Eu sou o inverno

82 Como as folhas - parte 3


Como as folhas — Parte 3

Capítulo 9 e 10

– Não vai ter punição? Um justiçamento? — Rebekah andava de um lado para o outro, Kol estava jogado em uma poltrona com os olhos fechados sem se mover.

– Aparentemente a sua consciência já está fazendo isso.- comentei vendo Elijah conter um sorriso.

– Você não vai deixar isso passar impune Niklaus. Eu te conheço. Quando ficou tão benevolente?

– Não fiquei, você vai valer mais aqui do que dormindo.

– É o que te faz achar que eu estou do seu lado? Eu não estou aqui para se…

– Você não tem escolha. Nós colecionamos inúmeros inimigos ao longo dos séculos, são milênios de vida. Eu te colocaria para dormir, mas e os nossos inimigos fariam o que? Não se deixe enganar, acha mesmo que Marcel e seu reino que foram derrotados por uma humana duplicata seriam páreo para todos os inimigos que colecionamos em vida? Acha mesmo? Quando te vi me traindo eu não me preocupei, pois quando o portal se abrisse e o mundo caísse, eu seria a primeira pessoa de quem você viria atrás.

Rebekah engoliu em seco, seus braços se cruzando enquanto ela olhava para nós, se virou e foi embora batendo os pés furiosamente para longe de nós.

Kol finalmente abriu os olhos.

– Não vou levar um sermão sobre conduta de irmãos… e…

– Seu castigo vai ser passar os próximos séculos resolvendo os problemas da nossa irmã idiota, como se você fosse o primogênito, tudo o que Rebekah fizer é um problema exclusivamente seu, eu tenho um filho para criar e não tenho mais tempo para isso.

Ele bufou apertando os olhos e se levantou indo furiosamente atrás dela.

– Os dois vão se castigar mutuamente. — Elijah ajeitou a manga da camisa que usava.

– Eu sei. Das 24 horas de um dia, eles costumam se dar apenas 1 hora de trégua, vou garantir que cada um tenha uma adaga na mesa de cabeceira, os caixões estão limpos?

Elijah riu.

– Desde o momento em que você foi sequestrado.



- Nik sou eu. Eu toquei na pedra. Eu tenho que morrer para eles voltarem.

A última frase reverberou na minha cabeça, achei a solução em segundos enquanto vagava por meus pensamentos. Era só a transformar em uma vampira e ela ficaria bem, mas vendo seus olhos eu vi que a solução não era tão simples assim. Ela não precisou abrir a boca para eu saber que isso não adiantaria em nada.

E eu não precisei perguntar nada, em seus olhos eu já sabia da sua decisão. Isso me matou de forma visceral, nenhum inimigo teria conseguido causar tamanho dor. Ficou mais do que claro para mim que a paz da minha mulher seria às custas do meu pior pesadelo.

Eu sou egoísta demais pra deixar algo assim acontecer, se a vida dela custasse toda a vida existente em Nova Orleans, assim eu faria.

Do fundo do meu coração, eu não sei se conseguiria ser capaz de deixar ela concretizar seu plano. Mesmo que fosse para trazer os seus três amigos de volta, eu realmente não sei se conseguiria deixar que ela se fosse, mesmo que a consequência fosse o ódio mortal que ela sentiria por mim pela interferência.

Eu estava disposto a conviver com essa culpa.

Mas eu tinha algo que deixava meus pés firmemente plantados no chão. Embora eu odiasse Bonnie e Damon, se tinha algo que eu sabia que era tão concreto quanto o que eu sentia por Sage, é que eles jamais aceitariam que ela morresse. Então se a própria Bonnie estava utilizando de toda a sua energia para se fazer presente no mundo dos vivos, mesmo que isso significasse perder a vida e deixar de existir com essa simples atitude, era por ela saber que haveria uma solução. Eu teria que confiar a vida da minha marcada nas mãos de pessoas que eu prejudiquei, assim como teria que fazer o mesmo com meu próprio filho.

Ironicamente, eu terei que colocar a minha vida na mão dos meus inimigos, se eu quiser que sobre algo de mim no fim disso tudo.

Niklaus Mikaelson teria de se redimir, e eu não poderia estar mais preocupado com a recepção dessa minha ação.



– Caroline! — a ajudei quando ela atendeu a ligação.

Niklaus, que bom que deu tudo certo. — ela comentou aliviada. - Ficamos preocupados que a hipnose não fosse durar tanto tempo, Alaric disse que não tinha tanta prática assim.

– Pois ele pode ficar despreocupado, os vampiros ainda estão sob o meu controle.

Fico feliz. Bem, o que mais posso fazer?

– Estamos no rastro de um bruxo, Gaspar…

Gaspar… hum. Não me é estranho. Ah! Ele era o médico da Sage, aqui em Mystic.

– Médico da Sage?

Sim, todas as vezes que precisamos levar a Sage para o hospital, ou que ela mesma ia sozinha era sempre ele que a atendia. Nunca foi outro médico. Não achamos muito estranho na época, Mystic é uma cidade muito pequena, então não se tem muitos profissionais.

Respirei fundo, o que está acontecendo?

– Parece que ele veio para Nova Orleans.

Isso é… suspeito.

– Muito, ele com toda certeza está sabendo de alguma coisa. Caroline, eu preciso que você venha até Nova Orleans, é urgente. Eu vou precisar de um grande favor seu, eu realmente sinto muito por estar te colocando nisso, no estado em que as coisas estão, mas eu preciso que você venha o mais rápido possível.

Não precisava me chamar, eu já estou arrumando as minhas coisas, eu acho que Stefan sabe onde vocês estão.

– O que faz você imaginar isso?

Acho que Bonnie me deu uma mensagem, todas as coisas de Sage na casa dos Salvatore pegaram fogo. Não queimou mais nada, apenas as coisas dela. Isso com toda a certeza foi uma mensagem, nada assim havia acontecido antes. Eu… só não consigo ter certeza se isso é realmente sobre Stefan, ou se é um aviso sobre alguma outra coisa.

Meus olhos varreram ao redor, minha mandíbula endureceu e eu comecei a andar em direção ao meu carro.

Vou colocar alguém para procurar por ele.

– Tudo bem, aguente firme. Eu estou indo.



Eu me apressei para ordenar que vampiros e híbridos saíssem à procura de Stefan. O objetivo era apenas o deter e o aprisionar até que descobrissem o que havia de errado com ele.

Eu não acreditava nessa loucura psicótica de Stefan, não conseguia simplesmente acreditar que ele fazia isso estando completamente são. E também não acreditava que isso se tratasse apenas da magia do elo ou daquela pedra. Algo havia acontecido no meio disso tudo, e eu me arrependia de não ter pedido a ajuda de Caroline antes. Provavelmente se tivéssemos capturado ele e utilizado os poderes de Alaric, conseguimos ao menos tentar o manter sob controle, considerando que a hipnose seria mais efetiva contra o que quer que estivesse acontecendo com ele. Uma hipótese apenas, mas eu me senti extremamente burro em não ter tantado isso quando ele ficou por tanto tempo perto deles.

– Um médico. — comuniquei Elijah. — Ele deve estar em algum hospital por aqui.

– Sim. Já sabemos que ele é um médico. Teríamos notícias disso, eu acredito. Sage já passou quantas vezes pelo hospital? Acho que ela não teria uma reação amigável caso desconfiasse de um stalker.

– Ela e Katherine viraram amigas, ela tem esse super poder de criar laços com os inimigos. Me parece que ele era o único responsável por ela, nunca, jamais passou por outro. E Caroline afirma isso, elas se conheceram na adolescência… então desde quando ele acompanha ela? Pode ter sido o responsável por trazer ela ao mundo, até onde sabemos.

Elijah ponderou por um breve momento.

– Vou verificar os hospitais.

Nós fizemos uma divisão onde Elijah procuraria pela região norte e ele iria para a região sul, o primeiro local em que pisei foi no hospital onde Sage havia recebido seu último atendimento. Ao procurar pelo médico, fui informado que o hospital nunca havia possuído um médico com nome de Gaspar. O único médico que havia atendido a emergência nas últimas 12 horas era um novato chamado Peter Williams.

Passei as próximas 6 horas vasculhando desde os grandes hospitais até as pequenas clínicas, até que me dei por vencido e voltei ao reino que começava a erguer suas paredes novamente. Marcel estava sentado do lado de fora ao lado de Davina, eles pareciam estar em uma conversa tensa quando cheguei, mas ignorei completamente o fato.

– Preciso do registro de entrada de uma pessoa em específico. Um homem chamado Gaspar. Um bruxo.

Os dois se olharam confusos.

– Gaspar?

– Eu vi que ele entrou recentemente em Nova Orleans, e não estou conseguindo encontrar ele, teve contato com Sage e preciso achar ele com urgência. Um portal vai se abrir logo, e é bom a gente se apressar se não quisermos que uma batalha aconteça mais cedo do que o previsto.

– Ah sim, o cara médico. Ele deixou de usar esse nome há um tempo, eles sempre fazem isso quando passa tempo demais. Bruxos que não envelhecem, já viu algo assim? Já vi trocarem de corpos, mas isso… não é tão comum.

– Marcel. Ele é o presságio de algo ruim.

– Gaspar não é ruim. Ele é inofensivo, gosta de salvar vidas e esse tipo de coisa, é quase um santo. Ele é necessário aqui em Nova Orleans.- falou despreocupadamente.

– Ele está atrás de Sage. Segundo uma amiga, provavelmente desde a adolescência dela. Foi o único médico que ela teve em vida e eu quero saber o motivo. Consegue entender isso? Um portal vai se abrir aqui, e tem um bruxo, mais velho que esses tijolos dessa cidade, que provavelmente está atrás da minha mulher desde que ela era uma criança.

Marcel me encarou seriamente refletindo por um longo momento, seu finalmente demonstrando preocupação.

– Tudo bem, acho que isso é do meu interesse. Uma duplicata poderosa e um bruxo que a persegue desde jovem… vamos ver.

Entramos na sala de Marcel, ele pegou o grosso livro que eu havia visto anteriormente no período em que eu passei preso, e jogou sobre a mesa vasculhando todas as folhas, até que finalmente encontramos os últimos registros. Antes existia uma lista cronológica entre os nomes, mas as últimas páginas estavam escritas em uma espécie de idioma que eu não conhecia, mas havia um nome em inglês entre as palavras. Davina levou seu dedo indicador até o nome que estava em uma caligrafia completamente diferente das que preenchiam o livro.

– Aqui… último registro como Peter Williams. — prendi a respiração.

– Mande alguém para a casa de Sage, eu preciso ir até esse bruxo.

– Sabe onde ele está?

– Sim, ele atendeu ela hoje. Preciso voltar lá, imediatamente.



Eu cheguei praticamente junto de Elijah, meus pés pisaram na calçada ao mesmo tempo que ele, assim que passamos porta a dentro pelo hospital foi como se nossos corpos sofressem uma descarga elétrica. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram, meu corpo formigou, mas isso não foi o suficiente para me parar.

À medida que andávamos, corpos de médicos, enfermeiros e técnicos apareciam largados pelo chão, todos parecendo estar em uma espécie de sono profundo. Respirava calmamente, e isso fez minha mente se alertar. Não havia uma única alma acordada, nem mesmo os pacientes. Isso me preocupou, em milênios eu nunca havia visto tal poder vindo de um bruxo. Um imenso hospital de mais de três andares dormia em um sono profundo, todos os equipamentos elétricos pareciam estar em uma espécie de pane, ligando e desligando, as televisões estavam com interferência, celulares e telefones tocavam e desligavam o tempo inteiro.

Quanto mais o incômodo crescia em meu corpo, mais eu tinha certeza de estar no caminho certo. Eu olhei brevemente para Elijah, sabia que ele sentia aquela energia caótica crescer dentro de si da mesma forma que crescia em mim. Eu senti meu rosto se retorcer passando pelo processo de transformação sem que eu quisesse isso, e quando eu olhei para o meu irmão ele já estava completamente transformado.

Nossa procura terminou em uma sala de cirurgia, o loiro estava no meio dela, imóvel e com as mãos enfiadas em um jaleco branco, aguardando a nossa chegada sem demonstrar nenhuma emoção.

– Soube que me procurou por aqui hoje Niklaus. — a voz dele era penetrante, suave e gentil, mas possuía um toque ameaçador que se intensificou junto da eletricidade que passava pelo meu corpo de cima a baixo.

– Eu gostaria de saber de onde nos conhecemos.

– Nunca nos vimos antes, se isso houvesse acontecido seríamos grandes inimigos. E não haveria como você estar pisando no mesmo mundo que eu. — ele me olhou dando um sorriso perturbador. — Que bom que não foi assim.

– Prepotente! Arrogante e…

– Niklaus, já chega. — Elijah me parou. — Não estamos aqui para isso, viemos aqui por um motivo…

– Sage. É claro.

– A vida dela corre risco. — Elijah tomou a frente. — Por isso estamos procurando, cruzamos informações e vimos que você está sempre por perto dela.

– E vocês gostariam de saber o motivo. — concluiu.

Interrompi ele.

– Gostaríamos de muita coisa na realidade. De saber o motivo, de ajudar Sage com seus amigos e sua própria vida… e talvez, nos dizer um pouco mais sobre o que nos aguarda com a abertura do portal dos mortos e vivos.

Ele respirou fundo me olhando intensamente, as luzes do hospital piscavam devido a eletricidade presente no ar, tudo parecia conduzir eletricidade no ambiente e eu não me sentia nada disposto a enfrentar uma descarga elétrica caso eu chegasse a esbarrar em qualquer objeto ali dentro. Tudo mesmo que inanimado, parecia ganhar vida.

– São muitas coisas.

– Acho que você já sabia a partir do momento que ouviu falar sobre mim, não é?

– Foram específicos em dizer que não seria nada amigável.

– Eu não sou amigável.

– Tem muito tempo que você anda atrás de mim.

O olhei confuso.

– Não tem, não mesmo. Eu fui saber da sua existência poucos dias atrás.

Ele riu e eu já sentia a irritação bater sobre mim, meu celular tocava de maneira estridente irritando meus ouvidos, e o de Elijah se mantinha da mesma forma, optamos por não mover um músculo sem saber se isso se tratava de algum truque do bruxo.

– Eu acredito que não temos os mesmos interesses, se você quer que os amigos dela voltem… ela precisava ficar no lugar deles. É assim que funciona, uma troca.

– Apenas isso?

Ele me olhou de maneira penetrante, a mandíbula tensa. O ar parecia piorar mais ainda, se tornava incômodo respirar.

– Apenas isso. — fiz um cálculo em minha mente tentando chegar em algo coerente.

– E depois?

– O depois? — ele negou com a cabeça. — Eu virei para buscar ela, e do outro lado eu cuidarei, como um pai cuida de seu recém nascido.

Minha mente pareceu ter levado tempo demais para processar as palavras, o que não ocorreu com Elijah. Ele disparou em direção ao bruxo pronto para agarrar o seu pescoço, e eu fui atrás assim que entendi a mensagem.

Era como se uma massa de ar invisível houvesse se formado naquele meio tempo no meio da sala, ela se expandiu quebrando tudo que havia ao nosso redor, os vidros estouraram, a maca e os equipamentos viraram pó, o teto desabou e buracos se abriram nas paredes. Meus olhos registaram isso, mas meu corpo não foi rápido o suficiente e a descarga elétrica que me fez desabar no chão pareceu sair diretamente de dentro do meu peito, meu coração parou de bater me paralisando por completo no chão, meu corpo se tornando completamente imóvel enquanto eu sentia todos os ossos do meu corpo se quebrarem, por um momento eu jurei que eles virariam pó.

Eu gritava em agonia, e Elijah estava da mesma maneira. Eu conseguia escutar o som dos seus ossos se partindo, como se estivessem passando por uma máquina de moer, a eletricidade que passava pelo chão parecia fritar meu corpo e minha pele começava a desfazer, pingando no chão, com o cheiro intenso de queimado.

– Eu acho que deixei a mensagem clara. — tudo parou de repente. — Vocês não têm um pingo de controle emocional, eu nem terminei de falar. Me interpretam muito mal, talvez eu até tenha feito isso com um pouco de propósito.- ele suspirou parecendo desapontado.

A voz dele tinha uma espécie de cinismo, e eu quase senti como se eu tivesse ficado na pele de Marcel por um momento, quando ele perdeu seu reino.

Senti meu corpo iniciar o processo extremamente lento da cura, ergui minha cabeça observando. Ele estava em pé, completamente imóvel e com as mãos ainda dentro dos bolsos, me olhava de cima como se fosse um deus, iluminado por uma única lâmpada restante que estava acima de sua cabeça.

– Vamos, logo os humanos vão acordar e vir até aqui. Vamos aproveitar que as câmeras não voltaram a funcionar, eu não gosto muito de lidar com o pessoal da segurança. Eles são grosseiros e intimidadores.


Gaspar foi direto ao ponto, enquanto caminhávamos pelas ruas de Nova Orleans. Teria de ser em uma noite de solstício para facilitar a passagem sem o risco dela ficar presa, o feitiço precisaria ser feito com uma outra bruxa que o próprio Gaspar traria. Inicialmente seriam três bruxas, uma para cada corpo, mas ele garantiu que somente ele e essa bruxa poderosa seriam o suficiente já que Bonnie poderia ajudar do outro lado.

Sim, eu fiquei com medo e desconfiado, mas as coisas poderiam piorar mais ainda com a ajuda dele? Nós parecíamos ter chegado em uma reta final onde não havia mais lugar algum para ir, ele era a única opção que nós possuíamos, e seu ódio claro por Esther apenas fez com que eu me calasse e aceitasse a ajuda desse completo desconhecido. Quando o questionei sobre o motivo dele passar tantos anos atrás de Sage, ele apenas me olhou com uma profundidade absurda, seus olhos azuis grudam nos meus e ele apenas me disse.

– Você logo vai ter a chance de descobrir um novo tipo de amor, e então você vai me entender.

Nos despedimos e logo liguei para Sage para contar as novidades, esperei ouvir o alívio em sua vez, mas algo parecia errado. Fora de lugar.

Meu corpo foi acometido por uma sensação ruim enquanto eu falava com Sage, não era igual a energia caótica que fluiu de Gaspar, era pesada e cercada de tristeza. Eu nunca fui muito adepto de coisas relacionadas ao sensitivo, mas sendo uma criatura sobrenatural vivendo em um mundo místico, eu meio que era obrigado a acreditar em pressentimento. E algo terrivelmente ruim parecia caminhar pelas ruas de Nova Orleans.

Essa era uma sensação nova para mim, sentir o perigo. Geralmente isso foi algo com o qual eu nunca me preocupei, afinal, na grande maioria das vezes o perigo era eu. Agora eu estava do outro lado.

Por um breve momento respirei fundo, afastei essa sensação para longe que eu acreditei ser apenas preocupação com uma mistura de alívio por finalmente ter respostas e me despedi dela com animação, decidindo que se a visse, aquele peso sairia de dentro de mim.

Notei algo errado assim que estava chegando em minha casa, um cheiro intenso de sangue se concentrava no local, os vampiros de Marcel estavam espalhados pelo chão, alguns sem cabeça e outros sem coração. Quando tentei me mover uma dor lacerante atingiu meu peito, como se algo rasgasse meu coração de dentro para fora. Minha cabeça e minhas veias começaram a pulsar junto das batidas do meu coração e eu soube imediatamente que ela havia sido atingida. A marca me comunicava que havia algo extremamente errado.

Elijah tentou me segurar, mas fui mais rápido chutando a porta da casa a derrubando, ignorei completamente a figura de Stefan parada no meio da sala. Ela ainda estava agonizando quando cheguei até seu corpo, seu peito aberto e seu coração completamente esmagando, retorcido e perfurado bombeando sangue para dentro de sua caixa torácica, a quantidade sendo tão abundante que o sangue começou a se espalhar embaixo de seu corpo. Me ajoelhei segurando seu corpo, o líquido vermelho me cobriu por completo quando a apoiei em meus braços, como se um cobertor muito quente fosse colocado sobre mim.

Quando meus dentes rompem a pele de meu pulso ela já não reagia mais, seus lábios estavam esbranquiçados, os olhos completamente vazios de vida e seu pulmão não lutava mais com o sangue pelo ar. Forcei meu sangue pelos seus lábios, tentei o buraco em seu peito, e nada a fazia reagir. A abracei com força sentindo o cheiro de sua pele que logo se esvai, começando a ficar com o cheiro rançoso de sangue, beijei suas bochechas registrando em minha memória o restante do calor que se perdia.

Entrei em choque, meu corpo formigava e dentro de mim surgiu um vazio profundo. Eu não escutava as vozes, não sentia a presença de ninguém, não sentia mais o meu sangue fluindo pelo meu corpo e durante longos minutos o meu próprio coração parou de bater, como se eu houvesse sofrido uma parada cardíaca. Mas eu estava ali, diferente dela, mesmo com meu coração completamente parado e silencioso dentro de meu peito, eu respirava e me movimentava, segurando a figura inerte em meus braços antes de sentir a dor mais dilacerante que senti em minha vida percorrer o meu peito.

Meu cérebro processou a informação de forma extremamente lenta, eu finalmente entendi o que seria do resto de uma eternidade sentindo essa sensação massacrante que me invadia, como se fosse destruído cada molécula do meu organismo, que se reconstrói só para ser destruída novamente.

Eu sempre vi o lado positivo da imortalidade, e agora vendo que aquele buraco não se fechava, e que aquela pele não teria mais cor, nem que aqueles olhos voltariam a se mover, eu finalmente entendi o pior lado de viver para sempre.


Notas finais
Oii! E ai, show? Bastante história por trás da visão de Nik, não é? Na visão de Sage é como se ela sempre resolvesse tudo sozinha e como se ele fosse omisso em diversas vezes e estivesse resolvendo só aquilo que é interessante para ele, mas eu quis trazer aqui tudo o que ele faz por trás sem expor ela aos problemas, acho que essa é uma característica muito forte nele, as coisas que ele faz em segredo para que não atinja ela e aos outros ao seu redor. Muitas das vezes ele acaba falhando e quem ele gosta acaba sendo atingido, mas essa nunca é a intenção dele. Sage sabe de tudo que Niklaus faz por ela, embora ele fique em silêncio sobre isso na maioria das vezes. Nik ainda é uma figura bem orgulhosa que não gosta de expor as suas fraquezas, e achei que seria interessante ter a ótica dele e como ele reage com as pessoas ao redor em relação a ela. Alívio de finalmente estar conseguindo concluir a história, ainda faltam alguns capítulos, mas é muito bom voltar a escrever assim, depois de tanto tempo. É uma história que eu gosto bastante, provavelmente vou repostar do Wattpad e no Spirit, como vou reescrever a história acho interessante ter ela nessas plataformas para todos lerem como referência, já que na nova história vai ter muuitas modificações Vou manter a obra original, pois acho chato quando a história é reescrita e a original é excluída, fica meio complicado pois muitas pessoas tem apego emocional a história mais antiga. Esse não é meu plano, eu realmente gosto dela. Bjs!!