Eu sou o inverno
83 Como as folhas - Parte 4
Como as folhas — parte 4
Capítulo 11
– Niklaus, se levante. — Elijah falou ajoelhado ao meu lado, eu ainda segurava o corpo dela com firmeza, já havia perdido a completa noção de tempo.
Fiquei em silêncio, meus olhos ainda presos no rosto dela completamente sem vida. Em algum momento os dedos do meu irmão fecharam as pálpebras dela, ele retirou seus sapatos e limpou o sangue de seu rosto com um pano úmido. O sangue já havia secado completamente abaixo de mim e minhas roupas já estavam endurecidas pelo líquido.
Após um tempo, ele apenas desistiu e se afastou, Kol e Rebekah entraram ruidosamente na sala, eu me lembro de Rebekah arquejar surpresa, de Kol desabar no chão completamente em choque em um sussurro baixo sobre coisas que eu não me dava ao trabalho de entender. Meu pulso ainda sangrava, sendo perfurado por mim diversas vezes enquanto eu tentava fazer ela voltar a qualquer custo, mas nenhuma reação ela foi capaz de esboçar. Eu conhecia um morto e algo nela estava muito errado.
A coloquei no chão, minha mãos passando pelos meus cabelos, apertei sua mão com força a sentindo gelada, porém macia.
- Fazem 3 horas Niklaus. — Elijah se manifestou.
- Sage vai voltar Elijah. Acredita que logo ela morreria assim? O corpo dela não está mais mudando. — acariciei o rosto dela – Eu esperava uma morte mais estúpida amor.
Eu sentia aquela sensação esmagadora em meu peito, dividido entre acreditar o que acontecia diante dos meus olhos, ou dar razão a marca em meu peito que me lembrava constantemente que não havia muito o que se fazer. Uma dor profunda dilacerava meu coração, eu sentia vontade de arrancar ele do meu peito, não conseguia pensar de forma coerente enquanto sentia cada pedaço do meu ser se desfazer.
Senti algo pesar em minha cabeça, uma leve pressão entre meus fios, se eu não fosse uma criatura provavelmente eu não seria capaz de sentir aquele toque. Achei que seria um delírio, mas embora o toque fosse suave, ele queimou meu peito como o inferno. A magia que nos conectava se intensificou me indicando que ela estava bem ali, como um espectro telespectador.
– Eu sinto muito Sage. Pode esperar até a noite de Solstício? — eu perguntei vendo os olhos de Elijah dispararem até mim enquanto ele se sentava rapidamente.
A dor desapareceu por completo, e novamente meu peito parecia se encontrar completamente vazio. Isso aparentava ser um não.
Beijei sua mão fria, me ergui e olhei para Rebekah que estava com os olhos avermelhados, sua maquiagem manchada com o rastro de suas lágrimas, ela me encarava pacientemente enquanto Kol ficava escorado contra a parede, os olhos fechados apenas escutando o que acontecia ao redor. Stefan estava imóvel, sentado e completamente perdido em seus pensamentos, se dividindo entre chorar descontroladamente e ficar completamente em silêncio sem se mover.
– Deem um jeito nessa cara, vasculhem cada centímetro da cabeça dele. Eu preciso limpar Sage e procurar Gaspar…
Rebekah me interrompeu me empurrando para o lado e tomando meu lugar.
– Eu cuido dela. Vai procurar por ele, deixa que eu faço isso. — com a voz embargada ela voltou a me empurrar para longe, se abaixou e a pegou no colo indo em direção ao banheiro.
Kol se levantou indo em direção a Stefan e Elijah passou diante de mim indo em direção a porta e a abrindo me esperando.
– Vamos, precisamos encontrar a outra bruxa.
– Então ela se foi… — Gaspar comentou com os olhos perdidos no horizonte.
– O que podemos fazer? Ela ainda está por perto. Alguns espíritos nunca desaparecem, mas o corpo dela não muda, ele continua da mesma forma, o que isso quer dizer?
– Quer dizer que ela está em uma espécie de limbo, praticamente a mesma coisa que aconteceu com os outros amigos de vocês. A diferença é que a magia que a prende lá tem mais relação com os bruxos ancestrais do que com Ibis especificamente. A pedra foi criada para inimigos que não poderiam ser mortos, bruxos que conseguem pular de um corpo para o outro para fugir da morte, criaturas como você… — ele me encarou. — Essa pedra tem essa função, não se trata sobre matar. Pode ser utilizado como uma fonte de poder para rituais sem a necessidade de se ter um grupo de bruxas, quando se trata do uso de criaturas muito poderosas. Provavelmente a Estella… porra!
Ele gritou furiosamente.
– Inferno! Desgraçada! — o grito dele foi capaz de agitar uma energia estranha ao nosso redor passou a mexer as folhas das árvores agressivamente.
– Gaspar, o que está acontecendo.?
– Sage é uma duplicata poderosa de Ibis, existem dezenas delas por aí e todas elas têm uma ligação poderosa. Constantemente Ibis faz uma troca de poderes entre elas as deixando cada vez mais fortes. Estella mandou aqueles três para aquela dimensão para os manter presos, o local serve para absorver as energias e isso deveria ter acontecido com eles, se essa realmente fosse a intenção dela. — ele ficava cada vez mais irritado e o tempo ao nosso redor parecia mudar com ele.
– Nós já entendemos isso.. — Elijah foi interrompido.
– Não entenderam. Se essa fosse a intenção dela, o humano deveria ter morrido, o vampiro nem mesmo poderia conseguir se manifestar… e a bruxa está poderosa demais para quem está tendo a sua energia drenada. Era uma armadilha, ela queria que eles se aproximassem e chamasse a atenção dela. — ele me olhou profundamente. — Por isso Estella escolheu Sage, a pedra marcou Sage para que outra coisa encontrasse ela quando ela fosse para o outro lado. Consegue entender? Aqueles três ficariam vivos pelos próximos dez mil anos, e voltariam assim que ela ficasse no lugar deles. A bruxa que está esperando ela do outro lado quer sugar toda a energia que existe no corpo dela, é uma das formas de enfraquecer Ibis para a guerra e adiantar o processo da abertura do portal.
– Então isso pode significar que Stefan… foi parte do plano. — olhei para Elijah. — Espero que Kol consiga as informações necessárias, significa que temos mais inimigos do que imaginamos por aqui, e pior ainda, que quem está aqui está conseguindo se comunicar com esses mortos. Existe a possibilidade de alguém já ter passado para cá.
Nos olhamos intensamente, a mente de cada um indo para um local. Stefan foi hipnotizado por um original, e as únicas possibilidades que eu conseguia imaginar eram Finn e Alaric, a menos que existisse um outro vampiro original perdido por aí… a resposta era Mikael. Mas… também poderia ser a influência mental de alguma bruxa que poderia estar dominando a mente de Stefan com algum feitiço extremamente poderoso, talvez até mesmo uma espécie de possessão, o que era bem plausível.
– Precisamos nos movimentar logo, eu preciso entrar em contato imediato com Dianna para calcularmos os dados e trazer Sage de volta o mais rápido possível uma semana é tempo demais para esperarmos. Ela vai ser caçada.
– Então me joga lá.
Elijah me olhou com assombro.
– Estamos falando de um mundo puramente mágico onde você não tem força alguma, é praticamente tão inofensivo quanto um ser humano é pra você. — Gaspar me explicou.
– Não importa. Eu consigo entrar lá e consigo trazer ela de volta, ou posso manter ela em movimento, eu não vou ter utilidade aqui fora.
– E não vai ter do outro lado também. Apenas bruxos conseguem transitar por lá, não se esqueça que é um mundo só com mortos, não tem o que fazer lá…
– Não, não… Você disse que é um mundo entre os dois, então eu vou entrar lá e eu mesmo vou decidir o destino deles. Se eu acabo com eles entre os dois mundos, então eles voltam aos mortos não? Uma porta a mais para atravessarem.
Ele me encarou atentamente.
– Talvez, é um talvez. Nunca fizemos isso antes, não dá pra saber…
Elijah transpareceu preocupação e botou a mão em meu ombro.
– Podemos ver outra forma de fazermos isso, não? É arriscado.
– Eu posso ir com ele. Eu consigo voltar, mas se ele for pego… é fim de linha. — ele novamente procurou fixar seus olhos aos meus. — Realmente vai querer fazer isso? Você não tem aliados do lado de lá.
– Eu não vou precisar.
Olhei para Caroline, seu rosto retorcido em agonia pura, os olhos cheios de lágrimas enquanto ela tentava ferozmente conter o choro que ameaçava sair de sua garganta. Ela estava sentada em um dos meus sofás, os lábios tremiam enquanto seus olhos fixaram no corpo de Sage que estava coberto até os ombros por um delicado lençol branco de seda.
– Já se passaram cinco dias Niklaus, e não conseguimos dar nenhum passo sequer. — fungou e usou as mangas de seu casaco para secar as lágrimas.
– Vamos conseguir, eu vou entrar, Gaspar está tentando se conectar com Dianna do outro lado, ela está ocupada movendo Sage para longe do perseguidor e tentando ocultar a energia dela. Eles estão se movimentando do outro lado com as outras duplicatas.
– Eles realmente tem interesse em nos ajudar?
– Não fazem por nós, fazem por eles, nós temos um inimigo em comum e é muito mais fácil unirmos forças, até onde me lembro nenhum deles tem motivo para me ver como um inimigo.
– Confia neles?
– Se ele me quisesse morto, ele já teria feito isso. — admiti me lembrando da força abissal que saia de Gaspar. – Agora entendo o motivo de Esther não querer vir sozinha para cá, e sim com uma comitiva. Faz sentido, eu me questiono onde esse homem estava que ninguém nunca o encontrou.
Ela me encarou seriamente.
– Tá me dizendo que existe algo que pode ser pior que Niklaus Mikaelson por aqui?
– Estou.
– Céus Klaus, é pior do que eu imaginava.
– Caroline. — chamei sua atenção, puxei uma poltrona e me sentei diante dela, meus olhos procurando os seus vendo sua expressão confusa. — Eu não estou em condições de te pedir absolutamente nada, mas eu preciso de ajuda.
– O que está acontecendo?
– Essa vai ser uma guerra muito complicada e existe realmente a chance de algo muito ruim acontecer com toda a minha família. — seus olhos se prenderam nos meus completamente assustados. — Eu te considero uma grande amiga, as coisas foram para um lado diferente em algum momento, mas depois dos meus familiares, você é a única pessoa em que eu posso confiar.
– Klaus, você está me assustando.
– É a minha intenção. Eu vou entrar e trazer Sage de volta, e nós vamos participar dessa guerra, eu gostaria que ela não estivesse envolvida nisso, mas nós a conhecemos como ninguém… — ela confirmou com a cabeça. — Eu sou o maior alvo disso tudo, se eu morrer e Sage viver, você vai a levar para longe, eu vou deixar as coordenadas com você e uma lista com pessoas que você pode falar.
– Tudo bem, eu posso fazer isso. — eu via o terror em seus olhos. — É só isso?
Apontei para Hayley que estava no canto da sala, escorada contra uma parede, suas mãos seguravam a barriga protuberante e ela nos encarava de longe, as mãos se mexendo nervosamente. Seu corpo tão tenso quanto o meu.
– Você vai levar os três. Sage, Hayley e o meu filho.
Seus olhos se arregalaram, ela olhou para Hayley e sua barriga grande. Ela começou a negar com a cabeça, mas seus olhos se mexiam loucamente em direção a loba e a humana deitada sobre a mesa no meio de minha sala.
– Niklaus, eu não posso. Não tenho como fazer isso… eu não posso. Não vou conseguir.
– Você tem que conseguir Caroline. Você é a única pessoa que pode fazer isso por mim, se eu não conseguir parar o que vem com a guerra, nada vai sobrar da minha família. A única pessoa que tem a chance de escapar disso é meu filho, ninguém sabe que ele existe.
Ela estava completamente em pânico e começou a hiperventilar, seu rosto se avermelhando e ela parecia a ponto de iniciar um choro.
– Sozinha eu não consigo.
– Não vai estar sozinha. Stefan…
– Confia em Stefan?
Confirmei com a cabeça sem vacilar.
– Ele vai ser curado.
– Ele matou Sage.- ela sussurrou. — Ele…
– Ele não quis, você sabe e eu sei. Temos um inimigo maior, Stefan nunca seria capaz de machucar uma criança. Mesmo que seja a minha. Algo aconteceu em Mystic Falls e eu vou investigar isso até ter tudo esclarecido, ele não faria nada por mim, mas eu sei que ele faria por ela.
– Obrigada. — ela sussurrou, os olhos marejaram enquanto ela segurava as minhas mãos.
– Caroline, eu preciso te deixar avisada que não sabemos das condições de Hayley em relação ao parto, não sabemos se é possível sobreviver a isso. É uma criança especial.
– Eu entendo Klaus. — ela olhou novamente para Hayley, os olhos se fixaram na barriga. — Não se preocupe, eu vou fazer de tudo para manter o bebê em segurança. Eu jamais faria o contrário.
Pude escutar o suspiro de alívio de Hayley e eu mesmo soltei um.
Olhei ao redor vendo toda a minha família e seus amigos reunidos, Bonnie havia chegado a pouco tempo com notícias de que algo a perseguia do outro lado, que se movia em sua direção e carregava uma energia sombria e poderosa consigo. Isso nos fez presumir que logo descobriremos quem estava atrás dela, e eu não poderia estar mais preocupada, Gaspar nos garantiu que Estella não existia mais, então ela fez o feitiço para outra pessoa.
Me afastei dela indo até Sage, encostando em seu rosto, as bochechas ainda macias embora sem cor. Ela foi banhada, seus cabelos foram limpos, seu peito coberto por um curativo, suas unhas foram cortadas e Rebekah a vestiu cuidadosamente com um de seus vestidos. Todo o seu processo de pós-morte foi feito por minha irmã, de uma forma tão carinhosa com a qual eu jamais imaginei que Rebekah seria capaz. Ela cuidou de todo o processo, me mandando para longe atrás de uma solução para que eu não precisasse lidar com a situação. Eu era grato, mas ela nunca saberia disso.
– Sage! — os olhos de Bonnie dispararam para acima do corpo de Sage me despertando. — Já descobriu o que é isso?
Minha mãe era a responsável, Esther estava a caçando.
Assim que tivemos a informação, a primeira pessoa que procuramos foi Gaspar. Quando ele descobriu, sua calmaria se transformou em uma tempestade turbulenta e ele finalmente perdeu toda a sua calma com a notícia. Esther saiu do mundo dos mortos e agora estava entre os dois mundos, prestes a romper o portal.
Ela só precisava se conectar a Sage.
– Estou com Dianna. — Gaspar falou de forma robótica. — Sage vai retornar, mas isso vai enfraquecer muito Dianna, algo que vai nos prejudicar futuramente, com uma guerra tão próxima. Você entende? — ele me olhou.
– Que eu vou ter uma dívida com você e te ajudar quando as coisas piorarem? Eu entendo.
– Ótimo.
– Posso participar, posso ajudar. — Bonnie se aproximou.
– Não. — Gaspar decreta. — O tempo que você passou do outro lado te enfraqueceu demais, você vai morrer se fizer isso. Vou ter dificuldades com Dianna, mas isso vai custar a sua vida. Assim que eu abrir o portal, pode ser que Esther venha diretamente para cá. Ela vai tentar nos atingir, e ela não vai ter problemas em te consumir.
Fomos para o meio da sala, o corpo de Sage foi colocado sobre um símbolo pintado no chão por Gaspar, algo que eu nunca havia visto em nenhum dos milhares livros de bruxaria que já li em vida. Novamente aquela ventania agressiva tomou conta da sala, como se um tornado surgisse dentro da minha casa, o lençol de Sage voou para longe e a pintura no chão começou a ficar embaçada como se se movesse em um círculo, eu escutava seus sussurros em um idioma completamente desconhecido por mim.
Escutei um estalo alto vindo do corpo de Sage, eu me abaixei tocando seu peito e vendo que ele havia fechado completamente, o buraco desaparecendo com uma pele extremamente grossa. O barulho havia me assustado por completo, eu nunca havia escutado uma pele fechar com um com um som daqueles, como se os ossos quebrados, os músculos e a pele se fechassem no mesmo momento. O impacto foi tão forte que seu corpo chegou a saltar por um segundo.
– Chega-se aos mortos.
Bonnie nos encarava com os olhos arregalados, completamente em choque. Assim que ele proferiu as palavras, foi como se algo mais intenso ainda surgisse em meio a sala, as paredes da mansão tremeram violentamente como se um terremoto atingisse toda Nova Orleans, por um momento a força começou a diminuir e aquela sensação de algo pesado surgindo no ar nos alcançou, foi muito sutil, mas parecia que de alguma forma Gaspar foi afetado e sua força pareceu diminuir.
Bonnie deu um passo para frente entrando no mesmo círculo que estávamos, ela agarrou uma de minhas mãos com força e segurou a outra de Gaspar, seus gritos ecoaram pela minha cabeça quando a força aumentou mais ainda limpando nosso caminho para finalmente conseguir atravessar o portal, retirando aquela energia densa de nosso caminho. Aquela sensação de ser eletrocutado retornou e o meu coração parecia que iria explodir dentro do meu peito, quanto mais os dois gritavam pior a sensação ficava, até que finalmente tudo se tornou silencioso demais.
Minha mão direita segurava a de Gaspar e a esquerda estava completamente vazia. Estávamos em uma espécie de floresta, muito densa e escura. Tão fechada que parecia quase ser noite.
– Perdemos ela? — perguntei assustado olhando minha própria mão.
– Ela vai nos manter do outro lado, assim posso poupar minha energia e segurar quem tentar passar.
Concordei surpreso, então Bonnie parecia ser bem mais forte do que eu imaginava. Ele, no entanto, parecia completamente tranquilo em relação a isso, como se já esperasse.
Começamos a andar por todo o local, Gaspar fechava os olhos e eu sentia a terra vibrando sobre meus pés, e então em questão de alguns segundos nós mudávamos de ambiente, passamos em um hospital, na minha casa e finalmente chegamos em uma espécie de jardim.
Eu senti aquela sensação incômoda da marca em meu peito, provocou um tremor em meu corpo de tal forma que o bruxo teve que me segurar antes de puxar meu cotovelo e me arrastar em direção a uma pequena floresta que surgia no horizonte.
– Esther as encontrou.
Uma chuva de pedras me atingiu na cabeça, vinha de uma praça ao longe eu não demorei meio segundo para saber de quem se tratava. Eu tentei me mover com minha velocidade vampírica em direção a elas, mas notei com assombro que eu não era tão veloz quanto no mundo dos vivos. Gaspar me olhou com uma sobrancelha erguida enquanto passava despreocupadamente ao meu lado.
– Eu te avisei. — ele riu baixo colocando as mãos dentro dos bolsos, mas logo as retirando quando novamente aquela porcaria que parecia um tornado surgiu do nada.
Gaspar lançava para longe os pedaços de casas, bancos e postes que vinham em nossa direção, fogo surgiu em meio a ventania queimando tudo que passava por eles. Meu queixo despencou e eu mantive meus olhos fixos nas três figuras que estavam dentro do tornado.
– Isso é Esther?
– Sage. — murmurou descontente quando uma árvore em chamas quase nos atingiu.
Tudo sumiu em uma questão de segundos, ainda estávamos no mesmo jardim, mas agora ele parecia intocado sem o fogo, o tornado e as coisas destruídas. Como se ninguém houvesse passado por lá.
– Estamos retornando?
– Não, sua mãe te sentiu e decidiu mudar o local.- ele riu baixo — Velha burra.
Aparecemos diante de uma casa de madeira enorme, velha e abandonada, caindo aos pedaços. Os sons de briga iniciaram dentro da casa, eu conseguia ouvir a madeira se quebrando, quando Sage foi arremessada para fora da casa antes que uma explosão a atingisse. Meus olhos por um breve momento se perderam em meio às chamas em uma janela, onde uma mulher idêntica a minha estava me encarando. O fogo consumia o seu corpo sem que ela ao menos tivesse uma única reação, a não ser nos encarar atentamente antes de virar as costas e desaparecer dentro da casa.
Meus olhos foram diretamente até Sage e eu estiquei as mãos vendo que o buraco em seu peito começava a fechar nesse mundo, um sinal claro de que ela estaria retornando. Gaspar resmungou em minhas costas, quando Esther surgiu saindo de dentro da casa. O fogo se alastrou vindo em nossa direção, mas pareceu ser contido por uma parede invisível, novamente todo o ambiente começou a modificar enquanto rochas, chamas e madeiras se desviavam em direção a minha mãe. O bruxo soltou uma risada de escárnio e me olhou com uma expressão divertida, antes de seu rosto pesar.
– Nossa, é sua mãe, né? Desculpa.
A figura misteriosa jazia em cima do telhado da casa que aos poucos começava a desmoronar,soterrando o corpo de Esther.
Sage não pareceu sentir, mas eu senti. Foi como se uma mão se esticasse e nos agarrasse com força nos puxando diretamente ao ponto inicial, eu senti uma náusea intensa dominar o meu corpo antes de ser coberto por uma fumaça branca.
Eu fui arremessado violentamente contra o chão, sentindo minhas costelas quebrarem. Gaspar desabou ao meu lado apoiando as mãos contra o piso enquanto ofegava, seu nariz pingando sangue. Aspirei o ar sentindo o cheiro da pele dela, escutei seu coração voltar a funcionar com um estalo, e a sensação do meu peito silencioso desapareceu. Meu coração voltou a bombear sangue, no mesmo ritmo que o seu.
Me sentei, e Bonnie a segurava nos braços, seu nariz sangrava manchando sua roupa, ela possuía um sorriso pequeno em seu rosto, seus dentes brancos estavam vermelhos. Quando me olhou, seu rosto carregava um brilho selvagem mesclado com a vitória, seus olhos estavam vermelhos devido ao sangue que escorria deles, e seus ouvidos pareciam estar da mesma forma já que o sangue deslizava por seu pescoço. Ela estava com uma hemorragia interna.
Bonnie esteve perto da morte para nos trazer de volta.
Eu havia subestimado essa bruxa.
Capítulo 12 e 13
Aguardei não tão pacientemente pelo seu retorno, vasculhei cada centímetro de seu corpo vendo que ele estava completamente recuperado e aos poucos voltava às suas funções normais, só isso me impediu de avançar na garganta de Gaspar, já que Sage estava demorando bastante tempo para retomar a consciência. Ele me garantiu que a demora era devido ao fato de seus órgãos terem ficado completamente paralisados durante todo o processo, o cérebro seria a última coisa que voltaria a funcionar. Era um processo demorado e que requer muita energia, eu estava em frangalhos, constantemente meu sangue sendo drenado para servir como fonte de energia para que sua recuperação fosse ainda mais rápida.
Quando acordei ela estava me olhando, o impacto de ver vida naqueles olhos novamente fez meu coração bater dolorosamente com a grata surpresa. Entrei em êxtase sentindo alívio imediato, minhas mãos procurando tocar sua pele quente em uma tentativa de esquecer aquele processo doloroso de a ver morta que me assombrado pelo resto da eternidade com pesadelos.
Eu tomei a decisão assim que ela retornou. Sage se tornaria uma vampira, tudo que pudesse aumentar sua chance de sobrevivência eu faria.
Através de Sage recebi a informação chocante que Dianna era ninguém menos que Ibis, a bruxa mais poderosa já conhecida, que vivia entre o mundo dos vivos e mortos. Gaspar teria que parar com seus mistérios e finalmente começar a abrir a boca, era impossível que ele não soubesse quem Dianna era, ainda mais com o nível de poder que ele aparentava possuir.
Ibis queria um exército para deter os mortos que ameaçavam fugir de seu controle. Ela estava fraca, a cada século que passava drenavam mais e mais de seu poder, ter de estar vagando constantemente entre os dois mundos a estava desgastando, principalmente quando surgia cada vez mais bruxas para se ter como inimigos. Ibis não possuía um único aliado do outro lado, afinal, quem estaria do lado da morte estando preso por ela?
Logo todos se reuniram ao redor dela, até mesmo Stefan que havia passado por uma longa tortura mental, enquanto enfrentava a hipnose de Elijah e Kol em uma tentativa de descobrir o que havia acontecido. E de fato, foi possível concluir que ele sofreu uma hipnose, que não foi algo relacionado a pedra e nem a Estella.
Algo agia em conjunto dos dois lados.
Mas o que mais me surpreendeu em toda essa situação é que Sage retornou. E retornou com presas. Repito, PRESAS. Quando ela colocou isso? Enquanto eu dormia? Ela estava andando com presas falsas no sutiã? A olhei com estranheza, mas fiquei em silêncio. E algo pior acontece, que me faz olhar intensamente para Gaspar em busca de uma resposta plausível, Sage conseguiu causar fogo, tal como uma bruxa.
Foi com pesar que recebi a notícia através de Gaspar que ela é uma bruxa, que toda duplicata de Ibis consegue ser uma bruxa. Com ela não seria diferente, e não apenas isso, ela havia iniciado uma transição para o vampirismo. Um vampirismo esquisito onde seu corpo se transformava aos poucos ao invés do nosso tipo de vampirismo onde o fato dela ter voltado da morte, já estaria o suficiente para a transformer. Gaspar disse que essa era a única forma de conciliar o vampirismo com a bruxaria.
A partir do momento em que Gaspar fechou o peito do corpo de Sage, automaticamente seus poderes como bruxa passaram a se manifestar, e Ibis fez o mesmo com ela do outro lado a partir do momento que a colocou e a manteve entre os dois mundos.
Sage se tornou uma canibal. Foi o que conclui ao ver que ela estava se alimentando de sangue vampiro, o sangue dos nossos inimigos para ser mais claro. No meio de sua transformação esquisita, onde ela oscilava como bruxa, humana e vampira.
Eu achava que não poderia ficar mais surpreso, mas por algum motivo ela estava adquirindo um estranho gosto por sangue de vampiro. Isso ao meu ver não poderia ser mais bizarro, acho que não conheci nenhum vampiro que fizesse isso, provavelmente eu não conheci.
Toda essa história foi brevemente deixada de lado enquanto cada um se dedicava a resolver seus problemas pessoais enquanto ainda tínhamos tempo para isso, nesse meio tempo Gaspar desapareceu misteriosamente sem falar absolutamente nada. Entre essas interações percebi algo muito curioso, Nataniel de fato acreditava ter 600 anos, embora eu soubesse melhor do que ninguém que ele não tinha essa idade toda, cheguei a cogitar que ele fosse alguma duplicata, mas não era isso. Em algum momento da sua vida ele enlouqueceu, eu não duvidava de sua história de vida, mas com certeza o período em que aconteceu era bem diferente do qual ele se lembrava. Algumas coisas pareciam distorcidas em sua mente, e ele parecia bem confuso, Sage não percebeu, mas todos os vampiros sim. E não era para menos, ele cresceu em uma vila no interior onde ainda existia o conceito de queimarem pessoas vivas quando elas eram diferentes dos outros, viu Dimitri passar pela tortura de ser queimado até a morte, e Eva preferiu se matar em sua frente. Ele não parecia nem de longe perto de superar isso, e o fato de ser obcecado por Ibis demonstrava isso muito bem.
Quando o questionei se ele estava cerca de 680 anos atrás dela e ele me confirmou, eu pude concluir que ele realmente não estava batendo bem da cabeça. Céus, ele praticamente ainda era uma criança vampira, confuso com o próprio tempo que havia se passado. Eu conseguia entender ele, quando se tem dimensão do que é viver para sempre, perder alguém assim é extremamente doloroso. Suportei isso por alguns dias e não sei se em algum momento a minha mente iria aceitar isso, da mesma forma como a dele não estava aceitando depois de tantos anos.
Ele parecia ser o reflexo de algo que eu me tornaria futuramente se eu não conseguisse trazer minha mulher de volta.
Gaspar nos traiu. Me traiu.
O maldito havia pegado a aliança de marcação que eu entreguei para Sage e tentou quebrar a magia que nos unia um ao outro, milhares de coisas se passaram pela minha cabeça e nada conseguia me responder o motivo pelo qual qele faria isso. O louco gritava furiosamente, esbravejando que eu não poderia ficar com ela, que eu sou um assassino e isso tudo me fez revirar os olhos de uma maneira que eles quase não foram capazes de voltar para o local correto.
Por um momento achei que era apenas um intrometido, mas depois da informação sobre ele ser seu pai, eu me dei ao trabalho de tentar o entender mesmo que minimamente, embora eu achasse que ele não merecia. Gaspar era o pai dela, o pai biológico e não aquele imprestável do Misael.
Isobel foi uma espécie de barriga de aluguel, ela gerou Sage e a abandonou à própria sorte. Eu fiquei em completo choque ao descobrir a informação, meus olhos procuravam constantemente Sage imaginando a vida diferente que ela poderia ter levado caso os dois tivessem a procurado em algum momento.
Eu senti raiva deles, senti ódio e um rancor profundo por saber tudo que ela havia passado, mas ao mesmo tempo eu entendi que eu jamais teria a conhecido se as coisas não tivessem sido da maneira que foram. Muito provavelmente, Sage não teria nem ao menos conseguido chegar à fase adulta em outras circunstâncias. O convívio com seus amigos a mantiveram segura de uma certa forma, Gaspar me explicou sobre a caça das duplicatas de Ibis, e que eles não a mantinham por perto quando crianças, pois a chance de morte era muito alta. Então era mais fácil as colocarem sob a tutela de outras pessoas, eles não possuíam amigos ou pessoas de confiança para esse papel, então elas ficavam à própria sorte.
Isso me fez lembrar de minha própria situação. Se não fosse Caroline, a quem mais eu poderia confiar meu filho? Eu ainda tinha uma gama de opções. Ibis estava lá, completamente sozinha tomando conta de tudo para que o portal não rompesse, e Gaspar passou milênios deste lado também resolvendo tudo isso sozinho. Não éramos iguais de forma alguma, eles estavam à própria sorte.
Eu queria odiá-lo, mas o seu questionamento sobre como seria a vida dela sem mim, também se passava em minha mente, mas por mais que eu tentasse imaginar eu nunca conseguia ver Sage sem estar ao meu lado.
Bem, ele podia pensar o que quisesse, mas Sage estava comigo e era isso que me importava. Ele desapareceu e a aliança de Sage retornou para o local de origem, agora eu entendia a frase que ele me disse antes da morte de Sage. Sobre descobrir um novo tipo de amor, ele estava falando sobre o meu filho que estava para nascer. E isso fez minha antipatia diminuir um pouco, eu no lugar dele, faria o mesmo se fosse possível.
Capítulo 14
Foi uma grata e não tão grata surpresa ao reencontrar meu irmão Finn e sua esposa Sage. Uma Sage mais normal.
E foi como eu imaginei, Sage odiou eles e eles a odiaram assim que colocaram os olhos sobre ela. De uma maneira inteligente ela manteve Hayley longe dos olhos desses meus familiares, eu honestamente não havia me preocupado por este lado, mas a desconfiança de Sage abriu os meus olhos, afinal Finn ainda era um suspeito referente a hipnose de Stefan e mais do que isso, ele idolatrava nosso pai e com toda certeza isso poderia representar um risco para o meu filho também.
Um novo rei vampiro surgiu. Na realidade, para minha surpresa, não só ele, como o de Utah e isso com toda a certeza me deixou surpreendido, o que eu estava fazendo da minha vida que eu não vi esse tipo de coisa acontecer? Comunidades de vampiros e lobisomens estavam crescendo cada vez mais por nosso mundo e ao mesmo tempo que era interessante de ver, era assustador saber que eles estavam transformando tantas pessoas em uma quantidade tão pequena de tempo. Isso não significava um possível desequilíbrio futuro, quanto poderia significar novas guerras entre nós devido às diferentes formas de viver entre os humanos.
Acordos de guerra foram firmados e ter algum aliado aos poucos fazia com que eu ficasse mais tranquilo, Marcel estava envolvido assumindo tudo o que se referia aos vampiros enquanto eu e minha família nos encarregamos do lobisomens, que seria algo mais fácil devido a minha promessa de poder manter a transformação deles sob controle.
– Eu não existo! — Sage estava furiosa, andando na sala de seu apartamento de um lado para o outro.
– Não diga isso, o que é isso que eu estou segurando? O braço de um espectro?
– Filha de Ibis. — ela sussurrou olhando para mim. — Você já conheceu alguém com duas mães e um pai biológico?
Eu ri.
– Os humanos fazem isso o tempo inteiro, se chama inseminação artificial. — ela cruzou os braços e refletiu por alguns segundos.
– É, deve ser tipo isso aí.
Segurei a risada puxando-a para meu colo, meu nariz indo diretamente para seu pescoço entre seus fios, seu cheiro estava mudando para um sangue com teor mais ácido e nada apetitoso de se beber.
– Ele é um híbrido igual a você. Ele conseguiu me hipnotizar.
– Os desgraçados conseguiram se infiltrar em tudo não é? Vampiros, bruxos e lobisomens… — murmurei pensativo, eu realmente entendia o medo de Esther agora. — Por isso eles não envelhecem, não por serem poderosos, mas por terem usado o vampirismo para se manterem. — neguei com a cabeça.- É ridículo como era tão óbvio.
Sage se afastou para ir treinar seus novos poderes bruxos com Bonnie e eu fui para o jardim, eu sentia que ele estava vindo antes mesmo de ele chegar no local. Gaspar me encontrou sentado em um banco o esperando, eu girava a aliança em meu dedo pensando em quão babaca esse cara era.
– Gaspar, você me disse que eu estive te procurando por todo esse tempo. — o lembrei das palavras que ele me disse. — Como? Eu nem mesmo sabia que você existia.
Ele olhou para a casa por um breve momento antes de se sentar ao meu lado.
– Procurou a pedra de Ibis. — ele me olhou com um sorriso.
– Você tem a pedra?
– Eu sou a pedra. A criação mais poderosa de Ibis. Essa não é uma relação igualitária, diferente dela eu não possuo essa capacidade de transitar facilmente pelos dois mundos.
– Eu consegui usar aquela pedra para transformar…
– Você usou Sage, que faz parte de mim, aquilo é só uma pedra para manter alguns idiotas entretidos.
– Eu fiquei meses atrás daquilo, anos… e era só uma pedra. — ele gargalhou se divertindo.
– A ambição às vezes nos faz passar por muitas humilhações, geralmente essa é a consequência dela. — esse cara era um sacana.
Precisei me concentrar bastante durante o período em que Gaspar ficou perto de mim, ele se dividia entre rir da minha cara e me olhar com uma profundidade assustadora, como uma ameaça silenciosa e de fato, ele me preocupava um pouco.
Ele era extremamente controlador, tinha aquela voz mansa e aquele rosto de humano inofensivo, mas nem de longe chegava perto disso. Me questionei se era essa a sensação de ter de lidar com um pai superprotetor, embora eu não pudesse atribuir esse sentimento a ele, pois não sabia se ele realmente enxergava Sage dessa forma.
Eu tentava me conformar com o fato de que Sage não era uma vampira graciosa, e tentava não ficar preocupado com isso, mas era algo meio impossível quando eu nunca havia conhecido um vampiro que tropeçasse nas próprias pernas. Ou que não possuísse reflexo, ou que não conseguisse parar sem provocar um acidente. Sage era desajeitada. E não bastava a minha ajuda, nem a de Natalie, Elena ou Caroline. Ela era altamente inábil em se manter inteira.
A transformação dela era lenta e sempre que dávamos um passo à frente, nós retornamos às dez. Dessa forma, era possível que ela acabasse morrendo antes de finalizar a transição. A explosão de energia vampírica e bruxa estava sendo demais para o seu corpo humano lidar, mas eu tentava pensar pelo lado positivo de que Gaspar e Ibis haviam conseguido, ela deveria poder fazer o mesmo. Ou ao menos era isso que eu gostaria de acreditar.
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