Evanescência
6 Forgive Me
Notas iniciais
Será que você me perdoa outra vez?
Eu não sei o que disse
Mas eu não pretendia te magoar
Eu ouvi as palavras saindo da minha boa
E senti que morria
Dói demais te machucar
Draco a esperava no camarim, sentindo-se cada vez mais ansioso. Estava apoiado contra a parede, enquanto observava os outros músicos entrarem e lançarem olhares engraçados em sua direção. Nem se importava. Assim que o espetáculo terminou, o rapaz sentiu o peito inundar com um tipo novo de orgulho. De orgulho por ela. Ele nunca achou que poderia sentir isso por alguém além dele próprio. Acostumara-se a ser sempre o único em seu universo, porém as coisas haviam mudado tanto desde que a conhecera, desde que a viu naquele recital a que nenhum queria comparecer. Ela era diferente na época. Contudo, quem não era? Agora, Astoria parecia mais segura. Mais forte. Mais como ela mesma.
Quando os aplausos começaram, Draco percebeu que não podia aguardar com os outros. Ele precisava ver e falar com a ex-namorada — um título imbecil que não soava bem e que tinha esperança de revogar o quanto antes. Era um idiota por ter causado aquilo? Sim. Mas estava disposto a não ser mais. Levantou-se, lembrando-se do que Dafne havia lhe dito sobre os bastidores do Teatro, e puxou a varinha de dentro do bolso, pronto para lançar qualquer tipo de azaração caso o impedissem de chegar ao seu destino. Com certo alívio, notou que nada daquilo foi de fato necessário. Uma parte sua, a mais moralmente estruturada, odiaria ter que recorrer àqueles velhos termos.
Draco entrou no camarim praticamente vazio, sentindo o peso do próprio coração e da caixinha em seu bolso esquerdo, e esperou. Uma pequena algazarra se formava à medida que os outros integrantes chegavam. Em uma ocasião menos importante, talvez se queixasse daquilo tudo. Mas não era o caso. Definitivamente, não era. Ele ergueu a cabeça por cima dos ombros das pessoas e, então, a viu. Astoria foi a última a entrar. Ela conversava com uma mulher, que Draco reconheceu como uma das violinistas. Sua ex parecia surpreendentemente mais bonita naquela noite, com os cabelos cortados logo abaixo da linha do queixo, os olhos amendoados e brilhantes, o sorriso discreto e aquele provocante vestido verde, que ele desejava poder tirar mais do que tudo.
Assim que Astoria reparou em Draco, a sua expressão se fechou. Qualquer sombra de sorriso desapareceu e ela franziu a testa. Parecia magoada e o rapaz se sentiu a pior criatura do mundo. Sabia que era por sua causa. Ele havia infligido toda aquela dor nela, colocando em risco a coisa mais preciosa que já havia lhe acontecido. Que já havia conquistado. Só esperava não ser tarde demais. Em silêncio e sem encará-lo, Astoria se aproximou. Ela se sentou na cadeira em frente ao espelho e começou a retirar os brincos de ouro.
— Você foi maravilhosa — disse Draco, mas aquilo não lhe pareceu exatamente certo. Embora fosse a única para ele, Astoria não havia trabalhado sozinha. — Ou melhor, vocês foram maravilhosos. Todos vocês.
Então você olha para mim
Você já nem diz nada
Você está silenciosamente machucada
Agora daria qualquer coisa
Para apagar aquelas palavras de você
Aquilo pareceu chamar a atenção da moça. Ela girou na cadeira e o olhou, ansiosa.
— Então você...? — mas as palavras morreram em sua boca.
— Eu estava lá, Tori. Achou que eu não estaria? — Ela sacudiu a cabeça e virou-se novamente. Draco precisou se controlar diante daquela acusação. Aquilo o magoava, mas não era culpa de Astoria se ela duvidava dele. Ele deu todos os motivos para isso e agora precisava reconquistar a confiança da única pessoa que verdadeiramente lhe importava naquele mundo estranho. — Eu estava — confirmou, mais uma vez.
Enquanto retirava a maquiagem dos olhos, Astoria perguntou:
— Você se sentou ao lado dos meus pais? — um sorriso pequeno voltou a orbitar em seu rosto. — Como foi?
— Eles não ficaram felizes. Sua mãe parecia especialmente brava, mas não tenho certeza se era por minha causa.
— Não era. Ela ainda não me perdoou totalmente por ter desistido do dueto com a Dafne.
— A sua irmã foi mais receptiva. Ela até me ensinou como entrar no camarim.
— É mesmo? — riu. — E essas flores, são para mim? — falou, indicando o vaso de lírios brancos que estava sobre sua mesa. Sem sombra de dúvidas, era o arranjo mais extravagante de todos. Nem um outro músico do grupo parecia ostentar tal coisa. Draco coçou a cabeça, confuso e arrependido. Ele deveria ter trazido flores? Astoria não parecia o tipo de pessoa que gostasse de flores. Não tinha nem uma em seu apartamento, apenas algumas suculentas que sobreviviam a muito custo, praticamente sozinhas.
— Provavelmente... mas não fui eu que comprei.
Astoria suspirou, parecendo aliviada com a resposta. Ela pegou o cartão que estava entre os lírios e o leu.
— É dos meus pais — murmurou para si mesma. — Quem mais compraria algo assim, além da família Greengrass?
— Um Malfoy?
Ela sorriu com aquele gracejo.
— Obrigada por não trazer flores, não sou boa em mantê-las vivas. E qual o sentido de algo que se ganha apenas para assistir morrer?
— Tori — disse Draco, dando um passo à frente. — Precisamos conversar.
Astoria olhou ao redor e assentiu:
— Precisamos, sim. Mas não aqui. Eu preciso terminar de me arrumar e então conversaremos... lá fora.
Cada vez que digo alguma coisa que me arrependo, eu choro
Não quero te perder
Mas de alguma forma sei que nunca me deixará
Porque você foi feita para mim
De alguma forma farei com que você perceba
O quanto me faz feliz, amor
Draco se abaixou e deu-lhe um beijo na bochecha, parabenizando-a mais uma vez pela noite incrível. Ele quis dizer o quanto a garota era corajosa e talentosa e como era a única capaz de fazê-lo feliz, mas preferiu guardar aquilo para depois. Ele saiu dos bastidores, caminhando para a noite fria e não precisou esperar muito. Astoria logo apareceu, o rosto corado e a respiração acelerada. Ela parecia ter corrido. Draco abriu um sorriso arrogante. Sua ex havia corrido para encontrá-lo, aquilo parecia um bom indicativo.
Em um dos braços, Astoria segurava o buque de lírios. Eles eram extravagantes e estavam condenados à morte certa, é verdade, mas ainda assim eram as flores dela. Enquanto estivessem vivas, ela não as abandonaria. Draco ficou contente ao ver que, por debaixo do sobretudo bege, Astoria ainda usava aquele vestido verde que o deixava ligeiramente enlouquecido.
— Você não tirou o vestido — foi a primeira coisa que conseguiu dizer ao avistá-la, embora estivesse ensaiando um pedido formal de desculpas antes disso. Astoria o fitou como se soubesse exatamente o que ele queria dizer com aquilo e abriu um sorriso malicioso. O maldito sorriso malicioso que o conquistou tantas vezes e fez com que os dois acabassem presos naquela trama.
— Eu pensei que outra pessoa poderia tirá-lo — respondeu sem ruborizar. — Claro, dependendo de como as coisas terminarem aqui.
— Você é tão previsível, Tori. Já entregou o final de tudo.
O som da gargalhada dela soou pela noite escura, misturando-se ao ambiente naturalmente barulhento, e cravou-se nele, trazendo luz para onde antes só existia... nada. Draco a segurou pela mão livre e os dois caminharam em silêncio, afastando-se da aglomeração do teatro. Quando estavam longe o bastante, ele se colocou diante dela. Enchendo os pulmões de ar e de coragem, Draco admitiu tudo aquilo que remoeu durante aquele mês de ausência insuportável e estúpida:
— Você estava certa, Tori. Sobre tudo. Eu só estava sendo covarde quando te afastei de mim. Tive medo que de se arrependesse no futuro, de que percebesse que éramos um erro, de que não pudesse lidar com tudo o que significo. Mas não era medo por você, era por mim que eu estava com medo, porque não iria conseguir viver com mais essa culpa.
Astoria levou uma mão até o seu rosto, acariciando a bochecha do rapaz.
— Talvez eu me arrependa — falou, com sinceridade. — Talvez você se arrependa. Eu não sei, Draco, tudo é possível. A gente não pode prever nada além do que sentimos agora. A gente pode tentar não se machucar. A gente pode tentar se respeitar acima de qualquer coisa. Mas, apesar de tudo isso, nada é garantido e nunca será.
— Eu sei. Sei disso agora. E se você ainda puder me aceitar, se ainda me quiser neste momento, então eu prometo que vou tentar. Só tentar. Como você disse, não posso prometer que não vou te decepcionar, mas posso sim prometer que não vou deixar o meu passado se colocar na nossa frente outra vez, não dessa maneira, e que vou continuar tentando ser a minha melhor versão por você... e por mim também.
— E precisa prometer que vai me consultar antes de tomar qualquer decisão que nos envolva como casal — Astoria exigiu. — Que vai conversar comigo primeiro e perguntar a minha opinião. Eu quero que me prometa que, a partir de hoje, vamos pensar juntos e não separados.
— Eu prometo — ele sorriu, agarrando o rosto dela entre as duas mãos. — Eu prometo nunca mais te desconsiderar, Tori. Você é a melhor coisa que já me aconteceu e não acho que possa mais viver sem o seu amor.
— É um viciado, né? — ela brincou antes que ele a beijasse de vez, em uma grande explosão. Draco a segurou firme e a trouxe mais para perto, o tanto que era possível, pois aqueles lírios brancos idiotas ainda estavam entre eles. Foi um beijo que envolveu tudo o que eles poderiam dar. Toda a esperança e todo o alívio por estarem juntos novamente. Draco sorriu entre os lábios dela e a soltou:
— Eu sou mesmo um completo viciado e que, ainda por cima, age de uma maneira vergonhosa quando está em abstinência. Me desculpa por ontem... por tudo, na verdade.
— Tudo bem, eu já te desculpei. Agora me leve para casa — disse Astoria, meio impaciente.
Draco sorriu.
— Antes eu quero te dar algo — falou, pegando a caixinha de veludo que estava no bolso esquerdo do seu paletó. — Não comprei flores, mas comprei algo que espero que goste.
— Você sabe que eu nunca recusaria um presente — Astoria riu. — Nunca fui disso.
Draco abriu a caixinha e tirou um delicado colar de ouro branco. Era uma correntinha simples com um pingente em formato de nota musical. Algo singelo, mas significativo. Astoria sorriu docemente ao vê-lo e virou de costas, afastando o cabelo curto para que Draco pudesse colocá-lo em seu pescoço. O rapaz o fez, se demorando mais do que o necessário e pousando um beijo delicado no ombro dela.
— Obrigada, Draco. Eu gostei, gostei de verdade. — Ela passou os dedos por cima do pingente, sem desviar os olhos dos dele. — Você vai poder tirar o vestido, mas não o presente.
— Eu acho isso ótimo — Draco riu de volta, sentindo o coração leve como uma pluma.
Em geral, era assim que se sentia ao lado de Astoria. Naquela noite, entretanto, havia algo além. Era como uma confirmação. O medo ainda existia, sempre existiria, mas não era o mais importante. O mais importante era fazê-la sorrir. O mais importante era andar junto dela. Porque, no final das contas, o que viria a seguir só poderia ser algo bom, verdadeiramente bom. Draco podia ansiar por um futuro fantástico ao lado daquela garota que fazia o seu mundo girar. Ele não vivia mais na iminência do perigo, como viveu na sua adolescência. O rapaz conheceu o pior do mundo, o pior de si, o pior das pessoas, mas agora a vida lhe presenteava com Astoria. Draco sempre pensou que tudo em seu caminho estava destinado a ser evanescente. As suas verdades, o seu prestígio e até mesmo o amor. Mas se enganara. Eles não possuíam a garantia de um para sempre, porém, naquele instante, quando aparataram no apartamento dela entre beijos e risadas, Draco quis acreditar que sim.
Draco quis acreditar que eles foram feitos para durar.
Eu não consigo viver esta vida
Sem você ao meu lado
Eu preciso de você para sobreviver
Então, fica comigo
Você olha nos meus olhos
E eu grito por dentro que estou arrependido
Então, você me perdoa de novo
Você é a minha única amiga verdadeira
E eu nunca tive a intenção de te magoar
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