Evangelion: Shattered Thresholds
11 Episódio 11: Intrusos Lilliputianos
Capítulo 89: Quebra de Protocolo / Aqueles que Desafiam o Roteiro
A vibração foi suave, quase tímida. Mas no silêncio da manhã, soou como uma sirene.
Kai piscou diante da luz fraca que escapava pelas persianas. Seus olhos se ajustaram lentamente; o teto acima era estranho em sua quietude. Então ele viu — o celular iluminado ao lado da cama.
Asuka: "Melhor você estar acordado, Selvinha. Hoje é o dia."
Um leve sorriso puxou seus lábios. Ele pegou o celular e digitou uma resposta.
"Como você sempre consegue acordar antes de mim? Te encontro lá, esquentadinha."
E depois:
"E para de me chamar de Selvinha, é ridículo."
Com um alongamento e um resmungo, ele se levantou da cama. O chão estava frio sob seus pés. Uma paz estranha pairava no ar — quieta demais para o que o dia reservava.
Logo, o cheiro de ovos mexidos preenchia o apartamento. Familiar, reconfortante. Kai estava na pequena cozinha, mexendo distraidamente enquanto o chiado da frigideira preenchia o silêncio. Mas sua mente não estava ali. Estava adiante, pulando etapas como uma agulha de vitrola riscando o vinil.
Esta noite.
Esta noite seria o começo da revelação dos segredos da NERV. O cartão roubado. A câmera. O primeiro passo rumo a respostas que ninguém queria que eles descobrissem.
E se Gendo suspeitasse de algo —
Não havia espaço para erros.
O celular vibrou novamente.
Asuka: "Porque eu tenho disciplina, obviamente. Ao contrário de certas pessoas que nem conseguem acordar sem mim."
E depois:
"E para de me chamar de esquentadinha."
Ele riu, balançando a cabeça.
Lá fora, a cidade de Tokyo-3 despertava. Motores distantes, pássaros cantando, o ruído de uma bicicleta de entrega em algum lugar próximo. Para todos os outros, era apenas mais uma manhã.
Mas para ele?
Talvez fosse o dia em que tudo mudaria.
A água do chuveiro estava quente, quase escaldante — mas Kai mal notou. Inclinou-se sob o jato, deixando que a água levasse embora a sonolência, enquanto seus pensamentos reprisavam o dia anterior como um filme quebrado.
O olhar frio e indecifrável de Gendo. A pressão na câmara de teste de sincronização. As ruínas frente a seus olhos. A voz que não era dele.
Você não está completo.
Ele expirou devagar, o espelho embaçando com o vapor.
Havia perguntas demais agora — e nenhum tempo para elas.
Então, algo clicou em sua mente. Um novo fio na teia.
Por que apenas ele e Asuka foram chamados para aquele teste de sincronização?
Não podia ser coincidência. Podia?
Vestiu-se rapidamente, puxando o uniforme da escola. O pensamento já estava cravado dentro dele.
Então — tudo fez sentido.
Cerrou a mandíbula ao pendurar a mochila no ombro.
Precisava falar com ela. Antes da escola. Antes da NERV. Antes que o dia fugisse do seu controle.
O peso daquilo pressionava seus ombros como se a gravidade tivesse se tornado mais densa.
Saiu para a manhã de Tokyo-3. Vento leve. Céu azul. Inocente, até.
Seus pés se moviam sozinhos, os olhos escaneando a rua à frente.
E então — lá estava ela.
Asuka.
Esperando perto dos portões da escola, braços cruzados, sorriso de lado como se fosse dona do asfalto sob seus pés.
Kai sorriu ao se aproximar. "Oi."
O canto dos lábios dela se ergueu num sorriso torto, e ela inclinou a cabeça, os cabelos ruivos captando a luz da manhã.
"Demorou, hein. Espero que não esteja enrolando hoje — temos trabalho a fazer."
Ela se virou em direção à entrada da escola sem esperar, já alguns passos à frente antes de olhar para trás.
"E então? Que cara é essa?" perguntou. "Eu conheço essa expressão — você está pensando demais de novo. Cospe logo."
Kai hesitou. Depois fez um gesto para que ela o seguisse, guiando-os para um canto tranquilo do pátio onde as sombras se estendiam longas e poucos estudantes passavam antes da aula.
"Estive pensando," disse em voz baixa. "Por que só a gente foi chamado pro teste de sincronização ontem."
Asuka se encostou na parede, cruzando os braços. Os olhos se estreitaram com interesse. "É, eu também achei estranho. Qual é a sua teoria, Selvinha?"
Ele olhou direto nos olhos dela, sem desviar, sem brincadeiras. "Porque eu ainda sou uma variável desconhecida. Até pro Gendo. Se algo tivesse dado errado com a Unidade-04 — se eu perdesse o controle… eles sabiam que o Shinji não teria coragem de me parar."
Engoliu em seco.
"Mas eles sabem que você teria."
Asuka não respondeu de imediato. Sua expressão vacilou, depois congelou. O ar entre eles ficou mais denso.
"Tsc…" exalou, desviando o olhar. Os dedos apertaram os próprios braços com força. Por um instante, ela pareceu menor. Insegura.
Mas então ergueu os olhos, agora afiados — não com o fogo de sempre, mas com algo mais profundo. Mais sincero.
"Eles estão errados," disse em voz baixa.
Uma pausa.
"Eu não te pararia."
Outra pausa. E então — firme.
"Eu traria você de volta."
Ela manteve o olhar fixo nele, sem piscar.
"Então não ouse perder o controle comigo, Kai."
As palavras atingiram mais forte do que o esperado. Não era uma ameaça. Era um pedido.
Kai não desviou o olhar. "Eu sabia que você diria isso," murmurou. "Esse é o problema."
Inspirou fundo. "Preciso que você lembre dessa promessa. Se, em qualquer momento, eu perder o controle… você vai ter que me impedir. Mesmo que seja isso o que eles queiram."
Ela se enrijeceu. A boca se abriu como se fosse retrucar, chamá-lo de idiota, ou fazer uma piada, ou desviar com uma de suas cutucadas habituais.
Mas ela não fez nada disso.
Seus punhos se fecharam, a mandíbula travou. O fogo nos olhos dela oscilou. Por trás dele — raiva, sim. Mas também medo.
"Droga, Kai," ela sussurrou. "Você acha mesmo que eu conseguiria só…"
Parou. Passou a mão pelos cabelos. Xingou baixo.
Então, depois de um longo silêncio, assentiu uma vez.
"Tá bom."
A voz era firme. Mas por baixo, rachava — só um pouco.
"Se você perder o controle… eu vou te parar."
E então, mais suave — quase inaudível:
"Mas não vou deixar isso acontecer."
Kai sorriu, gentil.
"Obrigado. Mas não se preocupe, você não vai ter a chance de acabar comigo, por mais que queira. Eu não vou perder o controle."
Asuka revirou os olhos com um suspiro, jogando o cabelo para trás. "Tsc. É bom mesmo, Selvinha. Seria um desperdício gastar minha energia com você quando eu podia estar em lutas de verdade."
Ela estava brincando — mas o peso do que haviam dito ainda pairava entre eles.
Kai percebia. O jeito como ela hesitou. Como andava mais devagar que o normal ao voltarem para o prédio da escola.
Como se não quisesse se afastar muito rápido.
Como se estivesse se certificando de que ele ainda estaria ali ao lado dela.
Ao entrarem no pátio da escola, o barulho da manhã os engoliu — gritos de colegas, passos no concreto, o zumbido da vida cotidiana seguindo como se nada sob a superfície estivesse mudando. Mas tudo estava.
Os olhos de Kai percorreram a multidão.
Ali — Shinji. Parado perto da porta da sala, perdido em pensamentos, olhar desfocado. Clássico Shinji. Sempre entre fugir e ficar.
Asuka fez um estalo com a língua. "Aí está o seu cara," murmurou, cutucando Kai com o cotovelo. "Vai lá colher sua informação, Selvinha. Eu vou atrás do Kentucky pegar a câmera."
Ela se virou antes que ele pudesse responder, já caminhando em direção a Kensuke e Toji com aquela presença implacável de sempre.
Kai hesitou por mais um segundo, depois se voltou para Shinji. Antes de alcançá-lo, olhou para trás. Asuka já conversava com Kensuke — já o tinha na palma da mão. A câmera estaria garantida.
E Rei… ela não estava lá.
Talvez ainda chegasse. Ou talvez fosse outra coisa.
Kai empurrou aquele pensamento para o fundo e parou diante de Shinji.
"E aí, cara. Tá com aquela cara de novo."
Shinji piscou, voltando à realidade. "Tão na cara assim?"
Coçou a nuca, olhou para baixo, depois de volta para Kai. "Eu… conversei com a Rei. Ontem."
As sobrancelhas de Kai se ergueram. "É mesmo?"
Shinji assentiu, devagar. "Foi diferente dessa vez. Ela realmente me perguntou algo. Sobre… ter amigos."
Ajustou a mochila no ombro, olhos semicerrados em lembrança. "E depois disse algo estranho. De novo. ‘O fim já está decidido.’ Como se estivesse considerando se valia a pena se importar."
Kai suspirou. "Ela já não disse isso antes? E algo sobre os Anjos não serem os únicos inimigos? Explicou melhor agora?"
"Não," disse Shinji, balançando a cabeça. "Ela só… disse. Como se fosse fato. Como se nem precisasse ser questionado."
Olhou para o horizonte, onde o céu começava a clarear completamente. "Mas ela estava diferente. Como se estivesse tentando entender algo dessa vez. Perguntou se ter amigos era importante. Eu disse que sim. E ela só assentiu."
Kai observou o rosto do amigo. Shinji parecia mais velho do que há uma semana. Cansado de um jeito que o sono não resolvia.
"Talvez ela esteja começando a escutar," disse Shinji suavemente. "Mas Kai… essa coisa que ela continua dizendo. E se ela estiver certa? E se tudo já estiver mesmo decidido?"
Kai o encarou, firme.
"Eu não acredito que nada esteja decidido. Talvez seu pai acredite. Provavelmente tem algum plano grandioso que termina em fogos de artifício e desespero, mas…"
Kai se sentou ao lado dele, abaixando a voz.
"Não acho que eu fizesse parte desse plano. Não originalmente."
Então contou tudo. Sobre o teste de sincronização. Gendo. As implicações. O silêncio. O medo.
Shinji ouviu com tensão crescente, apertando a alça da mochila. Quando Kai terminou, falou baixo:
"Então… meu pai nem sabe por que você está aqui."
Kai assentiu. "Parece que não."
"E o experimento de Nevada — a Unidade-04 não era para ter sobrevivido. Mas sobreviveu."
Shinji soltou o ar como se tivesse levado um soco. "Você não é só mais um piloto."
Depois, mais baixo: "E se ele não consegue te entender… não consegue te controlar."
Kai não precisou responder. A verdade estava ali, pairando.
"Talvez a Rei não esteja falando da gente," continuou Shinji. "Talvez esteja falando do plano dele. E se você for… uma anomalia…"
Olhou para Kai, olhos firmes com algo além do medo.
"…talvez você possa mudá-lo."
Kai colocou uma mão firme no ombro do amigo. "Não entra em pânico, beleza? Temos que manter o disfarce. Estamos progredindo. Gendo não me entende, ótimo. Mas a gente também não entende. Tudo o que podemos fazer é continuar."
Recostou-se um pouco. "Mas se entendermos o que é o plano dele… isso mudaria tudo."
Shinji assentiu, devagar. "Você tem razão. Precisamos focar no que conseguimos descobrir."
Então — "Você e a Asuka… vocês estão mesmo levando isso a sério. Não sei se posso ajudar muito, mas…"
Hesitou, depois disse mesmo assim:
"Eu também quero saber a verdade. Quero entender a Rei."
Uma pausa. "Qual é o plano?"
Kai o encarou.
"Podemos precisar da sua ajuda. Hoje."
Shinji piscou — mas não recuou. "Ok… o que eu preciso fazer?"
Kai contou tudo. A câmera modificada. O cartão do Kaji. A rota até a Sala de Controle.
Quando terminou, Shinji estava pálido.
"Kai… e se você for pego?"
Kai se levantou. "Não vou ser."
Virou-se, vasculhando a sala. Lá estava ela — Asuka — segurando algo pequeno entre os dedos. A câmera. Mostrou rapidamente antes de guardá-la no bolso como se fosse apenas uma caneta.
Tudo estava se encaixando.
Só faltava um obstáculo.
Kai voltou-se para Shinji. "E a Rei? Por que ela não está aqui?"
Shinji acompanhou o olhar dele. A carteira dela seguia vazia. Intocada.
"Não sei," disse. "Ela costuma chegar cedo. Talvez ainda esteja se recuperando. Ou…"
Hesitou.
"Talvez a NERV esteja mantendo ela afastada de propósito."
O silêncio que veio depois foi mais pesado.
"Se ela não aparecer até o almoço," disse Shinji em voz baixa, "eu vou atrás dela."
Então — o sinal.
Kai soltou o ar. Hora de fingir normalidade. Sentar na sala. Assistir ao relógio correr em direção a algo que nenhum colega seria capaz de imaginar.
Virou-se e foi para seu lugar.
A contagem regressiva havia começado.
Capítulo 90: Sinal de Interferência / Variáveis Não Previstas
O tempo rastejava.
A voz do professor era um zumbido distante, equações rabiscadas no quadro em padrões pelos quais Kai não conseguia se interessar. Sua mente já estava longe da sala — passando por pontos de entrada, câmeras de corredor.
Mas, por mais que seus pensamentos vagassem, seus olhos continuavam voltando para ela.
Asuka estava sentada uma fileira ao lado, inclinada o suficiente para evitar o campo de visão do professor. Cotovelo apoiado na carteira, rosto descansando na mão, olhos desfocados enquanto a aula se arrastava. Parecia igual a sempre — entediada, levemente irritada, perfeitamente ela.
O tempo se arrastava. O relógio zombava a cada tique.
Então, finalmente — o sinal.
Hora do almoço.
Kai se levantou e foi direto até ela.
Asuka o recebeu com um longo espreguiçar e um suspiro teatral. "Ugh, até que enfim. Se eu tivesse que ouvir mais um minuto daquela aula, teria pulado pela janela e me jogado no trânsito."
A voz dela baixou um pouco enquanto batia no bolso. "A câmera está segura. Agora só temos que passar o resto do dia sem acionar nenhum alarme."
Ela inclinou a cabeça. "Você já falou com a Terceira Criança? Ele finalmente vai ser útil ou ainda é um redemoinho ambulante de ansiedade?"
Kai assentiu. "Ele topou. Contei o plano todo. Nada muito novo da Rei — só a mesma fala de sempre: `o fim já está decidido'. Mas… ele acha que ela está mudando. Que está ficando mais aberta. Talvez."
O sorriso de Asuka diminuiu um pouco.
"Ela não está aqui hoje," acrescentou Kai, franzindo a testa.
Aquilo chamou a atenção dela.
"É, isso é estranho," murmurou, cruzando os braços. "Ela normalmente já está assombrando a sala quando eu chego."
Olhou em volta como se esperasse que Rei surgisse de repente ao lado de uma árvore.
"E ela continua repetindo aquela frase esquisita? `O fim já está decidido.' Tsc. Garota Maravilha e seu drama existencial."
Uma pausa. Então — ela cutucou o ombro de Kai. "Pelo menos o Shinji finalmente está fazendo progresso. Talvez da próxima vez a gente não precise fazer tudo sozinho."
Mas Kai franziu a testa.
"É estranho ela não estar aqui," repetiu. "Quero dizer… se o Gendo sabe tudo que vai acontecer — e se ele também estiver adaptando o plano dele? Sabe, pra lidar com a `variável desconhecida'? Talvez tentando cortar minha influência?"
Asuka congelou.
Sua postura mudou. Só um pouco. Mas o suficiente.
"Você não está realmente dizendo —" começou, mas a voz perdeu a força.
"Tsc," murmurou, tentando afastar a ideia. "Isso é insano… certo? Quer dizer, sim, ele é um desgraçado manipulador, mas ter esse tipo de previsão?"
Ela olhou para Kai, como se precisasse que ele dissesse que era loucura.
Ele não disse.
Ela soltou o ar com força. "Droga. Primeiro a Rei, agora você? Estão todos soando como se tudo já estivesse mesmo decidido."
Então, o olhar dela se intensificou.
"Mas eu não me importo com o que o Gendo pensa. Não me importo com o que a Rei sussurra em charadas. Não vamos simplesmente sentar e deixar acontecer."
A voz dela estava baixa, mas firme.
"A gente muda o roteiro. Não importa o que esteja escrito."
Kai a observou — de verdade — e assentiu. "Acho que você tem razão. Quer dizer… eu sou uma anomalia, não sou? Não era eu pra estar aqui. Isso significa que o Gendo não sabe o que eu vou fazer."
Pausou.
"E se eu mudei alguma coisa em você, mesmo que seja só um pouco, então talvez você também seja imprevisível agora."
Asuka piscou, pega de surpresa.
Então — ela sorriu de lado.
"Tsc. Você só percebeu agora que eu sou imprevisível?" Ela jogou o cabelo, fazendo pose como se estivesse num palco. "Eu sempre fui imprevisível, Selvinha. Você que está atrasado."
Mas algo brilhou por trás dos olhos dela. Algo mais suave. Ela estava mesmo considerando aquilo.
"Ainda assim…" murmurou. "Se o Gendo estava jogando isso como um jogo de xadrez perfeito, e você é a peça que ele não previu…"
Ela se calou, pensativa.
"Então talvez eu também não esteja mais jogando pelas regras dele."
O sorriso voltou, mas agora brilhava com algo mais que sarcasmo — convicção.
"Ótimo," disse, batendo o ombro contra o dele. "Vamos garantir que continue assim."
Kai sorriu. "Agora vamos comer. Tô morrendo de fome."
Asuka gemeu. "Finalmente, algo inteligente vindo de você."
Antes que ele pudesse se mexer, ela agarrou seu pulso e o puxou em direção à cantina como uma soldado arrastando o parceiro para a batalha.
"Anda, Selvinha. Se vamos mesmo fazer uma missão de espionagem hoje, preciso de você funcional. Se desmaiar no meio da infiltração, eu te deixo pra trás."
Kai apenas riu.
Eles caminharam em sincronia — duas anomalias, lado a lado com uma missão que ninguém mais conseguia prever.
A cantina vibrava com conversas e bandejas batendo, mas os olhos de Kai percorriam o mar de estudantes, procurando.
Nada do Shinji.
Asuka ergueu uma sobrancelha no meio da mastigada, comendo lentamente de forma exagerada. "Tsc. E agora? Perdeu alguma coisa?"
Kai suspirou e se sentou em frente a ela, cutucando a comida sem vontade. "Cadê o Shinji? Eu tô pressionando ele demais?"
Asuka bufou. "Ah, por favor. Se você estivesse mesmo pressionando demais, ele já teria derretido em uma poça de autodepreciação."
Ela se recostou, batendo os hashis contra a bandeja. "Ele deve estar pensando demais em algum canto. É a cara dele. Ou vai ver criou coragem e foi falar com a Garota Maravilha sozinho."
Ela sorriu de canto. "O que significaria que seu plano de casamenteiro talvez esteja funcionando."
Kai sorriu, deixando a ideia se instalar. "Vai, admita. No fundo, você também acha que eles combinam."
Asuka bufou, revirando os olhos. Mas desviou o olhar por tempo demais. "Tsc. Tanto faz. Se a Terceira Criança finalmente deixar de ser inútil, não vou reclamar."
Ela espetou um pedaço de carne como se fosse um inimigo pessoal. "Mas se você começar a agir como guru romântico de novo, eu caio fora."
Kai riu baixinho e deu mais uma garfada. O momento era surpreendentemente leve, apesar de tudo que se escondia por trás.
"Fico me perguntando…" disse depois de uma pausa. "O que vocês estariam fazendo se eu não estivesse aqui? Gendo me chamou de anomalia, afinal."
Asuka congelou no meio da mastigada.
Não respondeu de imediato. Depois estalou a língua. "Que tipo de pergunta idiota é essa?"
Recostou-se, cruzando os braços. "Obviamente, eu ainda seria a melhor piloto. O Shinji ainda seria um molenga. E a NERV ainda seria um desastre ambulante."
Mas algo no tom dela soou… evasivo.
Então ela o olhou de novo — apenas um breve desvio dos olhos. "Mas… não é como se as coisas estivessem boas antes de você aparecer."
Deu de ombros, tentando minimizar. "Então, tanto faz. Não perco tempo pensando em `e se'. Você está aqui. É isso."
As palavras o atingiram mais forte do que esperava.
Aquilo o fez feliz. E o assustou.
Ele acudiu o pensamento e sorriu. "É, você tem razão. Eu também não ligo pra `e se'. Se eu não estivesse aqui, ainda estaria preso na vida antiga."
Estremeceu dramaticamente. "E isso seria um saco."
Asuka riu com desdém. "Pfft. Nem me fale. Não consigo te imaginar parado sendo entediante."
Ela colocou mais um pedaço de comida na boca e depois o olhou de lado. "No fim das contas, deu certo pra você. Tokyo-3 pode ser um caos, mas pelo menos você tem a mim."
Ela sorriu, claramente esperando uma reação.
Kai a olhou e sorriu de volta. "É. Eu tenho você. Sua romântica."
Asuka engasgou no meio do gole.
"O QUÊ—?! ROMÂNTICA?! Tsc — cala a boca, idiota!"
Ficou vermelha como um tomate, olhos faiscando, e espetou a bandeja com força o suficiente para rachá-la. "Você é tão convencido! Diz mais uma coisa dessas e eu jogo essa bandeja na sua cara!"
Kai explodiu em gargalhadas, e ela gemeu como se aquilo doesse fisicamente.
"Você é insuportável!"
Mas quanto mais ele ria, mais o olhar dela se suavizava. Ela bufou, cruzou os braços e virou o rosto.
"Tanto faz. Ria à vontade, Selvinha. Você que tem sorte de eu até sentar perto de você."
Os lábios dela tremiam, segurando um sorriso.
Ele se inclinou, sorrindo como uma raposa. "Sua esquentadinha."
A cabeça de Asuka virou com tudo. "AI MEU DEUS — PARA DE ME CHAMAR ASSIM!!"
Meia cantina virou para olhar.
A bandeja dela se moveu como se estivesse prestes a voar, e a voz ecoou em um grito de guerra:
"EU JURO, KAI — MAIS UMA VEZ E VOCÊ TÁ MORTO!"
Ela estava vermelha como pimenta. Mas mesmo por baixo da raiva, Kai via o embaraço.
Ele ergueu as mãos, rindo. "Ok, ok! Parei!"
Ela bufou, ainda encarando, mas tomou um gole agressivo da bebida, tentando se acalmar.
Então, numa voz perfeitamente controlada, sem olhar diretamente pra ele, ela sorriu de canto.
"Afinal… você não aguentaria se eu fosse mesmo uma esquentadinha."
Kai quase engasgou. "Isso nem faz sentido!"
Asuka se recostou, vitoriosa. "Nem precisa. Eu ganhei mesmo assim."
Ela aproveitou o momento, pernas cruzadas, espalhando empáfia como um gato que acabou de derrubar tudo da prateleira.
Kai ainda sorria quando ela inclinou a cabeça para ele.
"Agora acaba logo de comer, Selvinha. A gente tem uma missão pra cumprir, lembra?"
Ele lembrava.
Mesmo com toda a algazarra e provocações, mesmo com o calor que havia entre eles sem nunca ser dito… a tensão por baixo nunca sumia.
Capítulo 91: Acesso Desviado / O Cheiro do Antro do Leão
Enquanto Kai terminava de comer, seus olhos vagaram mais uma vez pelo refeitório.
Nada do Shinji.
Asuka percebeu e estalou a língua. "Sério? Ainda preocupado com ele?"
Ela se inclinou para frente, cotovelos na mesa, tamborilando os dedos. "Se ele não tá aqui, ou tá se lamentando ou finalmente falando com a Garota Maravilha. Não se estressa."
Mas o tom dela não combinava com as palavras.
Ela também olhou ao redor, só uma vez.
Kai assentiu. "É. Mas se ele não voltar pra sala depois do almoço… vou mandar mensagem."
Asuka deu de ombros, esvaziando o resto da bebida. "Tsc. Faz o que quiser. Só não deixa isso te distrair. A gente tem nossa própria missão pra cumprir."
Ainda assim… ela também estava procurando.
O sinal tocou. Hora de voltar.
E a contagem regressiva de verdade estava prestes a começar.
O zumbido da sala de aula voltou como estática — ruído de fundo para algo mais afiado, mais urgente, pulsando por baixo da superfície.
Kai tentou se concentrar. Tentou se importar com o diagrama que o professor desenhava. Mas seus olhos continuavam indo pro celular. E pro lugar vazio. A carteira do Shinji.
Não aguentou mais. Hora de agir.
"Shinji! Sentimos sua falta no almoço. Onde você tá? Tá tudo bem?"
Um aviso sonoro.
Shinji: "Tô indo pra NERV."
Só isso.
Sem explicação. Sem tom. Sem conforto.
Kai encarou a tela. Depois se inclinou em direção à Asuka. "Ele tá na NERV."
A cabeça dela virou na hora. "O quê? Por quê? A gente não foi chamado."
Ele mostrou a tela. Ela franziu a testa, o maxilar apertado.
"Tsc. E se tão mexendo com ele também?"
Os olhos dela escureceram com o pensamento.
Kai via as engrenagens girando. Ele digitou de volta para Shinji: "Por quê?"
Então — nova mensagem.
Shinji: "Não sei. Fui chamado. Acho que é sobre meu pai."
As palavras eram simples. Mas algo nelas fez o estômago de Kai se revirar.
Gendo.
Primeiro puxaram a Rei. Agora o Shinji.
As peças estavam se movendo. E eles nem sabiam qual era o tabuleiro.
Kai virou a tela para Asuka.
Ela a encarou e depois se recostou na cadeira como se tivesse levado um soco no estômago.
"Claro que é sobre ele."
A voz dela era baixa. Controlada. Mas havia medo por baixo daquela borda firme.
"E se ele quebrar?" sussurrou. "E se o Shinji não aguentar?"
Kai balançou a cabeça, também em sussurro. "Ele tá mais determinado ultimamente. Tá mudando. Acho que ele consegue segurar."
Asuka tamborilava os dedos nervosamente na mesa. "É… talvez."
Mas ela não parecia convencida.
"Mesmo assim," completou, ainda mais baixo, "se algo parecer errado, a gente age. Rápido. Sem hesitação."
Kai assentiu, mesmo sem ter certeza do que ela queria dizer com “agir”. "Combinado."
Mas eles estavam presos. Impedidos. Depois da última encrenca, Misato tinha deixado claro — nada de matar aula. A menos que quisessem vigilância ainda mais pesada.
Kai se inclinou, sussurrando de novo. "Você acha… seria estranho se você mandasse mensagem pra Misato? Só pra perguntar se precisamos estar lá? Eu faria, mas acho que ela ainda me odeia."
Asuka o encarou de lado. "Por favor. Ela não te odeia."
Depois, com um sorrisinho: "Ela só tá permanentemente decepcionada com você."
Mesmo assim, puxou o celular discretamente por baixo da mesa.
Asuka: "Oi, Misato. Eu e o Kai ainda estamos na aula, mas vimos que o Shinji foi chamado na NERV. Precisamos estar aí também? Ou hoje vamos ser alunos comportados mesmo?"
Ela apertou enviar e se recostou, expressão fechada.
"Agora a gente espera."
Do outro lado do corredor, Hikari já tava notando o falatório. Lançava aquele olhar mortal da representante de classe — o que dizia: "Tô a um segundo de te denunciar."
Kai fez o melhor que pôde pra parecer inocente.
Então o celular da Asuka vibrou.
Ela leu. Os olhos se estreitaram. Empurrou o celular discretamente na direção dele.
Misato: "Não precisa. Fiquem onde estão. Shinji tá lidando com algo pessoal."
Asuka estalou a língua e puxou o celular de volta. "Tsc. ‘Pessoal’. Sei."
Se inclinou de novo, agora bem próxima. "Desde quando o Gendo se importa com pessoal?"
Kai franziu a testa. "Que assunto pessoal ele poderia ter com o Shinji, afinal? Não é o aniversário do Gendo, né?"
Asuka quase engasgou. "Por favor. Como se aquele desgraçado comemorasse aniversário."
O sinal final tocou, mas pra Kai, o dia estava longe de acabar.
Ele estava ao lado da Asuka no portão da escola, o sol já se pondo, lançando sombras longas sobre o concreto.
Shinji ainda sumido. Ainda na NERV.
E algo em toda aquela situação corroía seu estômago como uma lâmina cega. Perguntas demais. Variáveis demais.
Puxou o celular e digitou:
"Ei, Shinji! A aula acabou! Tudo bem? Quer que a gente leve as anotações pra você?"
Virou-se para Asuka. "Espero que ele entenda a indireta."
Ela se inclinou com um sorriso de canto. "Tsc. Sutil. Vamos ver se a Terceira Criança consegue ler nas entrelinhas, só desta vez."
Um momento depois, o celular vibrou.
Shinji: "Tô bem. Ainda na NERV. Não vou voltar tão cedo."
Só isso.
Vago. Controlado. Nada do estilo enrolado dele de sempre.
A expressão de Asuka ficou sombria ao ler por cima do ombro de Kai. "Isso não é normal. Definitivamente não."
Ela cruzou os braços. "E agora? A gente não pode simplesmente aparecer lá exigindo respostas. Não depois de levar bronca da Misato. E se a gente forçar demais, eles vão sacar que estamos investigando."
A mente de Kai fervia. "Ir pra casa e fingir que tá tudo bem não é uma opção," disse. "De jeito nenhum. Nós vamos até lá."
Ele deu um sorriso de lado. "Não vi ele recusando as anotações da aula, você viu? Do meu ponto de vista, ele tá precisando muito dessas informações super importantes."
O sorriso da Asuka veio na hora.
"Ohhh, gostei do jeito que você pensa, Selvinha."
Ela jogou a bolsa no ombro, já se preparando pra ação. "Ele não disse ‘não venham’, só que ainda tá lá. Então tecnicamente, a gente tá só sendo bons colegas. Altruístas, heroicos, provedores de apoio educacional."
A voz caiu num tom teatral de falsa sinceridade. "Estamos cumprindo nosso dever cívico."
Virou-se e começou a andar, os olhos brilhando de empolgação. "Mas vamos casualmente. Se agirmos como espiões, a Misato arranca nosso couro."
Kai foi atrás, o sangue começando a ferver. "Isso! Vamos nessa!"
Então se deu conta.
"…Pera. Você anotou alguma coisa? Porque eu não tenho nada."
Asuka parou no lugar e se virou com um olhar mortal.
"Você tá de sacanagem."
Ele deu um sorriso envergonhado.
Ela gemeu, passando a mão pelo rosto como se o cérebro dele fosse uma ofensa pessoal. "Você inventa a desculpa e não tem anotações?!"
Kai riu, só um pouco apavorado com ela.
Com um suspiro pesado, ela enfiou a mão na bolsa e puxou um caderno surrado. "Toma."
Enfiou o caderno nas mãos dele como se estivesse doando um órgão vital. "Agora você tem algo pra entregar."
Então, com um giro dramático de cabelo, sorriu. "De nada. Tenta não parecer completamente inútil quando a gente chegar."
Kai sorriu e colocou o caderno debaixo do braço. "Valeu, você é demais."
Asuka bufou, já seguindo em frente. "É claro que sou."
Os dois escaparam pelos portões da escola rumo ao GeoFront, passos sincronizados.
Eles não estavam só visitando.
Estavam prestes a entrar no antro do leão.
Mas pelo menos… estavam fazendo isso juntos.
Capítulo 92: Memória Central / A Ausência que Define
A cidade se estendia diante deles em tons suaves de crepúsculo, a luz tardia dourando as janelas e aquecendo o asfalto sob seus pés. Mas Kai mal via qualquer uma dessas coisas. Sua mente já estava adiante — dentro da NERV, dentro de seja lá qual fosse o plano distorcido que Gendo Ikari havia começado a colocar em movimento.
Ao seu lado, Asuka caminhava com propósito, mãos presas nas alças da mochila, o rosto ilegível, exceto por ocasionais lampejos de irritação ou diversão quando ele se perdia demais nos pensamentos.
"Você conhece eles há muito mais tempo do que eu," disse Kai, os olhos escaneando o horizonte enquanto se aproximavam da borda do sistema de elevadores do GeoFront. "Tem alguma ideia de que tipo de assunto pessoal o Gendo e o Shinji teriam pra conversar? Tipo... o que exatamente aconteceu com a mãe dele, a esposa do Gendo?"
Asuka continuou andando por um momento antes de responder. Sua expressão mudou, ficando ligeiramente mais afiada.
"Tsc. Então você realmente não sabe, huh?"
Ela soltou o ar com força, cruzando os braços enquanto andava. "Yui Ikari. A mãe do Shinji. Ela era cientista. Trabalhou com a NERV — ou o que quer que fosse o nome na época. Ela..."
Sua voz falhou. Só por um segundo.
"Ela morreu. Durante um experimento com um Eva."
Aquilo acertou como um soco.
Sua voz era neutra. Sem zombaria, sem provocação — apenas um fato.
"O Shinji viu acontecer. Ele era só uma criança, mas estava lá quando ela desapareceu. O Gendo também."
O maxilar dela se contraiu levemente. "E ao invés de, sei lá, ser um pai, aquele desgraçado simplesmente jogou o Shinji fora e focou no maldito trabalho."
Ela bufou. "E agora, depois de tudo isso, ele de repente quer conversar com o filho? Ah, não. Tem algo errado aí."
Ela olhou para ele de novo. "Você realmente não sabia de nada disso?"
Kai se virou pra ela, atônito. "Não... Ele nunca me contou... então a mãe dele simplesmente desapareceu? Dentro de um Eva?"
Asuka assentiu, a expressão ficando mais sombria. "É. Assim mesmo. Chamaram de teste de sincronização. Algo deu errado. Um momento ela estava lá... no seguinte, sumiu. Sem restos. Sem despedida. Apagada."
Kai olhou pra frente, tentando processar.
"E o Shinji viu tudo," acrescentou Asuka, agora com um tom mais suave. "Ele estava lá. Só um garotinho. Vendo a mãe sumir enquanto o pai ficava parado."
Kai deixou o silêncio se alongar, o peso daquilo se instalando. A imagem da própria mãe piscou em sua mente — nítida, indesejada. Pela primeira vez, percebeu o quanto todos ali eram parecidos.
Os punhos dela se cerraram levemente. "E ao invés de ajudar, o Gendo largou ele. Deixou com um guardião aleatório e mergulhou no próprio trabalho. No projeto Eva."
Kai sentiu algo frio no estômago. "Eu sabia que ela estava morta, mas não fazia ideia..." disse ele. "Sabia que o pai dele era um monstro. Mas não assim."
Os dedos dela apertaram as mangas do uniforme. "Quero dizer, não entendo por que ele ainda se importa com aquele desgraçado de pai, mas tanto faz. Problema dele."
Asuka o encarou, a voz carregada com algo mais difícil de nomear.
"Então você tá me dizendo que esse tempo todo ele nunca te contou?"
Kai não respondeu de imediato. Apenas olhou pra frente, lembrando dos momentos silenciosos que havia dividido com Shinji. Os silêncios desconfortáveis. As voltas que davam nas conversas. As barreiras que nenhum dos dois tinha coragem de atravessar.
"Não... Você acha... que ele não confia em mim?" Kai finalmente perguntou. "Achei que fôssemos amigos. Digo, eu considero ele um."
Asuka revirou os olhos, mas sem agressividade.
"Tsc. Não fica dramático. É o Shinji. Ele mal fala com as pessoas. Provavelmente nem sabe como dizer essas coisas."
Então, mais séria: "Mas é. Esse experimento com o Eva? Isso é o que torna tudo diferente. Eu não sei os detalhes, mas o que aconteceu com ela não foi só um acidente qualquer."
Sua voz abaixou, os olhos se estreitando.
"E você ainda se pergunta por que a Rei é tratada como algum tipo de relíquia sagrada. Cabelo azul, olhos vermelhos, sempre sob a asa do Gendo. Ela não é normal, Kai. Você já percebeu isso também."
Kai franziu a testa. "Você acha que essa conversa do Gendo com o Shinji pode ser sobre ela?"
Asuka não respondeu de imediato. Mas o silêncio já dizia muito.
Eles dobraram uma esquina. As ruas agora estavam silenciosas. A entrada para o túnel de acesso ao GeoFront estava logo à frente.
Kai soltou um suspiro baixo. "A Rei também não apareceu na aula hoje."
Asuka bufou. "Talvez seja hora do jantar em família. E a gente tá invadindo a festa."
"Tsc. Imagina essa mesa?" Ela se endireitou e imitou uma voz robótica e profunda. "`Shinji. Rei. Estamos tendo um momento de vínculo familiar. Passe o LCL.’"
Ela revirou os olhos. "Me poupe."
Kai soltou uma risada curta, apesar de tudo.
Mas o sorriso de Asuka sumiu quase imediatamente. "Mesmo assim... se os dois sumiram, e é o Gendo quem tá por trás..." Sua voz ficou fria. "Talvez a gente esteja entrando em algo sério de verdade."
Ela o encarou. "Espero que esteja pronto, Selvinha. Isso ficou interessante."
Kai não reclamou do apelido dessa vez, embora ainda o incomodasse profundamente sempre que ela falava. Ela sabia. Ela fazia de propósito.
Ela se aproximou só um pouco. "Você tá se esforçando tanto pra não reagir agora. É adorável."
"Estou te ignorando," disse Kai, sem expressão.
"Não tá, não."
Eles chegaram à entrada oculta do elevador que os levaria até as entranhas da NERV. Os passos diminuíram. A tensão, antes leve, agora era real.
Trocaram um olhar — um acordo silencioso.
Eles não estavam apenas entregando anotações.
Algo havia mudado.
Algo estava acontecendo lá dentro.
E eles estavam prestes a entrar na tempestade.
Os corredores subterrâneos da NERV se estendiam diante deles — cinza, estéreis, pulsando com um poder invisível.
Kai e Asuka caminhavam lado a lado, os passos ecoando levemente no chão polido. E ainda assim, até os ecos pareciam mais silenciosos que o normal.
Ela seguia ao lado dele, sua confiança habitual mascarando a tensão que carregava.
"Muito bem, Selvinha. Vamos achar nosso filhote perdido e ver até onde vai essa toca de coelho."
Capítulo 93: Falsa Trégua / Janela de Oportunidade
Então veio a voz.
"Vocês dois... não deviam estar aqui."
Misato.
Ela estava ao lado de um terminal logo à frente, braços cruzados, usando seu uniforme de sempre—mas havia algo diferente em seu rosto. Não era bronca. Nem raiva. Era... preocupação.
Kai tentou manter a casualidade. "Oi, Misato... está... tudo bem?"
Ela não respondeu de imediato.
"Nós estamos..." Ela parou, como se estivesse se censurando. "...Está tudo bem", disse de forma neutra.
Mas a mentira era frágil demais para se sustentar. Parecia que ela estava tentando poupá-los da verdade.
Ela inclinou levemente a cabeça, olhando para o caderno na mão de Kai. "Deixa eu ver se entendi—vocês dois acharam que era uma boa hora pra passar na NERV com a lição de casa do Shinji?"
Asuka entrou em cena suavemente, jogando o cabelo. "Tsc. O quê, a gente não pode mais ser bons colegas? Só estamos tentando ajudar, sabe. Apoiar. Ser moralmente responsáveis." Ela fez um gesto dramático com a mão. "Ele perdeu álgebra."
Misato esfregou as têmporas como se aquilo fosse fisicamente doloroso. "Vocês dois são uma dor de cabeça."
Mas então... algo mudou. Sua expressão suavizou, só um pouco. O aço na voz derreteu—só um grau.
"...Mas eu entendo."
Ela lançou um olhar pelo corredor, a voz mais baixa.
"O Shinji está bem. Está lidando com algo agora."
Havia mais por trás daquela pausa. Algo que ela não dizia.
"Não posso deixar vocês verem ele. Agora não." Ela olhou diretamente para Kai. E, pela primeira vez, sua voz desceu além do que seu posto normalmente permitia. "E se eu fosse vocês? Não ficaria perambulando muito por aí hoje."
Não era um aviso.
Era um pedido.
Kai ficou parado por um segundo, os pensamentos girando.
Respirou fundo. "Ok, Misato. A gente entendeu. Somos uma dor de cabeça. Eu sei que tenho sido uma péssima influência pra Asuka. Quer dizer, ela era uma garotinha tão doce, obediente, que seguia regras direitinho antes de eu chegar aqui, né?"
Ele se virou para Asuka bem a tempo de ver a explosão.
"COMO É QUE É?!" ela disparou, apontando um dedo direto no peito dele como uma lança. "Doce?! Obediente?! Eu estava perfeitamente bem antes de você aparecer com essa sua imprudência egocêntrica!"
Kai riu. Um pouco alto demais.
Misato fechou os olhos. "Meu Deus, vocês dois são a mesma droga de pessoa."
Então, mais baixo, e com muito mais peso: "Olha, Kai. Não é questão de querer tornar você útil. É questão de poder. E agora—eu não posso."
Isso calou os dois.
Asuka ficou rígida ao lado dele. Kai podia sentir a raiva fervendo nela, mas ela não disse nada.
Misato se aproximou. Um passo a mais. Só o suficiente para que ninguém mais ouvisse.
"O que estamos enfrentando agora... está muito além do que vocês podem fazer."
Isso... não era típico dela. Misato era o tipo de pessoa que entraria numa luta impossível só pra proteger quem ama.
Mas agora?
Ela parecia cansada.
"Vão pra casa," ela disse. "Só por hoje. Confia em mim."
Kai ouviu a mudança no tom. Ela falava sério. E isso era o que mais o assustava.
Olhou para Asuka. Os braços cruzados tão forte que podiam rachar. O maxilar cerrado, o pé batendo como se ela quisesse socar o chão. Ela odiava aquilo. Cada segundo.
Mas os olhos dela se voltaram para os dele.
E neles, ele viu.
Ela não estava com raiva.
Estava com medo.
Não do perigo.
Mas da impotência.
Após uma longa pausa, Asuka revirou os olhos com força suficiente pra gerar energia. "Tsc. Tá. Tanto faz."
Kai hesitou só um segundo antes de voltar-se para Misato.
"Ok, Misato. A gente vai. Se você tem certeza de que não precisa da gente..."
Ele manteve o tom casual. Nada ameaçador. Mas havia uma camada por baixo.
"...mas a gente pode passar na sua casa depois? Só pra ver como o Shinji tá. E... faz tempo que a gente não se junta lá. Eu sei, estamos de castigo por um mês, mas—"
Deixou o resto no ar.
Uma oferta de paz. Um sinal de normalidade. Ou talvez só uma desculpa pra ficar por perto.
Misato o encarou por um momento, imóvel.
Então—suspirou, longa e cansada, esfregando a nuca como se o peso da organização inteira estivesse ancorado nos ombros.
"Droga, Kai. Você tá tornando isso mais difícil do que precisa ser."
Ela olhou para Asuka, depois de volta para ele, algo mudando por trás dos olhos.
"Tudo bem. Mas só por um tempo. E só porque eu sei que você não vai me deixar em paz se eu disser não."
Levantou um dedo para os dois, como um sinal de alerta.
"Mas se algum de vocês fizer alguma besteira, juro que jogo vocês pra fora pessoalmente."
Asuka imediatamente sorriu. "Tsc. Sem promessas."
Misato gemeu, passando a mão no rosto. "Meu Deus. Saiam logo daqui antes que eu mude de ideia."
Ela se afastou, ainda observando com aquela consciência tática afiada que Kai já aprendera a reconhecer—meio soldado, meio irmã mais velha.
"Eu mando mensagem quando a gente sair da NERV. Agora vão embora."
Virou-se, já seguindo por outro corredor, o casaco flutuando com a leve brisa do sistema de ventilação.
Kai ficou em silêncio por um momento. Então—
"Valeu, Misato! Até mais!" gritou para ela.
Nenhuma resposta.
Asuka não disse nada até estarem fora de alcance.
Quando falou, sua voz era baixa. Controlada. Com raiva, mas daquele tipo contido que ela raramente mostrava a alguém.
"Eu odeio isso."
Ela não estava exagerando. Os punhos cerrados, o corpo inteiro emanando tensão.
"Estamos ali, a um passo, e ela manda a gente pra casa como se fôssemos crianças."
Eles caminharam em direção ao elevador que os levaria de volta à superfície. Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
"Isso não é só sobre a Terceira Criança," ela murmurou. "E eu odeio ficar esperando por migalhas de informação."
Já estavam na metade do caminho para a saída quando Kai diminuiu o passo, os olhos vasculhando o corredor silencioso.
"Ei..." murmurou, olhando para Asuka com um sorriso. "Você reparou?"
Ela parou ao lado dele, sobrancelha erguida.
Ele se inclinou só o suficiente para a voz ficar entre eles.
"A Misato disse que vai mandar mensagem quando estiverem indo pra casa."
Uma pausa.
"Isso significa que vamos saber exatamente quando o que quer que eles estejam enfrentando terminar."
Deixou o silêncio pairar por um momento.
"E até lá..."
Asuka congelou no meio do passo. Os olhos percorreram o corredor, depois voltaram para ele.
E lentamente—deliciosamente—os lábios se curvaram num sorriso.
"Ohhh... agora sim."
A mudança nela foi imediata. Tática. Elétrica.
"Se os figurões estão distraídos..." murmurou, quase para si mesma, "menos olhos. Menos interferência."
Ela se aproximou, abaixando a voz. "Então, Selvinha—o que exatamente você tá pensando?"
Kai não hesitou.
"A gente não pode desperdiçar o dia. Tem coisa demais em jogo. Já sabemos onde ir. Temos o cartão de acesso do Kaji. Os corredores estão vazios. Essa é a nossa chance."
Asuka assentiu lentamente, a expressão ficando mais afiada a cada segundo.
"É... você tem razão. Isso pode ser melhor que o plano original. Nada de distrações falsas. Nenhum show. Só a gente."
Ela deu um tapinha no bolso da jaqueta—a câmera ainda escondida com segurança.
"Mas a gente se move rápido. Direto até a porta de acesso, planta a câmera, e sai limpo. Sem enrolação, entendeu?"
Ela cravou os olhos nos dele.
"É isso, Kai. Uma chance."
Ele assentiu. "Agora. Vamos."
E não resistiu—sorrindo levemente ao acrescentar: "A não ser que você precise de uma pausa pra gritar um pouco, esquentadinha."
As mãos de Asuka se fecharam em punhos.
"MEU DEUS—PARA DE ME CHAMAR ASSIM!!"
Ela o empurrou com força, o rosto avermelhado de raiva e vergonha.
"Você tá com sorte que estamos em missão, ou eu te jogava num tanque de LCL agora mesmo."
Mas o foco dela voltou num instante.
Ela se virou, firme e decidida. "Vamos."
Chapter 94: Entrada Não Autorizada / A Verdade que Respira
Os dois caminhavam agora com propósito — medido, mas calmo. Nada que chamasse atenção. Apenas dois pilotos indo mais fundo na sede da NERV.
E ninguém os parou.
Ninguém estava observando.
Cada porta que passavam estava trancada por dentro ou completamente aberta e vazia.
O caminho estava estranhamente livre.
Finalmente, chegaram ao corredor de acesso seguro.
Sem guardas.
Sem sensores rastreando seus movimentos.
Apenas o painel de segurança reforçado ao lado da pesada porta de aço.
Asuka puxou o cartão de acesso roubado do bolso e o deslizou no leitor.
Ela parou, lançou um último olhar a Kai.
"Última chance de recuar, Selvinha."
Ela sorriu de lado. "Não que eu fosse deixar."
Kai se inclinou, sussurrando com um sorriso: "Vai logo, esquentadinha. Para de enrolar."
Ela congelou no meio do movimento.
Virou a cabeça lentamente, um olho tremendo de pura raiva.
"EU. JURO. POR. DEUS—"
Bip.
Uma luz verde piscou.
O painel destravou com um clique suave.
A fúria desapareceu, substituída instantaneamente por pura concentração.
Ela expirou, agarrou a maçaneta e puxou a porta.
Além dela, o corredor era mais frio. Mais silencioso. Uma luz tênue se espalhava de painéis embutidos ao longo do piso. As paredes eram revestidas de aço reforçado e cabos pretos que pulsavam levemente com energia.
Aquilo já não era a face pública da NERV.
Chegaram à sala de controle — a mesma que haviam descoberto no dia anterior.
Asuka entrou primeiro, a voz baixa e séria. "Sem mais piadas. Entramos."
Ela olhou para trás uma vez, olhos afiados. "Vamos terminar isso."
Kai olhou para a tela principal do terminal, um leve brilho azulado iluminava o espaço ao redor. Ao lado, um leitor de cartão. "Espera aí. Será que gente consegue acessar dados direto do computador com o cartão do Kaji?"
Asuka lançou-lhe um olhar meio empolgado, meio incrédulo. "Só tem um jeito de descobrir."
Kai checou o celular. Nenhuma mensagem de Misato ainda.
Eles tinham tempo.
Ele estreitou os olhos. "Se acessarmos o console primeiro, talvez a gente consiga informações reais, talvez até registros do que diabos estão escondendo lá embaixo."
O sorriso de Asuka voltou, só um pouco. "Você tá começando a soar como eu."
Ela se virou para o console piscando suavemente. Puxou o cartão de Kaji e o deslizou no leitor.
A tela piscou.
ACESSO CONCEDIDO
Kai se aproximou enquanto um menu aparecia:
• Registros da Instalação
• Arquivos do Projeto
• Câmeras de Segurança
Asuka se virou para ele com um sorriso lento e perigoso.
"Bingo," ela sussurrou. "Por onde começamos?"
O monitor brilhava no corredor escuro, pintando Kai e Asuka com luz trêmula enquanto os vídeos das câmeras carregavam — cada tela uma janela para partes da NERV que eles nunca deveriam ver.
Os dedos de Asuka dançavam pelo painel, rápidos e precisos.
"Câmeras primeiro," disse Kai. "Precisamos ver o que está acontecendo com o Shinji… e com a Rei."
Ela assentiu uma vez, e a tela mudou — formando uma grade de imagens ao vivo tremeluzentes.
Cada feed era rotulado. Cada um mostrava algo diferente.
Então — ele viu.
Feed 1: Sala do Comandante.
Shinji estava imóvel diante da mesa de Gendo, mãos cerradas ao lado do corpo. Sua postura era rígida, defensiva. Como se cada segundo ali esculpisse algo mais fundo em suas costelas.
Atrás da mesa, Gendo sentava-se como uma estátua. Mãos cruzadas. Frio. Observando.
E parada ao lado —
Rei.
Imóvel. O olhar fixo à frente, distante e ilegível. Parecia nem estar na sala.
Não havia áudio, mas a tensão vazava pela tela.
"Droga," sussurrou Asuka, punhos se cerrando. "Eles estão fazendo alguma coisa com ele. Eu sinto."
O estômago de Kai se revirou. Ele se inclinou, os olhos vasculhando a expressão de Shinji.
Havia algo ali. Dor, sim. Mas também… resistência.
Ele estava segurando algo. Lutando.
Feed 2: Sala de Comando.
Misato estava perto do console de operações, braços cruzados, expressão carregada de frustração. Não gritava — mas parecia prestes a fazê-lo.
Ritsuko estava do outro lado, expressão fria como gelo, digitando rapidamente em um terminal protegido. Maya também digitava, em silêncio.
Fuyutsuki estava lá também, observando com sua calma inquietante de sempre.
O que quer que estivesse acontecendo — não parecia relacionado a Gendo e Shinji.
Eles lidavam com outro tipo de crise. Talvez algo em que pilotos realmente não poderiam ajudar. Misato havia dito a verdade.
E então —
Feed 3: Dogma Central – Câmara Sem Marcações.
A imagem ganhou vida.
Uma câmara gigantesca, enterrada nos níveis mais profundos da NERV. A câmera lutava para se ajustar à luz fraca, as cores distorcidas nas bordas da tela como óleo sobre água.
No centro havia uma estrutura colossal — parte cruz, parte andaime. Algo imenso estava suspenso ali.
Seus membros eram inchados, longos, quase humanos… mas não completamente. Esticados, braços abertos e atravessados por enormes contenções. Crucificado. O torso era pálido e liso como cera, imóvel. Sem pernas. A cabeça pendia, rosto coberto por uma máscara gigantesca aparafusada diretamente na carne — sete olhos, todos semi-fechados.
Um objeto em forma de lança atravessava o peito, prendendo a figura contra a cruz numa grotesca exibição de contenção. Um fluido alaranjado — viscoso e denso — se acumulava abaixo, espalhando-se como uma sombra sangrenta sobre o chão.
Kai se aproximou. Algo em seu estômago se contraiu.
A voz de Asuka era baixa. Sem fôlego. "O que… é isso?"
Sem sarcasmo. Sem piadas.
A figura não se movia — mas parecia viva. Não de forma metafórica. Visceralmente. Mesmo pela tela, algo primitivo gritava que eles não deveriam estar vendo aquilo.
O peito de Kai se apertou. Seu pulso acelerou.
"Isso não é… humano."
Algo antigo estava preso ali — algo que distorcia a ideia de vida, de deus e de morte ao mesmo tempo.
"Kai," ela disse baixinho. "A NERV tá escondendo algo muito grande lá embaixo."
Kai assentiu lentamente, os olhos voltando para a figura monstruosa selada naquela sala.
O que quer que fosse…
Não era para ser visto.
Mas eles tinham visto.
A tela pulsava com luz fraca enquanto os dedos de Asuka se moviam com precisão, navegando pelos registros internos da NERV. Kai permanecia ao lado, a tensão subindo pelas costas a cada segundo.
"Vamos ver os registros," disse ela.
Kai assentiu. A mandíbula de Asuka estava tensa quando ela tocou a opção.
A tela piscou — então revelou uma cascata de entradas.
Linhas de código passavam — dezenas de registros e entradas de sistema. Muitos para ler de uma vez.
Kai os examinava rápido, os olhos pulando de linha em linha, até que uma chamou sua atenção.
"Espera. Essa aí — Segundo Impacto. Vamos ver se mostra o que realmente aconteceu."
Asuka não hesitou. Clicou.
REGISTRO DE ACESSO A DADOS INTERNOS DA NERV
Terminal: COMANDO_HQ-02
Nível de Acesso: Autorização de Segurança S+
ID do Usuário: Kaji_R
[INÍCIO DO ARQUIVO: #0007-ALPHA]
TÍTULO: Segundo Impacto — Resumo Confidencial
Nível de Segurança: Somente para Superiores (SEELE 01–12)
Data do Evento: 13.09.2000
Local: White Moon Site, Antártida
Assunto Principal: Primeiro Anjo [ADÃO]
Operação: Experimento de Contato – Fase II
Resumo:
Experimento de contato com Adão conduzido pela filial antártica da Gehirn sob supervisão da Expedição Katsuragi.
Reativação forçada de Adão usando a Lança de Longinus resultou em detonação de Campo Anti-A.T.
A detonação causou mudança polar, elevação do nível do mar, evento de extinção em massa.
Total de mortes: Estimado em 2,0 bilhões.
Notas: Evento reclassificado como Segundo Impacto.
Versão pública: Impacto de meteorito.
Diretiva SEELE: Supressão de informações iniciada imediatamente após o evento.
[FIM DA TRANSMISSÃO DO REGISTRO]
Kai ficou parado por um segundo, os pensamentos girando. "Eu sabia... Sabia que essa história de meteoro era mentira. Então o Segundo Impacto foi causado por essa tal de SEELE. Que porcaria é essa?? E `Expedição Katsuragi'? A Misato está envolvida?"
Asuka franziu a testa, incerta. "Não sei o que é SEELE. Nunca ouvi esse nome antes. Mas... Katsuragi? Deve ter sido o pai dela. Lembro dela dizer que ele era algum cientista importante na época."
Kai ficou chocado com o quão pouco eles sabiam. "Isso é... muito mais segredo do que eu esperava."
`Tch," rosnou Asuka. "Aqueles desgraçados. Estão mentindo pra todo mundo. Até pra gente."
Ela se virou de volta para o console, os olhos queimando.
"Precisamos de mais. Arquivos de projetos. Não vamos ter outra chance como essa."
O coração de Kai disparou.
Ele checou o celular.
Nada de mensagem da Misato.
Olhou para Asuka. "Me dá a câmera."
Ela piscou. "O quê?"
"Eu vou colocando. Você vasculha os arquivos."
Por um momento, ela pareceu prestes a discutir.
Mas assentiu. "Tudo bem. Rápido."
Ela passou a câmera modificada para sua mão. Kai a segurou firme, já examinando a sala em busca do melhor lugar—canto alto, sombra escura, acima da linha de visão. Escondida, mas com uma visão perfeita do terminal.
Moveu-se rapidamente. Câmera instalada.
Atrás dele, Asuka trabalhava em silêncio, acessando a próxima camada de acesso restrito.
Então—
"...Mas que merda...?"
Kai se virou.
Ela estava congelada, olhos presos na tela, o corpo inteiro estático. Algo no tom da voz dela fez o sangue de Kai gelar.
Ela não olhou pra ele.
Apenas para a tela.
A voz dela baixou.
"Kai... você precisa ver isso."
Kai se moveu rápido, cruzando a sala de controle e parando ao lado de Asuka.
"O quê? O que foi?" perguntou, a voz baixa, urgente.
Ela não respondeu de imediato.
Apenas ficou ali.
E então ele viu.
No topo do documento:
PROJETO: ADÃO
O nome bateu como um pulso no peito dele.
"Projeto... Adão?" Kai sussurrou. "O que é isso?"
"Não sei..." murmurou Asuka, lendo rápido. "Mas seja o que for—é ruim."
O arquivo estava fortemente censurado, parágrafos inteiros cobertos por tarjas pretas—mas fragmentos ainda vazavam.
Entidade classificada como ADÃO—fonte dos Anjos.
Localizada sob o Dogma Central para estudo e contenção contínuos.
Essencial para o Projeto de Instrumentalidade Humana.
Unidades Evangelion derivadas de [CENSURADO] — monitorar tensão psicológica dos pilotos em proximidade a—[CENSURADO]
Asuka rangeu os dentes. "Tsc. Eles sempre censuram as partes boas."
Os olhos dela se fixaram em uma única linha perto do final.
Ela leu em voz baixa, quase um sussurro.
Shinji Ikari — Candidato Potencial a Experimento de Contato
Ela encarou a tela.
"Kai... o que diabos eles estão planejando pra ele?"
Kai não respondeu. Seus pensamentos gritavam.
Projeto de Instrumentalidade Humana. Evas vindos de Adão. Shinji... escolhido para um experimento de contato?
"Isso é ouro," ele murmurou. "Se ao menos conseguíssemos entender tudo..."
Asuka olhou da tela para o canto da sala, onde a câmera escondida agora gravava cada segundo. "Esse Projeto de Instrumentalidade... parece grande. E os Evas são derivados de quê? Adão? Isso quer dizer—"
Ela se interrompeu.
Não queria dizer.
Mas Kai já tinha dito.
"A gente tá pilotando... Anjos?"
E agora o Shinji estava sendo considerado para algo chamado "experimento de contato". Um termo vago o suficiente para ser apavorante.
O celular de Kai vibrou.
Uma mensagem.
Misato: "Estamos indo pra casa. Espero que vocês dois não estejam fazendo nada idiota."
Asuka se inclinou, lendo a tela. "Tsc. Precisamos sair daqui. Agora."
Kai encarou o arquivo uma última vez.
PROJETO: ADÃO
Aquela criatura aprisionada... era Adão?
Eles correram.
Não de alarmes—nenhum havia soado—mas do peso do que agora carregavam.
O Projeto de Instrumentalidade Humana.
Um Anjo capturado selado sob a NERV.
E Shinji—marcado para algo chamado experimento de contato.
Kai mal conseguia respirar, mas não era da corrida.
Era do conhecimento.
Asuka rompeu a tensão como um chicote ao encerrar o terminal, apagar os registros de acesso e sair em disparada pelo corredor. Kai checou a câmera três vezes. Estava ligada.
Então correu atrás dela.
Os dois dispararam pelo corredor, passos ecoando no chão polido, corações disparados. Não falaram. Não havia tempo.
Moviam-se rápido, passos reverberando pelos corredores estéreis. Cada curva parecia poder revelar um guarda—ou pior. Nenhum alarme havia disparado, mas o silêncio agora era mais pesado. Observador.
Não pararam até alcançar uma área não restrita, os pulmões em chamas.
Asuka tossiu, recuperando o fôlego. Então—sorriu de lado.
"Hah. A gente acabou de fazer a melhor infiltração da história da NERV."
Mas o sorriso se desfez. O tom caiu.
"...E a gente acabou de descobrir algo que nunca era pra sabermos."
Ela se virou para ele.
"O que diabos a gente faz agora?"
Kai olhou pra ela, ainda sentindo a adrenalina.
"Pegamos muita informação," disse. "Mas não entendi nem metade."
Respirou fundo.
"...Talvez a gente precise envolver a Misato nisso."
Asuka não discutiu.
"Vamos correr pra casa dela," ele disse.
Asuka assentiu.
Capítulo 95: Eco Residual / Ele Disse Que Ela Ainda Está Aqui
Eles se moveram rápido—andando despreocupadamente pelos corredores principais da NERV, depois disparando numa corrida assim que saíram do prédio.
Tokyo-3 passou zunindo ao redor deles, enquanto o céu mergulhava no crepúsculo.
Asuka acompanhava o ritmo de Kai, respiração constante, cabelo esvoaçando atrás.
Ela estava sorrindo. Um sorriso de verdade.
"A gente acabou de roubar informação ultrassecreta debaixo do nariz do Gendo," disse ela. "Se ele descobrir... ah, ele mata a gente."
Ele riu.
"Então é melhor garantir que ele não descubra."
Chegaram à escadaria do apartamento da Misato.
Trancada.
É claro.
Kai desabou nos degraus, ofegante. "Agora... a gente espera."
Olhou para Asuka. "Ela disse que vem. Espero que com o Shinji."
Asuka sentou ao lado dele, de braços cruzados. Estava ligada no 220—mas não só pela adrenalina.
Sob o tom cortante da voz, havia outra coisa.
Incerteza.
"Não acredito que a gente conseguiu mesmo," murmurou. Depois, olhando de lado—"Nada mal, Selvinha. Você não estragou tudo."
Kai deu um meio sorriso.
Então o tom dela mudou de novo.
"Mas caramba... o que a gente faz com isso? `Instrumentalidade'? `Adão'? Evas feitos de um Anjo capturado? O que tudo isso significa?"
Ele não teve tempo de responder.
O celular vibrou.
Misato: "Tô quase em casa. Melhor vocês não terem arrombado a porta."
Kai riu. "Ela tá brincando."
Asuka revirou os olhos. "Ela sempre brinca, até quando tá brava."
Kai sorriu para a tela. "Acho que ela tá começando a parar de me odiar."
Asuka lançou um olhar impassível.
"Ah, por favor. Ela nunca te odiou—só tava decepcionada com a tua idiotice."
Ela deu um empurrãozinho nele com o pé. "Mas é... talvez você esteja subindo da cova. Por pouco."
O tom dela suavizou. Um pouco.
"E aí, gênio. A gente vai contar tudo pra ela?"
Kai hesitou. "Eu quero. Mas... vamos ver o que ela conta primeiro. Se ela confiar na gente o bastante pra abrir o jogo... a gente confia de volta."
Asuka assentiu devagar.
"É. Provavelmente é mais inteligente assim."
E então—sorrindo de novo—
"Mas só pra constar, quando ela explodir? A culpa é toda sua."
Antes que Kai respondesse, passos ecoaram no corredor.
A voz da Misato chamou, leve mas cansada. "E aí, seus gremlins—o que vocês tão cochichando aí?"
Ela surgiu na curva, as chaves já na mão, Shinji logo atrás.
Ele parecia... estranho.
Não só exausto—algo mais profundo. Os ombros caídos de um jeito que Kai não via desde os primeiros dias. Como se o corpo inteiro dele quisesse desaparecer.
Misato destrancou a porta com um giro rápido. "E aí? Vão entrar ou não?"
Kai forçou um sorriso. "Sim, senhora. Até que enfim!"
Misato ergueu uma sobrancelha com o entusiasmo dele, mas apenas suspirou. "Tsc. Parece até que ficaram trancados para fora no meio de uma tempestade."
Asuka passou por ele com um virar de cabelo. "Você demorou horrores, Misato." Jogou a mochila no sofá, já se espreguiçando como se fosse dona do lugar.
Mas Kai não se moveu de imediato.
Seus olhos ainda estavam em Shinji.
O garoto não dissera uma palavra. Entrou devagar, atrás da Misato, os movimentos lentos, como se a gravidade fosse maior só pra ele.
Kai o seguiu, fechando a porta com cuidado.
Misato largou a bolsa perto do balcão e abriu uma cerveja com a prática de sempre. "Cerveja primeiro. Depois eu lido com a confusão de vocês."
Shinji ficou parado perto da sala, sem se mover. Não olhou para Kai. Nem para Asuka.
Kai se aproximou.
"Tudo bem com você, cara?" perguntou, com a voz baixa.
Shinji se sobressaltou.
Como se nem tivesse notado a presença de Kai.
Ele assentiu rápido demais. "Tô bem."
Mentira.
As mãos estavam fechadas em punhos ao lado do corpo, os braços rígidos, como se se preparasse para algo que ainda não aconteceu. Ele olhava para o chão.
Asuka percebeu.
Cruzou os braços e chegou mais perto, o olhar afiado. "Tsc. Não, não está."
Ela o encarou, cortante como sempre.
"O que ele fez?"
Não precisava dizer o nome.
Gendo.
Shinji engoliu em seco. Desviou os olhos. "Nada. Foi só... conversa."
Kai olhou para Asuka, depois de volta para o amigo. Não via Shinji tão fechado assim há semanas—talvez desde o dia em que se conheceram. Ultimamente, ele até parecia mais confiante.
Isso não era normal.
Era ruim.
Ele se aproximou mais, voz suave mas firme.
"Fala com a gente, cara. Você sabe que pode contar, né? A gente tá contigo."
Shinji congelou.
Então—devagar—seu corpo pareceu murchar.
Ele soltou o ar, tremendo levemente, os braços relaxando sutilmente.
"Ele..."
A voz mal saía.
"...ele falou da minha mãe."
O peito de Kai apertou.
Shinji ergueu os olhos—finalmente—e encontrou os dele.
"Ele disse que ela ainda está aqui."
Silêncio.
A cabeça de Asuka virou na hora. "O quê?"
A voz de Shinji falhou. "Ele disse que ela ainda está dentro da Unidade-01."
A sala parou.
Sem piadas.
Sem sorrisos.
Nem mesmo um suspiro.
Apenas o peso daquela frase, afundando no meio da sala como chumbo.
As palavras ficaram ali, como fumaça no ar—grudando, sufocando, impossíveis de ignorar.
Kai o encarava, a respiração presa entre a incredulidade e uma estranha compreensão.
"Tipo... a alma dela?" perguntou baixinho. "Como isso é possível? E por que falar isso agora?"
Shinji assentiu devagar, as mãos se fechando em punhos pálidos.
"É... a alma. Ele disse que ela não morreu. Que durante o experimento com o Eva... ela foi absorvida."
A voz falhou.
"É por isso que a Unidade-01 funciona comigo. Porque ela está lá."
Do outro lado da sala, Asuka cruzou os braços, expressão ilegível.
"Tsc. Então aquele desgraçado mexeu com a sua cabeça."
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A voz dela era seca, cortante demais pra ser casual.
"Deixa eu adivinhar. Não foi porque ele se importa. Ele quer alguma coisa."
Shinji engoliu em seco, abaixando a cabeça.
"Ele disse que eu devia aceitar. Que o Eva não é só uma máquina. Que eu devia..."
Ergueu os olhos outra vez, vazios.
"Ele quer que eu... use isso. Que eu..." Hesitou.
Kai sentiu um arrepio subir pela espinha.
"Que ele quer o quê? Fala logo!" disse, tentando manter a voz contida.
Os olhos de Shinji se desviaram.
"Eu não sei o que fazer," sussurrou. "Não sei se consigo."
Kai se aproximou, pousando uma mão firme no ombro dele. Sabia que não podia pressionar mais.
"Não se preocupa. Você não tá sozinho. A gente vai descobrir juntos o que fazer."
Depois fez uma pausa, olhando para a cozinha—Misato ainda encostada no balcão, meia cerveja na mão, olhar propositalmente distante.
Voltou-se para Shinji. "Você chegou a ver a Rei?"
Shinji hesitou. "Sim. Ela tava lá."
Olhou para baixo, a voz ainda mais baixa. "Ela não falou muito. Só ficou ao lado do meu pai. Como sempre."
Então—a voz caiu mais ainda. "Mas teve algo... diferente."
Olhou para Kai de novo, com uma expressão assombrada. "Ela me olhou como se já soubesse de tudo. Como se nada do que ele disse fosse novidade."
Respirou fundo.
"E quando eu saí, ela falou uma coisa estranha. Disse: `Agora você entende. É por isso que você foi escolhido. Esse é o seu propósito.' "
Asuka bufou. "Ótimo. Mais poesia enigmática da Garota Maravilha."
Mas Kai não riu.
Nem Shinji.
Havia um peso naquelas palavras. Uma forma que ainda não estava completa, mas já tomava contorno.
Shinji olhou para ele de novo. Como se houvesse mais a dizer. Mas não disse.
Kai trocou um olhar com Asuka.
Ela não disse nada—mas ele viu nos olhos dela. Ela também estava conectando as peças.
"Acho que..." ele começou devagar, "tô começando a entender. Um pouco, pelo menos. Sobre o plano do Gendo."
Kai olhou em direção à cozinha.
Misato bebia sua cerveja, fingindo não estar prestando atenção.
Mas estava. Ele já conhecia bem o suficiente—ela ouvira cada palavra.
Ele respirou fundo.
"A gente precisa conversar com a Misato."
Capítulo 96: Erro Humano / Relatório Deslacrado
O apartamento ainda ecoava com o zumbido discreto da vida—o tráfego distante lá fora, o leve tilintar da lata de cerveja de Misato no balcão—mas, por dentro, o ar estava mudando. Algo denso pairava entre eles. Kai sentia isso no peito, uma espécie de pressão que nem mesmo o cockpit de um Eva poderia imitar.
Ele estava ali, de pé, com as mãos nos bolsos, os olhos indo e vindo entre Shinji, Asuka e Misato. A lata de cerveja parou no meio do caminho até os lábios de Misato.
"Misato... a gente precisa conversar." disse Kai, com um sorriso puxando o canto da boca. "Mas o clima tá muito pesado. Me passa uma cerveja?"
Misato bufou no meio do gole, quase engasgando.
Ela abaixou a lata e ergueu uma sobrancelha para ele. "Ah, claro, Kai. Deixa eu só entregar bebida alcoólica pra um menor de idade de castigo enquanto ainda tenho emprego."
Ela se recostou, os braços cruzados de forma casual—mas havia cálculo em seu olhar. "Muito esperto. O que você quer de verdade?"
O gelo era fino. Ele podia sentir.
Kai deixou o sorriso permanecer por um segundo a mais. Depois, ele sumiu.
"Misato... o que diabos aconteceu hoje lá embaixo?"
Silêncio.
Ele a observou soltar o ar, longo e controlado, enquanto pousava a cerveja com um baque abafado. Ela não respondeu de imediato.
Seu olhar percorreu o grupo. Shinji, ainda retraído, mas atento. Asuka, de braços cruzados, inexpressiva. E então, finalmente, Kai.
"Você realmente não deixa passar nada, né?" ela murmurou.
O tom era leve, mas os olhos não.
Ela suspirou de novo.
"Escuta. Era confidencial. E antes que você comece a reclamar, não é porque eu queria te manter no escuro—é porque eu queria proteger vocês. Não havia nada que algum de vocês pudesse fazer. Deus, nem eu pude fazer muita coisa."
Sua voz suavizou um pouco.
"Mas... ok. Você quer a verdade? Tudo bem."
Ela soltou o ar, caminhou até o balcão e se recostou nele com uma expressão cansada.
"Logo cedo, esta manhã, o sistema Magi foi atacado."
Isso chamou completamente a atenção de Asuka. Ela se endireitou, os braços baixando ligeiramente. "Espera—o quê?"
Misato assentiu. "Não foi um hack nem um defeito. Foi um Anjo. Um digital. Ou o que quer que signifique ‘digital’ quando se trata dessas coisas."
Ela passou a mão pelos cabelos, a voz tensa. "Ele infectou o sistema como um vírus. Rápido. Inteligente. Ficava se adaptando—contornando protocolos, enganando defesas, se reescrevendo em tempo real. Se a Ritsuko não tivesse agido imediatamente, teríamos perdido tudo. Autoridade de comando, defesa, até os gatilhos de autodestruição."
Kai piscou. "Então era isso que vocês estavam enfrentando lá embaixo? Um Anjo digital?"
Misato assentiu de novo. "O nome dele é Ireul. Pelo menos, foi assim que o Magi o rotulou."
Ela lançou um olhar rápido para Shinji, depois desviou novamente.
"Não havia motivo para acionar os Evas. Nenhuma razão pra alertar os pilotos. Foi uma batalha técnica—sistemas internos apenas. E vencemos, graças à Ritsuko, à Maya e a uma reescrita de código bem agressiva. Sem baixas. Sem explosões."
Ela balançou a cabeça.
"E antes que você comece a fazer conexões—não. Isso não teve nada a ver com o Gendo chamar a Rei e o Shinji. Foi decisão dele. Ele mandou a gente lidar com o Anjo enquanto ele... cuidava dos próprios assuntos."
Os olhos de Misato se estreitaram, a voz agora baixa e amarga.
"Timing perfeito, né? Um ataque de Anjo, o Magi sob ameaça, e ele acha que é o melhor momento pra um encontro pessoal com o filho."
Ela bufou, depois olhou para Shinji de novo.
"Ele nem se ofereceu pra ajudar. Só disse que a gente era mais do que capaz, e que ele tinha... assuntos a tratar."
Kai olhou para Asuka. Sua expressão havia ficado fria.
"Inacreditável," ela murmurou. "A gente podia ter perdido tudo, e ele está ocupado brincando de manipulação psicológica."
Misato não contestou.
Ela apenas parecia exausta.
Seus olhos pousaram em Shinji e permaneceram ali por um instante.
Depois, voltaram para Kai.
"Então? Veio até aqui só pra me interrogar?" ela perguntou, se inclinando. "Ou tem mais alguma coisa que não está me contando?"
Kai sustentou o olhar.
Não piscou.
Então, devagar, sentou-se no sofá e olhou para Asuka.
"Aham," disse. "Acho que é a hora."
Asuka não se mexeu por um segundo.
"Tsc. Tudo bem," murmurou. "Mas ela vai surtar—não diga que eu não avisei."
Ela se virou para Misato, ainda de braços cruzados.
Os olhos de Misato se arregalaram levemente. "Ooooh, é sério? Tão ruim assim?"
Ela deu mais um gole na cerveja, depois a pousou com um tilintar suave. "Certo. Manda ver. O que diabos vocês dois aprontaram?"
Capítulo 97: Silêncio Predeterminado / Conversas Que Não Deviam Existir
Kai expirou lentamente.
"Misato... primeiro, você precisa parar com esse papo de `vocês não podem saber, é pra sua própria proteção'. Certo?"
A sobrancelha de Misato se ergueu. "Ah, é mesmo? E por quê, espertinho?"
Ela inclinou a cabeça, a voz endurecendo.
"Você acha que eu gosto de esconder coisas de vocês? Que eu curto ficar tão no escuro quanto você, metade do tempo?"
Mais uma respiração.
"Não se trata de confiança, Kai. Se trata do quão perigosa a verdade é."
Ela deu um passo adiante.
"Então se você está me dizendo pra `parar com o papo furado', é melhor ter um maldito bom motivo."
Seu olhar deslizou de Kai para Asuka, para Shinji, e de volta.
"O que diabos vocês dois descobriram?"
Kai sustentou o olhar dela. "Bem... vou começar do início."
Asuka se recostou na mesa, tamborilando os dedos com impaciência, mas assentiu. Shinji estava sentado, rígido, olhos baixos, ainda abalado pelo que havia acontecido mais cedo—mas presente.
Kai voltou-se para Misato.
"Ok... lembra do último teste de sincronização?"
O olhar de Misato se estreitou imediatamente.
"Lembro. Aquele em que você teve aquela... reação estranha." Ela cruzou os braços, a voz baixa e afiada. "O mesmo em que o Fuyutsuki mandou encerrar tudo e te arrastou pro gabinete do Gendo."
Ela se inclinou um pouco para frente, o ar ficando mais denso.
"Eu já sabia que tinha algo errado. Mas acho que você está prestes a me contar o quanto eu realmente não sei."
Kai assentiu.
"Eu não escondi nada de você. Eu vi uma cidade em ruínas, um céu vermelho-sangue e uma coisa enorme... no fundo. E uma voz—me dizendo que eu não estava completo."
Misato não se moveu.
"Sim," ela murmurou. "Eu lembro."
Kai confirmou com a cabeça. "Mas o Gendo... ele sabia mais."
Os olhos de Misato travaram nos dele.
"O que ele te disse?"
Kai respirou fundo.
"Quando cheguei no gabinete, ele estava frio. Distante. Como se já tivesse o roteiro inteiro planejado."
Ele se recostou levemente, revivendo a conversa na memória.
"Disse que vinha me observando. Estudando minha sincronização com a Unidade-04. Dizendo que não é só alta, é diferente. E dava pra ver que nem ele conseguia explicar o motivo."
Misato se virou bruscamente, os olhos indo de um para outro. "Espera. Você está dizendo... que o Gendo não sabe por que você está aqui?"
Kai fez que sim com a cabeça.
"Exatamente isso. Ele me chamou de anomalia. Praticamente disse que eu não me encaixo no mundo controlado dele."
Ela soltou o ar com força, passando a mão pelos cabelos.
"Isso significa que ele não te vê apenas como um piloto—ele te vê como um risco."
Kai assentiu novamente. "Ele admitiu. E ainda soltou outra bomba: confirmou que a Unidade-04 fazia parte de um experimento na filial de Nevada. O experimento falhou. Toda a instalação foi destruída."
Ele fez uma pausa.
"Mas a Unidade-04 sobreviveu. E, de alguma forma, eu sou o único que conseguiu sincronizar com ela."
"Depois, ele transformou tudo numa espécie de teste filosófico, perguntando se eu acreditava em coincidências."
O tom de Kai endureceu.
"Ele queria medir o quanto eu já sabia. E antes de me dispensar, deixou claro: vou ser monitorado de perto, em busca de novas anomalias."
Misato o encarou.
Sem piadas. Sem sarcasmo. Apenas um silêncio cru e calculado.
E então, finalmente—
"Filho da puta."
Ela bateu a cerveja na bancada e se levantou, começando a andar de um lado pro outro.
"Não só ele te vê como uma variável fora do controle, mas agora você confirmou as suspeitas dele. E Nevada... meu Deus."
Ela parou no meio do passo, a respiração travando.
"Eu sabia do acidente. Nevada foi riscada do mapa—completamente apagada, anomalia sísmica, zero sobreviventes."
Ela se virou, a voz mais baixa agora.
"Mas eu não sei como recuperaram a Unidade-04."
Ela olhou para Kai de novo.
"nunca disseram uma palavra sobre como encontraram o Eva. E nunca disseram uma palavra sobre como encontraram você."
Ela se virou completamente para ele, a voz agora firme, mas mortalmente séria.
"Se o Gendo te vê como algo que ele não pode controlar... então ele já está pensando em como te neutralizar."
Kai olhou ao redor da sala. Misato. Asuka. Shinji.
E então ele disse.
"Bem... agora vem a parte difícil."
Kai não piscou. "Depois de tudo isso, a gente percebeu... o quão pouco realmente sabe. E o quanto a NERV está escondendo da gente. Eu só... precisava saber mais. Rápido."
Asuka não hesitou.
"Então a gente começou a cavar."
Havia adrenalina em sua voz agora. A empolgação da descoberta.
"E olha, Misato... a gente encontrou muita coisa."
Os olhos de Misato se aguçaram.
"Cavar?" ela repetiu, a voz baixa. Perigosa.
Dava pra ver no rosto dela agora.
A constatação.
"Kai. Asuka. O que diabos vocês fizeram?"
Kai se inclinou para frente no sofá, os cotovelos nos joelhos, a voz firme apesar da tempestade que estava prestes a soltar. Ele fixou o olhar em Misato mais uma vez.
"A gente meio que descobriu parte de... algo grande."
Misato congelou.
Não se sentou.
Seus olhos se estreitaram.
"Vocês... o quê?"
Asuka cruzou os braços, com um leve sorriso. "Ah, você vai adorar essa."
Misato gemeu. "Certo, gênio. Começa a falar."
Kai deu de ombros levemente, um sorriso torto se formando. "Sou uma variável fora do controle, né? Então que eu agi assim."
Misato gemeu mais alto. "Não. Não, não, não. Esse tom? Essa cara? Já tô odiando."
"Kai. O que. Você. Fez?"
Asuka jogou o cabelo para trás como um troféu. "Ah, só um pouquinho de espionagem inofensiva. Nada demais."
Misato passou a mão no rosto. "EU SABIA. Vocês invadiram alguma coisa, não foi?!"
Shinji piscou, atônito. "Espera... vocês realmente fizeram isso? Vocês entraram lá?"
Misato voltou a andar até o balcão e apontou para Kai.
"Certo. Você conseguiu minha atenção. Conta tudo."
Capítulo 98: Verdade Enterrada / O Primeiro Anjo Dorme Abaixo
O apartamento já não era apenas um lar.
Era uma sala de guerra.
Kai estava de pé, com as mãos apoiadas no encosto do sofá, o coração disparado. Misato permanecia no balcão da cozinha, a cerveja esquecida, os braços cruzados como uma soldado aguardando ordens. Asuka rondava por perto, o fogo estampado na postura. Shinji estava rígido, silencioso, os olhos arregalados como se o ar ao redor tivesse congelado.
"Bem," disse Kai, tentando manter a voz firme. "Depois que encontramos você na NERV hoje... fizemos um pequeno desvio antes de sair."
Os olhos de Misato se aguçaram, sua expressão se fechando como um torno.
"Um desvio."
Asuka sorriu de lado e bateu com o cotovelo. "Mais tipo um pequeno passeio não autorizado."
Os nós dos dedos de Misato ficaram brancos sobre a borda do balcão. Sua voz caiu, fria e afiada.
"Vocês dois invadiram um setor classificado da NERV, não foi?"
Asuka deu de ombros pela metade. "Invadir? Não exatamente. A gente só pegou emprestado um cartão de acesso que... estava dando sopa."
Kai prendeu a respiração. Misato nem perguntou de onde veio o cartão.
"A gente explorou," disse ele. "Tínhamos como objetivo chegar ao Dogma Central."
O sorriso de Asuka diminuiu um pouco. "Sim, mas o caminho direto estava selado. Escaneamento biométrico—apenas para o Comandante."
Misato se enrijeceu. Todo seu corpo pareceu travar.
"Nível de Comandante?" Sua voz cortou o ar da sala. "Vocês tentaram acessar uma área exclusiva do Gendo? Kai—em que diabos você estava pensando?"
Ele deu um passo à frente, com um tom de aço na voz.
"Eu estava pensando que não tenho tempo. O Gendo pode me apagar do tabuleiro a qualquer momento."
Misato o encarou como se visse um pavio se acender.
"Nunca diga isso de novo."
Sua voz era cortante. Definitiva. Não era raiva—era convicção.
"Você acha que eu quero ficar cega? Que prefiro deixar o Gendo decidir o que posso entender?" Sua mandíbula se contraiu. "Você é imprudente. Impulsivo. Mas não está errado."
Ela se inclinou sobre o balcão, os dedos se curvando ligeiramente sobre a borda.
"Então. O que vocês encontraram lá embaixo?"
Kai hesitou.
"Registros. Censurados, mas ainda legíveis em partes. Detalhavam o Segundo Impacto. E Adão."
A expressão de Misato vacilou, por um segundo. Depois, se endureceu.
"Que tipo de detalhes?"
"Alto nível. Mencionavam um experimento de contato. Nada de meteoro. A explosão foi causada pela reativação do Primeiro Anjo, Adão. Usaram algo chamado Lança de Longinus."
A respiração de Misato falhou, mas ela não disse nada.
Kai continuou, com mais cuidado agora.
"Isso desencadeou algo... um Campo Anti-A.T. Foi isso que causou o colapso. Esse... foi o verdadeiro Segundo Impacto. Não um meteoro. Não um acidente. Duas bilhões de vidas perdidas por causa desse `experimento'."
Shinji soltou um som, quase inaudível. "Duas... bilhões?"
A voz de Asuka cortou o ar, baixa e afiada. "O relatório citava uma expedição. Era chamada Expedição Katsuragi."
Misato não respondeu de imediato. Seu rosto ficou ilegível, distante.
"Misato?" perguntou Kai, com suavidade.
Ela assentiu uma vez, lentamente.
"Meu pai."
Sua voz era baixa. Fria. Quase clínica.
"Eu sempre soube que ele fez parte. Obcecado em desvendar a verdade sob a Antártida. Achava que podia encontrar alguma... equação divina. A fonte da vida."
Ela engoliu em seco.
"Mas nunca me disseram o que realmente aconteceu. Nunca falaram que era Adão. Nem que tentaram despertá-lo."
Sua mão se agarrou ao balcão, os nós dos dedos brancos. Sua voz falhou, apenas um pouco.
"Eu sobrevivi ao Segundo Impacto. Ele não. Sempre o culpei... mas agora, nem sei se a ideia foi dele. Ou da SEELE."
Kai deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles.
"Misato... sinto muito."
Ela não o olhou.
"Eu lembro da luz," ela sussurrou. "Do céu ficando vermelho. Do mundo se despedaçando. E agora você me diz que eles sabiam. Que causaram tudo. Meu pai... pode ter desencadeado o fim do mundo."
Asuka cruzou os braços com mais força, a voz amarga. "Então os Anjos não são a maior ameaça. São eles. SEELE. Gendo. Os que puxam todas as cordas nas sombras."
Misato se virou para eles. Seus olhos queimavam.
Kai assentiu. "Sim. E a gente viu. Adão. Uma criatura gigantesca. Está guardada sob o Dogma Central."
Asuka cruzou os braços. "O relatório dizia que é essencial para algo chamado Projeto de Instrumentalidade Humana."
Misato se enrijeceu. Sua voz caiu. "Instrumentalidade Humana..."
Ela ficou em silêncio por um longo momento.
Então sussurrou, "Eu não sei o que é. Mas está nos arquivos do Gendo desde o começo. Maior que a NERV. Maior que os Anjos."
"Não sei tudo. Mas sei disso—Gendo Ikari não comete erros. Se Adão está abaixo de nós... e esse tal Projeto de Instrumentalidade é real... então não estamos aqui apenas para deter os Anjos."
Ela baixou os olhos.
"Estamos aqui para concluir algo que começou com meu pai."
Uma pausa. Então ela ergueu o olhar novamente, duro e claro.
"Kai. O que mais vocês encontraram?"
Kai olhou para Asuka. Ela deu um leve aceno.
"Havia mais duas coisas no arquivo. Uma estava censurada. `Unidades Evangelion derivadas de...'
alguma coisa."
A respiração de Misato travou. Ela fechou os olhos.
"Os Evangelions não foram construídos. Foram cultivados."
Sua voz mal era audível.
"Não são máquinas. São... clones. Biotecnologia. Fragmentos de algo antigo."
Ela se virou de novo. Um punho cerrado, tremendo levemente.
Depois, voltou o olhar.
"Você disse que eram duas coisas."
Kai hesitou.
"Sim," disse baixinho. "Tem. A segunda coisa... envolve..."
Ele olhou para Shinji.
"...o Shinji."
Capítulo 99: Ponto de Desvio / Ele Não Planejou Minha Presença
Shinji congelou no segundo em que Kai disse seu nome.
Seus olhos saltaram de um para outro—Kai, Asuka, Misato—como se procurasse um jeito de sair da sala, do momento, da conversa inteira.
"...Eu?"
Sua voz era pequena. Oca.
Misato se endireitou, qualquer traço de energia casual evaporando. "Kai, o que diabos você quer dizer com isso?"
Asuka desviou o olhar, de braços cruzados.
Kai respirou fundo. "O relatório listava o Shinji como um possível candidato para algo chamado `Experimento de Contato'."
Silêncio—denso e prolongado. Como se o próprio ambiente tivesse parado de respirar.
O punho de Misato se fechou lentamente.
Sua voz, quando veio, era gelo. "Um Experimento de Contato?"
Ela apertava o balcão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
"Kai. Me diga exatamente o que estava no relatório."
Kai ergueu as mãos, em sinal de rendição.
"Desculpa desapontar, mas... era só isso que dizia. Né, Asuka? Tô esquecendo de algo?"
Asuka balçou a cabeça, o maxilar tenso. "Não. Era só isso. Apenas a linha. `Shinji Ikari – Candidato Potencial para Experimento de Contato'."
Ela soltou o ar pelo nariz, frustrada. "Tsc. Mas a gente não precisa de um relatório completo pra saber o que isso significa, né?"
Misato não disse nada.
Shinji parecia feito de vidro. Pálido. Imóvel.
"Eles estão planejando alguma coisa," disse Asuka. "E ele é o centro disso."
Kai conseguia ver. A maneira como a respiração de Misato mudava. O fogo em seus olhos. Não era a fúria justa de sempre—era mais fria. Mais precisa. Era medo.
Kai continuou. "Eu não sei o que ele quer fazer... mas... tem algo estranho nisso. Não sei se esse era o plano original, ou apenas uma forma de garantir o mesmo resultado que ele queria desde o início. Talvez ele esteja se adaptando. Improvisando pra chegar ao mesmo fim."
Shinji continuava calado. Kai sentia que ele sabia mais do que dizia. Mas não ia perguntar. Pelo menos, não agora.
Misato se endireitou, a voz baixa. "A gente precisa parar isso."
Kai se levantou, tentando cortar o pavio antes que a carga explodisse. "Ei... eu entendo. Mas escuta. A gente tem alguma vantagem, não vê?"
Misato virou o olhar bruscamente para ele. "Vantagem?"
Ela se conteve. Respirou fundo. "Certo, Kai. Explica. O que você acha que a gente tem que o Gendo não tem?"
Os olhos de Asuka brilharam levemente. "Tsc. Ele tem um ponto. A gente ainda não tá completamente ferrado. Ainda."
Shinji ergueu o rosto, a expressão ainda abalada—mas havia algo nos olhos dele agora. Uma fagulha.
Kai ergueu o queixo, abrindo os braços. "Bom... não quero parecer convencido, mas... vocês têm a mim. A carta fora do baralho. A única coisa que o Gendo não previu."
Misato piscou.
Depois balançou a cabeça. "Pelo amor de Deus. Você realmente acha que só você é vantagem suficiente contra o Gendo?"
Mas seu tom era menos cético do que antes.
Misato estudou Kai. "Então o quê? Você acha que só porque não fazia parte do plano, agora pode mudá-lo?"
Kai hesitou.
Depois assentiu. "Pra falar a verdade, eu não tenho certeza. Acho que ele sabe mais sobre minha visão. mas não como ela aconteceu. Nem o porquê. Além disso... eu ainda tô aqui, certo? Talvez ele ache que eu sou útil. E enquanto isso for verdade... talvez eu esteja seguro."
Misato não contestou.
Ela recuou um passo, refletindo. "Então o Gendo não te vê apenas como uma anomalia," disse ela lentamente. "Ele te vê como um risco controlado."
Ela assentiu para si mesma, mais certa agora. "Mas, se ele não sabe o que você vai fazer em seguida, então a gente tem algo que ele não tem."
Shinji olhou de um para outro. "Então... a gente pode mesmo mudar as coisas?"
Asuka bufou. "Claro que pode. E se isso irritar o Gendo no processo? Melhor ainda."
Misato cruzou os braços, a voz afiada. "Certo. Então qual é o próximo passo? Porque se o Gendo está planejando algo com o Shinji, a gente não pode ficar aqui sentado esperando."
Ela se inclinou para frente. "Kai. O que a gente faz agora?"
Kai sorriu. "Me passa uma cerveja e eu te conto."
Misato o encarou.
Depois bufou, exasperada. "Boa tentativa, espertinho. Você é uma criança. Vai de refrigerante. Agora fala."
Kai ergueu a mão. "Mas é exatamente isso que tô dizendo. Você é a adulta e eu sou só a criança com o refrigerante. Você que me diz!"
Capítulo 100: Trégua Temporária / Nada de Missões Solo
Misato piscou.
"Ah, meu Deus."
Ela caiu na gargalhada, esfregando o rosto como se não acreditasse que aquilo tudo era real.
"Vocês invadem o setor mais secreto da NERV, descobrem segredos que podem acabar com o mundo—e nem têm um plano?!"
Ela se inclinou para frente, as mãos nos quadris, sorrindo apesar de si mesma.
"Kai. Seu absoluto desastre ambulante."
Asuka gemeu, balançando a cabeça. "Tsc. Eu sabia. Você realmente improvisou tudo isso."
Misato respirou fundo e soltou o ar. "Tudo bem. Querem uma estratégia? Passo um—nada de atitudes imprudentes."
Ela apontou para Kai e Asuka. "Chega de expedições não autorizadas no inferno pessoal do Gendo. Nada de invadir terminais restritos. E, pelo amor de Deus, nada de quase me matar do coração."
Então sua expressão mudou—mais afiada, mais calculada. "Passo dois? Coletar informações. Se o Gendo está planejando algo pro Shinji, a gente precisa saber exatamente o quê. Vamos manter os ouvidos atentos. Observar. Eu mesma vou investigar. E quando estivermos prontos—"
Sua voz baixou um tom.
"A gente ataca onde mais vai doer."
Ela sorriu de canto, inclinando a cabeça. "Que tal essa estratégia, Selvinha?"
Kai gemeu. "Selvinha? De você? Eu odeio esse apelido."
Mas levantou as mãos. "Mas ok, ok. A partir de agora, a gente fala com você antes de fazer qualquer idiotice. Mas... na verdade tem mais uma coisinha."
Ele olhou para Asuka.
Ela sorriu. "Ooooh, agora você quer contar?"
Ela se afastou do balcão e encarou Misato. "Certo, Major. Tem... mais uma pequena coisa que esquecemos de mencionar."
Misato ergueu uma sobrancelha, se preparando. "Vocês só podem estar de brincadeira. Tem mais?!"
Ela beliscou a ponte do nariz. "Preciso de uma bebida mais forte."
Depois olhou de volta para Kai. "Certo. O que mais vocês fizeram?"
Kai tentou soar casual. "Digamos que... talvez a gente tenha mais informações amanhã."
Misato congelou. "Ah, não. Não, não, não—o que diabos vocês dois armaram?!"
Ela se inclinou para frente, os olhos fixos nele. "Vocês estão com outra coisa em andamento?! E só agora estão me contando?!"
Asuka sorriu. "Relaxa. Já está feito. Sem volta agora."
Misato gemeu. "Eu vou enlouquecer. Tudo bem. Fala logo. O que acontece amanhã?"
Kai coçou a nuca. "Amanhã a gente vai ter que fazer aquele... pequeno desvio de novo. Pra buscar uma coisa."
Misato o encarou.
Então:
"Ah, meu Deus. Vocês estão me dizendo que—deixaram alguma coisa lá embaixo?!"
Asuka estalou a língua. "Tsc. Você ia reclamar de qualquer jeito."
"ISSO NÃO AJUDA," Misato disparou.
Ela se virou para Kai. "O que você deixou lá?"
Kai levantou as duas mãos. "Um pequeno... dispositivo. De gravação. Bem pequeno, minúsculo, quase nada... uma câmera."
Misato congelou. "Você plantou uma câmera espiã?!"
Ela começou a andar de um lado para o outro. "Vocês dois têm alguma noção?! Sabem o que acontece se forem pegos?!"
Ela parou. "Onde. Exatamente. Vocês colocaram isso?"
Kai a olhou nos olhos. "Na mesma sala de controle onde encontramos os arquivos sobre Adão. Tem visão de tudo. Amanhã a gente volta e recupera."
Misato apenas o encarou.
Então pressionou as duas mãos contra o rosto. "Meu Deus. Vocês são malucos."
Uma respiração longa e profunda.
Então—ela se apoiou no balcão de novo, mais séria do que nunca. "Tudo bem. Vocês já estão enfiados nisso. Mas não estão mais sozinhos. Eu vou colocar vocês lá dentro."
Os olhos de Kai se arregalaram.
Ele sorriu e levantou o refrigerante como um brinde. "Eu sabia que podíamos confiar em você, Misato! Eu sabia que você não tava envolvida! Você sempre teve esse jeitão tão perdido e sem noção! Bem-vinda ao time!"
Um guardanapo acertou o rosto dele em cheio. "Você me chamou de perdida e sem noção?! Sério?!"
"Retiro o que disse," respondeu Misato, seca. "Espero que o Gendo te pegue."
Mas havia um brilho no olhar agora—algo mais leve. Real.
Ela pegou a cerveja e bateu suavemente contra o refrigerante dele. "Tudo bem. Eu topo. Mas daqui pra frente—vocês me escutam. Nada de missões solo. Nada de acrobacias suicidas."
Ela tomou um gole.
"E vamos torcer pra essa sua câmera espiã ter filmado algo. Caso contrário, a gente acabou de declarar guerra contra a NERV por nada."
Asuka sorriu. "Tsc. Relaxa, Misato. A gente não falha."
Kai levantou o refrigerante de novo. "Woohoo! Não tô mais de castigo!"
Misato bufou no meio do gole.
Ela bateu a cerveja na bancada, olhando feio.
"Ahhh, não. Não se empolga, Selvinha. Vocês ainda estão de castigo, sim!"
Asuka caiu na risada. "HAH! Boa tentativa."
Misato apontou para ele. "A única razão de você não estar preso é porque escolheu me contar. Mas no segundo que a gente recuperar essa câmera? Você vai fazer tarefa doméstica o resto do mês."
Ela virou-se para Asuka. "E você também, mocinha."
Asuka cutucou o braço de Kai, ainda rindo. "Tsc. Valeu a pena."
E Shinji—quieto, hesitante Shinji—realmente sorriu. Um pouco.
Pela primeira vez em muito tempo, o ambiente pareceu mais leve.
Eles não eram mais apenas crianças passivas.
"Então, Misato," disse Kai, girando o restinho do refrigerante. "Amanhã a gente vai direto pra NERV? Você consegue criar algum tipo de exercício, teste, qualquer desculpa pra gente ir?"
Misato inclinou a cabeça, pensativa.
"Hmmm... vejamos. Como enfiar dois adolescentes inconsequentes de volta no setor mais secreto da NERV sem levantar suspeita?"
Ela tamborilou os dedos no balcão. "Amanhã de manhã, vão direto pra NERV. Sem escola. Vamos fazer um Teste Comparativo de Sincronização. Todos vocês."
Asuka ergueu uma sobrancelha. "Tsc. O quê, outro teste chato de sincronização?"
Ela tomou um longo gole de cerveja. "Prestem atenção. Vou dar um jeitinho de abrir uma janela pra vocês dois se separarem e pegar a câmera. Se pisarem na bola e forem pegos? Não posso salvar vocês."
Ela fixou os olhos em Kai. "Ainda dentro?"
Kai assentiu, determinado. "Tá brincando? É perfeito."
Misato balançou a cabeça, sorrindo de canto. "Tudo bem então, gênio. Você conseguiu sua chance—só não estraga tudo."
Ela se recostou, os braços cruzados. "Amanhã, vocês pegam a câmera. E caem fora. Sem desvios. Sem `ei, o que será aquele botão vermelho brilhante?' de última hora."
Apontou para Kai e Asuka.
"Sigam. O. Plano."
Asuka sorriu de lado, inclinando a cabeça. "Tsc. Qualé, Misato. A gente é profissional."
Misato deu um longo olhar.
"Vocês dois são a razão de eu beber."
Então—ela soltou o ar, mais suave.
"Chega por hoje. Vão dormir, e amanhã? A gente faz isso dar certo."
Ela abaixou o olhar por um instante. "E depois disso... a gente resolve o que diabos vai fazer com tudo o que vocês descobriram."
Kai se levantou, satisfeito com como tudo terminou. "É... acho que a gente tem que ir, né?"
Misato assentiu, se espreguiçando. "É, é. Sumam daqui antes que eu mude de ideia sobre ajudar."
Ela acenou com a mão, dispensando.
Asuka se colocou ao lado dele, já puxando a mochila. "Tsc. Não sinta saudade demais da gente, hein, Misato."
"Ah, pode deixar," respondeu Misato. "Não vou."
Shinji olhou para cima quando eles se aproximaram da porta. Sua voz era baixa.
"Kai... obrigado. Por tudo."
Misato gemeu dramaticamente. "Ugh. Sentimentos. Que nojo. Saiam da minha casa."
Mas quando Kai e Asuka giraram a maçaneta e saíram, ela acrescentou, quase gentilmente: "Vejo vocês amanhã, crianças."
Kai sorriu. "Tchau, Misato! Tchau, Shinji! Até amanhã!"
E com isso, ele acompanhou Asuka até em casa—sob o brilho suave das ruas crepusculares de Tokyo-3.
Capítulo 101: Intervalo Noturno / Eu Não Vou Deixar Você Fazer Isso Sozinho
Asuka caminhava ao lado de Kai, os braços cruzados, um sorriso familiar puxando seus lábios.
"Tsc. Bem, isso foi melhor do que eu esperava," disse ela, inclinando a cabeça em direção a ele. "Olha só pra você, Selvinha—aprendendo a se comportar com figuras de autoridade."
Ela cutucou o braço dele. "E então? Animado pra amanhã? Ou ainda surtando?"
Kai tentou manter a voz casual. "Animado? É... bom... nem tanto."
Asuka ergueu uma sobrancelha, percebendo a hesitação. Sua voz baixou um pouco. "Tsc. Nem me diga. Você sempre foi imprudente, mas agora? Agora é diferente."
Ela olhou de lado pra ele, o tom provocador sumindo por um instante. "Você não tá mais correndo riscos por diversão. Agora você tem algo a perder."
Ela deixou as palavras no ar antes de suspirar e jogar o cabelo para trás. "Tsc. Bom, já é tarde demais pra voltar atrás. A gente já foi fundo demais."
E então, quase num sussurro—baixo demais pra se ter certeza se ele realmente ouviu:
"E eu não vou deixar você fazer isso sozinho."
Kai assentiu, a voz baixa. "Eu sei que não vai. E fico feliz que a gente esteja nisso juntos."
Asuka olhou pra ele, os passos diminuindo.
Ela não sorriu.
Não de imediato.
Então revirou os olhos com um suspiro leve. "Tsc. Não fica todo sentimental comigo, Selvinha."
Mas ela não desviou o olhar.
Ela cutucou o braço dele de novo, dessa vez com mais suavidade. "Mas é... eu também."
As ruas de Tokyo-3 estavam calmas sob o céu noturno, os prédios brilhando suavemente, a cidade parecendo—pela primeira vez—tranquila.
"Eu... meio que sinto falta," disse Kai. "Sabe? De como tudo era mais fácil antes?"
Asuka parou de andar.
Olhou pra ele, os olhos um pouco mais suaves agora.
"Sim."
Ela cruzou os braços, olhando para o horizonte. "Antes de tudo isso. Antes dos segredos. Antes do peso. Era só... pilotar. Lutar. Vencer."
Ela voltou a olhar para ele. "E fazer... besteiras."
Ela soltou o ar devagar. "Mas a gente não pode... voltar para isso, pode?"
Kai sustentou o olhar dela. "Eu espero que sim. Um dia. Pensar só em sair pra comer sushi, te levar num encontro, jogar videogame, cantar em karaokê, mergulhar em cachoeira, ou só... existir. Eu realmente sinto falta disso."
O rosto dela suavizou. Então—ela resmungou leve. "Tsc. Você é mesmo um idiota."
Mas a voz dela não foi dura.
Ela virou o cabelo com um gesto e murmurou: "Tudo bem. Algum dia, quando tudo isso acabar—quando a gente parar de lutar, de se esconder, de arriscar o pescoço—"
Ela o olhou de lado. "—eu deixo você me levar em mais um daqueles encontros idiotas."
Então o sorrisinho voltou, ainda que discreto.
"Mas se você ficar meloso de novo, juro por Deus que te empurro de uma cachoeira."
Kai sorriu. "HAH—você é incrível."
Asuka revirou os olhos. "Obviamente."
Então—mais suave agora—o sorriso sumiu um pouco.
Ela virou o cabelo dramaticamente. "Certo, chega de drama sentimental. Você tá ficando esquisito de novo."
Ela voltou a andar—mas não muito à frente. "Vamos, Selvinha. A gente tem um longo dia pela frente."
Kai gemeu. "PÁRA COM O `SELVINHA'! Agora até a Misato tá me chamando assim!"
Asuka caiu na risada. "Hah! Meu Deus, isso é perfeito! Agora é sua vida. Aceita logo."
Ela se inclinou, travessa. "A não ser que... prefira que eu te chame de algo mais fofo?"
Kai estreitou os olhos. "Você é impossível! Sabe do que você precisa?... Que eu seja... meloso!"
Asuka recuou imediatamente. "NÃO. NÃO, NÃO, NÃO—NEM PENSE!"
Kai sorriu. "Ahhh... mas você fica tão linda com as luzes da cidade refletindo nos seus olhos azuis tão profundos..."
"PELO AMOR DE DEUS—CALA A BOCA!!"
Ela deu um tapa forte no braço dele. "NÃO ACREDITO QUE VOCÊ DISSE ISSO! VOCÊ É UM—UM—UGH!!"
Ela se virou, cruzando os braços com força, o rosto completamente em chamas. "...Idiota," ela murmurou.
Kai sorriu ainda mais. "O quê? Cadê o `Selvinha'? Duvido você repetir."
Ela se virou de volta, furiosa.
"NÃO ME PROVOCA, SELVI—!!"
No segundo em que disse, percebeu.
"MERDA! VOCÊ...!"
Ela disparou pra frente, resmungando.
"EU TE ODEIO TANTO AGORA!!"
Mas os ombros dela tremiam.
Ela estava rindo.
Kai gritou rindo atrás dela. "O que foi que disse? Não ouvi direito!"
Asuka olhou pra trás, os olhos semicerrados.
"Você está brincando com fogo, SELVINHA."
Ela virou o cabelo, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.
"Tsc. Tanto faz. Não tenho tempo pra isso. A gente tem coisas mais importantes pra lidar."
Então—em voz baixa—
"...Idiota."
Kai sorriu de lado. "Ok, ok. Vou parar... Não vou falar nada sobre como você fica fofa com essa cara de assassina psicopata."
E então—ele saiu correndo.
"MEU DEUS—KAI, EU JURO POR DEUS, VOLTA AQUI!!!"
Asuka saiu correndo atrás dele, gritando ameaças com um sorriso que traía sua diversão.
Mesmo gritando como se fosse matá-lo, ela estava rindo.
E por alguns minutos preciosos sob as estrelas, tudo pareceu normal de novo.
Kai disparava na frente, os pés batendo no asfalto, a risada ecoando atrás dele.
A voz de Asuka cortava a noite enquanto ela o perseguia, assassina no tom e malícia nos olhos. Seus sapatos batiam com força no chão, determinação em cada passo.
"VOCÊ NÃO VAI ME ESCAPAR!!"
Ele alcançou o prédio dela a tempo de se virar, mas antes que pudesse recuperar o fôlego—
WHAM.
Ela o empurrou com força contra a parede, as mãos nos ombros dele, os dois ofegantes. O rosto dela ainda estava vermelho—parte raiva, parte adrenalina, e talvez algo mais que ela não estava pronta pra admitir.
"Você. É. O pior," ela rosnou, cutucando o peito dele com o dedo.
Kai apenas sorriu, levemente convencido.
Ela estreitou os olhos.
Então sorriu.
"Mas tenho que admitir—você sabe como deixar minha vida interessante."
Ela recuou um passo, virando o cabelo com um floreio dramático que só deixou o momento mais perfeito.
"Certo, Selvinha. Cai fora antes que eu te mate de verdade."
Mas quando ela se virou para a porta, ele percebeu—aquele pequeno sorriso. Quase invisível. Suave. Real.
Ela se divertiu.
Kai ficou ali por mais um instante, observando a porta se fechar atrás dela com um clique.
Então se virou e foi embora.
Mais tarde, já deitado na cama, pegou o celular.
E mandou uma mensagem.
"😘"
Alguns segundos depois, o celular vibrou.
Asuka: "Sério? Vai dormir, idiota. 😏"
Ele sorriu.
Deixou o celular de lado.
E fechou os olhos.
Apesar de tudo—o perigo, a incerteza—ele se sentia mais leve.
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