo estranho de fantasma."

Asuka olhou pra ele, com um sorriso de canto. "Esse é o espírito, Selvinha."

Ela estreitou os olhos. "Que papo estranho. Certeza que você é mesmo uma anomalia."

Kai sorriu. "Sou sim. Uma anomalia bem esquisita. Humm... talvez seja por isso que eu aturo você. Porque sou um defeito fora do comum."

Asuka bufou. "Ah, por favor. Admita, Selvinha—você morreria de tédio sem mim."

Ela o encarou de lado. "Mas olha... se ser uma anomalia significa que você consegue mesmo me acompanhar..."

O sorriso dela suavizou. "Acho que você não é totalmente inútil, afinal."

Ela lhe deu uma leve cotovelada. "Agora para de ficar filosófico e esquisito. Temos uma missão pra cumprir."

Kai não discutiu. Não porque ela não tivesse razão—mas porque, de algum jeito estranho e invertido, aquilo o fazia se sentir mais firme no chão.

Chegaram à área de testes. As portas de aço se erguiam à frente, frias e silenciosas. Kai respirou fundo, olhou uma última vez para Asuka—

Hora do show.

Capítulo 103: Simulação de Contato / Olhos que Veem Demais

Técnicos se agitavam pela sala de controle, preparando os sistemas com pressa incomum. Ritsuko estava no console principal, os olhos varrendo os diagnósticos. Misato mantinha a postura tensa. Shinji já estava de plugsuit, retraído. Rei—quieta, indecifrável—encarava o vazio como um fantasma.

"Certo, pilotos," a voz de Ritsuko estalou nos comunicadores, "vistam os plugsuits e vão para seus plugs de entrada. O teste de hoje será focado em análise profunda de sincronização. Movam-se rápido."

Enquanto Kai se preparava, lançou um olhar para Rei.

"Ei, Rei! Quanto tempo! Como você está?"

Rei virou lentamente, prendendo os olhos nos dele. "Estou... bem."

Ele se virou para Shinji. "E você, cara? Tudo certo?"

Shinji assentiu, de leve. "É... tô bem."

"Ótimo," Asuka resmungou. "O Selvinha e suas conversinhas. Vamos acabar logo com isso antes que a loira comece a cutucar nossos cérebros de novo."

Na baía dos Evas, o clima estava mais frio do que o normal.

Kai parou diante da Unidade-04.

Ficou olhando para ela.

O que é você? Qual é a diferença entre você e os outros?

Engoliu seco, deu um passo à frente e entrou no plug de entrada.

Quando o plug se encaixou e o LCL preencheu a cabine, Kai tentou silenciar os ruídos. Seus próprios pensamentos eram mais altos que tudo.

Olhou para cima—Gendo e Fuyutsuki observavam do deque superior. Antes, eles nem apareciam. Mas agora, Gendo estava lá. Fazendo questão de ser visto.

"Todas as unidades, iniciando teste de sincronização... agora."

A onda neural familiar percorreu seu corpo. Como sempre, algo parecia errado. Algo... consciente.

A voz de Asuka rompeu o silêncio: "Tudo normal aqui. Taxa de sincronização perfeita, como sempre."

Shinji veio em seguida: "T-Tá tudo bem... acho."

Rei permaneceu em silêncio.

A voz de Maya veio a seguir: "Kai, como está sua sincronização? Leituras estáveis, mas você apresenta atividade neural incomum."

Kai piscou, tentando manter a calma.

Gendo e Fuyutsuki nem estavam aqui da outra vez. Mas agora... ele falou sério quando disse que estariam me observando.

Engoliu seco.

"Oi, Maya. A esquisitice de sempre. Acho que tô me acostumando."

A voz dela voltou, cautelosa, mas serena. "Apenas mantenha o foco."

Ele sentiu de novo.

A presença.

O Eva o observava.

Não... era mais como se ouvisse. E tentasse se comunicar.

Fechou os olhos por um instante. Hoje, ele não podia mergulhar mais fundo. Não podia tentar alcançar aquela voz de novo. Não com Gendo assistindo.

E mais do que isso. O que Asuka disse de manhã mudou algo dentro dele. Não importava mais o que era aquela voz. Ele não precisava saber.

Tudo o que precisava era pilotar.

Não valia a pena arriscar tudo por alguma coisa estranha e sem sentido.

Hoje, eu preciso ser estável. Inofensivo. Só mais um piloto.

Durante a sincronização, viu os outros através dos monitores compartilhados. Asuka: focada. Shinji: inquieto. Rei: distante.

O que o Gendo está esperando? pensou. Algo está por vir. Ele sabe. Isso não é só sobre sincronizar. É sobre ver como eu vou reagir.

Maya de novo: "Kai, sua taxa de sincronização está caindo ligeiramente. Mantenha o foco."

Ele cerrou os dentes. Sua mente estava se dispersando. Pressão demais.

Então, a voz de Asuka—canal privado:

"Ei. Respira. Você tá pensando demais de novo."

Ele soltou o ar. A voz dela o ancorava.

Ritsuko seguiu: "Se houver qualquer desconforto, Kai, relate agora. Caso contrário, estabilize sua mente e prossiga."

Ele não respondeu de imediato.

Mas respirou.

Firme. Calmo. Controlado.

Nada de riscos hoje. Apenas uma boa e velha anomalia.

O LCL zumbia em seus ouvidos, suave e sufocante ao mesmo tempo. Ele controlou a respiração, manteve os pensamentos focados e conteve o impulso estranho que sempre vinha da Unidade-04—o sussurro na borda da percepção que o chamava para mergulhar mais fundo.

Hoje não.

Hoje, ele era só um piloto.

Só mais um piloto.

"Desculpa, Ritsuko. Tô bem agora," disse ele pelos comunicadores.

Lançou um olhar aos monitores, onde os outros apareciam em janelas intercaladas. Então, com um sorriso que sabia que atingiria o alvo, acrescentou:

"Hoje eu vou bater os índices de sincronização daquela esquentadinha metida ali."

Um segundo de silêncio.

Então—

"Tsc. Ah, cala a boca!" A voz de Asuka estourou no canal privado.

Kai sorriu dentro do plug de entrada. Ele praticamente sentia o olhar fulminante dela tentando atravessar a tela.

"Se concentra, idiota!" ela completou, embora a voz vacilasse um pouco. Não era só irritação. Estava desconcertada. E isso era tudo que ele precisava.

"Flutuações neurais estabilizando. Retornando à linha de base," relatou Maya.

"Anotado," respondeu Ritsuko com frieza. "Continuem o teste."

No alto, Gendo não se mexia. Não piscava. Apenas observava. Esperava. Seja lá o que esperava ver em Kai—ainda não tinha acontecido.

Misato enfim falou, sua voz cortando a tensão como uma brisa morna. "Continuem assim, pessoal. Tá quase acabando."

Kai se acomodou no fluxo da sincronização, flutuando dentro do campo neural do Eva como madeira à deriva numa corrente. A presença dentro da máquina ainda estava lá, ainda observando. Mas não se manifestava. E ele não a buscava.

Não estava ali para ser extraordinário.

Estava ali para ser irrelevante.

"Sério mesmo? Isso é o melhor que você consegue?" Asuka murmurou, de olho nos níveis de sincronização.

Ele riu. "Hoje é o dia, tô sentindo! Diz adeus ao topo, número dois!"

Pronto. Bastou isso.

Asuka se irritou. "Tch—nos seus sonhos, Selvinha!"

A sincronização dela disparou quase imediatamente, um impulso competitivo iluminando os diagnósticos. Kai podia imaginá-la, olhos semicerrados, forçando-se só um pouco mais.

"Taxa de sincronização da piloto Asuka subindo ligeiramente," reportou Maya. "Mantendo níveis máximos."

"É a reação esperada," murmurou Ritsuko.

Misato riu. "Pelo menos estão motivados."

A voz cansada de Shinji suspirou nos comunicadores. "Vocês dois nunca param?"

Kai captou um vislumbre dos dados da Rei. Estáveis. Perfeitos. Distantes. Às vezes ele se perguntava como era nunca vacilar.

O relógio seguia. Gendo continuava observando. O Eva continuava emitindo seu zumbido.

Kai forçou só um pouco mais, mas não demais. O suficiente para parecer que estava tentando. O suficiente para cutucar Asuka. Mas não o bastante para ativar o que Gendo esperava.

"E aí, pronta pra derrota?" ele provocou. "É hoje você perde o lugar no topo."

"Tch! Você tá delirando, Selvinha! Vai sonhando!"

A taxa dela subiu de novo. Maya tentou manter a compostura, mas o padrão era óbvio. Kai estava provocando—e estava funcionando.

"Sincronização da piloto Asuka aumentando novamente. Mantendo eficiência máxima."

"Fascinante," murmurou Ritsuko.

Misato já sorria, braços cruzados, divertida.

"Por que eu sinto que esse teste só tá piorando tudo?" Shinji murmurou.

A contagem regressiva começou.

Dez segundos.

Kai manteve posição. Nem forçava, nem relaxava. Apenas firme. Apenas próximo o suficiente.

Cinco segundos.

A presença na Unidade-04 se agitou levemente. Curiosa. Atenta.

Ele não respondeu.

"Leituras finais confirmadas. Teste será encerrado em—" A voz de Maya começou a contagem. "3... 2... 1..."

Uma leve mudança de pressão. A sincronização foi encerrada.

Kai flutuava no silêncio, a consciência residual da Unidade-04 como uma sombra em sua espinha.

Então a voz de Maya, surpresa e radiante:

"Resultados de Sincronização dos Pilotos: Piloto Asuka Langley Soryu: 68,4%. Piloto Kai: 68,3%."

"Novo recorde pessoal da Piloto Asuka," acrescentou Maya, piscando para os dados.

Um segundo de silêncio.

Uma pausa.

Então—

"TCH—O QUÊ?!"

O grito de Asuka ecoou pelos comunicadores.

Misato caiu na risada. Ritsuko permitiu-se um raro sorriso de canto.

"Bem... foi por pouco."

Shinji fez uma careta. "Ah não..."

Até Rei pareceu se mexer, mesmo que só um pouco.

Lá em cima, Gendo finalmente se moveu. Cruzou as mãos de novo. Sua expressão inalterada, mas Kai não conseguia lê-la por trás dos óculos. Interessado? Decepcionado? Impressionado? Era impossível saber.

Nos monitores, o restante dos resultados surgiu:

Shinji Ikari: 54,1%.

Rei Ayanami: 65,6%.

Mas a diferença entre Kai e Asuka—0,1%—essa ia assombrá-la.

"Todos os pilotos demonstraram sincronização estável," anunciou Maya. "O teste de hoje está encerrado."

Um baque forte veio do plug da Asuka. "QUE TIPO DE PIADA SEM GRAÇA É ESSA?! EU DEVIA TER ESMAGADO ELE!"

Misato, limpando uma lágrima: "Nossa. Não via ela tão brava assim desde que fiz ela comer natto."

Asuka estava enfurecida.

Kai riu. "Ah nãooo! Por pouco! Admite vai, você tá começando a ficar com medo, né?"

"MEDO?! HAH! Até parece! Isso foi sorte, Selvinha! Um acidente absurdo! Da próxima vez, você vai ser destruído!"

Ele se recostou no assento, satisfeito e cheio de si.

Pela primeira vez, não tinha ido longe demais. Não tinha tocado a voz, nem deixado que ela o tocasse.

E conseguiu exatamente o que queria.

Capítulo 104: Protocolo de Recuperação / Por Trás da Cortina

O chiado da despressurização sumiu conforme o plug de entrada se abriu, e Kai saiu para o hangar estéril da NERV, ainda com o corpo umedecido de LCL. O ar agora parecia diferente—mais pesado, mas também carregado de eletricidade pelo que acabara de acontecer. Seu pulso ainda não tinha voltado ao normal.

Asuka já estava fora, secando os cabelos com uma toalha, a irritação praticamente emanando como vapor. Ele se aproximou devagar.

"Ei," disse em tom baixo. "Tudo bem? Você sabe que eu tava só provocando, né? Tentando fazer o Gendo achar que eu sou só mais um piloto. Mas... eu realmente te fiz quebrar seu recorde?"

Asuka lhe lançou um olhar mortal, os braços cruzados. "Tch! Como se VOCÊ fosse o motivo de eu quebrar meu próprio recorde."

Mas suas bochechas ainda estavam coradas—e não apenas pelo esforço da sincronização. Ela murmurou, quase inaudível: "Eu sei o que você tava fazendo, idiota."

Ela rolou os ombros, a tensão diminuindo só um pouco. "Se distraiu o Gendo, ótimo. Mas não pense que vai sair impune. Da próxima vez, eu vou te esmagar."

Kai sorriu de canto. As palavras dela eram afiadas, mas havia algo por trás—um reconhecimento. Talvez até uma pontinha de gratidão.

Então aconteceu. Misato atravessou a sala casualmente e tocou um ponto muito específico na prancheta.

O sinal.

Asuka se endireitou na hora. A irritação sumiu. O foco voltou.

Kai assentiu discretamente.

Misato se espreguiçou com um grande bocejo forçado. "Ufa! Essa foi longa. Certo, pilotos, vão pro banho e se troquem. Debriefing em vinte minutos."

Vinte minutos. Essa era a janela.

Asuka se moveu primeiro, fazendo um grande teatro ao jogar o cabelo úmido pra trás. "Ugh, finalmente. Tô fedendo a LCL."

Caminhou em direção à saída com naturalidade treinada, mas seu trajeto não era para os vestiários. Ela seguia para o corredor de manutenção.

Kai a seguiu, ajustando a própria rota. Atrás deles, viu Shinji se aproximando timidamente de Rei.

"Hum... Ayanami... você... uh, quer—"

O resto da frase se perdeu enquanto Kai entrava no corredor.

Assim que ficaram fora de vista, Asuka olhou por sobre o ombro. Seu cenho franzido tinha sumido, substituído por concentração afiada.

Kai sorriu. "Estou errado se disser que tô empolgado? Adoro que a Misato tá com a gente."

Asuka bufou. "Tsc. Claro que você tá empolgado, Selvinha. Você vive pra esse tipo de coisa."

Ela conferiu as câmeras de segurança—voltadas para o teto nesse trecho. "E sim... isso ajuda. Com ela do nosso lado, isso aqui não é suicídio. Só imprudente."

Kai viu que o caminho estava livre. "Você tá com o cartão do Kaji, né?"

Ela lhe lançou um olhar como se ele tivesse perguntado se água é molhada. "Claro que tô. Você acha mesmo que eu confiaria em você pra guardar isso?"

Tirou o cartão do bolso do plugsuit e passou pelo leitor com um gesto teatral.

Bip.

ACESSO CONCEDIDO.

As portas se abriram. Nenhum alarme.

Asuka girou o cartão nos dedos como se fosse uma ficha de pôquer. "Fácil demais."

Lá dentro, as luzes eram fracas e o zumbido das máquinas preenchia o ambiente. Racks de servidores alinhavam as paredes. Portas de monitoramento piscavam em intervalos regulares.

A câmera estava escondida atrás de um painel com ventilação, dentro da sala de controle.

"Vai lá, Selvinha. Pega ela," sussurrou Asuka, posicionando-se perto da entrada. "Eu fico de vigia."

"Para de me chamar de Selvinha," murmurou Kai enquanto entrava mais fundo na sala. "E já tô indo."

Passou entre os racks com passos leves, olhos atentos. Lá estava—exatamente onde havia deixado.

Kai a soltou com facilidade, guardando discretamente.

Feito.

Virou-se para voltar—

A cabeça de Asuka virou para o corredor.

Passos.

"Droga," sibilou.

Alguém se aproximava.

Kai congelou, a mão ainda segurando a microcâmera. Só havia uma saída, e ela estava prestes a ser bloqueada.

Sem tempo pra pensar. Só agir. Se hesitassem, perderiam tudo.

Seu olhar encontrou com o de Asuka e disse: "Vem comigo."

Kai puxou a mão de Asuka e a levou para o estreito corredor entre dois racks enormes de servidor. Era apertado—mal cabia um deles—mas teria que servir.

Ficaram frente a frente, Kai com as costas contra o aço frio, Asuka com as mãos apoiadas no peito dele para manter o equilíbrio.

"E-Ei—!" ela sussurrou, já corada, mas não se afastou.

O LCL ainda impregnado nos plugsuits deixava o ar pegajoso e abafado, cada centímetro entre eles quente demais. A respiração dela roçava seu pescoço.

"Melhor isso não ser uma das suas idiotices pervertidas," ela murmurou, quase sem voz, os olhos desviando dos dele. A voz era afiada, mas sua respiração vacilou um pouco.

"Shh... fica quieta," Kai sussurrou de volta, os olhos fixos na fresta do corredor visível entre as máquinas.

Uma figura entrou no campo de visão.

Segurança da NERV—uniforme, armado, metódico.

O coração de Kai batia como um tambor. As paredes dos racks pareciam se fechar. Ao seu lado, Asuka estava imóvel. A respiração quase imperceptível.

O guarda parou.

Kai prendeu a respiração.

Cada segundo se arrastava como uma lâmina sobre pedra.

Então—finalmente—o guarda se virou.

"Nada aqui. Indo para o próximo setor."

Os passos ecoaram no corredor, sumindo.

Um chiado suave. A porta se fechou.

Silêncio.

Asuka soltou o ar ao lado dele. "Isso foi... perto demais."

Empurrou o ombro dele, mais por reflexo do que por raiva. Ainda corada.

"Certo, Selvinha, vamos sair daqui antes que a sorte acabe."

Kai checou o horário. Seis minutos antes do debriefing.

O coração ainda batia forte. Não pela corrida, mas pelo quanto tinham passado perto de perder tudo.

Caminharam pelos corredores silenciosos, passos rápidos mas discretos. Asuka deu um leve empurrão no ombro dele ao se aproximarem do corredor principal.

"Beleza, gênio. Última etapa—sair sem cara de culpado. Aja normalmente."

Ela jogou o cabelo para trás com confiança, caminhando com o charme habitual.

O corredor à frente se bifurcava—vestiários de um lado, baía de testes do outro.

Kai olhou para ela. "Vamos pros vestiários. Mas temos que tomar banho rápido, temos seis minutos. Te encontro depois?"

Asuka lhe lançou um sorriso de canto. "É, é. Não preciso de seis minutos pra ficar linda."

Ela seguiu em direção ao vestiário feminino. "Não se perde, Selvinha."

Se separaram.

Kai entrou no vestiário masculino. Vazio. Nenhum sinal de Shinji.

Ótimo. Isso significava que ele devia estar conversando com Rei.

Perfeito.

Ele tirou a microcâmera e a guardou na bolsa. Depois, tirou o plugsuit e correu para o chuveiro, ágil.

Cinco minutos restantes.

Tempo suficiente pra se lavar, vestir o uniforme e chegar ao debriefing com a Misato.

Deixou a água escorrer sobre ele, rápida mas eficaz. A pressão não tinha desaparecido—não completamente. Ainda se sentia como parte de um roteiro escrito por outros.

Mas hoje, eles tinham escrito a própria cena.

E tinham conseguido.

Capítulo 105: Sombras que se Aproximam / O que Buscam os Anjos

O LCL tinha sumido, mas a tensão ainda grudava na pele de Kai.

Ele tomou o banho mais rápido da vida, se vestiu depressa e garantiu que a microcâmera estivesse segura na mochila antes de sair. Os corredores da NERV pareciam enganosamente normais—paredes brancas, ruídos baixos, luzes piscando—mas cada esquina dava a sensação de estar sendo vigiada.

Ao se aproximar da sala de debriefing, avistou Asuka à frente, ajeitando o cabelo como se não tivesse acabado de se esconder da segurança da NERV. Ela lançou um olhar de canto, com um sorrisinho.

"Tsc. Até que enfim."

Ele conferiu o relógio.

Bem na hora.

Lá dentro, Misato estava encostada na mesa principal, com aquele jeito relaxado de sempre. Mas os olhos carregavam peso. Ela deu uma olhada rápida nos dois e disse:

"Ora, ora. Vocês dois realmente chegaram na hora. Achei que iam se `distrair' de novo."

O rosto de Asuka ficou imediatamente vermelho, os olhos se arregalaram em choque e indignação. Ela abriu a boca para responder, mas só conseguiu emitir um som estrangulado e envergonhado. Cerrou os punhos ao lado do corpo, visivelmente dividida entre gritar com Misato ou desaparecer dali.

Kai mal conteve um sorriso, embora por dentro tenha gemido. Misato é terrível, pensou. Mesmo agora, no meio de tudo, ela não perdia a chance de provocá-los.

Um minúsculo brilho de compreensão passou entre os olhos de Misato e os de Kai. A missão estava concluída. A câmera, segura.

Shinji estava sentado em silêncio do outro lado da sala, postura tensa. Rei também estava presente, ilegível como sempre. Kai tomou seu lugar ao lado de Asuka, se endireitando sutilmente enquanto Misato e Ritsuko davam início ao briefing.

"Certo," disse Misato. "Vamos ser breves. Primeiro—bom trabalho. Ninguém perdeu o controle do Eva hoje. Sempre um ponto positivo."

Ritsuko bateu no clipboard. Os monitores atrás dela se acenderam com gráficos e dados.

"Piloto Soryu," começou ela, olhando para Asuka, "continua com o maior índice de sincronização entre os pilotos. Sem alterações significativas, mas sua atividade neural sugere... competitividade elevada."

"Tch," murmurou Asuka. "Óbvio que sou competitiva. Tenho uma reputação a manter."

Misato esboçou um leve sorriso. Ritsuko então olhou para Kai.

"Piloto Kai. Sincronização estável. Flutuações leves, mas sem anomalias detectadas."

Exatamente o que ele queria que pensassem.

Ritsuko seguiu, num tom clínico: "Piloto Ikari, os níveis de sincronização se mantiveram consistentes, mas sua estabilização mental caiu brevemente no último ciclo. Desempenho abaixo do ideal. Vamos monitorar."

Shinji se enrijeceu levemente, mas assentiu.

"E a sincronização da Piloto Ayanami continua altamente estável," acrescentou Ritsuko, suavizando ligeiramente o tom ao mencionar Rei. "Variação mínima. Um desempenho exemplar."

Rei nada disse, mas um leve ajuste na postura mostrava que estava atenta.

Misato se inclinou um pouco e clicou um botão no controle. O monitor atrás dela mudou para mapas, imagens de satélite e leituras de energia.

"Agora, o mais importante," disse.

Todos se endireitaram.

"Detectamos algo," continuou Misato. "Ainda não chegou, mas está vindo."

Asuka se animou. "Finalmente."

"Um Anjo?" perguntou Shinji.

Misato assentiu. "Desta vez, as circunstâncias são diferentes. Ainda está longe, se movendo devagar. Tivemos sorte de detectar tão cedo."

Ritsuko completou: "Pelo padrão atual, deve alcançar Tokyo-3 em até 48 horas."

"Perfeito," murmurou Asuka. "Até que enfim uma luta de verdade em vez desses testes idiotas."

Mas Misato não parecia animada. Parecia... cautelosa.

"Seu codinome é Matarael," continuou Ritsuko. "O Décimo Primeiro Anjo."

Um monitor exibiu o Anjo. Um corpo verde-oliva, suspenso entre quatro pernas pretas gigantes como uma aranha monstruosa. A superfície era coberta por marcas vermelhas angulosas e olhos amarelos. No centro, um olho azul pulsava lentamente—observando.

Os dedos de Misato tamborilavam na mesa. Sua voz baixou. "É. Ele está vindo direto pra cá. Está procurando por algo."

Ela hesitou. "Ou por alguém."

As palavras pesaram.

"Ugh, ótimo," gemeu Asuka. "Podíamos só pendurar uma placa de néon: ‘Tokyo-3, seu apocalipse num só lugar!’"

Ninguém riu.

Rei permaneceu em silêncio, mas Kai viu tensão nos ombros dela.

Os olhos de Misato se voltaram brevemente para Kai—rápidos, indecifráveis.

Ritsuko devolveu o display para os gráficos. "Se Matarael mantiver o padrão atual, teremos contato em menos de 48 horas. Preparem-se para combate. Simulações começam amanhã cedo."

Misato cruzou os braços. "Então descansem. Vocês vão precisar."

A sala começou a se mover, cadeiras arrastando, conversas baixas começando—mas a mente de Kai ficou num ponto só.

Matarael não estava apenas se aproximando.

Estava buscando.

Kai levantou a mão.

"Pode falar, Kai," disse Misato, olhos semicerrados—mas havia um leve tom de humor no suspiro.

Kai olhou ao redor. Shinji, tenso. Rei, ilegível—mas atenta. Misato, Ritsuko. A verdade pairava no ar. Então ele falou.

"Como assim, gente... sério? Preciso mesmo dizer? Todo mundo tá pensando, então eu digo. A gente sabe pra quem esse Anjo tá vindo."

O silêncio foi imediato.

Ritsuko parou de folhear as anotações. Os dedos de Misato congelaram.

Asuka franziu o cenho. "Espera... você acha que—?"

Shinji se enrijeceu. "Ele... tá vindo atrás do Kai."

Rei virou a cabeça lentamente em direção a ele—olhar firme, fixo.

Misato exalou. "Ainda não sabemos disso." Mas sem convicção.

"Estatisticamente," começou Ritsuko, voz neutra, "Anjos anteriores mostraram comportamento anômalo correlacionado à proximidade de Kai. Mas correlação não implica causalidade."

Ela ajustou os óculos. "Lembre-se, os Anjos já eram atraídos por Tokyo-3 antes de você chegar. Não se ache tanto."

Kai ergueu as sobrancelhas com falsa ofensa. "Nossa. Valeu, doutora. Tava precisando desse banho de humildade."

Asuka cruzou os braços e bufou. "Tsc. Mesmo que já viessem antes, tem que admitir que ficou mais esquisito desde que o Selvinha chegou."

Ritsuko não respondeu. Parecia saber o verdadeiro motivo dos Anjos buscarem Tokyo-3, mas talvez não soubesse por que priorizam Kai.

Misato cortou a tensão. "Chega de especulação. Isso não é história de fantasma. Vamos nos preparar. Simulações amanhã cedo. Estejam prontos."

Kai assentiu. Entendeu o recado—Misato queria falar mais, mas não ali.

"Certo então," disse Kai, mais leve. "Pelo menos finalmente vou ter minha primeira simulação completa de combate. Já era hora, né?"

O sorriso de Misato voltou. "Isso aí."

"Tch," disse Asuka, esticando os braços. "Até que enfim pararam de te tratar feito bebê."

Shinji assentiu devagar. "É... ajuda. Mas não é o mesmo que combate de verdade."

"Beleza," disse Misato, batendo palmas. "Debriefing encerrado. Vão descansar. Vão precisar."

Os pilotos se levantaram e pegaram seus pertences.

Asuka cutucou Kai com o cotovelo ao sair. "Tenta não passar vergonha de novo, Selvinha."

Enquanto caminhavam pelo corredor, Kai olhou para os outros.

"Então... vamos?"

Asuka sorriu de canto. "É, é. Vamos antes que a Misato arrume outra desculpa pra segurar a gente aqui."

Shinji assentiu. "Acho que todo mundo precisa descansar."

Kai olhou para trás. Rei ainda estava parada na porta da sala, o olhar distante.

"Você vem também, Rei?" perguntou.

Rei piscou uma vez. Quase hesitante, balançou a cabeça. "Tenho outros assuntos a tratar."

Antes que ela se virasse, Shinji se aproximou.

"Vejo você... amanhã?" disse suavemente.

Rei ficou em silêncio por um instante.

"...Sim. Até amanhã, Ikari."

A voz ainda era neutra, mas mais suave. Os olhos deles se encontraram por um segundo a mais. Então ela se foi, sem olhar para trás.

Kai e Asuka trocaram olhares.

Ambos ergueram uma sobrancelha—pensando a mesma coisa: Isso acabou de acontecer?

Mas não comentaram.

Os corredores da NERV pareciam mais pesados que o normal. O peso da guerra que se aproximava.

Os três deixaram a sede da NERV e caminharam pela noite que caía sobre Tokyo-3.

Kai ergueu o rosto para o céu escurecendo.

A pressão não vinha só do Anjo que se aproximava.

Ela já estava ali—espreitando entre eles.

Capítulo 106: Encruzilhada da Confiança / Reprodução Proibida

Depois de uma pausa rápida para o almoço, eles caminharam lentamente em direção à casa do Shinji. Cada passo parecia mais pesado para Kai. Os últimos dias tinham deixado seus nervos em frangalhos. Todas as conexões que ele tinha feito... todos os amigos que finalmente possuía em sua vida... e—Asuka.

Tudo parecia frágil, como se tudo o que ele construíra pudesse desmoronar num piscar de olhos—como se o mundo inteiro conspirasse para arrancar sua felicidade.

Kai balançou a cabeça. Não podia se deixar levar por isso. Ele sabia melhor. Era hora de focar em algo concreto—algo em que pudesse realmente agir.

Kai lançou um olhar de lado para Asuka, forçando um tom casual. "A simulação de combate... Deve ser tipo um videogame, né?"

Asuka bufou. "Tsc. Continua achando isso. Você vai ver logo—aquilo não é nenhum fliperama idiota."

"É... parecido," disse Shinji, "mas não é a mesma coisa. Parece real."

"E nem vem chorar quando eu esmagar seu placar," acrescentou Asuka com um sorriso de canto.

Kai sorriu. "Não sei se você lembra," disse enquanto caminhavam, "mas da primeira vez que jogamos videogame, eu te destruí. E ganhei um encontro."

Asuka gemeu, revirando os olhos com os braços cruzados. "Tch! Foi sorte! E não vem dizer que eu não acabei com você em tudo depois disso."

Ela o cutucou de leve com o cotovelo. "Além disso, não foi o jogo que te deu o encontro. Fui eu decidindo ser generosa."

O rubor no rosto dela a entregava.

Kai sorriu de lado. "Então... você queria um encontro?"

Ela se enrijeceu, o tom de vermelho no rosto aumentando. "O-quê?! Não foi isso que eu quis dizer! Eu só deixei acontecer. Devia me agradecer!"

Ela saiu na frente, resmungando: "E para de me olhar desse jeito, Selvinha. É irritante."

Kai continuou sorrindo, mãos nos bolsos, fingindo não olhar, mesmo olhando. Ele adorava isso—como ela era tão Asuka, e ainda assim... agora eram algo mais. Algo indefinido, mas real.

Chegaram à porta do Shinji.

"Entra aí," disse Shinji baixinho.

O apartamento estava calmo, simples. Sem sinal de Rei ou Misato. Só silêncio. E Pen-Pen.

Pen-Pen emergiu casualmente de seu domínio refrigerado, fechando a porta da geladeira com a prática de sempre. Inclinou a cabeça, curioso, observando os visitantes com interesse. Kai acenou com a mão. "E aí, Pen-Pen."

O pinguim respondeu com um curto e satisfeito "Wark", se aproximando para inspecionar os sapatos de Kai. Asuka cruzou os braços, fingindo desinteresse, mas seus olhos suavizaram quando Pen-Pen cutucou seu tornozelo.

"Que foi? Está sem petiscos hoje?" perguntou ela, com um meio sorriso.

Pen-Pen inclinou a cabeça de novo, quase decepcionado, antes de voltar a atenção para Shinji. Com um suspiro resignado, Shinji foi até a cozinha, revirando gavetas até retornar com uma tigela de peixes picados.

"Aqui," disse gentilmente, colocando o prato no chão.

Pen-Pen soltou um guincho de satisfação e mergulhou no petisco com entusiasmo. Kai riu, observando o pinguim comer com voracidade.

"Você treinou ele bem," comentou Kai.

Shinji sorriu de leve, visivelmente mais relaxado. "Na verdade, acho que é ele quem me treinou."

Asuka revirou os olhos, mas o canto da boca se curvou. "Sabia. Até o pinguim te domina, Terceira Criança."

Pen-Pen levantou o olhar com um peixe pendurado no bico, como se confirmasse a verdade das palavras dela. A absurda cena arrancou uma risada dos três pilotos, aliviando a tensão—pelo menos por enquanto.

Asuka se jogou no sofá com um suspiro. "Hoje foi insuportável."

Shinji largou a mochila com um baque suave, coçando a nuca. "É... foi mesmo."

Kai ficou perto da porta. "Melhor que ter que ir pra escola, eu acho."

Ele tocou a mochila para sentir a câmera. Ainda estava lá.

"Vocês acham melhor esperar a Misato pra ver o que a câmera pegou?"

Asuka se recostou, pensativa. "Tsc. Odeio esperar... mas é. Talvez seja melhor."

Shinji olhou para ele. "Você acha mesmo que tem algo importante ali?"

"É bom que tenha," respondeu Asuka. "A gente quase foi pego pela segurança só pra filmar corredor vazio?"

A sala caiu em silêncio.

Kai encarou o dispositivo—então balançou a cabeça. "Quem eu tô enganando? Não tem como eu esperar. A gente precisa ver agora. A Misato vê depois."

Asuka estreitou os olhos, mas sorriu. "Tsc. Sabia que você não ia aguentar."

Shinji se remexeu, desconfortável. "Tem certeza de que deveríamos...? E se for perigoso?"

"A gente já passou do ponto de volta," murmurou Asuka. "Arriscamos demais pra não olhar."

Havia algo na voz dela agora. Não era empolgação. Nem pressa. Algo mais próximo do medo—que ela não admitiria.

Kai hesitou.

"A gente quer mesmo fazer isso sem a Misato? Vamos votar."

"A gente vê. Agora," disse Asuka, sem hesitar.

Shinji hesitou. "Acho que deveríamos esperar. Se for algo grave, a Misato que tem que lidar com isso."

"Ou ela vai querer esconder da gente," retrucou Asuka. "A gente tem o direito de saber."

Kai olhou para os dois.

Um voto para ver. Um para esperar.

Kai hesitou. Misato ficaria furiosa. Mas a curiosidade era maior.

Ele decidiu.

"Pega seu laptop, Shinji."

Capítulo 107: Ecos da Mentira / Ameaças Reveladas

Kai se inclinou para frente, cotovelos nos joelhos, olhos grudados na tela. A sala parecia menor agora, mais pesada. Asuka estava sentada de pernas cruzadas ao lado dele, braços cruzados, a expressão mesclando desafio e apreensão.

"Tá... só não digam que eu não avisei," murmurou Shinji, e foi para o quarto. Seus passos ecoaram mais do que deveriam.

Asuka sorriu, a voz afiada. "Hah. Sabia que você ia escolher a opção divertida."

Ainda assim, havia uma rigidez nos ombros dela. Ela fingia estar tranquila, mas Kai percebia—o que quer que estivesse naquele dispositivo, não era só informação. Era mais uma linha que, se cruzassem, não poderiam voltar atrás.

Um minuto depois, Shinji voltou com o laptop e o colocou com cuidado na mesa. "Aqui. Só... vamos com calma."

Sem esperar, Asuka jogou a pequena microcâmera nas mãos dele. "Conecta aí, Terceira Criança. Vamos ver o que nossa camerazinha pegou."

O laptop ganhou vida. Os arquivos carregaram.

O que veio primeiro foi estática—chiado quebrado, como uma fita velha. O som arranhava os nervos de Kai, fino e incômodo, como o som de um segredo que ninguém quer ouvir.

Então começou o primeiro clipe. Um chiado mecânico. Passos. Depois, a voz inconfundível de Gendo Ikari:

"Progresso no experimento?"

A respiração de Kai parou. Cada músculo do corpo ficou tenso.

Uma pausa—então a voz de Ritsuko, nítida e analítica:

"A sincronização permanece estável, mas insuficiente para análise definitiva. Precisamos forçar mais. Induzir outra tentativa de comunicação."

Passos se moveram.

"O risco de contaminação psicológica está dentro das tolerâncias," acrescentou Ritsuko, quase sem emoção. "Não podemos compreender totalmente a anomalia da Unidade-04 sem provocar uma reação."

Kai sentiu Asuka se tensionar ao lado dele, os braços se cruzando com mais força.

A voz de Gendo veio em seguida, fria e distante: "Prossigam. Aumentem os níveis de exposição gradualmente."

Barulho de papéis, um zumbido mecânico, e então a voz de Fuyutsuki—medida, cautelosa:

"Ikari... a Unidade-04 foi considerada um fracasso. Nenhum piloto conseguiu sincronizar... a Quarta Criança não devia existir."

Um longo silêncio. Depois a resposta de Gendo, baixa e cortante:

"A origem da anomalia é desconhecida—e irrelevante. O que importa é compreender seu propósito."

"Compreendo," respondeu Ritsuko, com frieza clínica.

Tudo parou. O zumbido do laptop. O ruído distante da cidade lá fora. A respiração nos pulmões de Kai.

"...Iniciem os preparativos para novos testes," ordenou Gendo.

Mais barulhos. Depois, novamente Gendo:

"Se a Quarta Criança era inevitável, precisamos determinar se ela é um recurso... ou um risco."

O clipe terminou.

Asuka soltou uma risada seca. "Tsc. Sabia. Ela tá junto com o Gendo desde o começo."

Shinji estava pálido. "Mas... o que isso quer dizer? Eles estão... te testando? Por quê?"

Kai não se mexeu. Cada palavra que ouvira fazia ele se sentir mais e mais como um erro—algo errado, algo que não devia existir. Como se sua própria existência precisasse ser justificada.

Gendo estava observando. Testando. Decidindo.

Asuka respondeu por ele, a voz amarga. "Porque ele ainda não sabe o que fazer com você. Aquele desgraçado odeia o que não entende. E você, Selvinha, é o maior mistério que ele tem."

Shinji hesitou. "Isso... isso quer dizer que você tá em perigo?"

Kai se esforçou para controlar a respiração.

"Vamos lá," disse Kai, a voz baixa. "Vamos ver o próximo."

Shinji hesitou. Depois clicou.

O segundo clipe começou.

Zumbido mecânico. Vozes, mais baixas desta vez.

Uma pausa. Então a terceira voz voltou—Fuyutsuki.

"Como vai relatar os eventos envolvendo a Unidade-04 ao comitê?"

Outra pausa. Gendo seguiu impassível: "Como os fatos atestam. Causas desconhecidas."

Fuyutsuki insitiu. "Mas... o comitê estava furioso. A SEELE deve estar enlouquecida com as alterações no cronograma."

A voz de Gendo permaneceu inabalada. "Claro, pois foram eventos inesperados. Incidentes não relatados nos Manuscritos do Mar Morto podem ocorrer."

Estática. Silêncio.

Fim da gravação.

O rosto de Asuka escureceu. "Tá, que diabos isso quer dizer?"

Kai piscou, olhando de um para o outro. "É... mais papo torto sobre a Unidade-04. Mas nada muito útil nesse."

Shinji olhou de volta para ele.

A voz dele era firme, mas o medo por trás era óbvio. "A gente devia ver o último arquivo."

A sala ficou em silêncio.

Só restava um arquivo.

Kai olhou para Asuka e encontrou o olhar dela. Então, virou-se para Shinji.

"Vai," disse Kai. "Põe pra rodar."

Shinji hesitou um instante, depois clicou no arquivo final.

A última gravação começou.

A estática ainda estava lá, o zumbido das máquinas por baixo de tudo. Mas o tom era diferente. As vozes vinham baixas, deliberadas.

Então—

"Você está brincando com fogo, Ikari."

A voz arrepiou a sala inteira.

Kaji.

Asuka apertou o sofá com mais força. Até Shinji empalideceu.

A resposta de Gendo veio fria e calculada. "Estou garantindo o futuro da humanidade."

Kaji soltou o ar. "Tratando crianças como cobaias?"

A voz de Ritsuko, afiada e defensiva: "Todos sabíamos onde estávamos nos metendo."

Kaji riu, mas sem humor. "Sabíamos? Ou vocês só pararam de questionar?"

Papéis se mexeram. Passos caminharam.

Então, Kaji de novo, voz mais baixa. "Se continuar forçando, você vai perder o controle."

Um longo silêncio.

Então Gendo falou num tom mortalmente calmo. "Você está ultrapassando seus limites."

Mas Kaji não recuou. "Continue tentando se convencer disso."

Corte. A gravação terminou de forma abrupta.

A sala caiu num silêncio absoluto. Ninguém se mexeu.

Os pensamentos de Kai corriam.

"Tenho que admitir..." murmurou Kai. "Isso tudo só trouxe mais perguntas do que respostas."

Asuka soltou o ar, ainda apertando o sofá. "Nem me fala. Que porcaria toda foi essa?"

Shinji balançou a cabeça lentamente. "O Kaji... ele sabe de algo."

"Tsc. E claro que o Gendo não conta nada pra ninguém," disparou Asuka.

As palavras ainda pairavam no ar quando o clique seco de uma chave na porta fez todos se sobressaltarem.

A porta se abriu.

Capítulo 108: Origens Incompletas / Medo do Desconhecido

Misato entrou, os olhos atentos vasculhando a sala—e imediatamente pousando no laptop, nos rostos deles.

Ela entendeu na hora.

A voz estava firme. Calma. Mas havia aço por trás. "Certo... o que vocês encontraram?"

Kai olhou para Asuka. "Vai. Conta tudo pra ela."

Asuka se inclinou para frente, o maxilar travado. "Ah, mas eu vou contar mesmo."

Ela se virou para Misato. "Pegamos tudo com a câmera. O Gendo e a Ritsuko tão fazendo mais testes com o Selvinha aqui—por causa dessa anomalia estranha na Unidade-04."

O rosto de Misato mal se mexeu, mas Kai viu—ela não parecia surpresa. Era como se já soubesse parte daquilo. Talvez até mais.

Asuka continuou. "E o Kaji? Ele sabe. Confrontou o Gendo sobre isso. Ele tá de olho em tudo."

Shinji, com a voz frágil: "Misato... o que isso significa?"

Misato esfregou as têmporas, suspirando. Ficou em silêncio, calculando.

Ela se virou para Kai. Olhos afiados.

"Kai... precisamos conversar. Agora."

Ele não hesitou. Já sentia isso o dia inteiro na NERV—o jeito como ela o olhava, como se estivesse segurando algo, querendo dizer mais.

"Então vamos conversar," disse ele. "Por favor, me ajuda a entender tudo isso."

Misato assentiu uma vez. "Certo. Mas não aqui."

Ela olhou para os outros. "Vocês dois, fiquem aqui. Isso é entre mim e o Kai por enquanto."

Asuka bufou, mas não discutiu. "Tsc. Ah, claro, deixa a gente de fora."

Shinji apenas assentiu, sobrecarregado.

Misato fez sinal para que Kai a seguisse. Eles foram até a pequena cozinha, a porta se fechando atrás deles.

Por um momento, silêncio.

Então, Misato se apoiou no balcão, braços cruzados. Quando falou, a voz era baixa.

"Presta atenção, Kai. Porque eu descobri algumas coisas... perturbadoras."

Ela encontrou o olhar dele.

E disse as palavras que ele mais temia ouvir.

"Você não deveria estar aqui."

"Como... assim?"

A voz de Kai cortou o ar entre eles, confusa e ferida.

Misato soltou o ar com força. "Exatamente o que eu disse. Você não fazia parte do plano do Gendo. Do plano de ninguém. Não era pra ser um piloto de Eva. Não era pra estar aqui."

O peito de Kai apertou.

A expressão de Misato era sombria, firme. "A Segunda Sede da NERV—com a Unidade-04—foi dada como perdida no experimento. Desapareceu. Ninguém esperava que o Eva aparecesse de novo, muito menos com alguém capaz de pilotá-lo. Porque todos os candidatos anteriores falharam, antes daquele incidente."

Ela se aproximou, a voz baixando. "E tem mais. Eu mesma conferi. Não existem registros oficiais sobre você, Kai. Nenhum. Nenhum documento de nascimento, nenhum histórico. Nada além do que você mesmo nos contou."

Misato se endireitou um pouco, cruzando os braços como se se preparasse para a reação dele. "Eles não foram apagados. Eles nunca existiram."

Uma pausa.

"Pro sistema da NERV... você não existe."

Doía mais do que se fosse o próprio Gendo falando. Aos olhos da NERV, ele não era só desconhecido. Era ninguém.

A voz dela baixou. "Você não tava nos cálculos deles, Kai. E isso assusta eles."

Mais baixo ainda—"E me assusta também."

Ela o observava, vendo aquilo se acomodar dentro dele.

A voz de Kai veio baixa, pesada. "Mas... por que eu? Por que consigo sincronizar com a Unidade-04? E o que era aquele experimento que fizeram com ela? E..."

Ele olhou nos olhos dela.

"Por que parece que você não tá só com medo por mim... mas com medo de mim?"

Misato não desviou o olhar. Os olhos fixos nos dele.

"Porque eu não sei o que você é, Kai."

As palavras atingiram mais forte que qualquer Anjo.

Ela continuou, a voz mais baixa agora. "O Gendo esconde tudo atrás de camadas de sigilo nos registros, mas pelo que consegui juntar, a Segunda Sede da NERV não tava só testando a Unidade-04. Eles planejavam usar ela pra algo além de combate. Algo além do que a gente entende."

Ela respirou fundo. "Estava registrado como `Experimento com Motor Super Solenoide'. Mas o que quer que estivessem tentando instalar, deu errado, e a NERV apagou tudo. Todos os rastros. Todos os registros."

O coração de Kai batia tão alto que parecia ensurdecedor.

Misato se aproximou. "E agora, você é a única pessoa que consegue sincronizar com um Eva que não devia existir. VOCÊ não devia existir. É isso que faz de você uma anomalia."

Um silêncio se formou entre os dois.

Então—mais suave—

"Kai... você já sentiu como se a Unidade-04 estivesse consciente de você? Como se... fosse parte de você?"

Ele a olhou. As palavras dela afundavam, desconfortáveis de um jeito que ele não sabia explicar.

Kai se lembrou do que tinham descoberto no dia anterior. Que os Evas foram feitos a partir de Adão. Que os Anjos também vieram de Adão.

"Espera" murmurou. "Você tá dizendo que acha que eu sou... um deles? Um Anjo?"

Ele ergueu a voz, chocado. "Desde a primeira vez que entrei naquele troço eu fui honesto. Contei tudo o que acontece lá dentro. Ele tenta me alcançar, falar comigo. Diz que eu não tô completo, me dá visões e toda aquela baboseira."

Ele se levantou de repente, a cadeira raspando no chão. Misato se enrijeceu, instintivamente se afastando um pouco, o desconforto visível no rosto.

"E eu contei isso. Contei pra todo mundo. E desde o dia em que cheguei aqui, a NERV só mentiu, escondeu coisas e me testou. Mas eu confiei em você! Convenci a Asuka a contar tudo pra você! E agora você diz que não sabe o `quê' eu sou? Que tem medo de mim?"

As palavras ficaram suspensas entre eles por um segundo—afiadas, irreversíveis.

O rosto de Misato se contraiu, mas ela não respondeu.

Kai não esperou.

Ele saiu furioso.

"Kai... espera!" ela chamou atrás dele, a voz tensa.

Mas a porta já havia se fechado com força.

A cidade lá fora parecia diferente agora—mais fria, mais vazia, como se até as ruas soubessem que algo tinha se quebrado.

Capítulo 109: Um Lugar ao Qual Pertencer / Através do Frio

O ar frio envolvia seus ombros enquanto ele descia os degraus do apartamento, andando rápido—depois, mais rápido ainda. Não sabia para onde estava indo. Só precisava de espaço. De ar. De um lugar para pensar.

As ruas de Tokyo-3 pareciam estranhas agora. O brilho neon embaçava sua visão. Seu fôlego saía em nuvens, mas não era o frio que o fazia tremer.

O que eu sou?

Essa pergunta ecoava mais alto que qualquer alarme.

Ele se lembrava do calor da voz da Asuka, da risada dela, da tensão entre os dois que nunca parecia se desfazer. Lembrava do jeito como conseguiu criar uma ligação com Shinji. Até com a Rei. Misato. Todos da escola. Todo dia ele procurava—esperava por algo. Pertencimento. Conexão.

Será que estava errado? Será que estava prejudicando a todos só por querer existir?

Seus passos diminuíram.

"Kai!"

A voz dela cortou o frio como uma lâmina, aguda e familiar, puxando-o de volta do redemoinho de pensamentos. Ele se virou devagar, surpreso com a interrupção repentina, os olhos se arregalando um pouco ao vê-la ali.

Asuka estava sob um poste de luz oscilante, braços cruzados, a jaqueta vermelha apertada contra o vento. Seu rosto estava ilegível a princípio—então ela deu um passo à frente, entrando na iluminação vacilante.

"AGORA você resolve andar rápido? Tinha que ser."

A confiança na voz ainda estava lá, mas os olhos dela traíam algo mais fundo—preocupação, talvez até alívio.

"Que diabos você tá fazendo aqui fora, Selvinha? Saiu feito um idiota. Achou mesmo que eu não ia atrás de você?"

Kai encarou-a, o coração batendo forte, e falou baixo: "Você não para de me chamar de `Selvinha'... sabe por que eu odeio isso?"

Asuka ergueu a sobrancelha. "Tsc. Vai ficar choramingando agora? Tá bom. Diz aí. Por que isso te irrita tanto?"

O tom era leve, mas ela ouvia.

"Porque faz parecer que... aquele dia nas cachoeiras foi só uma piada pra você."

A expressão dela vacilou. Os braços se apertaram mais ao redor do próprio corpo, e ela desviou o olhar.

"Tsc..." murmurou. Depois, com a voz suavizada: "Você acha que foi uma piada pra mim?"

Ela deu um passo à frente.

"Idiota. Aquele foi o melhor dia que eu tive em... sei lá quanto tempo. Não foi uma piada. Não pra mim."

A voz dela caiu num sussurro. "Não com você."

A voz de Kai tremia. "Eu fico achando que você vai esquecer aquilo. Mas significou muito pra mim. Nós dois lá... completamente livres. Depois disso, tudo desabou. O Anjo, a Unidade-04, o Gendo, agora a Misato... todo mundo dizendo que eu não pertenço aqui. Que sou uma anomalia. Achei que aguentava, mas... não dá mais."

Asuka não respondeu de imediato. Então estendeu a mão e segurou a dele.

Por um segundo, não existia cidade, nem Anjos, nem NERV.

Só ela. Somente ela.

"Escuta, Kai," disse ela, a voz baixa e intensa. "Eu não ligo pro que o Gendo acha. Nem pro que a NERV acha. E muito menos pra essa baboseira de `anomalia'."

Ela se aproximou mais, os olhos azuis fixos nos dele.

"Você pertence aqui, idiota. Comigo… Com o Shinji. Com a Misato. Com a gente."

Chegou ainda mais perto, apertando a mão dele com mais força.

"Então não—não começa com esse papo de que você é um erro. Porque se você for, então eu também sou."

Kai sentia o calor dela na própria pele. Por que não podia simplesmente ficar com ela e esquecer todo o resto?

"Até a Misato disse que tem medo de mim," murmurou. "Talvez eu seja perigoso. Vai ver eu sou mesmo um maldito Anjo! Talvez eu esteja colocando todo mundo em risco... colocando você em risco... só por estar aqui."

A mão dela apertou ainda mais. "Droga, Kai!"

Ela o empurrou levemente, o rosto corado. "Chega! Para com isso! Você age como se fosse uma bomba-relógio ambulante! Como se não tivesse escolha nenhuma nisso!"

Ela balançou a cabeça, os olhos em chamas. "É, talvez você seja perigoso. Mas isso não define quem você é. E com certeza não é o motivo de eu estar aqui agora. Você não me coloca em risco, Kai. Você me salvou. Então não ouse pensar que eu estaria melhor sem você."

As palavras bateram como uma onda.

"Asuka..."

Os olhos de Kai se encheram d'água. Ele piscou rápido, limpando o rosto. "Merda."

Ela percebeu e desviou o olhar. "Tsc. Não—não faz isso. Você é um idiota. Me obrigando a falar esse monte de bobagem..."

Então—mais suave—

"O que eu me importo... é com o que a gente vai fazer agora."

Ela estendeu a mão de novo, dessa vez mais suave. Os dedos só roçaram os dele.

"Então... o que você quer, Kai?"

Ele segurou as mãos dela, olhou nos olhos.

"Droga. Desculpa. Você tá certa. Eu não sou assim. Não queria que me visse assim."

Ele respirou fundo.

"Você realmente tá comigo, né? Não é só diversão ou provocação... você realmente se importa. Como eu me importo."

Olhou nos olhos dela de novo.

"Não precisa dizer mais nada. Eu entendi. E você tem razão. Não me importo se disserem que eu não pertenço aqui. Podem me chamar de cobaia, de experimento, de anomalia, do que quiserem. Eu não vou abrir mão de quem eu sou."

A voz firme. "E eu sei que... se existe algum motivo pra eu ficar aqui... ele tá bem na minha frente. E é só isso que importa."

Asuka o encarou.

Então—apertou as mãos dele.

"Tsc. Demorou, Selvinha."

Sem provocações. Sem armadura.

Só ela.

Ela suspirou. "Bom... agora que você já foi todo dramático... vai voltar, ou vai querer continuar congelando aqui fora, me encarando com cara de bobo apaixonado?"

Ela o cutucou.

Kai riu. "Você tem razão, vamos voltar. Mas... um dia..." Ele fez uma pausa, com um sorriso maroto.

Asuka ficou vermelha.

"O-O QUÊ?!" Ela puxou as mãos de volta e deu um tapa no ombro dele. "CALA A BOCA! Isso NUNCA vai acontecer!"

Saiu andando na frente, braços cruzados. "Idiota... com esse sorrisinho... ugh!"

Mas os dedos dela tocaram o pingente.

Ela ainda usava.

Nunca tinha tirado.

Mesmo enquanto andava na frente, resmungando, Kai percebeu—um leve sorriso no rosto dela.

"Tsc. Vai vir ou não?"

Ela estava esperando.

Kai sorriu e alcançou seu lado. "Vamos voltar."

"Hmph. É bom mesmo," ela murmurou, andando ao lado dele.

A cidade parecia mais calma, mais suave sob os postes. O peso do dia ainda estava lá—mas agora, de algum modo, era suportável.

Asuka olhou pra ele. "Sabe... você é um idiota. Mas... é o MEU idiota."

Desviou o olhar antes que ele pudesse responder.

"Tsc. Tanto faz. Vamos voltar logo antes que a Misato mande um esquadrão atrás da gente."

Enquanto andavam, a mão dela roçou na dele—só por um segundo.

E juntos, seguiram caminho.

Através do frio.

Aquecidos.

Capítulo 110: Fragmentos Estilhaçados / A Anomalia Interior

Ao chegarem ao apartamento da Misato, Kai lançou um olhar para Asuka.

"Ei. Obrigado por me ajudar a recuperar o juízo. E não se preocupa, vou dizer pra eles que você só me deu uma surra pra eu voltar, tá? Assim você continua sendo a lendária Asuka má."

Asuka bufou, jogando o cabelo ao andar à frente. "Tsc. Como se eu fosse deixar pensarem que fiquei mole."

Ela olhou por cima do ombro, com um sorriso de canto. "Mas não esquece—se você voltar a agir feito um desastre patético, eu VOU te dar uma surra. E da próxima vez, sem piedade."

Ela cutucou o ombro dele antes de segurar a maçaneta. Quando abriu a porta, murmurou—baixo demais para que fosse de propósito: "...E de nada."

A porta rangeu ao abrir, e o calor do apartamento se espalhou—a familiaridade de sempre, mas carregada de tensão.

Shinji e Misato levantaram os olhos imediatamente.

Misato cruzou os braços. "Então... tá pronto pra conversar agora, ou preciso me preocupar com você fugindo de novo?"

Kai assentiu. "Sim, podemos conversar agora. Desculpa por antes... foi um momento ruim pra mim, não me orgulho disso. Mas... eu lembrei por que não me importo de ser uma anomalia."

Ele lançou um olhar para Asuka.

Ela desviou o olhar rápido, braços cruzados. "Tsc. Agora não vem bancar o sentimental."

Misato suspirou, a expressão suavizando. "Bom... desde que esteja inteiro de volta."

Ela fez um gesto para a mesa. "Senta. Ainda temos muita coisa pra resolver."

Shinji já estava sentado, quieto, atento.

Misato puxou uma pasta de uma gaveta e jogou sobre a mesa. "Você queria respostas, Kai. Não posso te dar todas. Mas posso dizer o que sei agora. E depois disso... você vai ter que decidir o que fazer."

Kai assentiu. "Manda."

Misato abriu a pasta. Dentro, documentos—arquivos confidenciais, registros de dados, alguns incompletos ou parcialmente censurados.

Ela bateu com o dedo numa das páginas. "Isso confirma o que já suspeitávamos. A Unidade-04 não era apenas um Eva. Era uma plataforma de testes para o Motor S2—um núcleo de energia experimental baseado na biologia dos Anjos."

Os olhos de Shinji se arregalaram. "S2... como o núcleo dos Anjos?"

"Exato," disse Misato. "Eles tentaram integrá-lo na Unidade-04. Foi isso que a Segunda Sede estava testando antes do... incidente."

Ela hesitou. "Mas... não foi uma explosão."

A sala congelou.

Ela virou para outro documento—um escaneamento marcado em vermelho: `Anomalia de Horizonte de Eventos – Localização Beta'.

"A versão oficial diz que a instalação foi perdida num desastre catastrófico. Mas esse relatório diz que o teste não destruiu o Eva. Ele apagou."

Ela olhou diretamente para Kai. "Por exatamente 24 horas, a Unidade-04—e tudo ao redor dela—sumiu."

Os olhos de Asuka se estreitaram. "Sumiu? Que diabos isso quer dizer?"

"Ninguém sabe," disse Misato. "A única coisa que voltou depois dessas 24 horas... foi o Eva."

Pausa.

"E você, dentro dele."

Ela fixou os olhos nele. "É por isso que têm medo de você, Kai. Você não devia estar lá."

Kai recostou na cadeira, tonto. "Eu... eu estava lá? Dentro dele? Mas... isso não faz sentido..."

A mão foi à cabeça enquanto uma dor aguda o atravessava.

"Eu... sou eu. Eu sei. Eu lembro da... minha mãe... Como pode..."

A dor latejava como um alarme. A visão embaçou.

"Ai... minha cabeça... eu tava lá? Como isso é possível..."

Era como alguém arrancando páginas de um livro dentro da mente dele—rápido demais pra ler, doloroso demais pra esquecer.

Então a dor explodiu—aguda, cegante.

"Minha cabeça... tá doendo..." ele arfou. "Lá em casa... meu irmão... não... ele foi embora..."

Então vieram os flashes. Uma criança—chorando. Sozinha.

"A luz... tão forte... para de chorar... por favor para..."

Mais flashes. Rápidos demais. Brilhantes demais. Dentro de um Eva. Nevada. O zumbido de energia. Pânico.

"Não... aqui não... esse zumbido... é alto demais... como... AI—tá doendo!"

Ele desabou.

"Kai!" Misato se ajoelhou ao lado dele, verificando o pulso. Asuka já estava lá, as mãos tremendo. "Droga, não faz isso, idiota!"

A voz dela quebrou no meio do xingamento.

Kai estava inconsciente, o peito subindo e descendo, o rosto contorcido de dor.

"O que diabos tá acontecendo com ele?" murmurou Misato.

Dentro da mente dele, os flashes não paravam. Um menino. Vazio. Desespero. Uma câmara estéril. Um Eva. Gritos. Luz ofuscante.

"Eu preciso..."

As imagens eram fragmentadas—como um quebra-cabeça que alguém jogou no chão.

A mandíbula de Misato se contraiu. "Precisamos levar ele pra ala médica. Agora."

Juntas, o levantaram com cuidado.

A verdade não estava esperando.

Ela estava tentando emergir à força.