Evangelion: Shattered Thresholds
10 Episódio 10: A Anomalia no Plano
Capítulo 79: Fingimento / Sob a Superfície
A luz da manhã vazava preguiçosamente pelas persianas, refletindo na borda do travesseiro de Kai enquanto o celular vibrando o tirava do sono. Gemeu, rolando para o lado e semicerrando os olhos para encarar a tela.
Asuka: "Levanta, novato. Eu não vou fazer essa missão sozinha, entendeu?"
As palavras o despertaram por completo, como um balde de água fria.
Estava tudo em movimento agora. Shinji vinha se aproximando cada vez mais de Rei. Kensuke estava trabalhando na câmera. E Asuka... bem, Asuka era Asuka. Impetuosa, astuta e aparentemente muito disposta a encantar Kaji e arrancar dele o cartão de acesso sem que ele percebesse. Tudo que restava era agir normalmente.
Ele digitou uma resposta:
"Já levantei, já levantei! Bom dia pra você também! Pronta pra ser uma boa menina obediente e ficar na sua? Será que você consegue mesmo?"
A resposta veio segundos depois:
Asuka: "Eu sei me comportar quando quero. Diferente de certas pessoas que roubam carros e saem por aí fazendo o que querem."
Asuka: "Me encontra na escola. E não se atrase."
Ele sorriu. Quase dava pra sentir aquela provocação através da tela. Digitou mais uma mensagem:
"Eu me atrasei uma vez! UMA VEZ!"
E outra:
"E eu não estava sozinho no carro, se bem me lembro. Te vejo lá!"
Levantou-se e entrou no modo automático: ovos mexidos, banho quente, uniforme. Cada movimento era familiar, ancorando-o enquanto os nervos borbulhavam silenciosamente sob a superfície. Hoje era mais um dia pra agir normalmente. Sorrir, acenar e fingir ser um estudante comum. Mesmo enquanto se preparavam para invadir o coração da NERV.
Um último aviso sonoro, justo quando ele amarrava os sapatos:
Asuka: "Se é isso que te faz dormir em paz, Selvinha. 😏 Agora anda logo."
Kai franziu a testa enquanto digitava uma resposta rápida: "Selvinha? Tá de sacanagem. Para com isso."
O celular vibrou instantaneamente, como se ela já esperasse pela irritação dele.
Asuka: "Aww, feri seus sentimentos delicados? 🙄 Supere."
Tokyo-3 ainda despertava quando ele saiu de casa. Uma brisa leve percorria as ruas, bagunçando seus cabelos enquanto a cidade espreguiçava-se do sono. Era quase pacífico. Quase.
Kai chegou aos portões da escola e encontrou o caos de sempre: Toji e Kensuke discutindo perto da escadaria, Hikari soltando reprimendas sem muita convicção, e Asuka encostada na parede, exibindo a mistura familiar de confiança e exasperação.
Assim que o viu, o sorriso dela surgiu. "Demorou, hein, Kai." Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando. "Espero que não tenha queimado os ovos dessa vez."
Ele riu. "Tá doida pra experimentar meus ovos mexidos, não é?"
Ela bufou e revirou os olhos. "Tsc. Nem nos seus sonhos. Só deixo você entrar numa cozinha se for pra me ver cozinhando de verdade."
Com isso, virou-se, já caminhando em direção à entrada da escola. Kai a seguiu.
"Anda logo," ela disse por sobre o ombro. "Temos um longo dia de tédio antes de as coisas ficarem interessantes."
Ele assentiu, a voz baixa ao alcançá-la. "É, mas a Rei deve voltar hoje. Então se controla. Mas também seja você mesma. Ou seja... não se controla. Seja rude. Mas nem tanto. Hm... deu pra entender."
Asuka gemeu. "Você faz parecer muito mais complicado do que é. Vou fazer o de sempre—ser eu mesma." Ela jogou o cabelo com um sorriso. "E se isso fizer a Garota Maravilha confiar na gente, ótimo."
Eles entraram no corredor principal justamente quando Shinji apareceu perto da porta da sala. A postura dele estava tensa, os ombros levemente curvados, a mochila pendendo de um só lado. Kai sorriu.
"E aí, cara. Tudo certo?"
Shinji olhou para cima e esboçou um leve sorriso. "Oi, Kai. Nada demais. Só... um pouco ansioso. Tentando passar o dia."
"Ugh," Asuka disse na hora, revirando os olhos. "Você fala como um velho."
Shinji soltou um suspiro, depois olhou em direção ao corredor. "A Rei já chegou. Ela entrou cedo, como sempre."
Asuka cruzou os braços. "E? Vai lá falar com ela ou não?"
Ele hesitou. O peso da indecisão era praticamente visível no rosto dele.
Kai expirou devagar. O primeiro movimento de verdade estava prestes a começar.
Capítulo 80: Ecos de Confiança / Reflexos Pálidos
A luz da manhã filtrava-se pelas altas janelas da sala de aula da Primeira Escola Municipal de Ensino Fundamental de Tokyo-3, lançando reflexos dourados sobre as carteiras e mochilas ainda bagunçadas do dia anterior. Kai se encostava na lateral de uma carteira, braços cruzados de forma casual, fazendo o melhor para parecer só mais um adolescente começando mais um dia comum de aula.
Mas nada naquele dia era comum.
"Não existe desculpa melhor pra começar uma conversa do que só dizer ‘Bom dia’," disse Kai, cutucando levemente as costas de Shinji.
Shinji suspirou, mas não resistiu ao empurrão gentil. "Tá bom… tá bom, eu vou fazer isso."
Asuka deu um sorriso de lado ao lado de Kai, observando com os braços cruzados como uma treinadora avaliando um jogador no meio da partida. "Tsc. Se ele amarelar, a culpa vai ser sua."
Shinji hesitou por mais um segundo e então caminhou, um pouco rígido, até a carteira de Rei, seus sapatos escolares fazendo pouco ruído sobre o piso.
"Bom dia, Ayanami," disse ele, a voz baixa, mas firme.
Rei, sentada com postura impecável, ergueu os olhos devagar. Seus olhos carmesim encontraram os dele. "...Bom dia, Ikari."
Kai conteve um sorriso. Até ali, tudo bem.
Shinji mudou o peso de um pé para o outro. "Hum... você está se sentindo melhor?"
"Sim," respondeu Rei, sem entonação.
Asuka fez um som baixo de desprezo. "Uau. Que emocionante."
O silêncio que se seguiu parecia uma ligação caída. Shinji ficou ali, pairando, claramente sem saber se devia continuar ou recuar.
Kai olhou para Asuka e murmurou: "É, ele podia usar uma ajudinha. Vamos lá."
Deu um passo à frente, tentando manter o tom leve.
"Oi, Rei! Sentimos sua falta ontem. Você ainda estava na ala médica, né? Foi uma pena ter perdido aula. Quer ajuda com a matéria?"
Rei virou lentamente a cabeça na direção dele, a expressão ilegível.
"Não," disse ela após uma pausa. "Tenho tudo o que preciso."
Kai sorriu, ainda tentando manter a leveza. "Ótimo! Ótimo. Porque, na verdade, eu não tenho anotação nenhuma. Tô meio perdido nessas aulas."
Fez um gesto com o polegar na direção de Shinji. "Mas... se você precisar de ajuda, aposto que o Shinji é o cara certo."
Shinji piscou. "O-o quê? Hum, quer dizer... é, acho que sim." Coçou a nuca, tentando não parecer tão encurralado quanto se sentia.
Rei piscou uma vez. "Você está com dificuldades nas aulas?"
Shinji hesitou e depois balançou a cabeça. "Não, eu—o Kai está. Ele ainda está se adaptando."
Rei olhou para Kai de novo. Seus olhos pareciam atravessar a postura casual, o meio sorriso. "Você não é daqui," disse ela—não como uma pergunta, mas uma constatação. Kai sentiu que o tom dela fazia aquilo soar mais profundo do que realmente era.
Asuka resmungou ao fundo. "Tsc. Afiada como sempre, bonequinha."
Mas Rei não a respondeu. Continuou com os olhos fixos em Kai. Algo indecifrável passou por seu olhar—não era desconfiança, nem calor. Era algo entre os dois.
"É, não sou... daqui," disse Kai, forçando-se a parecer aberto, relaxado. "Sou do outro lado do mundo, na verdade. Um lugar bem diferente... Mais quente, até."
"Entendo," respondeu Rei. O tom não mudou, mas ela também não desviou o olhar.
Shinji permanecia por perto, sem saber se aquilo contava como progresso.
Então Rei perguntou: "Você prefere aqui ou lá?"
Kai piscou.
Vindo dela, não era conversa fiada. Também não era curiosidade no sentido comum. Parecia... algo mais. Como se ela estivesse medindo alguma coisa.
Atrás dele, Asuka ergueu uma sobrancelha, mas permaneceu em silêncio.
Kai olhou pela janela por um instante e depois voltou o olhar para Rei. "Essa... é uma pergunta difícil."
Sentou-se levemente na beirada de uma carteira, os braços apoiados nos joelhos, observando a menor mudança passar por uma garota feita quase inteiramente de quietude. Rei Ayanami não desviou o olhar enquanto considerava as palavras dele.
"Definitivamente aqui," respondeu Kai. "Não tanto pelo lugar, mas porque... eu, ah—eu não..."
Ele hesitou.
"Eu não tenho ninguém lá. E gosto muito das pessoas daqui. É bom ter amigos."
Rei piscou. A expressão permaneceu inalterada, mas de alguma forma, havia algo diferente na maneira como ela o observava. Como se estivesse... ouvindo. Não só escutando—mas ouvindo de verdade.
"Amigos," ela repetiu, suavemente. A palavra soava estranha em sua boca.
Shinji observava de perto, com uma mistura de cautela e esperança, os dedos apertando a alça da mochila. Asuka, ao lado de Kai, inclinara levemente a cabeça, o sorriso sumindo um pouco, como se não soubesse ao certo o que pensar daquele momento.
O olhar de Rei não se desviou. "Isso é... importante pra você?"
A pergunta era tão simples, tão direta—e ainda assim tão desconcertante. Ela não perguntava só por curiosidade—perguntava como alguém tentando entender a resposta por si mesma.
"Mas é claro," disse Kai, endireitando um pouco a postura. "Você não acha também? Ter alguém com quem conversar... que até te enche às vezes, mas em quem dá pra confiar?"
Rei ficou em silêncio por um longo momento. Então: "Eu não sei."
As palavras não eram frias. Nem defensivas. Eram... sinceras. Simples e abertas.
Asuka bufou. "Tsc. Claro que não sabe. Ela só escuta o Comandante Ikari."
Rei não piscou. Não reagiu. Apenas desviou os olhos para Shinji.
"Você pensa o mesmo?"
Shinji congelou por um instante, como se a pergunta o tivesse pego desprevenido. Então olhou para Kai.
Kai sustentou o olhar—também queria ouvir o que Shinji pensava.
Shinji engoliu em seco e respirou fundo. "Sim... eu penso," disse em voz baixa. "Ter pessoas em quem confiar... é importante. Mesmo quando é difícil."
A sala começava lentamente a se encher ao redor deles, mas o espaço entre os quatro permanecia estranhamente imóvel. Algo havia acontecido naquele momento. Algo real.
Rei estudou Shinji por alguns segundos a mais, e embora sua expressão não mudasse, havia um peso silencioso naquele silêncio. Então ela voltou o olhar para Kai.
"Entendo," disse ela. "Você é... diferente."
Ele quase perguntou o que ela queria dizer com aquilo—mas algo o impediu. Ou talvez não quisesse saber.
Asuka cruzou os braços com um suspiro exagerado. "Bom, isso foi divertido. Vamos antes que a gente fique preso em mais uma das reflexões filosóficas da bonequinha."
Rei não reagiu. Apenas pegou o livro de novo, a voz mal audível, mas deliberada.
"Obrigada pela sua consideração."
Vindo de Rei, era praticamente um abraço.
Kai lhe deu um sorriso e apontou para Asuka. "Como eu disse... vive te enchendo." Depois para Shinji. "Mas dá pra confiar."
Os olhos de Rei acompanharam o gesto. Ela olhou para Asuka, depois para Shinji, e por fim de volta para ele.
"Vou pensar sobre isso."
Não era muito. Mas era mais do que ele esperava.
O sinal tocou, agudo e repentino, cortando o clima. A conversa terminou, mas algo dela permaneceu com ele enquanto seguiam para seus lugares.
Rei os escutou. De verdade.
E talvez, quem sabe, ela tenha percebido que não estava sozinha nisso tudo.
Capítulo 81: Falsa Calma / Segundos em Chamas
Os minutos se recusavam a passar. O tempo arrastava os pés por cada segundo da aula, como se o próprio universo tivesse desacelerado só para ver por quanto tempo Kai conseguiria ficar sentado sem enlouquecer.
Ele tentava. De verdade. Olhos no quadro, postura ereta—em um momento, chegou até a pegar um lápis e encará-lo como se a pura força de concentração pudesse invocar compreensão. Mas sua mente não parava. Nem nas equações, nem na voz monótona do professor.
Seus pensamentos vagavam para o plano: a câmera que Kensuke estava construindo, o cartão de acesso roubado que Asuka prometera entregar, o papel de Shinji em manter Rei por perto. No papel, tudo parecia sólido. Mas na hora de executar aquilo dentro da NERV, havia centenas de coisas que podiam dar errado. Centenas de formas de serem pegos.
Lançou um olhar para Kensuke algumas carteiras à frente. Como esperado, o garoto não estava anotando nada—rabiscava algo nas margens do caderno, provavelmente formações de batalha ou táticas que não tinham nada a ver com literatura. Kai sabia que não devia tocar no assunto do dispositivo agora. Amanhã. Foi o que Kensuke prometeu. Mais um dia.
Seus olhos continuaram a vagar.
Asuka estava uma fileira adiante, cotovelo apoiado na carteira, a cabeça descansando na mão. A outra mão tamborilava impacientemente sobre o caderno, mais cheio de rabiscos do que de anotações. Ela suspirava de tempos em tempos—exalações longas e dramáticas, como se estivesse pessoalmente ofendida pela existência da matemática.
Então ela olhou para ele.
Seus olhares se cruzaram.
Por um segundo, ela estreitou os olhos com uma suspeita exagerada, o canto da boca se curvando.
"O quê?" ela articulou silenciosamente, levantando as sobrancelhas.
Kai sorriu, apontando para o professor.
"Presta atenção", ele devolveu com os lábios.
A resposta de Asuka foi imediata.
"Hipócrita", ela articulou com um sorriso, antes de jogar o cabelo com um floreio teatral demais e voltar os olhos, a contragosto, para a frente da sala. Mas ele viu o leve tremor no sorriso dela antes que desviasse o olhar.
Não importava o que tivessem vivido—missões, fracassos, encontros, batalhas mortais—ela ainda era Asuka. E ele não trocaria isso por nada.
Tentou mais uma vez se concentrar, até sublinhou algo no caderno só para parecer que se importava, mas não adiantou. O tique-taque do relógio parecia zombar dele agora.
Seu celular vibrou.
Misato. Que seja um teste de sincronização. Um exercício. Algo assim.
Só… não um Anjo.
Ele não exitou—pegou o aparelho como se tivesse esperado aquela vibração a vida toda. Na tela, uma mensagem de Misato:
"Compareça à NERV depois da aula. Teste de sincronização. Não se atrase."
Kai encarou a mensagem.
Sem piadinhas. Sem carinhas piscando. Sem provocações. Era direto. Seco. Profissional.
Piscou para a tela por mais alguns segundos, o tom da mensagem pairando como um peso no peito. Talvez não fosse nada. Talvez ela só estivesse cansada. Ou focada. Ou... ainda brava.
Ele não falava com ela de verdade desde o incidente do carro.
Tentou afastar o pensamento, mas ele ficou. Misato com raiva era uma coisa. Misato distante... isso era pior.
Do outro lado da sala, Asuka inclinou a cabeça para ele, notando a mudança em sua expressão. Os olhos dela perguntavam em silêncio: "O que foi agora?"
Kai apenas ergueu discretamente o celular.
Ela se inclinou ligeiramente para ler a tela, e então o próprio celular dela vibrou. Conferiu a mensagem e assentiu uma vez antes de guardá-lo no bolso da saia.
Ambos haviam sido convocados.
Ela revirou os olhos e se remexeu na cadeira.
Eventualmente, e graças aos céus, o sinal tocou.
Capítulo 82: Cumplicidade / No Limite da Confiança
O sinal mal tinha terminado de tocar quando Asuka se levantou com um alongamento dramático, os braços erguidos acima da cabeça.
"Tsc. Finalmente," murmurou. Então se virou para Kai, fazendo um gesto com a cabeça em direção à porta. "Vamos, temos lugares para ir."
Shinji levantou os olhos da carteira, piscando. "Hã? Vocês já vão sair?"
Kai hesitou. "A Misato não mandou mensagem pra vocês? Nada de NERV pra vocês hoje?"
Shinji balançou a cabeça. "Não... não recebi nada."
Rei piscou devagar. "Não."
Isso fez um arrepio subir pela espinha de Kai. Testes de sincronização geralmente envolviam todos—especialmente depois de tudo que tinha acontecido. O fato de só ele e Asuka terem sido chamados? Não era apenas estranho. Era intencional.
Os olhos de Asuka saltaram de Shinji para Rei, depois voltaram para Kai. "Tsc. Acho que hoje só querem os bons pilotos."
Shinji não respondeu, mas o cenho se franziu ainda mais.
Rei voltou o olhar para Kai. "Você sabe por que foi selecionado?"
Ele sentiu então—de novo aquele nó de ansiedade. Já tinham descoberto o plano? Não, impossível. Eles mal tinham começado. Só haviam preparado o terreno. E mesmo assim…
Forçou um sorriso casual. "Não faço ideia... mas não é como se tivéssemos escolha. Não quero deixar a Misato ainda mais brava. Quem sabe da próxima vez eu leve vocês dois pras cachoeiras de Kawazu também, assim todo mundo se mete em encrenca junto."
Shinji soltou uma risadinha. "Não, valeu... tô fora dessa de ficar de castigo por um mês."
Rei piscou uma vez. "Não acredito que isso seria permitido."
Asuka deu um leve empurrão com o cotovelo em Kai. "Tsc. Olha só você, já planejando a próxima grande fuga. Você realmente não aprende, né?"
Kai sorriu, mas não respondeu. Pelo menos, não com palavras.
Ao saírem para o corredor, ele olhou discretamente para Shinji e articulou silenciosamente: "Leva ela pra casa! Leva ela pra casa!"
A testa de Shinji se franziu em confusão, depois o entendimento veio. Os olhos dele se voltaram para Rei.
Kai não ficou para ver se ele agiria.
Lá fora, o sol ainda tocava os cantos do céu, lançando sobre Tokyo-3 uma luz dourada e quente. As ruas não estavam cheias. Calmas. Só o bastante de som para lembrar que o mundo ainda girava.
Asuka caminhava um passo à frente, braços cruzados, sapatos ecoando com confiança ensaiada. Depois de alguns instantes, ela lançou um olhar de lado para ele.
"Certo, desembucha," disse. "O que tá pegando?"
Kai murmurou: "Nada demais, de verdade. Mas... você não achou que a Misato foi meio... fria na mensagem? Tô com medo de ela ainda não ter me perdoado completamente."
Asuka bufou. "Ah, é disso que se trata? Sério que você tá preocupado com isso?"
Ela balançou a cabeça. "Por favor. A Misato sempre é assim quando se trata de ordens oficiais. Não é como se fosse te mandar um monte de carinhas sorrindo só porque normalmente age como uma irmã mais velha idiota."
Então, quase imperceptivelmente, o sorriso dela diminuiu—só um pouco. "Mas... se você tá mesmo tão preocupado, fala com ela. Você é bom de papo, usa isso."
Ela olhou para ele de novo, a voz suavizando. "Além do mais, se ela estiver brava, a culpa é mais sua do que minha. Eu só fui uma cúmplice inocente."
Kai arregalou os olhos. "Eu sou a má influência? Ah, não. Você que exigiu o encontro mais inesquecível de todos! Eu só entreguei!"
Asuka riu, empurrando o ombro dele. "Hah! Essa foi boa. Como se eu precisasse de você pra deixar minha vida interessante."
Ela girou nos calcanhares enquanto andava, jogando o cabelo para trás com um gesto exagerado. "E vamos deixar uma coisa clara—eu queria um encontro inesquecível, não uma experiência de fugitiva internacional. Foi você que levou tudo pro próximo nível."
Depois de uma pausa, acrescentou com um sorriso: "Não que eu esteja reclamando."
O barulho da cidade foi desaparecendo atrás deles, e por alguns quarteirões silenciosos, apenas caminharam. Lado a lado. No mesmo ritmo.
"Olha..." Asuka disse por fim, a voz mais baixa agora. "A Misato não é do tipo que guarda rancor pra sempre. Sim, ela ficou puta, e sim, você tá ferrado. Mas se ela realmente te odiasse, não ia só te colocar de castigo—ia transformar sua vida num inferno."
Ela deu de ombros. "Você vai ficar bem. Só não rouba mais nada dela e talvez ela pare de te tratar como um caso perdido."
Então, com um sorriso malicioso: "Sem promessas da minha parte, claro."
Kai sorriu. Dessa vez, um sorriso verdadeiro.
Seja lá o que os esperava na NERV, pelo menos ela estaria ao lado dele.
A rua que levava até a NERV não estava movimentada—só o zumbido do tráfego distante, o canto das cigarras num parque próximo e o ritmo tranquilo de seus passos. Kai caminhava ao lado de Asuka, a luz do fim da tarde projetando sombras longas à medida que o quartel-general surgia ao longe.
Ainda pensando nas palavras dela.
Ela tinha dito que não precisava dele para tornar a vida interessante. Era uma piada. Uma provocação. Do tipo que ela sempre fazia. Mas mesmo assim, doeu um pouco, embora ele não deixasse transparecer.
Mudou de assunto. "Ok, talvez não seja tão ruim só nós dois termos sido chamados. Isso deu ao Shinji mais uma chance de falar com a Rei... e se o Kaji estiver na NERV, a gente pode executar essa parte do plano também."
Asuka imediatamente se animou, esticando os braços atrás da cabeça. "Exatamente. Menos gente significa menos olhos. E se o Kaji estiver lá, é hora da minha parte. Vai ser fácil."
Ela olhou de lado para ele, o sorriso provocador. "A menos que você ainda vá choramingar por causa disso?"
Kai bufou. "Kaji... que tipo de nome é esse, hein?"
Asuka riu pelo nariz. "Como se você pudesse falar alguma coisa, `Kai'. E fala sério—‘Kaji' soa exatamente como o nome de um espião cafajeste e cheio de charme, não acha?"
Ela estava se divertindo demais com aquilo.
"O que foi," ela acrescentou, erguendo a sobrancelha, "ainda com ciúmes? Ou só tentando se convencer de que não tá surtando por eu estar prestes a flertar com o cara?"
Ele estava com ciúmes. Muito. Mas tentou disfarçar. "Só tô preocupado, tá? Eu nem conheço esse cara. E não gosto de tipos ‘cheios de charme’."
Ela não comprou nem por um segundo. "Aham. Só preocupado."
Agora ela o observava, entretida, mas com aquele olhar afiado—como se o estivesse lendo bem demais. "Relaxa, Selvinha. O Kaji é inofensivo. Bem... quase. Ele é só um galinha. Irritante? Com certeza. Perigoso? Só se você for idiota o bastante pra confiar nele."
Ela se inclinou levemente. "E você não gosta de xavequeiros? Engraçado. Vindo de você."
Kai piscou. "Eu não sou xavequeiro. Só falo o que penso. Às vezes funciona, às vezes... não. Mas beleza, já que não tem mais volta, o que mais eu preciso saber sobre ele?"
Asuka bufou. "Tsc. Tá bom, já que você tá tão interessado..."
O tom dela mudou levemente conforme continuava.
"Ryoji Kaji. Trabalha pra NERV... mais ou menos. Não é militar, mas tem acesso a tudo. Vive bisbilhotando onde não deve, sorri como se nada importasse e de alguma forma sempre sabe o que ninguém conta pra gente."
Ela fez uma pausa. "Ele e a Misato já tiveram um lance. Faz tempo. Agora ela finge que odeia ele, mas... pois é."
Kai piscou, pego de surpresa. "Espera, o quê?? Ele e a Misato...? E você conhece ele há tanto tempo?"
"Yep," disse ela, claramente se divertindo com a reação dele. "Desde a Alemanha. Ele apareceu na filial da NERV quando eu treinava com o Eva-02. Me tratava como uma pirralha. Achava que era o maior espertão."
Ela jogou o cabelo com um gesto ensaiado. "Ninguém espera que você goste dele, Kai. Mas a sua cara enquanto eu falo dele? Hilária."
Kai resmungou, "Ótimo." E tentou muito não parecer que se importava.
"Você é péssimo nisso," disse ela, cutucando o braço dele. "Sério, é melhor já sair com uma placa escrita ‘Eu odeio o Kaji e nem sei por quê.’"
Ela sorriu. "Mas olha, se te consola—eu te disse. Ele não é meu tipo."
Houve uma pausa. Um lampejo diferente na expressão dela.
"E eu não preciso gostar dele pra roubar dele. Só preciso ser convincente." O olhar dela se estreitou. "Acha que eu dou conta? Ou tá preocupado demais comigo?"
Kai sustentou o olhar. "Eu com certeza acredito que você consegue. Mas sim, eu tô preocupado. Gosto de pensar que, a essa altura, se você precisasse de ajuda... me pediria."
Ele não desviou. Honesto. Aberto.
Asuka o encarou. E por um segundo, a provocação cessou.
Então ela bufou, jogando o cabelo. "Tsc. Que pergunta idiota. Claro que não preciso de ajuda." Pausa. "...Mas sim. Se precisasse, eu te diria. Não que vá acontecer. Eu dou conta."
Ela o cutucou de novo, a voz mais leve. "Você que tem que se enfiar no Dogma Central, lembra?"
"É, eu sei. Essa é a minha parte. Hoje, eu observo. Tentar descobrir como chegar lá."
O sorriso dela suavizou, só um pouco. "E se você for pego..."
A voz de Kai saiu mais baixa. "Não se preocupa. De verdade. Vocês estavam aqui muito antes de mim. Eu sou o elemento fora do lugar. Eu que levo a culpa, se formos pegos."
Asuka parou de andar por um segundo.
Olhou para ele.
Depois bufou e jogou o cabelo. "Tsc. Você é mesmo um idiota."
Mas algo em sua postura mudou. Um pouco menos de fogo. Um pouco mais de peso.
Ela não disse mais nada por um tempo.
Então o cutucou de novo, a voz carregada de desafio, mas agora aquecida. "Só não seja pego, seu idiota. Você ainda me deve um encontro completo."
E com isso, o fogo voltou.
Capítulo 83: Corrente Subterrânea / Um Lugar Que Não É Nosso
Assim que a entrada da NERV se selou atrás deles, Kai já sentiu a mudança na atmosfera—mais densa, fria, de algum modo mais clínica que o normal. As luzes estéreis acima zumbiam suavemente enquanto ele e Asuka passavam pelo primeiro ponto de segurança, passando os cartões de identificação ao mesmo tempo.
Era isso. Eles estavam dentro.
"Concentra agora, tá?" murmurou Kai enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor principal. "Talvez seja melhor mesmo a gente não falar com o Kaji juntos. Se ele perceber o jeito que você me olha, não vai cair na sua paquera falsa."
Ele nem olhou pra ela ao dizer isso—só lançou a provocação como quem não quer nada e se preparou para o impacto.
"TCH—O QUÊ?!"
A reação de Asuka foi imediata e explosiva. O rosto corou intensamente enquanto ela se virava e empurrava ele com força.
"EU NÃO OLHO PRA VOCÊ DE JEITO ESPECIAL NENHUM, SEU IDIOTA ILUDIDO!"
Ela marchou alguns passos à frente, braços cruzados, resmungando de indignação. "Ugh! Você é que queria que eu olhasse assim. Eu sou profissional, Kai. Posso enganar o Kaji fácil—diferente de você, que não consegue esconder o ciúme nem por cinco segundos."
Kai riu, saboreando cada segundo. "Então vamos nessa, esquentadinha."
Agora, o jogo de verdade começava.
Kai parou diante de uma bifurcação no corredor. "Ok, temos dois objetivos: Um—observar a segurança perto dos elevadores, descobrir exatamente como vou chegar ao Dogma Central. Dois—você faz sua mágica com o Kaji, e a gente se encontra aqui. Tem que ser rápido. A Misato tá esperando a gente."
Asuka alongou os braços, estalando o pescoço enquanto caminhava ao lado dele. "Beleza, hora de separar. Você faz sua parte, eu faço a minha."
Eles se separaram na próxima curva, conforme o plano. Ela lançou um último olhar por cima do ombro, o sorriso provocador de sempre no rosto. "Não sente muita falta de mim, Selvinha."
E sumiu pelo corredor.
Kai ficou ali por mais um segundo antes de virar na direção oposta, o coração acelerado. Era agora. Hora de entender o caminho até o Dogma Central.
Caminhou com calma, mas com propósito, fazendo o possível para parecer que pertencia àquele lugar—como se tivesse sido enviado ali em alguma missão urgente e oficial. Mas a verdade mordia por dentro: ele nunca tinha ido tão fundo na NERV.
Os corredores eram mais frios. Mais estreitos. O eco era diferente.
A segurança aumentava a cada passo. Guardas armados, pontos de checagem mais rigorosos, olhares silenciosos que demoravam um pouco demais. Mas ninguém o parou—pelo menos, não ainda.
E então ele viu.
O elevador.
Diferente dos outros. Mais robusto. Lacrado por portas deslizantes reforçadas. Um painel lateral piscava continuamente—um leitor de cartão acompanhado de uma tela azul brilhante.
Kai parou na esquina de um corredor perpendicular e se encostou casualmente na parede, fingindo checar o celular. Mas seus olhos não saíam do elevador.
Alguns segundos se passaram.
Então—alguém se aproximou.
Um homem mais velho, alto e rígido em seu uniforme escuro, caminhava com propósito inabalável. O cabelo prateado, cuidadosamente penteado para trás; a expressão, impenetrável—como se fosse esculpido em pedra. Não parecia exatamente um soldado. Mais como um professor que, por algum motivo, acabou no comando. Cada passo era calculado, exato. Não hesitante—mas treinado. Controlado. Kai não sabia dizer o porquê, mas o ar ao redor dele parecia mais pesado. Como se o prédio inteiro abrisse caminho para ele.
Kai nunca fora apresentado oficialmente, mas sabia quem era. Fuyutsuki. O braço direito de Gendo.
Ele passou o cartão. Pressionou a mão contra a tela azul. Uma pausa.
O elevador aceitou os dois comandos e se abriu com um sibilo mecânico. A respiração de Kai travou quando o sistema anunciou:
"Correspondência biométrica confirmada. Autorização nível comandante verificada."
Correspondência biométrica? Nível comandante?
O estômago de Kai se revirou. O painel exigia cartão de acesso e escaneamento de mão. Isso significava que o cartão do Kaji não seria suficiente. Mesmo que passassem pelos guardas, mesmo que tivessem a câmera, mesmo que o tempo fosse perfeito—não adiantaria. Sem os dados biométricos do nível de um comandante, o elevador para o Dogma Central era uma muralha intransponível.
Ele murmurou entre dentes: "Merda. Merda. MERDA."
Recuou devagar, a mente girando.
O cartão do Kaji talvez os levasse por alguns níveis, sim—mas isso era diferente. Não era só uma porta trancada. Era o coração da NERV.
O domínio de Gendo.
Os pensamentos corriam. Eles conseguiriam falsificar uma impressão digital? Forjar o acesso de alguma forma? Um escaneamento falso talvez? Mas onde arrumar tecnologia assim? Seria possível?
Perguntas demais. Tempo de menos.
Virou de volta, andando mais rápido agora—os olhos procurando por Asuka. Já estavam atrasados para encontrar Misato. Se não aparecessem logo, as desculpas iam acabar.
Encontrou-a perto de um corredor de manutenção, voltando de sua própria missão. Ela o viu primeiro.
A expressão dela era vitoriosa—orgulho claro nos passos ao erguer um pequeno retângulo entre os dedos.
"Tsc. Eu disse que ia conseguir."
Mas então ela parou. Viu o rosto dele.
"Ah não. Esse é o seu olhar de ‘más notícias’. O que foi?"
Kai olhou para o cartão de acesso na mão dela.
Depois, para os olhos dela.
Os pensamentos giravam como uma turbina. O elevador era um beco sem saída. Acesso nível comandante. Escaneamento biométrico. Mesmo que o cartão do Kaji fosse folheado a ouro e talhado por anjos, não adiantaria nada sem aquela mão.
Ele não queria dizer.
Mas Asuka merecia saber.
"Biometria do comandante. Aquele elevador nem abre sem isso."
A vitória no rosto dela sumiu. O cartão, de repente, parecia mais leve.
Os corredores da NERV se estendiam infinitamente para os dois lados—estéreis, vibrando, indiferentes ao fato de que tudo estava desmoronando.
"É," disse ele. "Temos um problema. O elevador não funciona. Precisamos de acesso nível Gendo. E ainda por cima, tem escaneamento de mão. Sem a impressão dele? Sem chance."
Os olhos de Asuka se arregalaram. O punho se fechou ao redor do cartão como se ela quisesse arremessá-lo contra a parede.
"O quê?!" ela disparou, a voz cortante de incredulidade. "Tá me dizendo que eu passei por tudo aquilo—e a gente nem pode usar essa porcaria?!"
Ela esfregou as têmporas, a frustração fervendo na voz. "Nível comandante? Isso significa... Gendo. Ótimo. Vamos pedir com jeitinho pra ele as digitais. Vai ser super tranquilo."
Kai não respondeu. Já pensava. Recalculando rotas, acessos alternativos, contingências.
Asuka soltou o ar e se endireitou. "Beleza. Elevador tá fora. Mas tem que ter outro jeito. Um duto de manutenção. Uma escada restrita. Qualquer coisa."
Ela o encarou, o olhar endurecido. "A gente não vai desistir. Vamos achar outra forma."
Ele piscou, depois assentiu. "É. Tem que ter outro jeito. Ou, pelo menos, precisamos descobrir até onde o cartão do Kaji leva sem biometria."
Começou a andar, falando consigo mesmo. "Certo. Novo plano. Depois do teste de sincronização, a gente começa a explorar e mapear o layout. Amanhã a câmera já vai estar com a gente, então eu preciso saber exatamente onde colocá-la. Mesmo que o cartão não nos leve até o Dogma Central, se nos deixar perto, já ajuda."
Asuka batucava o cartão contra a mão, a expressão se tornando foco puro. "Certo. Depois do teste, a gente explora. Se pegarem a gente, fazemos cara de sonsos."
"É, mas pode ser perigoso," admitiu ele. "Entendo se você não quiser ir comigo."
Asuka parou no meio do passo e virou pra ele, expressão seca. "Tsc. Tá falando sério?"
Cruzou os braços. "Acha que vou deixar você fuçar a NERV sozinho? Por favor. Ia ser pego em cinco minutos. No máximo."
Deu um passo mais perto. "Essa é a nossa missão. Acha mesmo que vou deixar você ficar com todo o risco?"
Não havia hesitação na voz dela.
Ela então olhou o relógio.
"Merda."
Estavam atrasados.
"Ugh. Ótimo. Vamos logo antes que a Misato resolva matar a gente de verdade."
Ela agarrou o pulso dele e começou a puxá-lo. Eles correram—em disparada—com os passos ecoando pelos corredores enquanto cortavam os níveis da NERV como se pertencessem ali.
Apesar do coração martelando no peito, Kai sorriu.
"E como foi com o Kaji?" perguntou entre ofegos. "Tem certeza de que ele não suspeitou de nada?"
Asuka bufou. "Por favor. Queria ele."
Ela abriu um largo sorriso, ofegante. "Tava ocupado demais achando que era charmoso pra perceber qualquer coisa. Um pouco de flerte falso, papo chato, e pronto—deixou o cartão largado como um idiota."
Ela jogou o cabelo como uma predadora vitoriosa. "Sinceramente? Foi fácil demais."
Ela lançou um olhar de lado, o sorriso se ampliando. "Com ciúmes já?"
Antes que ele pudesse responder, as portas deslizantes da câmara de testes surgiram à frente—e se abriram.
Eles entraram.
Ofegantes.
Atrasados.
E diante do olhar de Misato.
Capítulo 84: Ponto de Contato / O Eu Inacabado
Misato estava de braços cruzados, um pé batendo no chão, a expressão mascarando uma reprovação fervente. No segundo em que pousou os olhos sobre eles, Kai sentiu a temperatura do ambiente cair vários graus.
"Vocês dois têm exatamente três segundos pra explicar por que estão atrasados antes que eu comece a adicionar mais meses à punição."
Kai hesitou, olhando de Misato para Asuka, depois de volta. O cérebro corria por todas as desculpas possíveis.
Ele se jogou.
"Desculpa, a gente... se... distraiu."
Asuka piscou. O leve tremor no olho dela prometia dor. "É, nos distraímos," disse, forçando a voz num tom quase casual. "Mas a gente tá aqui agora, então sem problema, né?"
O sorriso de Misato era do tipo que antecedia o lançamento de mísseis.
"Sem problema?" repetiu com calma. "Vocês já estão na corda bamba depois da pequena aventura de vocês, e agora chegam atrasados pra um teste de sincronização?"
Ela deu um passo à frente, os olhos se fixando em Kai. "Distraídos com o quê, exatamente?"
E de repente, a verdadeira pergunta atingiu ele—o que seria menos pior para Misato? Que eles estavam fuçando os corredores restritos da NERV... ou que eram só dois adolescentes com hormônios demais?
Não teve dúvida.
Kai suspirou, lançou um olhar para Asuka e depois de volta para Misato, a voz caindo um pouco.
"...nos distraímos... um com o outro."
Silêncio.
Asuka ficou rígida. O rosto explodiu em vermelho, os olhos arregalados como se ele tivesse acabado de jogá-la num vulcão diante de uma plateia.
"QUÊ—?! VOCÊ—!!"
Antes que ela pudesse matá-lo, Misato gemeu e esfregou a testa.
"Ai meu Deus. Claro."
Ela abanou a mão como quem espanta um mosquito. "Tudo bem. Não quero detalhes. Vistam logo os plugsuits antes que eu me arrependa da minha existência."
Asuka ficou paralisada, vibrando de raiva. Kai sorriu de lado, casual.
Por dentro, ele ria tanto que mal conseguia respirar.
Funcionou.
Enquanto caminhavam para os vestiários, Asuka marchava ao lado dele, a voz baixa e mortal. "Você tá tão morto depois desse teste."
O plugsuit se ajustava firme e frio contra a pele enquanto ele fechava o último encaixe. O peso familiar do plug de entrada, o cheiro estéril da câmara de testes, o zumbido monótono dos sistemas do Eva iniciando—essas coisas o ancoravam. Ajudavam a esquecer, por um momento, como tudo havia ficado complicado.
Lançou um olhar para Asuka através do vidro reforçado. Ela já estava com o traje, olhos semicerrados, mandíbula tensa. Ainda irritada, ainda fervendo—mas focada.
Ele também.
Tinha que estar.
Eles não sabiam por que só os dois haviam sido convocados. E isso, mais do que tudo, o deixava inquieto.
Se era só um teste de sincronização de rotina, por que excluir Shinji e Rei?
Ao entrarem nas plataformas de lançamento, a porta se fechou atrás deles. Misato não disse mais uma palavra. Apenas deu o sinal.
"Plugs de entrada travados. Iniciando pressurização do LCL."
O fluido alaranjado o envolveu, invadindo os pulmões com aquele gosto horrível. O pânico familiar bateu por um segundo—e passou.
"Teste de sincronização começando em cinco..."
Ele afundou mais no assento.
"...quatro..."
Tudo se estreitou.
"...três..."
A voz de Asuka estalou no fone, mas ela não disse nada.
"...dois..."
Ele apertou os controles.
"...um."
E então, silêncio.
O elo surgiu.
A respiração travou ao conectar com a Unidade-04.
Sempre era diferente do que os outros descreviam. Para eles, era como mergulhar em água. Para ele, era outra coisa—como encarar uma tempestade... e ser encarado de volta.
A Unidade-04 não o aceitava com suavidade. Ela o reivindicava.
Sentia agora—crua, vasta, fria.
A sincronização estabilizou.
Em algum lugar da câmara de testes, dados rolavam na tela de Ritsuko. Misato permanecia atrás dela, braços cruzados. Observando. Avaliando.
Kai expirou devagar, olhos fixos à frente.
Para ele, os números não significavam nada. O que importava era o que viria depois.
Depois do teste, ele e Asuka teriam minutos—talvez menos—para desaparecer sem serem notados.
E então... começariam a busca.
Por outra porta. Por outro caminho. Pelos segredos que a NERV enterrava. O que quer que fosse, estavam perto.
Ele podia sentir.
Enquanto o teste seguia, os pensamentos de Kai oscilavam entre a pressão familiar da Unidade-04 e tudo o que estava por vir—o plano, o dispositivo de vigilância, os corredores trancados do Dogma Central. Pensou brevemente em Shinji e Rei. Talvez, enquanto ele e Asuka lidavam com segredos aqui embaixo, Shinji estivesse se aproximando dela. Talvez eles também tivessem respostas em breve.
Olhou para o monitor lateral—os dados do plug de Asuka brilhando firmes e estáveis, a sincronização já estabilizada. Focada.
Então algo mudou.
Uma pressão estranha empurrou contra sua mente.
Não era fria nem hostil. Era... familiar. Curiosa. Próxima.
A visão oscilou.
Escuridão.
Uma forma vasta movendo-se nas profundezas do vazio—oculta, imensa. Uma presença. Não física, mas presente. Observando.
Sussurros.
Sem palavras.
Apenas uma sensação.
Reconhecimento.
De novo não.
E então, desapareceu.
As leituras de sincronização voltaram ao normal como se nada tivesse acontecido.
"Kai?" A voz de Misato estalou nos fones, carregada de preocupação. "Suas leituras dispararam por um segundo. Está tudo bem aí?"
Asuka entrou na frequência, afiada. "Tsc. Não me diga que já tá vacilando, Selvinha."
Ele considerou esconder. Disfarçar. Mas isso não ajudaria ninguém—e o que menos queria era colocar os outros em risco por guardar segredos.
"Eu senti... aquela presença de novo," disse devagar. "Como se a Unidade-04 estivesse tentando... me alcançar."
Silêncio.
Então a voz de Misato—mais aguda agora. "Repete isso."
O tom de Ritsuko veio logo depois—frio e clínico. "Descreva exatamente o que sentiu. Foi como da última vez?"
Kai balançou a cabeça. "Não foi um ataque. Foi... familiar. Como se tivesse me reconhecido."
Asuka bufou de novo, embora a voz agora estivesse mais baixa. "Evas não fazem isso. Eles não simplesmente falam com a gente."
Mas ele podia sentir a dúvida por trás da bravata.
A voz de Ritsuko voltou, tensa. "Kai, tente restabelecer o contato. Se o Eva está iniciando, isso pode ser um dado crítico."
Misato interrompeu. "Espera. A gente não sabe o que é isso. Não vamos jogar ele às cegas."
E de repente, a conversa não era mais sobre ele. Era ao redor dele, acima, através.
"Kai!" Asuka berrou. "Não fica aí parado. Se tem algo mexendo com a sua cabeça, fala logo!"
Ele olhou para ela pelo monitor. Os olhos dela encontraram os dele.
Lembrou da promessa que ela fez.
Se algo desse errado, ela não deixaria que ele machucasse ninguém.
Talvez... ele pudesse fazer o que Ritsuko pedia e nada ruim aconteceria.
Inspirou fundo, fechou os olhos, e começou a tentar alcançar de volta.
Nada a princípio.
Depois, um deslocamento.
Pressão.
A superfície de algo vasto tocando a borda de sua mente.
Avançou mais.
Escuridão.
Uma forma movendo-se sob a superfície.
Então—palavras.
Distorcidas. Distantes. Mas inconfundíveis.
"...você... não está... completo."
A visão dele se estilhaçou. O corpo convulsionou.
Um clarão carmesim.
Uma cidade arruinada. Prédios desmoronados, retorcidos em nada. O céu acima ardendo em vermelho como sangue. E uma sombra—alta, divina, impossível de definir, pairando à distância.
Então—
Nada.
Ele arfou ao voltar para o corpo, a respiração descompassada, as mãos tremendo.
"Kai?! Que diabos foi isso?" A voz de Misato, afiada de alarme.
"Seus dados oscilaram drasticamente—explique o que houve!" Ritsuko.
"Droga, Kai, responde!" Asuka—furiosa, e talvez com medo.
Ele piscou várias vezes, tentando estabilizar a respiração.
"Tô... tô bem. Tô aqui."
Silêncio. Então um longo suspiro de Misato.
"Não assusta a gente assim."
Ritsuko retomou. "O que você viu? Seja específico."
Kai forçou as palavras. "Uma espécie de visão... Uma cidade arruinada. Tudo destruído. Céu vermelho como sangue. Algo... imenso à distância."
Houve uma pausa.
Ritsuko sussurrou, quase inaudível nos fones: "Impossível..."
A voz de Misato estava tensa. "E a voz? Você reagiu como se tivesse escutado algo."
Kai engoliu seco. "Ela disse... ‘Você não está completo.’"
Foi então que aconteceu.
Uma nova voz rompeu a estática do canal de comunicação. Calma. Rígida. Absoluta.
"Desliguem a sincronização dele imediatamente."
Fuyutsuki.
Então tudo aconteceu ao mesmo tempo.
A taxa de sincronização caiu a zero.
O plug de entrada se soltou.
O LCL drenou rapidamente, saindo ao redor dele enquanto a gravidade voltava com uma onda nauseante. A escotilha se abriu com um silvo, luz branca invadindo o interior.
Ouviu Asuka gritar pela linha ainda ativa: "EI! Que porra é essa?! O que tá acontecendo?!"
Então até a voz dela foi cortada.
Técnicos se aproximaram do lado de fora do plug, cercando-o. Mas as expressões deles não eram só de preocupação—eram controladas. Nervosas.
Isso não era protocolo.
Essa não foi uma decisão de Misato.
Fuyutsuki havia dado a ordem.
O que significava—
Gendo Ikari estava assistindo.
Chapter 85: Ponto de Observação / O Padrão Não Dito
O plug de entrada se abriu com um suspiro mecânico, o LCL escoando enquanto a luz ofuscante inundava a câmara. Kai apertou os olhos contra ela, o retorno súbito ao mundo físico o abalando. Ainda tremia—incerto do que acabara de ver. Do que sentira. As palavras ecoavam em sua mente.
Você não está completo.
Dois técnicos se aproximaram sem demora, com expressões fechadas, indecifráveis. Um deles alcançou os clipes neurais em suas têmporas, removendo-os com agilidade treinada. O outro lhe entregou uma toalha.
"Você precisa vir conosco, Quarta Criança," disse um. O tom não era cruel, mas também não estava pedindo.
Antes que Kai pudesse responder, a voz de Misato cortou os comunicadores, pura fúria.
"Ei, como assim?! Alguém me explica o que está acontecendo agora!"
Ela assumia o modo comandante, protetora e desafiadora. Kai sentiu um lampejo de calor—de segurança.
Mas então surgiu outra voz, e a sala pareceu congelar.
"Isso não será necessário, Major Katsuragi."
Gendo Ikari.
O peso de suas palavras pousou nos ombros de Kai como chumbo. Os técnicos ficaram tensos. A voz de Misato tornou-se cortante de incredulidade.
"Comandante, que diabos é isso?!"
Sem resposta.
"Escoltem a Quarta Criança até meu escritório. Imediatamente."
A respiração de Kai parou.
Gendo queria vê-lo. Diretamente.
Do outro plug de entrada, a voz de Asuka irrompeu como uma maré.
"ESPERA—O quê?! O que ele quer com o Kai?!"
Ainda sem resposta.
Os técnicos aguardavam imóvel, esperando que Kai se movesse. Seu coração martelava no peito. Ele olhou para o monitor ainda piscando num canto—a expressão de Asuka, feroz e incandescente. Depois para Misato, tensa e olhando fora de tela. E finalmente para os técnicos ao seu lado, calmos, porém alertas.
Ele exalou, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
"Tudo bem, eu vou. Estamos todos no mesmo time aqui, certo?"
Lançou um último olhar para Asuka. Uma mensagem silenciosa: Fica calma.
Sua expressão se contorceu de frustração. "Tsc. Isso é uma palhaçada." Mas então captou o olhar dele e hesitou, o fogo em seus olhos esfriando em algo mais vulnerável. "Só… não faz nenhuma besteira."
Misato se colocou à frente dele, bloqueando os técnicos com o corpo.
"Comandante, o senhor não pode simplesmente chamá-lo sem explicação! Se isso é por causa do teste de sincronização, então eu—"
A voz de Gendo a cortou como uma guilhotina.
"Isto não é um pedido, Major. A Quarta Criança se apresentará. Agora."
Misato cerrou os punhos. Mas não discutiu mais. Em vez disso, voltou seu olhar para Kai, mais suave agora.
"Se cuida, garoto."
Ele assentiu uma vez.
Então a caminhada começou.
Os corredores da NERV se estendiam diante dele, longos e frios. As luzes estéreis zumbiam acima, brilhantes demais, artificiais demais. O silêncio do trajeto era pesado—não apenas pelo destino, mas por quem o esperava.
Ele nunca havia se encontrado com Gendo Ikari frente a frente. Não de verdade. Não assim.
As portas se abriram com um leve suspiro.
O escritório era pouco iluminado, banhado por um brilho âmbar. Sombras agarravam-se às altas paredes. Diagramas circulares estranhos no teto e no chão. Na extremidade da sala, atrás de uma mesa imponente, estava Gendo Ikari—com os dedos entrelaçados diante do rosto, os óculos refletindo a luz alaranjada.
Não se moveu.
Não falou.
Apenas observou.
Apenas o encarava.
Então, finalmente—sua voz rompeu o silêncio.
"Sente-se, Quarta Criança."
Kai hesitou no limiar da porta. Todo instinto gritava para que fugisse. Ou, ao menos, para fazer qualquer coisa que quebrasse a tensão que preenchia a sala.
Mas se obrigou a avançar.
"Sim, senhor. Prazer em conhecê-lo, senhor. Belo… escritório, senhor."
Belo escritório?? Mas que droga foi essa?
Sem resposta.
Um silêncio se estendeu—longo, cirúrgico, como se o dissecasse.
Então a voz de Gendo cortou a quietude.
"Você é diferente."
As mesmas palavras que Rei usou mais cedo. Sua voz era fria, medida. Não desperdiçava tempo com gentilezas ou formalidades. Estava estudando Kai.
"Sua sincronização está acima do esperado. Sua conexão com a Unidade-04 é… incomum."
Kai permaneceu em silêncio, sem saber se podia falar.
"Diga-me, Quarta Criança—"
Os dedos enluvados de Gendo bateram uma vez, lentamente, sobre a mesa.
"—O que você viu?"
Kai o encarou, tentando não vacilar sob o peso daquele olhar. A memória voltou com força—céus vermelhos, torres em ruínas, o sussurro dentro do crânio. Já contara tudo a Misato. E agora ele perguntava. Parecia uma armadilha.
Mas não havia espaço para evasivas. Não aqui.
Kai respirou fundo.
E começou a falar.
Manteve o tom neutro, casual—cuidadosamente vago. "Quer dizer, agora há pouco, durante a sincronização? Muito vermelho. Em todo lugar." Inclinou a cabeça, fingindo leve curiosidade. "O senhor... sabe o que foi aquilo?"
Um lampejo. Quase imperceptível. Mas Gendo parou de bater na mesa.
"Vermelho," ele repetiu, voz plana.
O silêncio que se seguiu foi longo. Pesado.
Kai podia sentir—Gendo o dissecava. Pesava as palavras. Procurava um padrão. Mas ele não ia facilitar.
"Você foi escolhido por ser compatível com a Unidade-04," disse Gendo. "Mas isso não explica as anomalias."
A palavra anomalias fez um arrepio subir pela espinha de Kai. Ainda assim, manteve a expressão calma.
"Diga-me, Quarta Criança—por que acha que os Anjos estão mirando em você?"
Os instintos de Kai gritavam que Gendo já tinha sua própria resposta. Aquilo era um teste. Uma armadilha cuidadosamente montada.
Pisou com cautela. "Eu não sei," disse com sinceridade. "Ouvi dizer que a Unidade-04 veio de uma filial da NERV que desapareceu. Mas como ela está aqui agora? Talvez isso tenha algo a ver."
Outra pausa. Gendo não cedia. Apenas uma palavra: "Talvez."
Não estava negando. Mas também não confirmava nada.
Gendo se recostou levemente, o rosto meio oculto pelo reflexo dos óculos. "A Unidade-04 fazia parte de um experimento," disse, voz distante. "A filial de Nevada foi perdida devido a uma flutuação de energia. A causa permanece desconhecida."
Uma pausa.
"E ainda assim, o Evangelion sobreviveu."
Deixou as palavras pairarem, como uma pedra lançada em água parada.
"Você acredita que isso foi coincidência, Quarta Criança?"
Kai o encarou. O silêncio entre os dois esticava-se como uma corda.
"Qual foi... o experimento?" perguntou finalmente, cauteloso.
Gendo não respondeu de imediato. Então—
"Confidencial."
Claro.
Ainda assim, essa única palavra revelava mais do que escondia. Houve um experimento. Não foi apenas um acidente.
"A Unidade-04 foi projetada com modificações," continuou Gendo. "Aprimoramentos além de seus predecessores. Mas os resultados foram… imprevisíveis."
Seus dedos se entrelaçaram novamente, a voz quase cirúrgica.
"Você foi escolhido porque sobreviveu ao processo de sincronização. Outros não."
O ar pareceu mais frio agora.
"Você é uma anomalia, Quarta Criança."
E então—pela primeira vez—Gendo o encarou diretamente. Através dos óculos. Através dos papéis. Diretamente dentro dele.
"E anomalias precisam ser compreendidas."
Kai sentiu o pulso acelerar—mas não era só medo. Não completamente.
Porque, apesar de tudo, o tom de Gendo havia mudado. Sutilmente.
Ele estava procurando.
O que significava que ele também não sabia tudo.
Kai sorriu de lado, com um toque de ironia na voz. "Obrigado, senhor. Isso me faz sentir... bem especial."
Por um momento, Gendo não reagiu.
Então—quase imperceptível—ele esboçou um sorriso.
"Deveria."
Não era aprovação. Nem consolo.
Mas era um reconhecimento.
E isso já era mais do que a maioria recebia de Gendo Ikari.
Então o sorriso sumiu.
O tom voltou ao neutro.
"É só."
E assim, a conversa terminou.
As portas atrás de Kai se abriram. Os mesmos técnicos o aguardavam.
"Retorne à Major Katsuragi," disse Gendo, já desviando o olhar. "Você será monitorado quanto a novas anomalias."
Dispensado.
Mas não descartado.
Enquanto Kai se virava e saía, sentia algo diferente. Não alívio, mas algo como satisfação.
Ele não havia desvendado Gendo Ikari.
Mas, mais importante: Gendo Ikari também não o compreendia totalmente.
Enquanto caminhava pelos corredores gelados da NERV, as luzes piscando projetando sombras longas, seus pensamentos fervilhavam.
Ele não me entende.
Talvez ninguém entendesse. Não completamente. Mas isso significava que ele era uma variável. Um coringa. Um risco.
E no mundo de controle absoluto de Gendo, isso importava.
Kai olhou adiante enquanto as portas se abriam para o piso de comando.
Talvez não fosse mesmo para estar aqui.
Capítulo 86: Ruptura / Fora do Script
As portas se abriram com um chiado — e lá estava ela.
Asuka estava parada no corredor, braços cruzados, maxilar tenso. Seu plugsuit vermelho colava-se ao corpo, mas seus olhos ardiam mais do que qualquer batalha que Kai já tivesse visto. Atrás dela, Misato parecia uma tempestade prestes a explodir.
"E então?" disse Misato, ríspida. "Sobre o que foi isso, afinal?"
O olhar de Asuka se estreitou. "É. Vai falando, Selvinha."
Kai levantou as mãos em rendição fingida, lançando um sorriso torto enquanto olhava de uma para a outra. "Uau, as duas contra mim? Eu não fiz nada de errado, tá bom? Tá tudo bem."
Asuka bufou, dando um passo à frente. "Tsc. Ah, claro. Você é arrastado pra caverna do Comandante Ikari logo depois que sua sincronização enlouquece, e a gente tem que acreditar que ‘tá tudo bem’?!"
Misato não disse nada. Só o encarava, braços cruzados, olhos apertados, tentando enxergar através das rachaduras no seu semblante.
"Kai," ela disse baixinho. "Você não precisa me contar tudo… mas não mente pra mim."
Ela deu um passo à frente, a voz firme. "O que ele queria?"
"Eu tô tão perdido quanto vocês, Misato. Ou mais. Ele só perguntou sobre o que vi durante a sincronização. Mas eu já tinha contado pra vocês, então sei lá… talvez achou que eu tava mentindo ou escondendo alguma coisa?" Ele deu de ombros. "Só sinto que ninguém realmente sabe por que eu tô aqui."
Asuka observava em silêncio atrás dele. Misato soltou um suspiro cansado, passando a mão pela nuca.
"Ninguém faz ideia, huh?" murmurou.
Então seu tom mudou, mais suave. "Mas escuta, Kai—seja lá o que for, o que eles tão escondendo da gente, não deixa eles te puxarem pra dentro demais. Gendo Ikari não chama alguém pra conversar à toa."
Ela se aproximou um pouco mais, agora num tom ainda mais baixo. "E se alguma coisa acontecer—qualquer coisa—vem falar comigo primeiro. Entendido?"
Ele assentiu.
Atrás dele, Asuka revirou os olhos. "Tsc. Tá, tá, chega de drama. Já acabou, né?"
Misato lançou um último olhar de advertência para Kai. "Por enquanto. Mas não pense que eu vou deixar isso de lado."
Com isso, virou-se e se afastou, os saltos ecoando no corredor.
Asuka esperou só um segundo antes de girar para ele.
Havia urgência em sua voz. Não raiva. Preocupação.
"Você tá agindo como se isso não fosse nada, mas se o Comandante tá prestando atenção em você…" Ela se inclinou. "Isso significa que o tempo tá acabando, Kai."
Ele pousou uma mão em seu ombro, baixando a voz. "Asuka. Não se preocupa. O plano ainda tá de pé."
"Fala. Agora."
Então ele contou tudo.
Cada palavra que Gendo havia disparado naquela sala sufocante.
Asuka não interrompeu.
Não fez piada.
Só escutou.
Quando ele terminou, ela esfregou as têmporas, a voz afiada de incredulidade. "‘Uma anomalia’? O que diabos isso quer dizer?!"
Ela começou a andar em círculos apertados.
"Então quer dizer que—ele nem sabe o que tem de errado com você? Tá só chutando?!"
Então ela congelou.
"Você disse que ele falou da filial de Nevada. Do experimento."
Os olhos dela travaram nos dele, arregalados de percepção súbita.
"Você não acha que—" Ela se interrompeu. "Merda."
Ela nem precisou terminar o pensamento. Se Gendo não entendia por que Kai havia sincronizado com a Unidade-04… Se a NERV não tinha previsto sua presença…
Então ele não era só incomum.
Era imprevisto.
Um erro.
E erros não duram no mundo de Gendo Ikari.
"A gente precisa agir mais rápido, Kai," ela disse por fim, a voz firme.
Ele assentiu lentamente, sentindo o peso daquela verdade no peito. "Você tem razão. Se eu não devia estar aqui… e se tô atrapalhando o plano dele… posso estar em perigo."
Ele a encarou. "Temos que agir agora."
"Isso mesmo," murmurou Asuka. "E se você tá em perigo, então eu também tô. Porque eu não vou deixar te apagarem, Selvinha."
Ela se aproximou. "A gente segue com o plano—mas encurta o prazo. Pegamos a câmera amanhã. Mas o cartão do Kaji já é nosso. Nada de esperar mais. Vamos cavar agora."
O olhar dela ficou mais afiado. "E se qualquer coisa—qualquer coisa—parecer errada, a gente desiste. Nada de bancar o herói."
Kai abriu a boca, mas ela continuou, a frustração atingindo o ápice.
"Droga. Eu sabia que mexer com a NERV era perigoso, mas isso? Isso é pior. Se ele não conseguir te controlar, ele vai tentar te apagar."
Kai respirou fundo.
Então estendeu a mão e segurou a dela.
Os dedos dela se enrijeceram.
Quase recuaram.
Mas não se afastaram.
Ao contrário, o aperto dela firmou. Só um pouco.
"Eu não vou te deixar sozinha," ele disse, baixinho. "Tá bem?"
Ela não olhou pra ele.
Só encarou o chão.
Então—suavemente—murmurou: "Tsc. Idiota."
Mas ela não soltou.
Segurou firme.
Por mais tempo do que precisava.
Depois, com um leve aperto, soltou sua mão e deu um passo pra trás.
"Tá bom. Chega de sentimentalismo. Temos uma missão pra cumprir."
Ela jogou o cabelo com um floreio ensaiado, já seguindo à frente.
"Vamos antes que alguém comece a fazer perguntas."
Mas enquanto se afastava pelo corredor, Kai percebeu o olhar que ela lançou por sobre o ombro.
Só por um segundo.
Só pra ter certeza de que ele ainda estava lá.
Capítulo 87: Sala de Controle / Quase Lá
Os pensamentos de Kai estavam girando. A conversa com Gendo, o alerta na voz de Asuka, a pressão do tempo se fechando de todos os lados—tudo ameaçava se confundir em uma névoa. Mas não havia tempo para processar. Não agora.
Foco.
Eles tinham trabalho a fazer.
"Precisamos encontrar um caminho para entrar," murmurou ele, caminhando lado a lado com Asuka pelo corredor. "Um caminho para um lugar profundo. Um que não exija controle biométrico. Um que aceite o cartão do Kaji."
Ela assentiu, a voz firme novamente. "Certo. Não temos tempo para pensar demais. Agimos rápido, olhos abertos e nada de sermos pegos."
Os corredores da NERV estavam sempre cheios de movimento. Cientistas, oficiais, engenheiros. O truque era se tornar parte da corrente. Ser invisível.
Eles se misturaram, movendo-se com propósito—mas não demais. Passaram por corredores restritos, por grupos de pessoal, testando porta após porta com o cartão roubado de Kaji. A maioria rejeitou imediatamente, um zumbido alto negando o acesso.
Nível muito alto.
Muito óbvio.
Mas então—
Bip.
Um pequeno elevador próximo a um dos laboratórios de pesquisa aceitou o cartão.
Provavelmente não dava acesso direto ao Dogma Central, mas levava a algum lugar profundo.
Asuka arqueou uma sobrancelha. "Bingo."
As portas se abriram com um chiado. Eles entraram.
Descendo.
Não havia números nos andares. Apenas uma luz vermelha piscando acima. O zumbido do elevador parecia diferente ali embaixo—mais lento. Mais pesado. Como se estivessem deixando o mundo conhecido para trás.
Kai olhou para Asuka.
Ela encontrou seu olhar sem dizer uma palavra.
O elevador parou.
As portas se abriram.
Um corredor se estendia adiante—longo, silencioso, sombrio. As luzes piscavam fracamente acima, e o ar era mais frio ali. Mais estéril. Menos câmeras do que o esperado.
No fim do corredor, uma única porta reforçada.
Sem guardas.
Sem escâner de retina.
Apenas um painel piscando.
Um leitor de cartão.
Asuka soltou o ar lentamente. "Talvez ali seja uma boa."
Ela olhou para ele, esperando.
Ele assentiu uma vez. "Vai."
Sua mão não tremia, mas sua respiração falhou levemente ao passar o cartão.
Por um momento—nada.
Então—
Bip.
Verde.
Desbloqueado.
Eles congelaram.
Depois se entreolharam.
"Funcionou," sussurrou Asuka.
A voz dela trazia mais do que surpresa. Havia medo. Excitação. Responsabilidade.
Ela olhou de novo para a porta, os olhos arregalados. "Bingo!," sussurrou.
Kai deu um passo à frente, o pulso acelerando. Eles entraram.
A sala era austera, angular e profundamente silenciosa—com paredes de aço e vários terminais de controle de alta tecnologia que exibiam dados ao vivo e esquemas de sistemas. Um leve brilho azul iluminava o espaço por baixo das telas dos consoles, conferindo a tudo um ar estéril, fantasmagórico. Parecia um lugar onde decisões grandes eram tomadas—limpo demais para manutenção, frio demais para observação. Não era o Dogma Central, mas era importante. Escondido. Silencioso.
Kai olhou em volta. Se havia algo escondido ali embaixo—algo realmente escondido—esse era o lugar ideal para flagrar conversas comprometedoras com a câmera. Pelo menos, a melhor opção disponível.
Ele balançou a cabeça. "Certo. Mantemos o plano. Amanhã—eu volto aqui com a câmera."
Asuka fez uma careta. Depois, relutante, assentiu.
Ela pressionou o painel novamente. A porta se selou. A luz ficou vermelha. Como se nada tivesse acontecido.
Eles voltaram para o elevador, ainda com o coração disparado. Asuka se encostou na parede, passando a mão pelos cabelos.
"Caramba," murmurou. "A gente realmente achou um lugar."
Um sorriso torto surgiu em seus lábios. "Acho que eu sou mesmo uma gênia, afinal."
Kai riu baixinho, a tensão escoando dos ombros.
Asuka olhou para ele, os olhos ainda elétricos de adrenalina. "Agora só falta voltar amanhã sem sermos pegos."
O elevador subia.
Trazendo-os de volta à superfície.
De volta aos uniformes, relatórios, rotina.
De volta à fachada de que tudo estava normal.
Mas, lá no fundo—sob o zumbido das luzes e os passos apressados—ambos sabiam:
Logo, talvez finalmente tivessem respostas.
Capítulo 88: Comprimento de Onda / Aquele que Permanece
As portas blindadas da NERV se fecharam atrás deles com um eco final, e de repente, o ar da noite parecia a primeira respiração de verdade em horas.
Kai esticou os braços acima da cabeça. "UAAAU... isso foi INTENSO!"
Ao seu lado, Asuka soltou um suspiro rápido, jogando o cabelo para trás com um movimento ágil. "Nem me fale."
Ela olhou para o céu noturno por um momento antes de lançar um sorriso para ele. "Quer dizer, obviamente eu não fiquei com medo nem nada. Mas você? Você tava completamente surtando."
Ela esbarrou o ombro no dele. "Admite, Selvinha. Foi a coisa mais tensa que você já fez na vida."
Ele riu, ainda com adrenalina no corpo. "Não sei... isso foi tenso, mas o escritório do Gendo? Aquilo fez minha espinha se contorcer." Ele fez uma pausa. "Não acredito que eu falei `Belo escritório, senhor!"'
Levantou a mão e cobriu o rosto.
Asuka caiu na risada.
"PFFF—Ah, não! Você não fez isso! `Belo escritório'?! Pro Gendo Ikari?! Você tá tentando ser apagado da existência, é isso?!"
Ela quase se dobrou, balançando a cabeça. "Cara, eu queria tanto ter visto a cara dele nessa hora. Ele reagiu?"
Ela imitou a voz dele num tom propositalmente idiota: "`Belo escritório, senhor!"' Depois cruzou os braços e engrossou a voz, imitando Gendo perfeitamente: "`Hmmm. De fato."'
Kai riu ainda mais, mal conseguindo se equilibrar. "Ele não se mexeu por cinco segundos. Só me encarou como se eu tivesse bugado o sistema dele. Aí falou: `Você é diferente.' "
Kai cruzou as mãos na frente do rosto e repetiu a fala com o tom sem vida de Gendo.
Asuka se desmontou.
Ela segurou a barriga, rindo tanto que teve que parar de andar. "ELE FALOU ISSO MESMO?!"
Ela se endireitou, tentando manter uma expressão séria e falhando miseravelmente enquanto o imitava de novo: "`Você é diferente."'
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Depois caiu na risada outra vez, limpando uma lágrima dos olhos. "É a coisa mais idiota, e melhor, que eu já ouvi."
Ela sorriu. "Tsc. Se ele já achava você estranho, agora não entende mais nada."
Kai balançou a cabeça, ainda rindo. "Com certeza."
Eles continuaram rindo por mais um tempo, e por alguns instantes, foi fácil esquecer o perigo. Os segredos. O peso do que estavam tentando fazer.
Asuka bateu de leve no braço dele. "Droga, Selvinha. Você pode ser um idiota, mas pelo menos deixa essa coisa toda de espionagem mais divertida."
Ela deu um passo à frente. "Certo. Vamos descansar. Amanhã vai ser puxado."
Kai observou enquanto ela caminhava, e então percebeu—a maneira como ela olhou por cima do ombro.
Mais uma vez, parecia que ela só queria ter certeza de que ele ainda estava ali.
Ele sorriu.
Caminharam juntos pelas ruas silenciosas, luzes apagadas, a cidade dormindo ao redor.
Depois de alguns minutos, Kai lançou um olhar para ela, com um brilho travesso nos olhos.
"Acho que o Shinji vai adorar saber do meu bate-papo com o papai dele."
Asuka bufou. "Pfft—com certeza. O Shinji vai surtar quando descobrir que você teve um bate-papo casual com o Lorde Ikari em pessoa."
Ela sorriu, imitando com perfeição o pânico contido de Shinji: "`Meu pai... falou com você?"'
Ela fez uma pausa. E então, mais baixo—quase casualmente—acrescentou: "Além disso... ele devia saber que o papai querido dele não tem tudo sob controle, afinal."
O sorriso dela esmoreceu levemente, substituído por algo mais pensativo. Estava cansado.
Mas o momento passou. Ela sacudiu os ombros e continuou andando.
"Anda logo, Selvinha," disse ela, com o tom firme de novo. "A gente precisa dormir antes de invadir a parte mais segura da NERV de novo."
As luzes da cidade já estavam distantes agora, borradas pela calmaria da noite. Enquanto Kai acompanhava Asuka até o prédio dela, a tensão das últimas horas ainda vibrava sob a superfície, elétrica e difícil de dissipar.
"Sabe..." ele disse, com um tom reflexivo. "Estive pensando..."
Asuka o olhou de lado, arqueando uma sobrancelha. "Ah não. Isso é perigoso."
O tom era provocativo, mas havia curiosidade por trás. "Tá bom, Selvinha, manda. O que tá sacudindo esse cérebro estranho agora?"
Kai olhou para as estrelas acima do horizonte. "E se aquele acidente na filial de Nevada sempre fosse pra acontecer? Tipo, destino. E se o Eva-04 não era pra ter sobrevivido? E eu estar aqui... nunca fez parte do plano de ninguém."
Ele fez uma pausa. "Tipo... e se existe outra versão desse mundo por aí. Uma onde o Eva-04 foi destruído. Onde eu nunca apareci."
Asuka parou de andar.
Ele se virou e a viu parada, o sorriso sumido. A expressão era indecifrável.
Então ela bufou, mas soou estranho. Vazio. "Tsc. Do que você tá falando? `Destino'? `Outra versão do mundo'? Isso é papo furado de ficção científica."
Ela voltou a andar, mais rápido agora, como se pudesse fugir da ideia.
"Você tá aqui. O Eva tá aqui. O que aconteceu em Nevada não importa."
A voz dela suavizou enquanto acrescentava, quase inaudível: "E eu não me importo com alguma outra linha do tempo onde você não tá aqui."
Kai não respondeu. A sinceridade dela o pegou de surpresa.
Caminharam em silêncio por um tempo.
Quando chegaram ao prédio dela, Asuka desacelerou. Coçou a nuca, depois olhou para ele.
"Tsc. Bem... isso foi... intenso."
O sorriso voltou, mas era mais suave agora. "Tenta não pensar demais, tá? Você já é chato normalmente. Não preciso de você virando um poço de crise existencial também."
Ela inclinou a cabeça, os olhos encontrando os dele. "E não estraga tudo amanhã."
Uma pausa.
"Tô... contando com você, Kai."
Ele se inclinou um pouco. "Tô contando com você também, Asuka."
Ela se encolheu como se ele tivesse cutucado o coração dela em vez do ego.
Aí ele sorriu. "Agora, fala a verdade, você adorou a desculpa que eu dei pra Misato sobre o nosso atraso."
O rosto dela ficou vermelho na hora. "EU TE ODEIO!" gritou, batendo com força no braço dele.
Ela se virou, os braços cruzados tão firmes que pareciam querer quebrar os ossos. "Não acredito que você disse aquilo! Não acredito que a Misato acreditou! E agora você não cala a boca sobre isso!"
Mas ele viu. O canto da boca dela querendo ceder. A voz tremendo, não de raiva, mas de algo mais.
Então—mais baixo—ela murmurou: "Tsc. Tanto faz. Só... nunca mais usa essa desculpa de novo."
Ela hesitou.
"...A não ser que a gente realmente precise," resmungou.
Ela virou de costas tão rápido que ele quase não viu o sorriso escapando.
A cidade ficou mais silenciosa quando chegaram ao prédio. A noite parecia mais fria quando chegou a hora de se despedir.
"Boa noite, esquentadinha!" ele gritou quando ela chegou na porta.
Um gemido ecoou lá de dentro. "EU JURO POR DEUS, KAI—PARA DE ME CHAMAR ASSIM! TCHAU!"
Ela bateu a porta. Ele riu o caminho inteiro até em casa.
Kai caminhou sozinho, o ar fresco batendo no rosto enquanto os pensamentos giravam. O plano estava em andamento. Amanhã, eles teriam a câmera. Amanhã, eles voltariam ao encontro da escuridão. Mas por trás de tudo, outra coisa rondava os pensamentos de Kai.
Se não era pra o Eva-04 existir aqui... e se só eu consigo me sincronizar com ele...
Ele entrou no apartamento, trancou a porta.
Será que eu também não sou deste mundo?
Tirou a camisa e seguiu os rituais de sempre—banho, toalha, rotina—mas o pensamento não ia embora.
Você não está completo.
As palavras ecoaram de novo. A presença no teste. O céu vermelho. As ruínas.
Ele balançou a cabeça. "Coisa demais pra hoje."
Pegou o celular e digitou uma mensagem rápida.
Apenas um emoji.
"😘"
Alguns segundos depois—buzz.
Asuka: "Sério? Vai dormir, idiota. 😏"
Ele sorriu e largou o celular ao lado da cama.
Deitou de costas, encarando o teto. Seja lá o que viesse amanhã—ele não estava sozinho.
Fechou os olhos.
O sono veio rápido.
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