Notas iniciais
Sabe aquela sensação de quando você deixa algo mal resolvido e fica uma mini angústia no fundo da sua mente? Você se lembra do dever mal cumprido em momentos aleatórios e aquilo vai te incomodando, mas você se acostuma a ignorar e aceitar. Só que a angústia nunca vai embora. Eu senti isso com “Eu te odeio, Midorima Shintarou”. Com 17 anos, eu não sabia o que fazer com ela, e acabei enrolando e fingindo que ia conseguir terminar até que o tempo apagou ela da minha memória e eu toquei a vida. As responsabilidades da vida adulta te fazem esquecer aquilo que você gosta de fazer e as pequenas coisas que te fazem feliz, e eu tinha me esquecido o quanto eu amo escrever. Mas agora, 6 anos depois, a angustiazinha voltou a me encontrar e eu reli essa história. Eu sei o que fazer com ela agora. E eu vou terminá-la. Se você é um leitor novo, bem-vindo! Você chegou em boa hora. Duvido que haja algum dos meus leitores antigos por aqui, mas se você for um deles… obrigada por não desistir de mim. Espero que goste. Aqui vai o capítulo 8. E para voltar em grande estilo, este é especial… tem ponto de vista do Midorima. Boa leitura!

Às 2h da manhã de uma segunda-feira, Midorima Shintarou fechou silenciosamente a porta de entrada de sua casa, com um click suave da fechadura. Suas mãos estavam leves, para não fazer barulho. Na verdade, todo o seu corpo estava leve. Midorima estava grato por isso — os últimos dias haviam sido nada além de um inferno. Mas esses últimos momentos revigoraram sua alma. Era a velha e familiar sensação que se demorava languidamente em seu corpo quando passava tempo com um certo jogador de basquete de cabelos pretos e olhos azuis.

Takao acabara de ir embora depois da noite que passaram juntos assistindo Star Wars — ou melhor, Takao assistindo e Midorima reassistindo por 1h30 até indignamente cair no sono no ombro ossudo de seu amigo de infância. Afinal, o que é que Takao esperava? Era uma segunda-feira letiva, pelo amor de Deus. Apenas um aluno irresponsável conseguiria se manter acordado pela madrugada daquela forma. E Midorima era responsável. Takao, por outro lado…

Midorima permitiu-se o mais leve dos sorrisos.

— Shintarou. — a voz era grossa e assertiva.
O cabelo verde do menino arrepiou-se na base de sua nuca e na extensão de seus braços. Seus ombros retesaram e ele girou o corpo para encarar o homem austero que o fitava ao centro do corredor da sala. Midorima Kenzo, em seus gloriosos 55 anos, exalava uma aura imponente e digna, apropriada para o chefe da família tradicional japonesa Midorima.

— Era aquele seu amigo?

Algo na maneira com que ele dissera “amigo” incomodou Midorima.

— Sim. — Ele tentou manter o tom de sua voz firme, disfarçando seu desconforto. Toda a leveza que a recente presença de Takao trouxera parecia distante agora, como um sonho interrompido de uma soneca vespertina.

— Hm. Vocês certamente pareciam confortáveis no sofá. — Os olhos de Kenzo estavam fixos nos seus. Seu pai usava óculos semelhantes aos dele: retangulares com hastes rígidas. As lentes de vidro nada faziam para amenizar a intensidade do olhar de Kenzo, e Midorima sentiu seu estômago se apertar em um nó. Ele mal podia olhar para o pai sem pensar no segredo terrível que ele sabia estar escondido. E neste exato momento, Midorima não gostava do rumo que estava tomando aquela conversa.

— Há algum problema com Takao assistir a um filme comigo?

— Você sabe que aquele menino é um homossexual, Shintarou. — A resposta veio ríspida, quase que imediata. As palavras mal haviam saído da boca de Midorima quando a réplica fria de seu pai cortara o ar, e um tenso silêncio se fez em seguida.

Bom, dã. Midorima sabia disso desde os 13 anos. Takao sempre fora… excêntrico.. Vibrante, animado e a alma da festa. Midorima não pensava nada demais sobre isso, mas seu pai sempre parecia ter suas suspeitas. Quando eles entraram na puberdade, no entanto, Midorima teve certeza. Eles estavam assistindo a um jogo na NBA na casa de Takao quando Midorima flagrou seu amigo encarando um jogador particularmente malhado do Boston Celtics, que parecia ter uma fixação por limpar o suor da testa usando a barra da camisa. Takao com certeza não estava olhando para o rosto dele. Quando ele percebeu que Midorima o havia flagrado, Takao ficara vermelho — intensamente vermelho — e puxara um assunto qualquer. Quando completaram 15, Takao simplesmente perdera todo o senso de vergonha — Midorima se cansara de ouvi-lo falar por horas a fio sobre o tanquinho de um novo jogador da temporada, ou sobre os olhos bonitos de um modelo na revista. Era irritante. Mas por outro lado, Midorima também já o ouvira falar sobre os peitos de atrizes famosas, então talvez ele fosse bissexual? Midorima tentava não pensar muito sobre isso. Não é como se tal assunto já tivesse brotado.

Seu pai, no entanto, era uma história completamente diferente. Ele pensava nisso. E muito.

Sendo uma família milenar japonesa, as raízes dos Midorima eram um tanto tradicionais. Antes de se mudarem para a cidade, quando Shintarou era um bebê, casamentos ainda eram arranjados na vila onde seus pais o conceberam. Shintarou sabia que a fortuna dos Midorimas vinha de muitos casamentos estratégicos. E é por isso que, aos 17, com Midorima se tornando um homem feito — adequado para propostas matrimoniais — seu pai começara a se preocupar profundamente com a presença extravagante de Takao Kazunari. E era assim que se iniciavam discussões cada vez mais frequentes entre seu pai e ele, como a que ele sentia que estava se formando agora.

Shintarou respirou fundo, ajeitando os óculos com a ponta dos dedos enfaixados.

— Eu não vejo o que isso tem a ver comigo. — Midorima replicou, a voz tensa.

— Ele é uma má influência, Shintarou. Quantas vezes vamos ter de falar sobre isso?

— Ele é um amigo importante.

— Um amigo que está impedindo você de perseguir oportunidades promissoras.

Shintarou bufou em deboche.

— Ah, é? Como o quê, casamento?

— Sim, Shintarou, o matrimônio adequado para honrar e respeitar o nome de sua família. Você parece desconhecer o conceito de honra e respeito mas ainda espero um comportamento digno de um Midorima, e certamente não é o caso desse… desse…

— Ah, então estamos falando de comportamento exemplar agora. — o tom de voz de Shintarou era venenoso e ríspido, enlaçado por desprezo. Ele não queria ouvir o resto daquela frase. Não queria que ninguém falasse de Takao com tamanho nojo. Cada palavra proferida por seu pai parecia adicionar mais e mais à pilha de motivos pelos quais sentir raiva, e Midorima começou a sentir seu sangue circular mais rápido, suas palavras saindo de sua boca numa velocidade um pouco maior que a de seu costumeiro raciocínio frio e calculado

— Pai, permita-me perguntar. O senhor se considera alguém de comportamento exemplar?

A voz de Shintarou se elevara de um semi sussurro para um volume normal agora, não chegando a um grito. Mas Midorima Kenzo estava visivelmente atingido pelas palavras do filho. Seus ombros largos e quadrados se retesaram, e sua forma ficou imóvel, iluminada pelo luar que o atingia pelas costas e chegava ao rosto de Shintarou.

Um silêncio tomou conta da sala. Um segundo se passou. Dois. O relógio na cozinha tiquetaqueava. Quando Kenzo falou, sua voz era firme, mas seu tom era baixo. Shintarou percebeu que ele estava com medo. Medo de acordar sua mãe, Sayuu, deitada a poucos metros daquela discussão, nos lençóis de seda do quarto ao final do corredor.

— O que você está insinuando? — Kenzo deu um passo a frente, se aproximando do filho. Shintarou manteve-se firme em seu lugar.

— Devo fingir não ter notado?

— Shintarou, eu ainda sou o líder desta família! Não vou tolerar desrespeito na minha casa.

Midorima pausou. Um segundo e breve silêncio se fez. Quando tornou a falar, a voz do menino estava mais baixa.

— Você… eu sempre respeitei você.

Kenzo era uma máscara de indiferença, nunca deixando de olhar os olhos do filho. Shintarou continuou.

— Eu costumava pensar que o senhor nunca cometia erros.

Kenzo cruzou os braços, e pela primeira vez, desviou o olhar.

— Então você é mais infantil e ingênuo do que pensei. — retrucou o pai. — A vida não é tão preta e branca, Shintarou. Amadureça.

Shintarou ficou em silêncio, e os dois se encararam.

Um barulho de tecidos se mexendo ecoou pelo corredor. Houve um som de pés calçando pantufas. Logo, os passos suaves e sonolentos de Midorima Sayuu ressoaram no chão de madeira. Em poucos segundos, ela estava ao lado de Kenzo, cabelos loiros e macios amassados pelo travesseiro, olhos semicerrados de sono. Ela apertava contra o corpo um robe de seda, e esfregava as pálpebras enquanto olhava de um para o outro, lendo o ambiente. Kenzo olhou para ela.

— Sayuu, por quê está acordada? — Perguntou.

— Ouvi vozes… vocês pareciam agitados. — Sayuu tinha uma voz suave.

Midorima sempre gostara do som da voz de sua mãe. Costumava ser a única coisa a acalmá-lo antes do método Kazunari aparecer em sua vida. Sayuu era calma, comedida e só falava quando necessário. Uma mulher genuinamente gentil. Enquanto seu pai o ensinara que disciplina era rigidez, tenacidade e persistência, Sayuu era a outra face da disciplina. Paciência, obediência, consistência. Quando Kenzo reprimia o pequeno Shintarou por alguma atitude mal educada ou por um erro cometido, era Sayuu quem o abraçava e passava os dedos por seus cabelos, acalmando-o. Ela ensinava com palavras suaves e gestos carinhosos o que Kenzo procurava ensinar com críticas duras e olhares firmes.

Ela olhou para os ombros tensos do marido e para a mandíbula retesada do filho.

— Aconteceu algo?

Shintarou respirou fundo. Ele ainda não desviara o olhar de seu pai.

Midorima daria tudo para não envolvê-la nisto. Queria colocá-la num trem para longe dali, para longe de tudo, para que ela nunca precisasse saber e passasse o resto de seus dias longe dele. As próximas palavras, Midorima sabia, a machucariam profundamente. Mas não mentiria mais para ela. Ela merecia mais. Especialmente, não para proteger Kenzo.

— Mãe… meu pai está tendo um caso.

Midorima sabia que agora não havia mais como voltar atrás. Sua vida em família nunca mais seria a mesma.

Sayuu aparentava estar subitamente desperta agora. Sua expressão se fechou e ela se virou para seu marido, cujo rosto, aparentemente impassível, nada revelava. Kenzo olhava para um ponto fixo no chão de madeira.

— Isso é verdade, Kenzo?

Sua voz soava fria. Shintarou nunca a vira falar assim. Kenzo mantinha seu olhar fixo ao longe, e um silêncio instaurou-se na casa. Midorima tomou como sua deixa.

— Conte a ela, pai.

Com isso, Midorima passou por eles e subiu as escadas para seu quarto.

Cada ação sua era mecânica.

Tirar as roupas. Vestir o pijama. Pegar escova de dentes.

Midorima ouviu vozes abafadas conversando.

Ele passou a pasta na escova. Começou a escovar.

Sua mãe levantou ligeiramente o tom de voz, e seu timbre era mais agudo. Não dava para distinguir o que estava sendo dito.

Ele ouviu a voz de seu pai, grave e calma. Bochechou água. Cuspiu na pia.

Sua mãe estava chorando.

Era um choro contido e baixo, digno de uma dama da família Midorima. Sua mãe soluçava, cada soluço martelando no peito de Midorima como um tambor.

Quando ele se deitou para dormir, Midorima tentou não pensar em como sua vida mudaria a partir daquela noite. As vozes continuaram soando em seus ouvidos por horas.

Takao acordou na segunda de manhã no horário certo. Ele não ignorou o despertador como de costume — hoje não, cobertor quentinho maldito — e levantou-se num pulo.

Ele foi até o banheiro e deu um bom bocejo, encarando-se no espelho. Uau, ele estava bonito hoje. Sorriu. Pegando sua escova de dentes do Michael Jordan (edição especial), Takao cantarolou enquanto balançava os quadris de um lado para o outro. A noite de filme com Shin-chan, depois de fazerem as pazes pela briga, havia revigorado seus ânimos. Era bom estar em paz com seu melhor amigo de novo.

Ele vestiu seu uniforme preto e abriu a primeira gaveta de seu armário. Olhou bem para a blusa branca com listras laranjas, na qual se lia em letras garrafais: “Shutoku”. Não pôde evitar um sorriso se infiltrando em seu rosto. Ah, cara, como havia sentido falta da familiar ardência muscular, a coceira dos calos nas mãos, o fôlego na garganta. Ele sentira falta de embasbacar seus adversários de time, observando a movimentação de cada um deles e escolhendo a via de jogo menos provável, assistindo queixos caírem.

Segunda-feira era dia de treino.

Uma risadinha eufórica lhe subiu pela garganta. Ele mal podia esperar para fazer aquele passe insano diretamente na mão de Shin-chan. A rapidez da bola zunindo pela quadra, o silêncio efêmero daqueles poucos segundos em que Shin-chan estava no ar e o soprar leve da bola deixando as mãos dele para fazer uma trajetória perfeita, seguida da deliciosa onomatopeia da bola passando impecável pelo aro, sem fazer nenhum ruído que não o “swoosh” da rede. E a melhor parte: olhar para o lado antes do passe e ver que Shin-chan já havia saltado em posição de arremesso, com a confiança cega de que o passe iria se encaixar perfeitamente em suas mãos. O passe de Takao. Porque ninguém mais conseguiria fazer aquele passe.

Takao fechou os olhos, evocando a memória do som da bola se encaixando nas mãos de Shin-chan e depois, deixando-as. Shin-chan tinha mãos incríveis. E Takao apostaria um bom dinheiro que também seriam incríveis fora da quadra…

Antes que pudesse se devanear naquela linha de raciocínio, Takao sacudiu o corpo e desceu as escadas para encontrar o cheiro de café vindo da cozinha, eufórico.

Hoje ia ser um dia bom.

— Kazu, o café está pronto!

A voz de sua mãe chamou da cozinha.

Ele abriu um largo sorriso ao passar pela porta e ver Takao Kanako andar em direção à mesa, já vestida de terninho e salto para o trabalho, com duas xícaras fumegantes em mãos. Pães frescos, frutas recém lavadas e ovos mexidos esperavam por ele sobre a toalha xadrez. Seu sorriso aumentou.

— É isso o que eu pedi a Deus.

Kanako riu, sentando-se em frente a ele.

Um confortável silêncio se instalou entre os dois.

Sua mãe era risonha e faladeira, assim como ele. No almoço e no jantar, Kazunari e Kanako passavam horas conversando e rindo alto. Mas no café da manhã era um hábito que ambos tinham de ficar em silêncio, aproveitando a companhia um do outro. Era assim desde que Takao tinha 4 anos e seu pai resolvera tentar a vida de novo, recomeçar — sem esposa e filho atrapalhando. E então Kanako era tudo o que ele tinha, e Takao pensou, olhando para ela por cima do aro da xícara, que poderia ser bem pior. Sua mãe era decidida, trabalhadora e criara um filho sozinha. Ela era bem humorada, inteligente e não levava desaforo para casa. Takao a adorava.

Uma torrada e 2 ovos mexidos depois, Takao estava abraçando sua mãe, pegando sua mochila e saindo porta afora.

Ele pegou sua bicicleta, encaixou a corrente da charrete em seu devido fecho e foi pedalando para a casa de Shin-chan.

Em 2 minutos, Takao estava estacionado na porta da casa de seu amigo, digitando uma mensagem de texto.

Takao: Ei princesa, sua carona chegou. Hoje é dia de treino… animado? ✌(>‿◠)

Takao esperou pela resposta, tamborilando as pontas dos dedos na coxa.

Dois minutos se passaram. Takao pegou o celular para digitar uma segunda mensagem quando a notificação chegou.

Shin-chan: estou descendo.

Takao encarou a tela.

Takao: Não vai dizer “simm, Kazu, muito animado (ɔ◔‿◔)ɔ ♥”?

Antes que pudesse receber uma resposta, a porta da frente se abriu e Midorima saiu. Takao abriu um enorme sorriso.

— Ei, Shin-... — o moreno rebobinou o que estava vendo. Os cabelos verdes estavam ligeiramente despenteados e o uniforme amassado. Seus olhos exibiam olheiras como as de quem passara a noite em claro, e Takao notou a postura rígida e tensa de seu amigo ao descer as escadas. Midorima não olhou para cima uma única vez, e subiu na charrete sem dizer palavra. —...chan.

Takao olhou para o amigo, abrindo a boca. Nada saiu. Midorima estava mal. O que diabos tinha acontecido?

Ele parecia tão soturno e fechado que Takao não conseguia perguntar. Não havia qualquer abertura naquele olhar que lhe indicasse que ele conseguiria uma resposta. Midorima nem mesmo jogara jokenpo para decidir qual dos dois dirigiria a charrete.

Takao decidiu não comentar. Talvez mais tarde, Midorima estaria mais à vontade, e ele exploraria uma abertura para perguntar ao amigo o que havia acontecido.

— Bom, então vamos indo!

Virando-se de costas para Midorima, Takao sentou-se na bicicleta.

Talvez hoje não seja um dia tão bom assim, afinal, pensou Takao.

Midorima permaneceu imóvel e calado por todo o caminho.

Notas finais
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