Eu te odeio, Midorima Shintarou
11 Segredos revelados e palavras envenenadas
Notas iniciais
Sua mãe olhou-o ansiosa, os olhos revezando inquietamente entre ele e seu convidado especial. Kenzo estava de pé ao lado dela, apoiado na bancada.
Takao não conseguia raciocinar.
— O que você está fazendo aqui? — exigiu, fuzilando Kenzo com o olhar.
A mãe de Takao se remexeu, angustiada.
— Kazu, querido. Kenzo estava… bom, precisamos conversar.
Kenzo interrompeu-a.
— Sente-se, Kazunari.
Conhecendo-o desde criança, Kenzo chamava Takao pelo primeiro nome. Mas o som deixava uma sensação amarga no ouvido de Takao todas as vezes.
A presença de Kenzo em sua casa era, no mínimo, estranha. Shin-chan havia mencionado que seu pai não estivera em casa desde a noite anterior. Talvez ele estivesse buscando conforto? Kanako era uma amiga para a família Midorima, afinal. Ou talvez…
A boca de Takao ficou seca.
Precisava de explicações. Imediatamente.
— Eu estou bem em pé, obrigado. Mãe, qual o significado disso? — Takao se sentia zonzo.
Kanako começara a se agitar, e pôs-se a caminhar em direção ao filho. Ela colocou as mãos em seus ombros, olhando-o nos olhos.
— Kazu, querido. Eu sei que a princípio isto pode parecer estranho para você. Não pretendíamos ter essa conversa agora…
Takao sentiu seu estômago despencar. Bile ameaçava subir-lhe pela garganta.
Não.
Não, não, não, pelo amor de Deus…
Para seu pavor, Kanako lambeu os lábios nervosamente e continuou.
— Querido, Kenzo e eu… estamos juntos há algum tempo.
A mão de Takao voou para sua boca. O choque das palavras passou por seu corpo como uma onda elétrica.
Não pode ser real.
As mãos de Takao tremeram. Ele saiu dos braços de sua mãe, abaixando-se para colocar Shirou no chão. Kanako parecia não saber o que fazer, remexendo-se. Kenzo era uma máscara de indiferença, assistindo parado.
— Eu sei o que você está pensando. Sei que não foi certo, e eu me envergonho disso. Eu só quero que saiba que eu… simplesmente aconteceu, filho.
Takao tentava lutar contra o choque, fazendo esforço para absorver os acontecimentos.
— Mãe… a Sayuu… — o tom de Takao era incrédulo. Ele olhou para Kenzo, ainda imóvel, recostado sobre a bancada. — E você?! Como pôde? Tem ideia do quanto Shin-chan está sofrendo?
Pela primeira vez, Kenzo esboçou reação. Seu nariz franziu em desgosto.
— Não. Mas você deve saber, não é? Está sempre grudado em Shintarou.
Algo dentro de Takao se agitou. Ele sentiu que Kenzo estava indo em direção a águas turbulentas.
— O que quer dizer? — cuspiu Takao, cerrando os punhos.
Kenzo fechou a cara. Ele parecia pronto para explicitar, palavra por palavra, exatamente o que ele quis dizer.
— Você está contaminando meu filho.
Takao sentiu seu sangue ferver. Sua mãe interviu:
— O que está dizendo, Kenzo?
O pai de Midorima hesitou por um milissegundo. Em uma voz mais calma, respondeu:
— Seu filho é gay, Kanako.
O ar sumiu dos pulmões de Takao.
Um momento de silêncio se passou. Então, para sua surpresa, Kanako respondeu, em uma voz baixa.
— Você acha que não sei disso?
Kenzo trocou olhares com ela. Por fim, se calou. Kanako virou-se para Takao.
— Kazu, me escute… — suplicou ela, se aproximando.
Takao se encolheu. Sua mãe traíra uma família. Perturbara a vida de seu melhor amigo enquanto a própria mãe de Midorima a tratava com confiança. Tudo isso para ficar com Kenzo. Um velho nojento e preconceituoso que nem mesmo o aceitava como ser humano. Ele ergueu a mão, fazendo-a parar de andar.
— Eu mal consigo olhar pra você agora. Me deixa sozinho, tá?
— Kazu! — chamou ela
Mas Takao estava saindo pela porta. Seu corpo inteiro tremia. Ele mal registrou quando Shirou miou em protesto.
Ele subiu as escadas para seu quarto, abriu o armário e começou a jogar roupas na cama. Pegou uma mochila, encheu-a e em seguida, buscou carregador de celular, escova de dentes, escova de cabelo — qualquer coisa que lhe pudesse ser útil.
Tudo o que ele queria fazer era correr para a casa de Midorima. Takao sentia que só por respirar o mesmo ar que Shin-chan, tudo ficaria bem. Ou pelo menos, Takao conseguiria parar de tremer.
Mas como encarar Midorima agora? O que ele diria?
Um pensamento horrível ocorreu a Takao.
Meu Deus, e se ele me odiar.
Não seria tão estranho assim, pensou Takao. Ser amigo do filho da amante de seu pai era no mínimo inquietante.
Takao sentiu um soluço sair de sua garganta. Um soluço desesperado. Ele tapou a boca, tentando conter o choro.
— Merda.
Não pense nisso, pensou consigo. Pense em outra coisa. Qualquer coisa.
Takao não podia ficar em casa. Não podia ir para a casa de Midorima. A lua se erguia alta no céu, e logo as ruas estariam perigosas.
Ele pegou seu celular, abriu a lista de contatos e iniciou a chamada. O outro lado da linha atendeu no terceiro toque.
— Takaocchi?
— Kise, você me deve um favor.
…
Midorima rolou na cama pela terceira vez naquela noite. Seus lençois pareciam mais quentes que o normal, o ar estava abafado demais e as paredes pareciam erradas.
Sua mente estava, pelas últimas 2 horas, sendo bombardeada por pensamentos e flashbacks. Ele viu seu pai, enojado, lhe falando sobre Takao ser uma má influência. Ele ouviu sua mãe, chorando durante a briga com Kenzo. Ele viu Takao, sorriso trêmulo no rosto, lhe estendendo uma pluma de espanador. Palavras de repúdio e reprimenda de Kenzo, desespero e solidão no rosto de sua mãe, olhos azuis brilhantes e o batimento forte e acelerado no peito de Midorima, as mãos de Takao, sua risada, sua voz. E em meio a todos aqueles pensamentos, a frase que sua mãe despejara nele não muito tempo atrás.
“Você é o homem da casa agora, Shintarou.”
Midorima teve um súbito pensamento amargo: que grandes homens Sayuu tinha arranjado em sua vida… um adúltero e um homossexual.
O que seus avós iriam pensar? Os pais de Sayuu, profundamente tradicionais, que haviam entregado a filha a um provedor digno para que ela gerasse herdeiros saudáveis. E ela gerara Midorima.
Shintarou se empenhara em cada aspecto de sua vida: ele tinha excelência acadêmica, cultura literária invejável, habilidades musicais exímias e falava outras duas línguas, sem mencionar sua fama nacional como Geração dos Milagres do basquete.
Mas talvez, nada disso importasse mais, porque agora, ele descobrira sentimentos por seu melhor amigo de infância.
Midorima imaginou a rejeição e a vergonha no olhar de sua mãe. O desgosto na voz de seus avós, perguntando o que seria da linhagem da família deles agora que seu único neto estava interessado em outro homem.
E então, imaginou Takao. A única pessoa com quem ele queria conversar agora. Takao, que sempre estivera ao seu lado e tinha os olhos bem azuis e cabelos negros e um sorriso enorme.
Midorima passou as mãos pelo rosto, suspirando. Talvez ele precisasse de certa distância.
Abrindo o celular, ele mandou uma mensagem de texto avisando a Takao que ele iria para a escola sozinho, diferente do habitual combinado de “um pedala e o outro vai na charrete”. Não esperou uma resposta e não ofereceu justificativa. Mentir para Takao sem ser flagrado era quase impossível.
Então, Midorima virou-se de lado e forçou-se a dormir, tentando ignorar o desconforto em seu peito. Seria uma noite longa.
…
— Takaocchii!! — Kise correu em direção ao seu amigo, braços estendidos, olhos fechados e sorriso estampado. Ao chegar perto, porém, uma mão espalmou-se no meio de seu rosto, parando sua corrida. — Uff, tifa a mão da minha bofa.
— Eu ainda não te perdoei totalmente, loirinho. — Takao resmungou. Retirou sua mão, libertando o amigo.
Kise choramingou.
— Por quê todo mundo é tão cruel comigo?…
Takao riu, e seu amigo convidou-o para entrar.
O prédio de Kise era elegante. Ficava no centro, diferente do bairro residencial em que ele e Midorima cresceram. As janelas espelhadas, a altura imponente e arquitetura moderna mostravam a Takao o quanto o trabalho de modelo pagava bem, e ele se perguntou se deveria tentar o ramo também. As paredes de mármore, o elevador de vidro, as plantas e quadros decorativos… tudo ali indicava refinamento.
Kise guiou-o pelo saguão, e algumas meninas davam risadinhas e cochichavam quando ele passava. O amigo lhe apresentou como convidado no balcão da recepção. Os funcionários — porteiro, faxineiros, recepcionista — todos cumprimentavam Kise, chamando-o de Ryouta-san. Kise sorria para todos eles, sempre político.
Entrando no elevador, Kise apertou o número 25 no teclado e colocou sua mão em um leitor biométrico, digitando logo depois uma senha numérica. Takao ergueu uma sobrancelha. O que era aquele prédio, um cofre estatal?
Kise olhou-o de canto de olho. Algo em sua expressão devia estar entregando seu espanto, porque o amigo abriu-lhe um meio-sorriso.
— Chique né, Takaocchi? — indagou, movendo as sobrancelhas para cima e para baixo.
— Eu tô impressionado. O prédio é muito bonito, Kise. As pessoas pagam tanto assim por umas fotos? — Kise riu. Takao continuou. — Eu estou meio esperando encontrar uma mala de drogas na sua casa e você vir implorar pra eu guardar segredo.
Kise colocou uma mão sobre o peito, fingindo estar ofendido.
— Não é porque eu te dei um tablete uma vez que eu sou traficante. É só uma coisa que as pessoas no mundo da moda fazem, sabe? É natural ter esse tipo de coisa no bolso por lá… — Takao encarou-o, sua expressão não muito feliz. Kise ficou constrangido. — Mais uma vez, desculpe, Takaocchi. — concluiu ele.
Takao abriu um pequeno sorriso.
— Esquece isso. Você já está pagando por seus pecados, né? São 21h e eu mal te dei um aviso antes de aparecer. — respondeu. Depois, suspirou, cansado. — Me desculpe, Kise. Espero não estar sendo um grande incômodo.
Kise lançou-lhe um sorriso fraco.
— Está tudo bem, Takaocchi, mesmo. Eu não recebo muitas visitas. É bom ter companhia pra variar.
Takao encarou o perfil de seu amigo. O sorriso de Kise era triste.
O elevador parou. Um suave “ding” soou pelo auto-falante e a porta de vidro deslizou para a direita, revelando uma sala de estar enorme. Takao nem conseguia descrever o quanto o lugar era chique — aliás, um elevador que abria dentro do apartamento? Incrível.
Kise riu.
— Para de babar, Takaocchi, vai sujar o carpete. Entra aí.
E deu-lhe um suave empurrão para que entrasse. Takao murmurou um pedido de licença e tirou os sapatos.
Quando Takao estava sentado confortavelmente em um sofá branco de couro, Kise entregou-lhe um copo d’água. Ele bebeu tudo em um gole.
— Ok, Takaocchi, agora que você está aqui… o que aconteceu? — perguntou. Takao evitou contato visual. — Eu não me importo em você dormir aqui, não estou reclamando. Fique o quanto precisar! Mas você não vai me dar uma explicação? Já está bem tarde, hoje é segunda-feira e você e eu não temos muito o costume de fazer festas do pijama, Takaocchi.
Sem resposta. Takao concentrou-se nos adornos entalhados no vidro, girando o copo em suas mãos. Não queria olhar o amigo nos olhos. Após algum silêncio, cedeu.
— É complicado. Minha mãe e eu não estamos muito bem.
O loiro pareceu murchar.
— Sinto muito, Takaocchi.
Takao negou com a cabeça.
— Não se preocupe. Eu só… não estou preparado pra falar sobre isso.
Kise foi até ele e pegou o copo de suas mãos. Takao olhou para cima e viu simpatia no rosto de seu amigo.
— Bom, se quiser posso chorar as minhas pitangas pra você. Talvez se sinta menos sozinho na miséria.
Takao riu.
— Você tá com muitas pitangas pra chorar, é?
Kise soltou um profundo suspiro, largando seu corpo no sofá adjacente.
— Dor de cotovelo, Takaocchi.
Takao ergueu uma sobrancelha.
— Ah, é? Quem é o cego?
Kise sorriu com o elogio.
— Ele é… hétero.
Takao soltou uma risada sem humor.
— Então você deu pra gostar de hétero, é?
Kise jogou as costas das mãos sobre os olhos, soltando um muxoxo.
— Nem me fale. Apenas o mais hétero de todos.
Takao sentiu sua curiosidade formigando.
— E eu conheço esse amante das mulheres?
Kise ergueu sua mão para espiar Takao com um olho.
— Promete não rir?
Takao abriu um sorriso amarelo.
— Logo eu? Não consigo, é de fábrica.
Kise soltou uma pequena risada. Respirou fundo, resignando-se.
— Lá vai então.
Takao encarou-o. Kise encarou de volta.
— É o Aominecchi.
Takao fechou os lábios para tentar conter a gargalhada que viria em seguida, mas sem sucesso. Um som rasgante de riso saiu por sua boca. Kise repreendeu-o de início, esticando-se para dar um tapa em sua perna.
— Kise, ele passa literalmente o dia inteiro pensando em peitos!
— Eu sei.
— E tem namorada.
— Eu sei…
— Com peitões também.
— Eu sei! É só… — Kise suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele parecia exaurido. Takao sentiu uma pontada de pena. — Eu não consigo evitar, tá? Eu soube desde o início que era um beco sem saída, mas isso não me impediu. Eu realmente gosto dele, Takaocchi. Desde o fundamental.
Takao ficou em silêncio em respeito ao momento dolorido de seu amigo. Ele não sabia o que dizer.
— Desde o fundamental? — sussurrou, tentando soar o mais gentil possível. — Kise, você precisa sair dessa.
O loiro soltou um meio termo entre risada e suspiro.
— É, eu sei. — Kise sussurrou de volta.
Alguns segundos se passaram em silêncio. Takao foi o primeiro a quebrá-lo.
— Bom, pelo menos você não está sozinho. — disse ele, brincando com um fio solto em sua calça. — Agora ambos podemos ficar chorando por causa de hétero.
Kise olhou-o como se ele tivesse duas cabeças. Então, lentamente a ficha pareceu cair, e sua expressão foi mudando de estranhamento para surpresa, depois para um sorriso incrédulo.
— Você não está falando… ah meu deus, Takaocchi! — o loiro levou uma mão à boca para conter o riso. — Você acha que o Midorimacchi é hétero?! É por isso que você fica aí se doendo?
Com isso, Kise caiu na risada. Takao endireitou-se e olhou confuso para seu amigo, o cenho franzido. Kise, por outro lado, parecia completamente alheio à sua confusão. Takao não se incomodou em tentar negar que estava falando de Midorima. Ele supôs que o incidente com Xinjan, o travesti não deixara muita dúvida sobre o assunto. Mas não entendeu o porquê de uma reação tão intensa.
— O quê? — demandou Takao. — O que é tão engraçado?
Kise recuperou fôlego o suficiente para responder.
— Takaocchi, Midorimacchi com certeza não é hétero. Nós tínhamos um bolão no ensino fundamental, sabe. De quando ele ia se tocar.
Takao não estava nem um pouco convencido.
— E como vocês poderiam saber? — indagou. — Ele parece bem hétero pra mim…
Kise riu de novo.
— Ele não é, confia em mim. Teiko era uma escola de meninas bonitas, e elas praticamente se atiravam pra cima dele nos jogos oficiais dos campeonatos. Ele era uma celebridade, né. Todos nós éramos. — Kise assumiu um olhar distante, como se estivesse lembrando de algo. — Enfim, ele nunca ligou pra nenhuma delas, Takaocchi.
Takao ponderou, absorvendo aquelas palavras. Kise continuou.
— Além disso, o Midorimacchi era meio reprimido, sabe? Não sei como explicar. Ele era engomadinho e intelectual demais pra admitir que tinha sentimentos. A gente acha que é por isso que ele nunca saiu do armário.
Takao abriu um sorriso distraído. Aquilo com certeza soava como Shin-chan. Por fim, ele sacudiu a cabeça, não convencido.
— Mas ele não ter interesse em um bando de garotas do fundamental não prova nada. — retrucou.
Kise abriu um sorriso de lado que parecia conter mil segredos, e olhou para Takao pelo canto do olho.
— Talvez não. Mas quando estávamos no fundamental, Takaocchi, vocês dois foram para escolas diferentes… — Kise inclinou seu corpo, aproximando-se. — ...e ele falava de você. O tempo todo. — sussurrou ele em tom malicioso.
O rosto de Takao acendeu como uma luzinha vermelha de Natal.
"Você está contaminando meu filho", veio a voz de Kenzo em sua cabeça.
— Mas eu… ele não… isso é porque eu era o melhor amigo dele. É normal, não?
Kise balançou a cabeça, negando. Seu sorriso aumentou.
— Ah, Takaocchi. Vocês dois são uma gracinha.
Com isso, o loiro endireitou-se novamente.
— Bom, está ficando tarde. Eu preciso ir dormir. — Kise bateu em suas coxas, pondo-se de pé. — Não é fácil ser bonito, sabe?
— Continue se esforçando, um dia você chega lá. — brincou Takao.
— Há há, um comediante! Sabe o que eles fazem com comediantes que dormem na rua, Takaocchi?
— Era brincadeirinha, Kise-chan!
— Bom mesmo, Takaocchi.
…
Depois de Kise ter lhe arrumado lençois e roupa de cama em um quarto de hóspedes — um quarto estupidamente enorme, em sua opinião — seu anfitrião se despediu e Takao foi deixado à mercê de seus pensamentos. Ele checou seu telefone. O relógio marcava 22h e havia notificações de sua mãe: 3 chamadas perdidas e 1 mensagem não lida.
Kazunari, onde você está? Volte para casa, vamos conversar.
Takao suspirou. Digitou uma resposta rápida:
Estou dormindo na casa de um amigo. Estou bem. Não me ligue.
Ele bloqueou o telefone e o colocou sob a mesa de cabeceira. Isso deve bastar por agora, pensou. Não queria a polícia procurando por ele nas ruas.
Shin-chan…
Takao se permitiu pensar no amigo. Como estaria agora? Será que sabia sobre Kanako e Kenzo?
Eu preciso contar. Ele merece saber.
Ele tentou não pensar no que aconteceria com sua amizade com Midorima.
E então, um outro pensamento lhe veio à mente.
Será que tudo o que Kise falou é verdade? Será que Shin-chan…
Ele engoliu em seco, dizendo a si mesmo para não criar esperanças.
Na mesma hora, como se orquestrado pelo universo, seu celular apitou com uma nova notificação. Shin-chan ♥: 1 mensagem não lida.
Seu coração batia rápido. Takao abriu a mensagem.
Não me espere para a escola amanhã. Vou sozinho.
O peito de Takao afundou. Nenhuma explicação ou motivo, apenas distância. Takao respondeu um “Ok.” e colocou seu celular de volta em seu lugar. Rolou na cama, fechando os olhos.
Talvez Kise estivesse errado, afinal.
…
Takao acordou na manhã seguinte com cheiro de café pronto. Ele levantou preguiçosamente e pisou os pés no chão.
“Bom dia!”, soou uma voz pelos auto-falantes que Takao definitivamente não sabia estarem embutidos no quarto. Acho que minha alma acabou de sair do meu corpo, pensou. Na mesma hora, as cortinas black-out das janelas do quarto começaram a subir sozinhas. Takao encarou, boquiaberto.
Chegando à cozinha, Kise estava com duas canecas em mãos.
— Bom dia! — cumprimentou o loiro ao vê-lo.
— É, o quarto já me disse isso! — respondeu Takao, os olhos arregalados mostrando o quanto ele não achava aquilo normal.
Kise riu.
— Legal, né? É como se fosse minha própria Jarvis. — disse ele, dando uma piscadinha. Takao estava semi-convencido de que Kise era, sim, um traficante. — Takaocchi, pensei em tomarmos café na varanda, o que acha? A vista é boa.
Com essas palavras, Kise caminhou até duas portas de vidro que ficavam ao fundo da cozinha e abriu-as. Takao o seguiu e observou, deslumbrado, o parapeito da varanda de Kise e a cidade de Tóquio que se estendia diante dele. Por um segundo, desejou que Midorima estivesse ali para apreciar a vista com ele.
Quando Kise o deixou no pátio do Colégio Shutoku, Takao imediatamente sentiu o peso da discussão da noite anterior em seu peito. Qualquer distração que a companhia de seu amigo havia proporcionado estava agora esquecida.
Takao tentou preparar-se para a tarefa que tinha em mãos. Ele contaria tudo a Shin-chan. E eles lidariam com isso juntos, como sempre faziam.
…
Midorima sentou-se ao lado da janela, como de costume. Seus dedos enfaixados tamborilavam na mesa, impacientes. A cadeira à sua frente estava vazia. Ninguém se aventurara a ocupá-la: havia um entendimento coletivo não verbal de que aquele era o lugar de Takao. Mas o menino ainda não havia chegado. Midorima não sabia se isso era algo bom ou ruim.
Desde que fora dormir pensando em Takao na noite passada, sua mente andava impregnada com memórias dos sonhos que havia tido com ele. Começavam como sonhos bons. E então, Kenzo aparecia, e tudo começava a ficar distorcido. Logo, a voz de sua mãe se juntava ao cenário também, avisando-o de que ele era o homem da casa agora. Ele acordou suando. A primeira coisa que havia feito depois de tomar café foi sair pela porta e correr até o supermercado mais próximo para comprar uma pelúcia de guaxinim, seu item da sorte do dia.
Midorima acreditava em destino. Ele acreditava que o universo tinha planos, e tudo o que tínhamos de fazer era observar os sinais e estarmos preparados para quando a oportunidade chegar. Itens da sorte, embora parecessem bobos e infantis, possuíam uma influência nas forças que regiam o universo; ou ao menos, é isso o que fazia sentido em sua cabeça. Por que de que outra forma ele teria conseguido em sua vida um melhor amigo como Takao Kazunari?
Como se invocado pelos pensamentos de Midorima, Takao se materializou na sala de aula. Olhos azuis encontraram os seus.
— Kazunari. Está atrasado. Sente-se. — ordenou o professor.
Takao caminhou em direção a ele e Midorima desviou o olhar. O moreno sentou-se.
— Oi. — sussurrou ele.
— Olá. — respondeu Midorima.
O resto da aula se passou em silêncio. Enfim a aula terminou e o professor saiu. Antes que a troca de professores pudesse se concretizar, Takao girou para encará-lo. Seu rosto era apreensivo.
— Mate aula comigo. — mal era um pedido.
Midorima queria protestar e afirmar que estava fora de questão. Que tipo de ideias irresponsáveis seu amigo estava tendo, logo depois de chegar atrasado? Mas algo na expressão de Takao o parou. Parecia apavorado.
— Não pode esperar até o intervalo? — barganhou.
— Não. — a voz de Takao não tinha qualquer resquício de hesitação.
Midorima ajeitou seus óculos e levantou-se sem dizer mais nada, pelúcia e pasta escolar em mãos. Takao o seguiu.
Ao alcançar o pátio, Takao puxou-o até um canto recluso entre as árvores, e Midorima segurou-se para não reclamar. O comportamento de seu amigo era ligeiramente alarmante. Finalmente, Takao parou.
— Shin-chan, tem algo que eu preciso te contar.
Midorima ficou em silêncio absoluto. Ele tinha um mal pressentimento.
Takao mexeu-se nervosamente.
— Seu pai esteve lá em casa ontem à noite.
Midorima arregalou os olhos. O que quer que estivesse esperando, com certeza não era aquilo.
Takao parecia ter dificuldade em olhá-lo nos olhos. Midorima permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse.
— A amante dele… — Takao respirou fundo, e quando exalou, seu corpo tremia. — é a minha mãe, Shin-chan. Eles estão juntos.
Takao olhou-o então, mas Midorima já não estava prestando atenção.
Ele sentiu como se o mundo estivesse distante. Ele sabia que Takao estava dizendo alguma coisa, mas não se incomodou em descobrir o que era. Seu sangue pulsava forte em seus ouvidos, e um zunido agudo soou em sua cabeça.
Ele pensou no rosto dócil de Kanako, recebendo-o em sua casa quando ele era apenas uma criança. Pensou em sua risada, e em como ela sempre o lembrava da de Takao.
Pensou em sua mãe, Sayuu, arrumando a casa para recebê-la.
Sayuu, que estivera chorando escondido há dois dias. As garrafas de vinho estavam se empilhando na cozinha.
Kanako era gentil. Era mãe de seu melhor amigo. Em incontáveis vezes, ela o abraçara e lhe dissera o quanto ela era grata por ele e Takao serem amigos.
E o tempo todo, Kanako estava agindo por trás de suas costas.
Midorima sentiu falta de ar.
Todas as vezes em que Kenzo havia chegado tarde em casa, ele estivera a dois quarteirões de sua casa. Com Kanako.
Ao seu lado, Takao tentava falar com ele.
— Shin-chan, respira fundo.
Midorima mal registrou as palavras.
— Ela jantava na minha casa. — retrucou, seu tom baixo e venenoso.
Takao parecia à beira de lágrimas. Midorima continuou.
— Ela destruiu minha família, Takao.
Com isso, Takao pareceu hesitar.
— Bom, não é como se ela tivesse feito isso sozinha.
Midorima sentiu seu estômago se revirar.
— Você está defendendo ela?
Takao agitou-se.
— Não! Eu não consigo nem falar com ela agora, mas seu pai é um merda, Shin-chan!
Midorima tremeu.
— Não era meu pai que se convidava pra ir comer na casa dela.
A expressão de Takao se fechou. Midorima percebeu estar entrando em território delicado, mas não conseguia frear.
— Minha mãe recebia a Kanako, Takao. Ficava feliz quando ela visitava. E ela estava se jogando pra cima dele o tempo todo!
Takao ficou vermelho, e Midorima pensou que nunca o vira tão nervoso.
— Você acha que ela se jogou pra cima dele?
Midorima tentou remediar, mas não sabia como.
— Não é bem assim. Mas sua mãe é bem mais… extrovertida que o meu pai. Você não acha muito provável que ela tenha dado o primeiro passo?
Takao parecia ultrajado.
— É a personalidade dela! Eu também sou extrovertido, e não saio por aí dando em cima de todo mundo! — o peito de Takao subia e descia, sua respiração pesada. — Bom, na verdade seu pai parece achar que sim.
A voz de Takao estava trêmula. Midorima franziu o cenho.
— O que quer dizer? — indagou.
— Seu pai me disse que eu estava te infectando. Com minha gayzisse. — os olhos de Takao estavam marejados. Midorima sentiu uma pontada de remorso. — Ele é um merda, Shin-chan! Ele provavelmente nem a ama, vai largá-la pela próxima também! — Takao soluçava agora.
Mas Midorima não conseguia tirar de sua mente as noites que Kanako havia passado em sua casa. Rindo. Abraçando Sayuu. Abraçando ele.
— Eu não acredito que você a está defendendo.
Takao arregalou os olhos.
— Eu não acredito que você está defendendo ele! — choramingou.
Mas Midorima já estava andando.
— Shin-chan! — Takao gritou.
Ele não olhou para trás.
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