Evanescência

3 Bring Me To Life


Notas iniciais
Oi, gente. Antes de tudo, eu queria agradecer a Lu e a Winnie por favoritarem. Também quero agradecer a recomendação da Lu, sua linda! Eu nem mereço isso, mas saiba que fico feliz ♥ A música deste capítulo é Bring Me To Life do Evanescence, como sempre: https://www.youtube.com/watch?v=3YxaaGgTQYM&ab_channel=EvanescenceVEVO

Como você pode olhar nos meus olhos e já saber o que sinto?
Eu levo você até o fundo do meu ser, onde estou tão entorpecido
Meu espírito está longe, adormecido em algum lugar frio
Até você encontrá-lo e levá-lo de volta para casa

Uma luz difusa e alaranjada de fim de tarde adentrava o quarto escuro pelas venezianas da janela, iluminando suavemente o dorso nu de Astoria, que dormia de bruços, a cabeça sobre os braços e os cabelos curtos cobrindo o seu rosto. Draco se ergueu, apoiando-se em um dos cotovelos, e observou a garota por um instante. Ela era tão bonita. Tão incrível, determinada e generosa.

Com a ponta dos dedos, o rapaz percorreu cada uma das pintinhas que havia nas costas dela, interligando-as. Os próprios sentidos, naquele momento, encontravam-se entorpecidos pelo perfume de ervas que Astoria costumava usar. Um perfume que impregnava em tudo, nos travesseiros, nos lençóis, nele. Era a primeira coisa que sentia ao acordar, mesmo quando Astoria não estava ao seu lado.

Às vezes, Draco mal podia acreditar na própria sorte. Porque ele não a merecia. Não a merecia e, ainda assim, a tinha de todas as formas possíveis — e era egoísta demais para deixar de querê-la. Astoria era como um prenúncio de vida inesperado, mas bem-vindo. Desde o primeiro minuto, desde aquele maldito olhar, ela o compreendeu. Ela o enxergou em suas cores mais inusitadas, que iam muito além do cinza. E a cada beijo trocado, sentia que Astoria o decifrava mais e mais. Talvez fosse perigoso deixá-la chegar tão perto, mas Draco não se importava de ser desvendado por aquela mulher que começava a adorar, porque isso significava que ele também podia conhecê-la em seus pormenores. De um modo muito estranho, era como se fossem iguais e como se Draco, com ela, pudesse recomeçar sua vida de um ponto quase que inteiramente neutro.


Me desperte
Desperte o meu interior
Não consigo despertar
Me salve
Chame o meu nome e me salve da escuridão
Faça o meu sangue fluir antes que eu desmorone
Me salve do vazio que me tornei

Afastando uma mecha do cabelo de Astoria, o rapaz se aproximou e beijou a sua bochecha. Pouco a pouco, ela o trazia de volta para um lugar que nunca pertencera, mas do qual sentia falta. Aquilo o assustava de um jeito irracional. Draco queria que amá-la fosse suficiente para mudar o que ele era, o que havia se tornado. Que aquele sentimento pudesse dissipar toda a escuridão na qual se trancafiou. Ele sentia o coração bater e o sangue fluir sempre que estavam juntos, sentia um riso espontâneo surgir do fundo da garganta e sentia um torpor agradável dominando-o, fazendo com que seu corpo estremecesse. Acima disso tudo, sentia uma vontade de ser, ao menos, um décimo melhor.

Para ser honesto, Draco esperava que significasse o mesmo para Astoria. Ele desejava acreditar que, embora não fosse o responsável, tivesse contribuído um pouco para todas aquelas mudanças que havia assistido. Ela alcançara uma independência invejável e agora vivia naquele apartamento simples, mas limpo e aconchegante, num subúrbio qualquer de Londres. Draco torceu o nariz ao vê-lo pela primeira vez, mas conteve o seu impulso de criticar. Sabia que era importante para Astoria.

— O que está fazendo? — perguntou, divertida e sonolenta, quando Draco começou a fazer cócegas no pescoço dela com a ponta do nariz. Ela abriu os olhos e o encarou.

— Apenas admirando — respondeu com a voz mais rouca do que o normal —, você parece mais... afável... quando está dormindo.

— Mais fácil de lidar, é? — brincou.

— Eu gosto que não seja fácil de lidar — Draco sentiu necessidade de emendar, se afastando um pouco, apenas o suficiente para que ela pudesse erguer o corpo sobre a cama. — É bom que não seja, eu odiaria se fosse.

— Esse gesto... — começou Astoria, um meio sorriso se formando em seus lábios. — Foi um pouco carinhoso demais.

— Acha que não posso ser? — Draco não conseguiu disfarçar o tom de acusação.

— Não acho que não possa, apenas que nunca tentou, existe uma diferença muito grande entre essas duas coisas. — Ela estendeu a mão, acariciando o cabelo de Draco, do mesmo modo afetuoso com que ele havia feito antes. Ele fechou os olhos. — Eu também nunca tentei. Relações casuais não necessariamente exigem esse tipo de envolvimento romântico e é por isso que acho que deveríamos conversar.

— Conversar?

— Sim, sobre nós. Sobre o que somos um para o outro. Você tem saído com outras pessoas, além de mim?

— Não. Você tem?! — perguntou, pela primeira vez alarmado com aquela simples possibilidade.

— Bom... — ela se espreguiçou. — Com a mudança e todos esses ensaios intensos, agora que sou a pianista da Orquestra Sinfônica Bruxa — Astoria ainda dizia aquilo cheia de um orgulho bobo, como se fosse uma novidade surpreendente —, não é como se eu tivesse tempo para encontrar outros potenciais parceiros e você está sempre tão disponível que...

— Ok, Astoria! Eu já entendi! — Draco afastou a mão dela e se encolheu. Aquela não era bem a resposta que esperava. Não era nem remotamente parecida. Chegou à súbita conclusão de que era um cara patético. O que podia esperar, afinal? Que Astoria dissesse que estava tão fodidamente apaixonada quanto ele? Porque, sim, ele estava apaixonado e a ideia de não ser correspondido era insuportável. Sabia que era melhor assim, mas não podia deixar de se sentir um tanto ferido por aquilo. Por todos aqueles encontros bestas não terem qualquer significado maior.


Agora que sei o que me falta

Você não pode simplesmente me deixar
Sopre ar dentro de mim e me dê vida
Me devolva à vida
Congelado por dentro sem o seu toque
Sem o seu amor, querida
Só você é a vida entre os mortos

— Eu estava brincado — riu, mas Draco não esboçou nenhuma reação. — Eu amo você, idiota.

— Você... o quê?!

— Eu amo você — repetiu. — E antes que comece a dizer que não merece ou que te amar não vale a pena, porque sei que todas essas coisas estúpidas estão passando por sua cabeça, eu amo você e isso não vai mudar. Você me faz bem, Draco. Eu me sinto viva ao seu lado. Me sinto em paz. Isso deve bastar, não?

— Eu não sei — Draco passou as mãos pelos cabelos, nervoso. — Francamente, eu não sei se basta.

— Basta no momento — disse.

Durante algum tempo, os dois permaneceram em um silêncio bastante consternado. Ele encarava o chão, sentindo o coração pesar dentro do peito. Um coração que por muitos anos julgou adormecido. Não achava que nada de brilhante pudesse surgir em sua vida, até ela aparecer e bagunçar tudo, revivendo todas aquelas esperanças já esquecidas.

— Draco — chamou Astoria, com um fio de voz —, eu não espero que diga o mesmo. Seria bom se pudesse me amar de volta, porém o amor pode ser construído. Não precisa me amar agora, mas preciso saber se está disposto a ter um relacionamento comigo. Um relacionamento sério, com todos os compromissos e os planos que isso pressupõe.

Draco suspirou. Ele queria. Ah, como queria!

— Eu também amo você, Tori. Te amar é tão fácil — disse, puxando Astoria para perto de si. Ela sorriu e se aconchegou ao seu lado, apoiando o rosto em seu ombro. — Mas isso de compromissos e de planos... Não sei se posso fazer isso. Não sei se posso te oferecer alguma coisa.

— Podemos ao menos tentar? — insistiu. — Viver um dia de cada vez e ver aonde tudo isso vai nos levar?

Draco concordou, um pouco incerto, e beijou o topo da cabeça de Astoria. Ele queria desesperadamente tentar. Não queria perdê-la. Queria que Astoria fosse sua e queria ser dela. Mas aquilo era o suficiente? Para alguém condenado pelo próprio passado, o amor podia bastar?


Todo esse tempo, não acredito que não notei

Fiquei no escuro e você precisando de mim
Parece que estou dormindo há mil anos
Preciso abrir meus olhos pra muitas coisas
Sem pensamento, sem voz, sem alma
Não me deixe morrer aqui
Deve existir algo além

Notas finais
E aí, o que acharam? É um capítulo mais suave e romântico, eu diria. Aqui eu quis que o Draco deixasse os sentimentos dele bem claros para a Astoria, não quis que ela ficasse no escuro quanto a isso. Ele ama ela sim, só que né... De zero a dez, o quanto vocês acham que o Draco vai vacilar com a Astoria ainda? No próximo capítulo, cenas do vacilo. Beijos e até a próxima :*