Evanescência

5 Call Me When You're Sober


Notas iniciais
Oi, gente, tudo bem? Enfim, postando o capítulo da semana. A música deste capítulo é Call Me When You're Sober do Evanescence: https://www.youtube.com/watch?v=ggH09V_GAqo&ab_channel=JhessicaF.G.

Não chore para mim
Se você me amasse
Você estaria aqui comigo
Você me quer, venha me encontrar
Faça sua escolha

Era a noite do seu primeiro concerto — a noite que tanto ansiou. Depois de meses, Astoria finalmente estava pronta para subir ao palco junto dos outros músicos. Ela era a integrante mais nova do grupo — a mais nova em tudo, em idade, em experiência e, principalmente, em confiança. Naquela meia hora que antecedeu o início do espetáculo, a jovem esteve de um lado para o outro nos bastidores, conferindo a própria imagem no espelho ou tentando espiar a plateia por entre as cortinas das coxias. Procurava por um certo alguém, mas a cadeira ao lado dos pais ainda estava vazia.

Ela queria que Draco estivesse ali, naquele dia tão decisivo. Durante muito tempo, Astoria viveu uma lógica solitária. Parecia normal não se importar em estar sozinha em seus grandes momentos, porque, no final das contas, não tinha ninguém além dela mesma. Mas, agora, era diferente. Ela queria compartilhar aqueles instantes com Draco, mesmo que o relacionamento dos dois estivesse em suspenso há quase um mês. No fundo, a garota já o havia perdoado. A questão, entretanto, nunca havia sido essa. Nunca foi sobre Astoria perdoar Draco, mas sobre Draco conseguir se perdoar.

Eles nunca poderiam ter algo realmente sólido e saudável se o rapaz não conseguisse se resolver com o próprio passado. Se não conseguisse entender que nada poderia mudar o que passou, mas que ainda era possível mudar o futuro. Aquele era o único meio para se tornar alguém melhor — alguém que ele já era, pois o Malfoy que Astoria conhecia era infinitamente melhor do que aquela criança mimada e cheia de verdades tortas que assombrou Hogwarts por tantos anos. Nenhum dos dois eram pessoas completas e acabadas. No entanto, ambos poderiam continuar crescendo se apenas se permitissem a isso.


Eu deveria ter te deixado cair
E perder tudo isso
Talvez assim você possa lembrar de si mesmo
Não posso continuar acreditando
Nós estamos apenas nos enganando
E eu estou cansada das mentiras
E você está muito atrasado

Astoria afastou a cortina, tentando não se desesperar por Draco ainda não estar ali. Sua irmã também não estava. O concerto ainda não tinha começado. Era, portanto, absolutamente normal que não estivesse. Além disso, ele prometeu que estaria — embora não estivesse certa se a palavra de um bêbado poderia valer de alguma coisa. Draco aparatou na varanda do seu quarto na noite passada, depois de não se verem por dias inteiros. Simples assim. Como se não houvesse um abismo de coisas não ditas e coisas a serem resolvidas entre eles. Como se não precisasse de um aviso prévio para reaparecer em sua vida.

Quando Astoria o viu bater com os punhos em sua janela, desesperado, ela pegou sua varinha, pronta para mandá-lo embora. Podia não parecer, mas ela tinha algum senso de dignidade. Um senso que, infelizmente, esmoreceu no momento em que percebeu que Draco estava bêbado e chorando. Ela franziu o cenho, olhando-o em reprovação, e ficou com pena. Foi esse o sentimento que a fez abrir a janela e deixá-lo entrar... e também porque estava preocupada. Não podia evitar. Ainda sentia todas aquelas coisas estúpidas por Draco.

— Tori — ele chorava. — Eu sou um idiota... um idiota. Me desculpa.

Se estivesse sóbrio, Draco provavelmente se envergonharia por protagonizar uma situação tão humilhante. Astoria controlou a vontade de concordar com ele e simplesmente fez o ex-namorado se sentar na poltrona em frente a sua cama.

— Eu vou preparar um chá — falou, saindo do quarto. Minutos depois, voltou com uma poção revigorante que encontrou no armário da cozinha e uma xícara de chá de hortelã. Enquanto bebia, Draco não parava de chorar e de pedir desculpas. Em um determinado momento, Astoria já nem sabia mais pelo o que o rapaz se desculpava, se pelo seu comportamento da última vez em que se viram ou se por todos os erros que cometeu não com ela, mas com o mundo. Provavelmente era uma mistura dos dois.

— Eu posso dormir aqui? Com você? — perguntou Draco, já cambaleando até sua cama e retirando os sapatos. Astoria crispou os lábios e balançou a cabeça em negativa. — Por favor?

Mais uma vez, Astoria sentiu pena. Considerando o histórico de Malfoy e a educação deturpada que recebeu dos pais, pedir “por favor” era algo relativamente raro para ele. Ela suspirou e o ajudou a se ajeitar na cama. Seu coração era fraco demais, Astoria sabia. Se sentiu estúpida quando se deitou ao lado dele, se deixou ser aninhada por Draco e gostou do calor que emanava do corpo dele. Gostou de sentir o seu perfume tão perto. Ela sentia uma saudade miserável dele, mesmo que dissesse para si mesma que estava “muito bem, obrigada”.

— Amanhã é o meu concerto — falou, afastando uma mecha do cabelo de Draco. Ele estava de olhos aberto, por isso sabia que ainda estava ouvindo. — Eu gostaria que fosse. Poderemos conversar melhor sobre nós depois.

— Eu vou. Prometo — sussurrou. — Mesmo se não tivesse me convidado, eu teria ido. Não perderia o seu primeiro concerto por nada neste mundo.

Dizendo isso, Draco caiu no sono. Ele ainda dormia quando Astoria deixou o apartamento. Retornou no horário do almoço, como sempre fazia, mas Draco já tinha ido embora e havia levado consigo o ingresso que ela deixara propositalmente sobre a mesa de cabeceira. Astoria manteve aquela fagulha de esperança no peito durante o resto do dia.

Ela caminhou até o camarim, sentindo o coração pesar, e encontrou Dafne a esperando, sentada na cadeira dela, de frente ao espelho.

— Então é assim que o camarim do Teatro do Beco Diagonal se parece? — riu. — É menos glamoroso do que achei que seria.

— Como entrou aqui? — perguntou Astoria.

— Eu só tive que dizer que era irmã da Greengrass pros seguranças... sabe, a outra talentosa irmã Greengrass. Eles sabiam quem eu era — Dafne se levantou e andou até Astoria, segurando as mãos dela entre as suas. — Eu queria te ver antes de começarem. E queria também te dizer obrigada.

Ela sorriu para a irmã. Não era só Astoria que se sentia livre para ser o que queria. Dafne também. Dentro de alguns meses, ela se mudaria para os Estados Unidos, onde se casaria com Edward Goldstein. As duas se abraçaram, provavelmente o abraço mais longo que já haviam se dado.

— Você vai arrasar como sempre arrasou. Não seria uma Greengrass se não arrasasse — disse Dafne, antes de ir embora.

Alguns minutos depois, os músicos foram chamados para subir ao palco. Astoria se sentou diante do piano de cauda e, assim que as cortinas se abriram e as luzes sobre ela se acenderam, a jovem soube que estava vivendo o instante que sempre sonhou. Era para aquilo que ela havia nascido: para a música. As notas, o tom, o ritmo, tudo fazia parte do tecido que a compunha e a transportava para um mundo só seu. Ela tocava com amor, com dor, com alegria, com solidão. Astoria deixava de ser ela e se tornava canção. As quase duas horas que se seguiram, acompanhada pelos colegas e regida pela destreza do maestro, foram as horas da sua vida.

Seu coração palpitava quando tudo terminou. Astoria sentia o rosto queimar com os aplausos, mas se sentia plenamente feliz. Nada parecia faltar. Ao menos, era o que pensava... até as luzes da plateia se acenderem e poder enxergar a todos. Seus pais, sua irmã e... só. Aquele único assento continuava vazio. Neste momento, ela soube: não haveria uma nova chance para os dois.

Neste momento, Astoria tomou sua decisão.


Não conseguiu se livrar da culpa
Que vergonhoso
Deve ser exaustivo perder seu próprio jogo
Por si mesmo odiado
Não é de se espantar que esteja esgotado
Você não pode bancar a vítima desta vez
E você está muito atrasado

Notas finais
E aí, gente, o que acharam? O que vai acontecer no próximo capítulo? Draco vacilou de novo ou não? Poderá Astoria perdoá-lo? HAHAHAHA. Enfim, o próximo já é o último capítulo e, então, chegaremos ao fim dessa historinha ;) Beijos e até a próxima :*