Eu te odeio, Midorima Shintarou
13 Sob as estrelas e vitrais
Notas iniciais
Takao não se levantava no meio da noite para chorar no sótão alheio com frequência. Não era uma ocorrência corriqueira. Mas no momento em que Kise havia se despedido e ele estava sozinho de novo, ele havia sentido saudades de sua mãe. Além disso, olhar para Midorima doía. Ele continuava se lembrando de quando seu amigo havia caminhado para longe, deixando-o sozinho no pátio da escola, depois de Takao ter contado que o pai de Midorima o desprezava e o queria longe. Ele havia passado horas rolando na cama, lembrando do rosto chateado de Midorima e se perguntando se ele o abandonaria também. E se Kenzo seria seu novo pai agora.
Foi então que ele decidira andar pela casa, e a escada no fim do corredor se parecia tentadoramente com um esconderijo. Takao subira até ali e se permitira pensar em tudo. Quando percebeu, as lágrimas haviam começado a cair, e ele não viu motivo para tentar pará-las.
Isto é, até Midorima o flagrar em seu momento escondido e vulnerável.
Takao fungou e agachou-se no chão novamente, abraçando seus joelhos.
— Sai daqui, Shin-chan. — pediu ele, fazendo o possível para soar mais confiante do que se sentia.
Apesar disso, Midorima subiu as escadas. Takao não olhou para cima, mas ouviu o som da madeira rangendo enquanto ele se aproximava. Um corpo agachou-se ao lado do seu, e estava tão perto que Takao podia ouvir sua respiração.
Seu corpo traidor, parecendo não saber que ele deveria estar com raiva, iniciou o protocolo padrão de proximidade de Shin-chan: suas mãos começaram a suar e seu coração acelerou. Ele arriscou um olhar para seu amigo.
Os vitrais coloridos lançavam nele um caleidoscópio de cores, e Takao o achou estonteante ali, cabelos verdes brilhando em meio ao mosaico de luz.
Seria mágico, se Takao não estivesse sentindo catarro e lágrimas escorrendo em seu rosto, completamente alheio à magia.
— Bom… — começou Midorima. — este lugar com certeza é o melhor do acampamento.
Takao mal olhou em volta, seu olhar fixo no chão. Não respondeu.
Midorima estava tenso ao seu lado. Takao notou quando ele passou as palmas das mãos pelo tecido da calça, enxugando suor.
— Takao, eu queria dizer que… — seu amigo parecia lutar para escolher as palavras. — … eu queria que soubesse…
Midorima estava nervoso. E isso, até onde Takao sabia por sua vasta enciclopédia Shin-chânica, era raro.
— …eu sempre soube que você é gay. — acabou dizendo.
Takao encolheu-se ao som das palavras, com medo do que viria a seguir.
— Parabéns, Midorima, a descoberta do ano! — disse ele, sarcástico.
Takao pensou tê-lo visto se encolher. Um segundo de silêncio se passou.
— Não me chame de Midorima, é estranho. — pediu ele, dando-lhe uma ombrada.
Takao sentiu o calor irradiando do corpo de Midorima e viajando por seu corpo.
— Eu quis dizer que eu sempre soube, mas nunca vi como um problema. Desculpe não ter dito nada antes. — continuou Midorima. Seu tom de voz era baixo e quase carinhoso, e estava lhe causando arrepios.
Takao respirou fundo e exalou, trêmulo. Um imenso alívio passou por seu corpo.
— Eu pensei… que talvez você tivesse nojo de mim também. — disse Takao, a voz falhando. Ele sentiu lágrimas se formando de novo em seus olhos. Não ousou olhar para Midorima.
Logo, ele sentiu a textura de dedos enfaixados passando suavemente em sua bochecha, limpando uma lágrima silenciosa que lhe descia pelo rosto.
— Nunca mais pense uma coisa dessas. — a voz de Midorima era tão gentil que arrebentou a última corda que segurava seus sentimentos reprimidos: medo, insegurança, desconfiança, solidão. Ele sentiu as lágrimas vindo com mais força. Era como se um peso tivesse sido levantado de seus ombros. Ele não sabia o que faria se Midorima o olhasse diferente, como Kenzo olhava para ele. Midorima era seu melhor amigo, a pessoa por quem estivera apaixonado pelos últimos seis anos, a pessoa em quem ele confiava com sua vida.
— Ok… — Takao sussurrou. Finalmente, ele se soltou da posição fetal em que estava e abraçou o pescoço de Midorima, enterrando sua cabeça ali. Após alguns segundos imóvel, Midorima lentamente retornou o abraço, segurando a cabeça de Takao com uma das mãos e as costas com a outra. — obrigado.
Eles ficaram algum tempo abraçados, até que as lágrimas de Takao secaram. Os braços de Midorima eram quentes, firmes e estáveis, características que, para Takao, resumiam perfeitamente seu amigo gigante e introvertido. Após alguns segundos, Takao desfez o abraço, e eles caíram em um breve silêncio, em que ele não soube o que dizer. Foi Midorima quem quebrou o silêncio primeiro:
— Sobre a nossa conversa de antes… me desculpe. Eu queria culpar a sua mãe, mas a verdade é que meu pai é tão culpado quanto ela. — disse Midorima, olhando para o chão.
Takao abriu um pequeno sorriso.
— Tá tudo bem, Shin-chan. Eu sei que… minha mãe te fez sofrer. Eu também não perdoei ela ainda. É só que… — Takao se encolheu. — ela é a única família que eu tenho. Não tem muitas pessoas em quem eu confio. E bom, eu estava muito puto com o seu pai.
Midorima encarou-o.
— Não vou deixar ele nem ninguém dizer coisas ruins sobre você de novo. Você não está me infectando, Takao, você…
Takao olhou para ele, seu peito se enchendo de expectativa.
— Eu…? — apressou.
Midorima engoliu em seco.
— Você é muito importante pra mim.
Takao sentiu borboletas no estômago. Abriu um sorriso ainda maior. Midorima sorriu de volta.
— Uau, Shin-chan, nunca vi você falar assim. Deve ter batido a cabeça feio.
Midorima franziu o cenho e deu um tapa na parte de trás de sua cabeça. Takao riu.
— Agora sim. — disse Midorima.
— O quê? — questionou Takao, confuso.
— Combina muito mais com você essa cara de abobado feliz.
Takao riu.
Eu amo você, pensou.
— Eu odeio você, Shin-chan.
Ele pensou que Midorima devolveria a provocação, mas ele apenas abriu um micro sorriso, um que Takao teria perdido se não estivesse olhando tão atentamente para seu rosto. Então, seu amigo olhou para o céu, para além da janela do sótão.
— A constelação de câncer está brilhante hoje. Devo estar com sorte.
Takao olhou para a mesma direção que ele.
— Eu não entendo como você consegue enxergar essas coisas.
Midorima revirou os olhos.
— Ali, Bakao. — e apontou para um aglomerado de estrelas.
Takao riu.
— Shin-chan, você tá apontando pro céu todo.
Midorima olhou-o de canto de olho com irritação e deu-lhe um tapinha no pescoço.
— Você é o cego e eu que uso óculos.
Takao fez beiço.
— Sua resposta pra tudo é violência? — dramatizou, esfregando seu pescoço agredido.
Midorima suspirou. Então, pegou uma das mãos de Takao e puxou seu dedo indicador. Takao franziu o cenho.
— Você é doido, é?
Midorima ignorou-o e encostou o dedo indicador de Takao no chão de madeira frio.
— A constelação de câncer é assim.
E então, segurando sua mão, Midorima fez Takao desenhar um Y invertido e meio torto no chão. Em cada ponto onde havia uma estrela, ele fazia uma pequena pausa, segurando a mão parada por mais tempo. Takao sorriu.
— Ok, acho que entendi. — respondeu.
— Entendeu? Então agora olha pro céu.
Quando olhou, Takao levou alguns segundos, mas pouco a pouco, o desenho desajeitado de Midorima foi se formando diante de seus olhos. Ele arregalou os olhos.
— Shin-chan, eu consigo ver! — disse, erguendo a voz em empolgação.
Midorima o olhou com o cenho franzido e colocou um dedo sobre os lábios.
— Shhh!
Takao riu.
— Desculpe.
Sorrindo, ele voltou a olhar para a constelação que acabara de aprender. Era bonito. Ele pensou em Shin-chan, acreditando na força dos astros e do universo influenciando nos destinos das pessoas. Sorriu. Takao jamais acreditara em nada parecido. Na verdade, jamais acreditara em nada especial lá fora. Até onde ele sabia, era ele por ele mesmo. Mas a ideia de que o destino trouxera para ele Midorima Shintarou era tentadoramente bonita.
Ainda olhando para as estrelas, ele indagou:
— É bem bonito aqui, né, Shin-chan?
Quando não houve resposta, Takao baixou os olhos, estranhando. Será que seu amigo estava tão distraído assim?
Mas Midorima estava olhando diretamente para ele.
— O que foi? — questionou Takao.
— Eu achei que ia perder você. — confessou seu amigo.
Takao pausou.
— O quê?
Midorima parecia constrangido, como se aquela conversa doesse nele. Mas também parecia profundamente triste, e o coração de Takao se partiu um pouco. Ele abriu um meio sorriso, tentando amenizar a tristeza.
— Me perder? Pff, ridículo. Eu aceitei há muito tempo, Shin-chan, é impossível sair da sua vida. Eu penso em você o tempo todo, é insuportável. Eu to envolvido até o pescoço.
Midorima congelou, imóvel.
Takao engoliu em seco. Soou muito gay. Preciso mudar de assunto.
Midorima falou primeiro:
— É que você e o Kise andam grudados agora. Eu pensei…
Takao riu.
— Você não está com ciúmes do Kise, está?
Midorima soltou um riso nervoso. E então, para o completo choque de Takao, sussurrou:
— Estou.
Takao o encarou, imóvel. Ele esperava uma resposta diferente. Estava tentando fazer uma brincadeira para aliviar o clima, mas olhando para o semblante de Midorima agora, ele parecia totalmente sério.
— Kise é só um amigo. — disse Takao, hesitante.
Midorima inclinou o corpo para perto de Takao, olhando-o nos olhos, e o menino sentiu seu corpo inteiro tenso. Sua pulsação acelerou e seu rosto estava insuportavelmente quente.
— E por quê você está dormindo na casa dele? — Midorima estava próximo, muito próximo. Takao tentou escolher suas respostas com calma.
— Eu fugi de casa, Shin-chan. E eu não podia ir dormir com você, podia? Não com tudo o que está acontecendo.
Midorima desviou o olhar e suspirou.
— Eu não sabia. Sua mãe sabe que você está aqui?
Takao deu de ombros.
— Ela faz alguma ideia.
Midorima apertou os lábios.
— Entendo. Mas não gosto da ideia de você dormindo lá.
Takao estudou o rosto de seu amigo.
— Shin-chan, Kise é meu amigo. Mas você… — Takao colocou sua mão por cima de uma das mãos enfaixadas de Midorima e olhou-o nos olhos. — ...é muito mais.
Takao ouviu quando Midorima respirou fundo e prendeu o fôlego. Ele observou o pomo de adão de seu amigo subir e descer, e a mão de Midorima era quente, muito quente, sobre a sua.
De repente, todas as palavras insinuantes de Kise sobre Midorima no fundamental vieram em sua mente. Todas as vezes que ele pensou ter sentido reciprocidade e descartara como ilusão de sua cabeça, todos os olhares trocados, os toques demorados, os ciúmes de Midorima, as mensagens de texto pós incidente da boate…
Ele subitamente se sentiu corajoso.
— Shin-chan. — Takao colocou um dedo sob o queixo de Midorima, virando o rosto dele em sua direção. — Eu vou tentar algo, está bem? Você precisa confiar em mim.
Midorima o encarava em silêncio, olhos verdes escuros e misteriosos no sótão mal iluminado. Takao o achou estonteante.
Lentamente, Midorima assentiu com a cabeça.
— Feche os olhos. — pediu Takao.
Seu pedido foi atendido. Cílios verdes descansaram suavemente sobre as bochechas de Midorima.
Takao sentiu o coração batendo em sua garganta. Observou o rosto sereno de Midorima, o mesmo rosto que estrelara incontáveis sonhos seus, logo ali, a poucos centímetros. Seu melhor amigo de infância e sua primeira (e única) paixão.
Antes que pudesse perder a coragem, Takao segurou Midorima pela nuca e fechou a distância entre eles, beijando suavemente seus lábios.
Ele sentiu seu estômago se apertar. Estava tão nervoso que sentia todas as suas terminações nervosas se acenderem, sensíveis. Em pouco mais de um segundo, afastou-se e abriu os olhos, ansioso, ainda com a mão na nuca de Midorima. Não sabia o que encontraria no rosto de seu amigo.
Quando se deparou com olhos verdes o encarando de volta, sentiu uma pontada de medo. Com um peso no peito, Takao começou a puxar de volta sua mão e afastar seu corpo, mas dedos enfaixados seguraram seu pulso, prendendo-o. Takao engoliu em seco, e sentiu de novo o martelar de sua pulsação. Ele entreabriu a boca para perguntar se seu amigo estava bem, se ele havia cruzado uma linha, mas Midorima foi mais rápido. Em um segundo, ele inclinou sua cabeça para a frente e beijou Takao.
Se o beijo de Takao havia sido uma pergunta, tímida e insegura, o de Midorima era a resposta: firme, cheia de desejo, decidida.
Beijar Midorima era como agarrar-se a uma boia salva-vidas depois de nadar por horas em mar tempestuoso. Seu fôlego morreu em sua garganta e Takao sentiu como se o mundo fosse gelatina, e Midorima fosse sua âncora.
Com medo de que Midorima pudesse derreter ou evaporar, Takao segurou o rosto de seu amigo entre suas mãos. Em resposta, Midorima entremeou uma mão enfaixada nos cabelos de Takao, acariciando de leve. Ele sentiu um arrepio descer sua espinha sob o toque gentil de seu amigo, e suspirou.
Quando sua cabeça começou a ficar leve pela falta de ar, Takao se separou, ofegando. Por um momento, a mão de Midorima ficou onde estava em seu cabelo, e Takao também não se moveu. Eles se olharam em completo silêncio, quebrado apenas pela respiração arfante de ambos. Então, Midorima se afastou, soltando o pulso e a cabeça de Takao e endireitando-se. Alguns segundos se passaram em silêncio, e então:
— Talvez eu também seja gay. — disse Midorima.
Takao soltou uma risada e olhou para seu amigo, mas Midorima não estava sorrindo.
— Bom… talvez. — respondeu.
É o que eu venho pedindo ao universo todos os dias, pensou Takao.
Mais um momento de silêncio se passou. Takao não sabia o que dizer. Não sabia o que pensar. Só conseguia pensar em um outro beijo.
— Nós deveríamos dormir, temos treino amanhã cedo. — veio a voz de Midorima.
Takao engoliu em seco.
— É, tem razão. Otsubo vai fritar a gente pro café se não levantarmos a tempo, né?
— Sim…
Lentamente, ambos se puseram de pé. Midorima alisou suas roupas amassadas e deu um passo para frente, mas Takao segurou-o pelo pulso.
— Espera. — chamou.
Quando Midorima se virou, ele beijou-o.
— Boa noite. — disse Takao, sorrindo.
Midorima o encarou, atônito. Takao não tinha certeza se eram apenas os reflexos coloridos de luz ou se ele estava corando. Então, ele respondeu baixinho:
— Boa noite.
E virou-se, descendo as escadas rapidamente.
Antes de voltar para o seu quarto, Takao ficou de pé, parado sob o mosaico de cores que se derramava pelos vitrais do sótão, se perguntando se aquilo tudo fora real.
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