Eu te odeio, Midorima Shintarou
7 Star Wars
Notas iniciais
Olhos azuis encaravam seu reflexo no espelho, mechas negras e lisas caindo sobre um rosto pálido. Takao jogou água sobre o rosto pela quarta vez. Suspirou.
— Ah, qual é. Você consegue. Pelo amor de Deus, não pode ser tão difícil. — disse ele ao espelho.
O banheiro cheirava a hortelã e erva cidreira. Típico da elegante casa Midorima, riu mentalmente.
— Ok, Kazunari. Você tem que sair do banheiro do Shin-chan. Agora.
O moreno permaneceu imóvel por mais alguns segundos, encarando a si mesmo, procurando em seus olhos a coragem que lhe faltava.
Estava apavorado, mas tinha de fazer isso. "Respire três vezes bem fundo e você pode conquistar o mundo", dizia sua mãe. Quando Takao expirou pela terceira vez, sentiu-se mais confiante e abriu a porta. Midorima estava parado à sua frente, parecendo desconcertado.
— Você ficou lá por um bom tempo. — disse ele, seu tom desconfiado. Takao deu de ombros. — Então... o que você quer?
Takao olhou nos olhos do outro.
— Shin-chan, nós precisamos conversar.
O amigo não pareceu muito animado pela proposta, mas guiou o moreno até seu quarto. Quando eles se sentaram na cama, Takao teve uma espécie de déjà vu. Mas dessa vez, quem desembucharia seria ele, e não Shin-chan.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, sem saber bem o que fazer. Takao podia dizer, pelo jeito que ele beliscava sua foca de pelúcia (item da sorte do dia), que Midorima ainda estava magoado. Lá vamos nós. O moreno cerrou os punhos, optando por ser direto e simplesmente dizer de uma vez.
— Shin-chan, eu sou um idiota. Tudo aquilo que eu te disse... era tudo baboseira, eu não estava sendo eu mesmo. E eu fiz tudo aquilo, falei tudo aquilo, porque...
Não conseguiu completar a frase. Midorima o olhava pelo canto do olho, sua expressão cheia de expectativa. Takao sentiu seus pensamentos se embolarem. As palavras que ele ensaiara prenderam-se em sua garganta. E então, ainda encarando o outro, reparou que a lente esquerda de seus óculos estava rachada nas beiradas.
— Shin-chan o que houve com seus óculos?
Uma sombra de irritação perpassou o rosto do amigo.
— Naquele dia em que você saiu correndo, eu caí no chão, e bom... isso aconteceu.
Takao pôs a mão na boca, tentando abafar o riso. Mas Midorima não pareceu apreciar o gesto, fechando a cara. Droga, acho que eu piorei as coisas. Takao forçou o riso a aquietar-se, ficando sério novamente.
— Desculpe, eu te compro novas lentes depois.
— Não preciso da sua gentileza, obrigado.
Ai.
— Shin-chan, eu não tiro sua razão de estar puto. Você está totalmente certo. Eu fui um completo babaca. A verdade é que eu estava bravo comigo, por ter feito toda aquela estupidez, e descontei em você só porque você mencionou o Akashi. Eu sei, é ridículo. E não é desculpa nenhuma por ter te tratado tão mal.
Midorima não parecia afetado ou convencido. O moreno engoliu em seco.
— O que eu disse... sobre você não ter nada a ver com meus problemas... eu estava errado. Você é meu melhor amigo, amigos ajudam uns aos outros com seus problemas, certo? E eu sei que você só estava tentando ajudar. O fato é que...
O telefone da sala tocou, interrompendo-o. Takao bufou, incomodado.
— Com licença, eu tenho que atender.
Com isso, Midorima levantou-se e saiu, deixando Kazunari sozinho em seu quarto. Ele respirou fundo, bagunçando seus cabelos negros, ainda molhados pela sessão de jogar água no rosto que fizera no banheiro. Shin-chan provavelmente iria demorar.
Takao resolveu perambular pelo cômodo, xeretando as coisas de seu amigo. Na estante ao lado da cama, havia uma foto da família Midorima: Shin-chan ao meio, cruzando os braços e usando um chapéu de cowboy ridículo azul (provavelmente seu item da sorte) e sua mãe, Sayuu, abrançando-o. Atrás deles, Kenzo mantia-se impecável em roupas formais, mãos nos bolsos, um pequeno sorriso no rosto. Takao fez uma careta, colocando a foto de volta. Eles pareciam felizes. Takao suspirou. Tinha que estragar tudo, não é, Kenzo?
Ao lado do retrato, ele avistou o celular de Shin-chan. De repente, uma pitada de curiosidade o atingiu.
Quem sabe se eu só...
Não. Isso é errado.
Takao olhou novamente para o aparelho. Mas Shin-chan não precisa saber...
O moreno pegou o telefone, procurando as mensagens enviadas, e achou as últimas 3.
São essas que ele apagou no meu celular.
Tentado, o moreno abriu a primeira.
"Akashi me contou que você beijou Kise enquanto estava alterado"
Takao arquejou. O quê?! Kise não havia lhe contado aquilo!
— Filho da mãe!
Takao estava a meio caminho de abrir a mensagem seguinte quando uma sombra o cobriu.
— O que você está fazendo?
O moreno sobressaltou-se, girando o corpo e encontrando um Midorima nada satisfeito. Ele abriu a boca para dizer algo, mas seus pensamentos se esvaíram. Midorima tinha uma mão de cada lado da estante, prendendo-o ali, o rosto a um palmo de distância do seu. Takao sentiu seus joelhos enfraquecerem e seu coração acelerar, mas manteve seu olhar firme. Takao notou que Shin-chan também havia percebido a proximidade entre eles, mas, se ficou incomodado, ele não demonstrou.
— Devolva meu celular, por favor.
Takao forçou-se a sair do transe em que se encontrava. Entregou o aparelho e desvencilhou-se do amigo, posicionando-se o mais longe possível dali, acalmando as batidas de seu coração. Midorima guardou-o no bolso e o encarou, esperando. Takao limpou a garganta.
— Então... ahn... Shin-chan, eu realmente queria me desculpar por tudo o que eu disse. Eu trouxe algo pra você, me dê só um minuto.
Takao vasculhou a mochila que trouxera consigo, seu coração ainda acelerado, quando seus dedos encontraram um objeto frio e embrulhado. O moreno pegou-o com cuidado, entregando ao amigo o pacote enrolado em jornal.
— É uma oferta de paz.
Midorima olhou o embrulho cautelosa e minuciosamente, levantando uma sobrancelha. Takao riu.
— Pode abrir, Shin-chan, não é uma bomba.
O garoto desfez o bolo de jornal devagar, ainda desconfiado. Quando finalmente viu seu conteúdo, seus olhos arregalaram-se, e ele olhou de Takao para o presente, surpreso.
— É o mesmo canário. Onde você achou um exatamente igual?
— Um mágico não revela seus truques, não é, Shin-chan?
Midorima parecia não ter certeza de como agir. O moreno sorriu, dando um passo para perto do amigo.
— Então... eu estou perdoado?
Midorima parou por um instante, olhando bem para a peça de porcelana em suas mãos. E então, suspirou, abrindo um pequeno sorriso ao olhar para cima. O estômago de Takao encheu-se de borboletas.
— Bakao.
E Kazunari não precisava de uma resposta mais clara. Ele sorriu de volta, segurando o impulso de abraçar o outro e... fazer outras coisas.
— Bom, agora que isso já está resolvido, vamos assistir um filme, Shin-chan!
Midorima revirou os olhos, mas guiou-o até o sofá da sala.
— Tudo bem, mas é minha vez de escolher. Você tem um péssimo gosto.
O moreno deu um sorriso provocativo.
— Você chorou no último filme que eu escolhi.
Pelo canto do olho, ele viu Midorima corar.
— Eu não sei do que você está falando, isso é ridículo.
Kazunari riu baixinho.
Tsunderima.
— É claro que não, Shin-chan. Eu estou apenas inventando. Mas deixando isso de lado, o que acha de um jokenpo? O perdedor faz a pipoca.
Midorima deu de ombros, e é claro, venceu. Mas dessa vez, Takao sentiu-se quase aliviado ao perder para o outro; ao menos Shin-chan não estava mais tão abalado, ele esperava. Mas, apesar de sua derrota, não se surpreendeu quando um par de mãos maiores que as suas apareceram ao seu lado, dispostas a ajudar, porque esse era o tipo de pessoa que Midorima era. Takao sentiu-se derreter por dentro, e se perguntou pela milionésima vez o que ele havia feito para merecer alguém como Shin-chan.
— Ne, Shin-chan.
— Hmm?
— Seu lugar não é na cozinha.
— E qual seria o porquê disso?
— Isso que você está colocando no forno se chama pipoca de microondas. Você não acha que tem alguma coisa errada?
Pelo canto do olho, o moreno viu Midorima ruborizar. Era uma visão que nunca deixava de entretê-lo.
— Vamos, deixa que eu faço isso. Me espera no sofá.
O amigo obedeceu, empurrando os óculos para a ponte do nariz, numa tentativa vã de esconder seu constrangimento. Shin-chan é adorável demais às vezes, pensou, meneando a cabeça em desaprovação.
Não muitos minutos depois, Takao estava sentado a uma almofada de distância de seu amigo, esperando enquanto ele preparava o DVD. As coisas estavam andando tranquilamente, nada fora do comum, quando Takao sentiu o espaço ao seu lado afundar com o peso de alguém. Ele virou-se para encontrar Midorima, olhando-o, parecendo totalmente indiferente. Takao levantou uma sobrancelha questionadora.
— Bom, você só pegou uma tigela de pipoca. Como espera dividi-la se estiver do outro lado?
Kazunari tentou acalmar seu batimento cardíaco. Não gagueje, não gagueje.
— C-Claro.
Eu sou uma vergonha para a humanidade, pensou, batendo-se mentalmente.
Takao focou-se no filme que começava à sua frente, entupindo-se de pipoca. Após algum tempo, ele viu-se entretido pela história, e teve que dar um pouco de crédito ao amigo. Shin-chan estava constantemente falando sobre Star Wars, mas ele sempre achara ser algo tosco e sem muito valor. Talvez isso não fosse bem verdade, afinal: o filme estava realmente prendendo sua atenção, ele conseguira até mesmo esquecer que não estava sozinho. Foi por isso que, ao sentir uma textura macia em sua mão, o moreno pulou de susto. Olhando para baixo, ele descobriu serem as bandagens de Shin-chan, que, em busca da pipoca, haviam resvalado em seus dedos.
Kazunari prendeu a respiração, arriscando um olhar para o outro. Midorima não parecia ter a intenção de desculpar-se, tratando o incidente como algo natural. E é natural, pensou. Você é que é um idiota.
Para sua infelicidade, a mão de Midorima encontrara a sua novamente repetidas vezes, para depois afastar-se como se não fosse grande coisa, causando-lhe sensações engraçadas no estômago. Tudo o que queria era esticar os dedos e entrelaçá-los com os do outro, mas limitou-se a estufar suas bochechas com pipoca. É claro que eventualmente a tigela se esvaziou, e Takao teve de se contentar em morder os lábios para impedir seus impulsos idiotas.
Como se não fosse o suficiente, Midorima adormeceu nos momentos finais do filme, recostando sua cabeça sobre o ombro de Takao. O corpo do moreno tensionou. Enquanto os créditos rolavam na tela, ele ponderou se deveria acordá-lo ou não. Decidiu deixá-lo por mais alguns minutos, afinal, que mal havia?
Takao suspirou, contemplando o semblante sereno do amigo. Seus óculos estavam escorregando, então o moreno resolveu tirá-los, depositando-os na mesa de centro. Olhando assim, de perto, percebeu que os cílios de Midorima eram verde-escuro, e não pretos como ele pensara. Céus, ele queria muito beijá-lo.
Takao aproximou-se vagarosamente para observar os detalhes de seu rosto. Estava a poucos centímetros quando viu as pálpebras de Midorima se abrirem. Seu pescoço se moveu tão rápido que provocou um alto estalo, e Takao ficou surpreso por não ter quebrado. Por sorte, Midorima estava sonolento e sem seus óculos, o que significava que provavelmente ele não havia enxergado muita coisa.
— ... Takao?
Sua voz soava rouca, e os cabelos na nuca do moreno se arrepiaram.
— S-Shin-chan.
— Você está muito perto.
Takao engoliu em seco.
— Ahn... foi mal. Pode dormir, Shin-chan.
Midorima murmurou algumas palavras incoerentes, aninhando sua cabeça no ombro do moreno e caindo no sono outra vez.
Takao suspirou aliviado. Seus próprios olhos começaram a pesar, e ele deixou-se embalar pelo som da respiração ritmada de Shin-chan. Encontrou uma posição mais confortável, com um braço ao redor dos ombros do outro e a cabeça encostada sobre a dele, e aos poucos, também adormeceu.
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