Evanescência

4 Lost in Paradise


Notas iniciais
Oi, como vai? Quero agradecer especialmente à Trice e Andrômeda por favoritarem a história ♥ Esse capítulo é inspirado na música Lost in Paradise do Evanescente (UAU, que novidade): https://www.youtube.com/watch?v=hABzvJNPwXM

Eu estive acreditando em algo tão distante, como se eu fosse humano
E estou negando esse sentimento de desesperança dentro de mim
Todas as promessas que fiz, só para te decepcionar
Você acreditou em mim, mas estou destruído
Não tenho mais nada e tudo que sinto é este desejo cruel

Astoria conferiu o relógio de pulso mais uma vez. Os segundos e os minutos corriam sem descanso, e cada movimento que o ponteiro fazia era uma confirmação. Segurando o corrimão da escada com força, ela suspirou alto, sentindo a decepção surgir como um gosto amargo na boca e corroê-la por dentro. Estava em frente ao Teatro do Beco Diagonal, com os braços em volta do corpo para se proteger do frio, e completamente sozinha, à espera de alguém que nunca chegaria. A verdade daquilo a atingiu em cheio: estava só. De novo. Justo quando achou que teria alguém ao seu lado — um alguém marcado por um passado de escuridão e que lutava por um presente mais razoável, mas, ainda assim, um alguém. Era mais do que teve algum dia.

Ela passara a semana inteira lembrando-o do jantar na casa dos pais. Alistar e Clarissa Greengrass não gostavam da reputação que Draco e sua família adquiriram no pós-guerra e estava sendo particularmente difícil convencê-los a aceitar o rapaz como um fato consumado na vida da filha. Eles podiam ser tolerados em eventos formais ou em negociações, mas só. A relação da garota com os seus progenitores nunca fora perfeita e ultimamente andava ainda pior, agora que se recusava a ceder aos desejos deles. Porém, os pais enfim haviam estendido uma bandeira branca ao convidar os dois para um jantar particular. Aquele gesto não muito despretensioso pareceu-lhe importante o suficiente para valer a tentativa. Era como um acordo de paz firmado no silêncio e na simples aceitação de que a filha jamais seria o que previram. Draco entendia a importância daquele jantar para ela — ou melhor, para ambos. Mesmo assim, não estava ali.

E Astoria o esperou. Esperou feito a imbecil que era. Feito a garota estúpida e esperançosa que acreditava no namorado acima de qualquer juízo. Em um último ato de fé, ela olhou para os dois lados, esperando ver o garoto de cabelos excessivamente loiros se aproximar, pedindo desculpas e dizendo que a amava e que isso era tudo o que importava no momento. No fim, era o que deveria importar. Sentindo um aperto no coração, deixou a mão escorregar lentamente do corrimão e se virou, pronta para partir e encarar aquela situação com os pais sozinha, mais uma vez. Foi quando ouviu um estalar atrás de si. Alguém havia acabado de aparatar.


Por mais que eu queira

Que o passado não exista
Ele ainda existe
Por mais que eu queira
Sentir que pertenço a esse lugar
Estou tão assustado quanto você

A verdade é que Draco jamais quis magoá-la. Essa era a última coisa que queria. Em toda a sua vida, ele nunca se importou tanto com alguém como se importava com Astoria. Pela primeira vez, tentava controlar os seus primeiros impulsos sempre egoístas e arrogantes. Talvez porque, pela primeira vez, não se tratava somente de um eu, e sim de um nós. Ele a amava e, por alguma força estranha do universo, era retribuído por ela. Entretanto, naquele dia, tudo ganhou novos contornos. Draco vinha ignorando aquele sentimento dentro dele, um sentimento que derrubaria todas as coisas que começavam a construir. Ele esteve perdido no paraíso que Astoria significava, mas, no fundo, aquela inquietação nunca deixou de existir. Sempre esteve lá, desde o primeiro instante em que percebeu que a amava, só esperando a hora certa para transbordar.

Por um momento muito efêmero, Draco chegou a acreditar que merecia ser feliz e que poderia ser, no mínimo, uma pessoa. Não uma pessoa boa, só uma pessoa. Que ele merecia ter Astoria ao seu lado. Há muito tempo, não tinha sonhos que não fossem os seus habituais pesadelos noturnos, mas nos últimos meses passou a sonhar acordado e, em sua situação atual, esse era o pior tipo de sonho. Ele sonhava com uma vida normal, com um casamento e talvez filhos. Só que, obviamente, aquilo não era para ele. Deixou de ser no instante em que aquela marca negra o condenou a uma vida de desgraças. Draco amava Astoria o suficiente para não querer condená-la também. Ela poderia ter um futuro brilhante, mas esse futuro seria interrompido se ele entrasse em sua vida de maneira tão definitiva. Que direito ele possuía para fazer isso?

Esses pensamentos o atingiram enquanto se arrumava para encontrá-la no Beco Diagonal, logo após o ensaio. Ele usava um terno elegante e fechava uma das abotoaduras de prata quando seus olhos recaíram sobre sua imagem refletida no espelho. O que viu não foi apenas um reflexo, foi tudo o que existia por debaixo dele. Tudo o que estava inscrito nele. Queria que o passado não existisse, mas ele ainda existia. No fim, Draco ainda era Draco. Uma sombra distorcida de um garoto covarde, invejoso e que fizera todas as escolhas erradas... e que nunca mereceria coisa alguma.

Quando aparatou em frente ao Teatro horas depois do combinado, sabia que Astoria ainda estaria lá. Algo dentro dele dizia que a garota o esperaria, mesmo que apenas para se decepcionar depois. Ele quase sorriu ao vê-la ali, mas então se lembrou do porquê havia aparecido no final das contas. Astoria tinha esse efeito sobre ele, a simples visão dela podia fazer tempestades internas se acalmarem. Ela se virou para encará-lo e, inicialmente, nem um dos dois disse nada. Draco não queria machucá-la, mas precisava. Seria muito melhor machucá-la agora, quando ainda podia cortar aquele laço que os unia sem tanto sofrimento, do que num futuro distante, quando ela se visse inteiramente marcada por ele.

— Eu achei que não viria mais — disse Astoria, por fim.

Draco a olhou. Havia uma tristeza amarga no rosto dele, um rosto que ela considerava tão bonito.

— Eu sinto muito, Astoria. Mas eu não posso, não posso ir com você.

— E veio até aqui só para me dizer o que eu podia entender sozinha? — riu, sarcástica.

— Achei que não seria justo com você.

— Ah! — gargalhou. — Bom, então acho que eu devo te agradecer, não?

— Tori — suplicou.

— Eu posso saber o motivo? Não seria justo que você me explicasse também?

— Vai ser melhor se eu não estiver na sua vida. Você ainda vai me agradecer por isso. Quando não estiver casada com um cara como eu, carregando o meu sobrenome, quando os seus filhos tiverem um pai mais estruturado, vai me agradecer.

Astoria abandonou qualquer traço de cinismo que ainda pairava sobre o seu semblante. Ela já ouvira aquele discurso antes, da boca de outras pessoas. Da boca de seus pais. De sua mãe, especificamente. E não gostava daquilo.

— E você decidiu tudo isso sozinho? — acusou-o. — Decidiu o que era melhor para mim? Para a minha vida? Você está agindo exatamente como os meus pais, tomando decisões por mim, desconsiderando minha opinião... ou melhor, nem sequer perguntando o que eu acho de tudo isso! Você está agindo exatamente como eles, Draco! Exatamente!

Naquele instante, Astoria sentiu vontade de socá-lo. De bater em seu peito até ele perceber como estava sendo ridículo. Como ele poderia fazer aquilo, sabendo como foi difícil para ela se libertar das decisões dos pais? Como foi difícil alcançar alguma autonomia? E, agora, ele a estava fazendo sentir todas aquelas coisas de novo. Além de um coração partido, Astoria voltava a se sentir anulada.

— O que eu quero, Draco, é que pare de pensar por mim. Se estou com você é porque eu quero. Eu entendo as consequências e não me importo. Eu sei quem você é e isso basta. Basta saber que está tentando ser a sua melhor versão. Não quero que esqueça o seu passado, mas quero que pare de usá-lo como desculpa para continuar no mesmo lugar.

— Eu não uso o meu passado como desculpa — retrucou Draco.

— Usa sim! E é o que está fazendo agora! Você tem medo e usa o seu passado para justificar o seu comportamento idiota e destrutivo. O seu medo não é por mim, Draco... é por você mesmo.

— Você não sabe de nada, Greengrass — disse, com raiva. — E de toda maneira, isso não muda nada. — E antes que ela pudesse responder, Draco deu às costas para Astoria e aparatou em seu quarto escuro.

Ele estava sozinho novamente.

Dessa vez, para sempre.


Fuja, fuja

Um dia, não sentiremos mais essa dor
Leve tudo embora
Sombras suas,
Elas não me deixarão ir
Até que eu não tenha mais nada

Notas finais
Bom, o capítulo da treta. O que acharam? Não ficou essa maravilha porque eu sou ruim em escrever tretas. Gosto mais de escrever um amorzinho sem fim. Não é a maior treta do mundo, ao menos é reversível, mas acho mesmo que essa é uma situação que eventualmente o Draco e a Astoria passariam, com o Draco sendo idiota e querendo poupá-la. Ah, e essa música do Evanescence parece que foi escrita especialmente para Drastoria, eu fiquei boba quando encontrei. Quão Drastoria ela é? Outra música que daria certo nesse capítulo seria Tremendo Vacilão da Perlla HAHAHAHA. Brincadeira. Eu queria agradecer a todos os comentários lindos, fico tão feliz por essa história estar tendo um retorno legal e feliz porque finalmente esse ship está tendo algum reconhecimento ♥ Beijos e até a próxima :*