Eu te odeio, Midorima Shintarou

12 Dia 1: melhoramento físico


Notas iniciais
Olá olá olá, amigos. Trago-lhes nosso primeiro capítulo desse acampamento de treinamento que temos pela frente. Este é um pouco mais centrado no Midorima. Espero vocês no final do capítulo, e obrigada a todos que estão acompanhando ♥

Eram 6h da manhã numa quarta-feira quando Takao respirou fundo e olhou para a van que freava em frente ao prédio de Kise. O ônibus da Kaijo, escola de Kise, já havia passado mais cedo e buscado o loiro, deixando-o sozinho. Kise lhe dera uma cópia da chave de seu apartamento para caso precisasse.

Takao segurou firme a alça de sua mochila, preparando-se mentalmente para 3 dias de viagem com Shin-chan depois do que fora, possivelmente, a pior briga que eles já tiveram. Midorima nem mesmo o insultara diretamente, mas a conversa do dia anterior estava cheia de implicações e entrelinhas que Takao passara a noite em claro revisando em sua cabeça.

A porta frontal do veículo se abriu para que ele entrasse, mas antes que Takao pudesse subir o primeiro degrau, notou um ponto verde em sua visão periférica.

Por trás de uma das janelas de vidro da van, Midorima o encarava. A expressão em seu rosto era furiosa, e Takao sentiu um arrepio na espinha. Por um segundo, seu pé pausou no ar, considerando o custo benefício de dar meia volta e trancar-se no apartamento de Kise durante o resto do feriado.

— Ei, Takao, não temos o dia inteiro! — veio a voz de Kimuro, seu colega de time, acenando pela janela da frente para que entrasse.

Era tarde demais para desistir.

Num pulo, Takao se içou para dentro do veículo.

Andando pelo corredor, ele escaneou as cadeiras, fileira por fileira, à procura de assentos vazios. Seu olhar cruzou com o de Midorima.

Ah, ótimo. Maravilha mesmo, pensou. A única cadeira disponível era adjacente à de Midorima.

Ele deveria ter previsto. Por ter mudado seu endereço de última hora no registro da van — ainda estava hospedado com Kise, afinal — Takao havia sido o último a ser buscado. E naturalmente, seus colegas pensariam que ele sentaria com Midorima e deixaram o assento liberado. Para eles, não era nem uma questão, era apenas o fluir natural das coisas: o céu é azul, todo ser vivo morre um dia e Takao sempre se senta com Midorima. Nenhum deles havia ficado sabendo da briga no dia anterior — Takao não contara a ninguém, e ele tinha certeza de que não era do feitio de Midorima espalhar informações sobre sua vida pessoal.

Takao queria cavar um buraco no chão. Ele supôs que devia estar congelado por algum tempo ali, de pé, porque Otsubo interferiu:

— Ei, Takao. Não sei se soube, mas geralmente, temos que sentar pra viajar de carro.

Algumas risadas soaram pela van.

— Foi mal, capitão. É que vocês são tão insuportáveis que eu fiquei me perguntando o que é que eu vim fazer aqui. — improvisou, não querendo deixar óbvia a situação.

— A gente também ama você, Takao-chan! — respondeu Miyaji do fundo da van, imitando barulhos de beijos.

Mais risadas. Em outro dia, Takao teria provocado de volta e prolongado a brincadeira por tempo indeterminado, mas não estava no clima. Ele sentou-se ao lado de Midorima, deixando seu corpo cair na poltrona. Arriscando um rápido vislumbre de seu amigo, ele notou que Midorima o fuzilava com o olhar.

— Você está se hospedando com Kise? — a voz de Midorima era quase um sussurro. Parecia calma, mas Takao percebia o veneno velado.

Ele sabia que Midorima tinha suas desavenças com Kise por sabe-se lá quais motivos, mas o loiro vinha sendo um grande amigo, e o comentário o irritou.

— É um país livre, não é? — respondeu em tom sarcástico.

A expressão de Midorima se fechou.

— Suponho que sim. — retrucou ele.

Com isso, Midorima cruzou os braços e se virou para a janela, girando o corpo para longe. Takao sentiu um peso no peito.

— Bom, acho que estamos todos aqui. Animados? — soou a voz alta e confiante de Otsubo.

O time se agitou, urros e comemorações se elevando pelo ar. Takao afundou na cadeira, desejando estar em qualquer outro lugar que não ali.

Um apito em seu celular chamou sua atenção. Ele tirou-o do bolso, lendo a mensagem disposta na tela.

Mãe: Kazu, por favor, volte pra casa.

Takao guardou o telefone no bolso e desejou que pudesse dormir e acordar quando tudo aquilo tivesse acabado.

Quando acordou, Takao sentiu sua cabeça apoiada em algo ossudo. Abrindo os olhos lentamente, ele percebeu que estava recostado no ombro de Midorima.

Ele levantou-se abruptamente. Midorima estava acordado. A van havia parado há alguns minutos, aparentemente, mas Midorima não havia se mexido. Provavelmente porque não quis me acordar, pensou, e sentiu o calor familiar se espalhar por seu peito. Eles sempre andavam de metrô juntos, e Midorima sempre o deixava cochilar em seu ombro.

Takao sentiu um nó na garganta.

Ele desceu da van em silêncio. Não olhou para trás para ver se Midorima o seguia.

Quando pisou na grama e olhou em volta, Takao teve que admitir: aquele lugar não era nada mal. Enquanto seus colegas desciam da van e passavam por ele, correndo pela grama e conversando animadamente, ele tomou um momento para apreciar a extensa área verde e o ar fresco ao seu redor. A cabana em que estariam hospedados era mais do que só “decente”, como dissera o capitão do time. Era uma bela construção em madeira, dois andares, com varandas para os 9 quartos dispostos no segundo andar. Aos fundos da propriedade, duas enormes e recém-reformadas quadras de basquete se erguiam, imponentes: uma coberta e uma a céu aberto. Nos arredores das quadras, havia outros 3 chalés, igualmente grandes. Takao sentiu-se animado pela primeira vez no dia.

Ao longe, ele conseguiu distinguir o time de Seirin pelas jaquetas esportivas brancas. Eles sentavam-se à mesa de piquenique que ficava no jardim, conversando. Em outro canto, a Academia Tōō reunia-se, e o treinador parecia estar dando um sermão motivacional. Todavia, Kaijo, a escola de Kise, ainda não estava em nenhum lugar à vista.

Como se invocado telepaticamente, Kise surgiu às costas de Takao e cumprimentou-o, passando um braço por seus ombros.

— Takaocchi, esse lugar não é incrível? — sorriu ele.

Midorima então passou por Takao, seu olhar era gélido. Kise não pareceu notar.

— Midorimacchi! Quanto tempo! — cumprimentou o loiro.

Midorima, no entanto, não estava de bom humor. Ele se virou para Takao e Kise, a expressão neutra e indecifrável. Sem uma palavra sequer, virou-se de novo para frente e continuou caminhando, deixando-os para trás.

Takao, embasbacado, olhou preocupado para Kise. Shin-chan está sendo um completo babuíno. Estar com raiva de mim é uma coisa, mas por quê está sendo grosso com Kise? Ele não tem nada a ver com a história.

Ao olhar para o amigo, porém, Kise parecia inabalado. Takao teve uma breve impressão de ter visto a sombra de um sorriso, mas descartou como sendo apenas imaginação.

— Ah, esse Midorimacchi! Sempre mal humorado.

Takao engoliu a vontade de contar sobre sua briga com Midorima, uma vez que teria que contar sobre todo o resto, e ele simplesmente não tinha forças pra isso.

Ambos saíram andando em direção à casa, onde as escolas agora se reuniam no jardim da frente.

3 horas após o início do treinamento, Midorima estava em um canto da quadra coberta, repassando doenças em sua cabeça.

Diarreia.

Virose.

Febre…

Febre!

Era isso. Talvez ele pudesse simular uma febre. Ele poderia ir até a cozinha no meio da noite, enquanto todos dormiam, e esquentar um pano com água fervente. Então, colocaria o pano em sua testa e pela manhã notificaria o técnico de sua situação febril, pondo um fim a este acampamento infeliz.

E então o karma faria com que um ônibus me atropelasse a caminho de casa, pensou. Midorima não acreditava em deus, mas ele sabia que o universo era regido por leis. E o destino não o perdoaria por tal farsa.

Mas o que ele poderia fazer? Ele estava lá há 3 horas, e francamente, já havia gastado todas as suas energias. Não num aspecto físico, claro. Os treinadores das escolas presentes haviam preparado, para a primeira metade do dia, um treinamento de melhoramento físico. Abdominais, treino de passe, aeróbicos, corridas ao redor da quadra, esse tipo de coisa. Mas Midorima não tinha fama nacional à toa, seu porte físico estava acima da média e sua performance atlética não deixava a desejar em nada. Seus colegas se cansavam bem antes dele.

Seu cansaço era puramente emocional.

Midorima nunca viajara sem seu melhor amigo antes, e a quantidade enorme de pessoas desconhecidas o deixava desconfortável. Ele tentara se manter próximo ao capitão de seu time — Otsubo era uma companhia surpreendentemente agradável: nem falante demais, nem calado demais — mas dito capitão estava sempre ocupado dividindo sua atenção igualmente para todos os membros do time. Ele passava de jogador a jogador, motivando e dando tapinhas nas costas. O que significava que Midorima ficava sozinho a maior parte do tempo.

Havia mais um problema. Midorima estava descobrindo uma nova função de Takao que ele nunca havia percebido. A primeira havia sido a capacidade de fazer o coração de Midorima acelerar e provocar sensações físicas novas. A segunda, e mais recente, era mais óbvia, e ele queria ter percebido antes: escudo social. Com Takao tagarelando ao seu lado 100% do tempo, qualquer outra pessoa se sentia desencorajada a falar com Midorima. Agora, diversos alunos se aproximavam dele, querendo saber sobre sua época do fundamental, perguntando como era ser famoso aos 14 anos. Era um tanto inconveniente.

Além do mais, como ele evitava qualquer conversação que não viesse de Otsubo, sua mente divagava durante os exercícios. E ele pensava em sua mãe. Ela nem mesmo o olhara no olho antes de sair de casa. Pensava nas garrafas de vinho, no vazio por trás da expressão dela. Nesses momentos, sua concentração vacilava, e ele temia torcer um músculo.

Em outras vezes, pensava em seu pai, e não demorava muito até que esses pensamentos o levassem à discussão do dia anterior.

Midorima havia passado a noite em claro, repensando cada momento. O arrependimento estava corroendo-o por dentro. É claro que a traição de Kanako havia doído: Midorima não queria vê-la tão cedo. Mas ela não era a única culpada, e Midorima sabia. Em sua decepção e raiva por sua família estar caindo aos pedaços tão rapidamente, ele estivera à procura de alguém a quem culpar. E ele queria acreditar que seu pai fora uma vítima, que ele ainda podia respeitar Kenzo como sempre respeitou. Mas então, Takao contou as palavras que Kenzo havia dito pra ele, sobre Takao o contaminar. E Midorima estava tão ocupado em seu jogo de apontar a culpa que não dissera nada. Nem mesmo consolara Takao.

Sua amizade com Kazunari era uma das melhores coisas que já lhe haviam acontecido, e Kenzo estava errado. Midorima queria ter lhe dito isso.

Mas a traição de Kanako havia doído, e ver Takao hesitando em tomar seu lado colocara sentimentos como medo e insegurança em sua mente.

Seus devaneios foram interrompidos por um menino alto do primeiro ano da escola Seirin, cujo nome ele não havia escutado. Ele estava perguntando sobre posições de arremesso. Sem conseguir prestar atenção, Midorima arriscou um olhar para seu (ex?) melhor amigo.

Takao estava ao outro lado da quadra, rindo de algo que Kise havia dito.

Midorima sentiu os nós de seus dedos ficarem brancos.

— Ahn… você tá legal, cara?

Ele voltou seu olhar para o jovem ao seu lado.

— Fantástico.

Sua expressão deve tê-lo entregado, porque o menino acelerou o passo e foi para longe de Midorima. Graças aos signos, pensou.

Mais tarde, ao fim da primeira parte do treino, a programação indicava que eles deveriam jogar 3x3, revezando os times a cada 40 minutos. Midorima sentia que estava aprendendo pouco. A bola caía em suas mãos e as sextas de 3 pontos se acumulavam sem que ele se esforçasse tanto. Às vezes, se perdia em pensamentos, e errava passes. Mas a vantagem de pontos era tão absurda que mal importava. Ele nem mesmo achava que alguém notaria sua queda de performance.

Mais uma vez os times revezaram e Midorima mal olhou para cima para ver quem era o adversário da vez. E então, ouviu:

— Midorimacchi! Que sortee!

Ele cerrou os punhos.

— Kise.

O loiro sorriu. Midorima poderia jurar que havia maldade naquele sorriso. Ele parecia saber de alguma coisa.

— Pegue leve comigo, sim? Você sempre foi melhor do que eu. — pediu Kise.

— Não tenho a menor intenção de fazer isso.

Naturalmente, Midorima não estava mentindo. Ao encarar seu oponente, ele sentiu qualquer pensamento distrator evaporar. Seu sangue pulsou por todo o seu corpo mais rápido, impulsionado por adrenalina, acordando músculos que não estavam funcionando tão bem nas últimas partidas.

40 minutos depois, Midorima havia dobrado o placar do time de Kise. O loiro estava arfando, mãos apoiadas nos joelhos. Uma pontada de triunfo se acendeu dentro dele. E então, Kise riu.

— Uau, Midorimacchi. — começou, lutando para conseguir fôlego — eu me pergunto o que teria deixado você tão focado…

Midorima sentiu seu corpo tremer. Será que Kise... sabia que ele estava com ciúmes?

Ele gostaria de poder dizer exatamente o que ele queria fazer com aquele sorriso amarelo ali. Então, uma terceira voz os interrompeu:

— Ei… já acabou? Minha vez agora.

Era outro aluno da Seirin. Kise se levantou, lançando uma piscadela para Midorima.

— Bom, te vejo por aí, Midorimacchi!

Ele reprimiu uma careta.

— Suponho que sim. — respondeu, em tom indiferente.

Kise saiu andando para sua próxima partida, e Midorima sentiu uma pontada de amargura. Havia vencido o jogo, mas no fim do dia, Takao ainda estaria conversando com Kise, e não com ele.

Veja bem, Midorima nem sempre teve sentimentos desagradáveis em relação a Kise. No ensino fundamental, quando jogavam juntos, eles eram quase amigos. Mas Kise tinha tudo o que ele não tinha — lábia, popularidade, carisma — e isso sempre lhe despertara um pouco de inveja. Acima de tudo, Kise não tinha medo de ser quem ele era. Não tinha medo de gostar de quem ele quisesse... mesmo que esse alguém fosse outro homem. Antes, tudo isso era tolerável para Midorima… mas agora, Kise tinha Takao também. E isso colocava um sal em todas as feridas, como se ele estivesse perdendo uma batalha impossível de vencer, e o prêmio era aquilo que lhe era mais importante.

Ele engoliu em seco. 3 dias parecia um longo, longo tempo.

Takao estava em um impasse.

Ele recebera, nos últimos dois dias, aproximadamente 20 mensagens de sua mãe, pedindo notícias.

Takao sabia que sua mãe estava preocupada e que ela o amava. O choque estava começando a passar e ele conseguia responder as mensagens dela esporadicamente, dando atualizações breves para que ela não colocasse a polícia atrás dele.

Mas a decepção profunda ainda não deixara seu peito.

Takao queria perdoá-la e voltar para casa. Sua mãe era a única pessoa que o aceitava como ele era — talvez com exceção de Kise. O Japão não era exatamente o que se tem em mente quando se pensa em países com aceitação LGBT, e Takao sabia bem disso. Portanto, até Kise chegar, ele nunca conversara abertamente com ninguém, nem mesmo com Midorima, sobre sua sexualidade. Claro, Midorima o ouvia falar sobre homens o tempo todo. Além do mais, Takao imaginava que as pessoas não eram cegas, e conseguiam descobrir só de observá-lo por alguns dias. Midorima, seu melhor amigo desde os 6 anos de idade, com certeza devia saber, e como nunca comentou nada, Takao assumira que ele estava em paz com essa informação.

Mas e se não estivesse?

A primeira vez que Takao admitira algo abertamente havia sido respondida com indiferença. Midorima mal reconheceu que Kenzo o havia rejeitado por ser gay. Midorima não comentara nada, na verdade.

O fato de que Shin-chan não o havia defendido nem mostrado que reprovava as palavras de seu pai ficava dando voltas em sua mente.

Takao sentiu um aperto no coração. Seria possível que Midorima também achasse que ele o estava contaminando? Ou pior, será que ele achava que Kanako era apenas uma mulher oferecida e Takao, por ter personalidade semelhante à dela, não era diferente?

Seu corpo estava pesado como chumbo enquanto ele deixava a água do chuveiro do vestiário correr por seus cabelos. Todos esses pensamentos estiveram rondando sua consciência durante o treino da tarde, mas Kise o distraíra o suficiente para que ele conseguisse fazer os exercícios. Agora, porém, a carga emocional de tudo aquilo estava caindo sobre seus ombros de novo. As escolas haviam se dividido para seus respectivos chalés, e portanto, Kise não estaria mais por perto.

Não é como se Takao não tivesse mais ninguém com quem conversar. Ele se dava bem com seus colegas de time. Mas sem a faladeira incessante de Kise, era quase impossível ignorar o olhar triste de cachorro chutado que Midorima estava exibindo desde o início do treinamento. Ele não pôde deixar de notar o quanto Midorima parecia reservado, desviando de conversações, passando horas em silêncio, andando afastado do time durante as refeições.

Takao queria falar com ele.

Mas a ideia de que Midorima talvez compartilhasse das opiniões de seu pai o estava comendo vivo.

Ele não tomaria o primeiro passo. Não dessa vez. Se Midorima quisesse falar com ele, sabia onde encontrá-lo.

Takao desligou o chuveiro, dizendo para si mesmo que não notou o ponto verde em sua visão periférica, olhando para ele.

A janta havia passado como um borrão. Midorima mal falara com seus colegas, pegando sua tigela de sopa e comendo em silêncio na ponta da mesa. Ele sentiu Takao lançando olhares para ele ao longo da refeição, mas não teve coragem de olhar de volta. Não sabia como conversar com ele.

Midorima queria pedir desculpas, mas sendo a pessoa orgulhosa que era, isso não vinha muito naturalmente para ele. Takao valia o esforço, ele sabia disso, mas quais seriam as palavras certas?

Quanto mais tempo passava, mais Midorima sentia como se seu melhor amigo estivesse escorrendo por suas mãos. Ele sentia uma ansiedade de ir até ele e confrontá-lo, dizer que o que seu pai havia dito era ridículo, que Takao jamais poderia contaminá-lo, muito pelo contrário. Takao fazia sua vida mais fácil, mais divertida, mais empolgante.

Ele colocou uma colher de sopa missô na boca, pensativo. Enquanto o tofu se dissolvia em sua língua, ele pensava em como seres humanos eram difíceis de prever. Sentimentos eram complicados. Midorima gostaria que a vida fosse um jogo de xadrez, com regras claras e movimentos definidos do que você pode ou não fazer para vencer.

Ele olhou por cima da colher para onde Takao conversava animadamente com alguns meninos do primeiro ano. Então, o moreno se despediu e levantou, indo em direção aos dormitórios.

Midorima precisava falar com Takao. E logo. Uma vez que havia comido, recolheu seu prato e se retirou para seu respectivo quarto.

Os chalés tinham 9 quartos cada, de forma que 3 eram ocupados individualmente pelo técnico, assistente do time e professor responsável. O restante do time (6 titulares e 6 reservas) estava dividido em duplas, uma dupla por quarto. As duplas eram separadas por ordem alfabética, e portanto, Midorima não ficou no mesmo quarto de Takao.

Quando se deu conta, todos estavam colocando seus pijamas, e ele não conseguira um momento a sós com seu amigo.

Midorima engoliu em seco. Mais uma chance desperdiçada. O dia seguinte seria ainda mais pesado, com partidas amistosas entre as escolas, o que tornaria a experiência ainda mais cansativa e menos propensa para um introvertido precisando conversar com seu melhor amigo. Enquanto isso, Takao estava rindo com Kise, se consolando com Kise, dormindo na porcaria do apartamento chique de Kise.

Midorima sentiu uma pontada de desespero.

Ele preparou-se para dormir, dando respostas automáticas quando Miyaji, seu colega de quarto, falava com ele. Deitou sua cabeça no travesseiro, tentando convencer seu corpo a pegar no sono à força.

Duas horas se passaram e Midorima se sentia mais acordado do que nunca.

Quando rolou na cama pela quarta vez naquela noite, desistiu. Fazendo esforço máximo para não acordar Miyaji, Midorima se pôs de pé. Não sabia para onde iria, mas qualquer lugar era melhor que ali. Ele precisava espairecer. Talvez o jardim fosse uma boa ideia.

Apontando sua cabeça para fora da porta para verificar que não havia ninguém vigiando os quartos, Midorima avistou uma escada ao fundo do corredor.

Intrigado, ele se aproximou e olhou para cima. A escada dava para um vão no teto. Estava prestes a ignorar e seguir seu caminho, afinal, Midorima não era do tipo que bisbilhota, quando ouviu um barulho de madeira rangendo.

Tem alguém ali em cima.

Midorima sentiu um arrepio na espinha.

Ele deveria verificar, certo?

Seus colegas poderiam estar em perigo.

Suas mãos tremeram.

Ele pensou em Takao, dormindo a poucos metros dali, sem qualquer suspeita.

Eu tenho que fazer alguma coisa.

Subindo a passos lentos e silenciosos os degraus da escada, Midorima colocou, finalmente, os olhos para dentro do vão.

Era um sótão de teto inclinado. Ao centro do teto, uma enorme janela de vitrais abria-se para as estrelas, e a luz da lua refletida no vidro colorido banhava toda a superfície das paredes e do piso de madeira em azuis, magentas, verdes e amarelos suaves.

Ao canto do sótão… uma figura encurvada e agachada se encolhia no escuro. Estava de costas, de forma que não o viu chegar.

Engolindo em seco, Midorima espremeu os olhos para tentar enxergar melhor, mas estava muito escuro. Tentando chegar mais perto, ele segurou a beirada da abertura e inclinou seu corpo para frente. Sob o peso adicional, a madeira rangeu, e o intruso levantou-se de súbito e soltou um grito.

Os cabelos pretos emolduravam seu rosto pálido e ele vestia blusa e bermuda brancas. Estava mais pálido que o normal e seus olhos azuis estavam vermelhos, como se estivesse chorando, mas Midorima reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.

— Takao. — sussurrou.

Notas finais
Olás! O que acharam? Deixo aqui esta cruz exorcizante de leitores fantasmas! ~Kissus