Eu sou o inverno
81 Como as folhas - Parte 2
Como as folhas — Parte 2
Capítulo 5 e 6.
Começou durante a madrugada, com os pesadelos quando ela dormia, lembranças que invadiam a sua mente e a atormentavam durante o seu sono. Sage quase não dormia mais, com seus elementos sendo invadidos constantemente por cenas que a atormentavam diariamente, em sua grande maioria sendo memórias que foram apagadas por seus amigos vampiros. Era um aspecto muito doloroso do elo cobrando o seu preço.
Não sabia como eram suas lembranças, ela nunca quis falar e eu nunca perguntei. Sage não era o tipo de pessoa que guardava seus pensamentos para si, se ela não queria falar, era por não estar pronta para lidar com isso.
Meu tempo começou a ser dividido entre distrair Sage e achar uma forma de resolver os problemas que pareciam se acumular, eu estava preocupado com sua saúde mental, sua quietude começava a me assustar assim como os olhos sempre presos no horizonte. Por diversas vezes começamos um diálogo e de repente eu estava em um monólogo, alguns breves momentos ela citava seu irmão, outros falava sobre Elena e Caroline, mas os outros pareciam serem enterrados no fundo de sua mente. Não de propósito, ela evitava falar deles para que eu não tomasse o controle da situação, ela queria resolver o problema sozinha sem entender que isso não seria possível.
Estive em diversas áreas de Nova Orleans, perseguindo bruxas que poderiam me dizer como resolver esse processo ao qual ela havia se metido, mas até então ninguém possuía uma única respostas. O grande acervo que eu possuía em minha biblioteca também não vinha sendo muito eficaz, fosse o que fosse se tratava de algo muito antigo e que não era tão praticado assim atualmente. Quase como se fosse uma magia proibida ou banida.
A questão principal agora era que Marcel começou a se movimentar, antes eu vagava livremente pelas ruas de Nova Orleans e agora eu tinha algumas dezenas de vampiros circulando ao meu redor “disfarçadamente” vigiando cada um de meus passos. Hayley estava escondida em um outra casa, desta vez em seu nome para evitar visitas indesejadas, uma propriedade não tão longe da minha, por onde eu conseguia entrar disfarçadamente em um emaranhado de corpos por onde os vampiros não se atreviam devido a grande quantidade de bruxas que moravam pela região.
– Marcel me chamou para uma espécie de reunião.
– E você vai? Sabendo que o comportamento mais comum dele é iniciar conversas aleatórias e importantes no meio da rua? — Hayley me questionou apoiando a mão na imensa barriga.
– Sim, eu vou. Não se preocupe, está tudo sob controle. — entreguei para ela uma sacola com um par de pantufas adulta, e um sapato pequeno peludo infantil. — Sage pediu para te entregar.
– Agradeça a ela, por favor. — se sentou na cadeira enfiando os pés na pantufa. — Niklaus, a hora está chegando. E eu estou muito assustada com tudo isso, o que vai acontecer com o bebê? Com Hope?
– O bebê vai ficar bem, e você também. Não tem com o que se preocupar.
– E se não ficar nada bem comigo? Qual o seu plano? — respirei fundo ponderando se falava para ela ou se continuava tentando a incentivar.
– Se eu tomar meu reino de volta, ela ficará aqui protegida dentro do reino, entre todos nós. Se houver uma mínima possibilidade da vida dela correr risco, eu tenho duas opções… eu posso mandar ela embora com Sage… ou…
– Sage jamais fugiria da guerra.
– Ou eu posso entregar o bebê a Caroline, Camille pode fazer isso por mim. Rebekah pode sentir raiva de mim muitas vezes, mas ela jamais faria mal ao meu bebê, ela é uma das opções para a manter em segurança. E quando tudo estivesse bem, eu voltaria para Hope.
– Você está sendo otimista.
– E sou mesmo, olha a minha idade, minha querida. Eu só morrerei se eu decidir que assim será.
Marcel cruzou a porta do bar enquanto eu aguardava Camille chegar, um barista novato se encontrava secando os copos enquanto apenas vagava com meus olhos pelo local. A essa altura eu já havia entrado em contato com alguns dos híbridos que transformei e os colocado atrás de Stefan, isso como forma de evitar que ele tivesse qualquer contato com alguns dos vampiros de Marcel. A ordem foi bem clara, mate qualquer vampiro que entrar em Mystic Falls.
– Klaus! — Marcel saudou animadamente, um sorriso preenchendo seu rosto.
Algo no ar estava diferente, sempre existiu uma certa animosidade quando nos aproximamos um do outro, uma tensão no ar que era sempre muito incômoda. O barman se afastou indo para o estoque atrás de algumas garrafas, e Marcel se sentou ao meu lado, um cheiro insuportavelmente doce começava a preencher o loca, como se eu estivesse em um jardim botânico e isso fez meu nariz franzir em desagrado, era como uma energia densa que o acompanhava.
– Tenho muita consideração por você, mas enquanto estiver cheirando a velório… prefiro que não me abrace meu amigo. — me afastei dos braços dele e ele se afastou, o sorriso nunca abandonando o seu rosto.
– Flores não combinam com você, realmente. — ele me deu um tapa nas costas.
– Claro. — apenas concordei enquanto ele me olhava.
– O que veio fazer em Nova Orleans? Realmente?
– Soube que meus familiares estavam por aqui.
– Seus irmãos? — perguntou confuso. — Acredito que eles vieram com você.
– Falo dos outros, minha mãe e pai. — Marcel ergue as duas sobrancelhas.
– Não soube de nada.
– Não saberia mesmo, eles tem o desejo de exterminar todos os vampiros existentes na Terra, então duvido que se mostrariam sabendo que aqui existe um reino… embora… eles não tenham dificuldades em exterminar todos. — falei com um sorriso.
– Uma bruxa e um vampiro? Não acho que isso seja um problema para todos nós. — ele estreitou os olhos.
– Não, algumas centenas de vampiros e bruxas que irão voltar dos mundos dos mortos, sabe todos os inimigos que você teve? Pois bem, irão voltar todos.
Marcel parou por um breve momento e me olhou atentamente antes de se inclinar em minha direção, senti algo mudar do lado de fora do bar, tudo parecia mais escuro, e meu corpo se arrepiou.
– Eu fiquei curioso com o motivo que te tiraria de Mystic e mandei alguns dos meus vampiros para lá. — ele brincou com o copo, e a sensação de algo ruim se aproximando cresceu em mim.
– Eu sei que sim, você tem um reino aqui, eu construí um lá. Mandei que os meus garotos matassem qualquer um que não fizesse parte da cidade e que pisasse lá.- Marcel se afastou levemente surpreso.
– Tem garotos seus lá?
– Garotos como eu, estão lá. — meus olhos ficam amarelos.
– E isso tem a ver com os boatos de ter uma mulher te esperando por lá?
– Chegamos onde eu queria. — me joguei confortavelmente para trás, eu já começava a sentir o cheiro daqueles que se aproximavam de mim, escutava seus passos na rua, no telhado e no porão.
– Chegamos?
– Claro que sim. Quem te deu permissão para pisar na minha cidade e colocar vampiros burros, jovens e inexperientes para ir atrás da minha mulher? Não achou melhor me perguntar?
– Esse é um país livre. Não achei que precisaria pedir autorização, se eu soubesse teria falado com você a respeito da entrada dele em Mystic.
– Não muda o fato de você ter ido atrás de algo que não te interessa.
– Claro, eu só quis conhecer ela. Não precisava ter matado meus homens.
– E você não precisava ter ido atrás do que não te pertence.
– Eu sei das duas intenções.
– Eu ficaria muito chateado se não soubesse. Colocaria em dúvida as minhas habilidades adquiridas em tanto tempo de vida.
– Bem, então você pode me apresentar ela, não é? Quero conhecer ela.
– Ah sim, é uma loira linda, espetacular, de voz doce e gentil. Está ansiosamente aguardando uma visita, talvez venha até aqui. É geniosa.
– Mal posso esperar.
Chegou como um tornado, todas as garrafas foram lançadas em minha direção, as prateleiras desabaram, os vidros do bar estouraram, desde os copos às janelas, uma cadeira voou em direção a Marcel que a pegou, quebrou e enfiou uma das madeiras em minha perna. Um de seus vampiros me agarrou socando meu rosto, quebrando meu joelho e meu braço, outro tentou quebrar meu pescoço, mas não conseguiu. Me levantei rápido reagindo e arranquei o coração dos dois, outro pedaço de madeira foi enfiado em mim, desta vez atingindo meu pulmão. Desabei no chão me curvando e um chute foi desferido em meu abdômen, outro atingiu o meu rosto quebrando meu nariz e tirando minha mandíbula do lugar. Senti minhas costas perfurarem logo em seguida, golpes atrás de golpes que atravessavam até o outro lado de meu corpo, chutei as pernas de quem me agrediu e ele desabou ao meu lado, a pancada foi tão forte que seu pescoço se quebrou com a queda.
Meu corpo foi lançado para a parede onde fiquei completamente imóvel, sendo segurado por uma força invisível, o cheiro insuportável de flores infestou todo o local e imediatamente eu entendi que se tratava de uma bruxa. Uma mulher jovem que entrava na sala, seus longos cabelos castanhos caindo por seus ombros, parecia mais uma criança.
– Essa é minha carta na manga. Gostaria que não fosse preciso.
Eu gargalhei e olhei para a menina, não era devido a ser jovem, nem por se tratar de uma bruxa, mas definitivamente aquela pose de bom moço não combinava em nada com Marcel.
– Gostaria que não fosse preciso. Tal pai, tal filho… a diferença é que eu não sou covarde e me finjo de bom moço, nós somos iguais e sabemos que faríamos qualquer coisa para termos o que queremos.
Marcel sorriu brevemente e estreitou os olhos.
– Não se esqueça que você está perseguindo uma mulher inocente que em nada tem haver com as coisas que fazemos aqui Marcel. Uma mulher que não vai te servir de nada, você não é tão bom quanto finge ser. Mas os seus idiotas já sabem disso não é? Afinal, olha o que sequestraram. Ela sabe qual é a serventia dela?
– Davina.
Senti a pressão invadir meu corpo me impedindo de continuar falando, era como se minhas veias se comprimisse dentro de meu corpo e não houvesse mais por onde meu sangue passar, meu nariz começou a sangrar assim como meus ouvidos, e eu podia jurar que o que escorria de meus olhos também era sangue.
– Vamos terminar com isso. — Marcel sorriu e Rebekah surgiu.
Eu vi sua intenção, ela não estava ali para me ajudar. Seus passos eram firmes, decididos e ela me encarava de maneira decidida sem que qualquer dúvida pairasse em seu rosto. Os cabelos longos flutuavam com o vento junto da energia que Davina usava para me manter imóvel, ela se aproximou, me encarou com seriedade e sem desviar os olhos dos meus a adaga de carvalho branco foi fincada em meu peito.
Meu corpo despencou no chão, meus membros endureceram e fiquei completamente imóvel vendo Rebekah, Davina e Marcel ficando sobre mim. Ele se agachou e me olhou diretamente nos olhos enquanto eu sentia meu corpo perder completamente a energia.
– Eu vou tomar tudo que é meu por direito, não seria eu o seu único herdeiro?
Eu havia perdido um pouco da noção do tempo enquanto estava ali, debaixo daquele castelo com aquela estaca enfiada em minhas entranhas. Algumas vezes vinham me fazer uma breve visita, aquele assunto tolo de chutes, socos e torturas físicas que seus inimigos idealizam sempre. Com intenção de chegar a lugar nenhum, é claro. Afinal, se eu era o único interessado no reino, qual o outro mal que existiria?
Recebi uma visita breve de Rebekah, que apenas me olhou intensamente de cima a baixo sem proferir se quer uma única palavra. Eu não estava surpreso pelo seu momento de rebeldia, era até previsível na realidade, que isso iria acontecer. Eu só imaginei que demoraria um pouco mais para minha irmã imbecil e imatura querer dar um de seus shows na sua vontade incontrolável de chamar minha atenção.
Mas desta vez eu não estava mais disposto a participar dos shows de Rebekah, eu não tinha mais tempo para continuar provocando o efeito ódio, vingança e arrependimento, quando eu tinha que me preocupar com coisas muito mais importantes que poderiam definir o fim da eternidade.
– Você costuma ser mais falante. — ela provocou.
– Você costuma ser sempre a idiota.
Ela soltou um riso soprado se mantendo longe, as correntes me seguravam com firmeza, e ela sabia no fundo que só aquilo e aquela adaga que me drenava não seriam o suficiente para me parar.
– Eu faço pela minha liberdade.
– Não estou mais em condições de agir como seu pai. Se quer matar Marcel, mate. Quer casar com ele e sequestrar um orfanato inteiro para torturar pequenas e crianças indefesas com a sua presença em uma tentativa falha de fingir ser uma boa mãe, sendo burra e infantil? Faça Rebekah, eu não me importo. Você não é problema meu.
Ela se manteve em silêncio, engoliu em seco e bateu o pé no chão com força.
– Niklaus…
– Não tem motivo plausível para isso, você só ficou entediada, e eu não estou com tempo para as suas idiotices, irmã.
Ela desapareceu e não retornou mais, embora eu conseguisse escutar sua voz e ouvir seus passos pelo castelo. O que me surpreendeu, no entanto, foi Kol, não que eu imaginasse que ele viria atrás de mim para me salvar, mas também não passou pela minha cabeça que ele seria a favor de me manter em cativeiro e sendo torturado. Quer dizer… isso já havia acontecido algumas vezes, mas eu acreditei que estaríamos em uma trégua.
– Klaus. — um dos vampiros de Marcel surgiu na minha frente, ele me olhava fixamente, era careca e possuía uma tatuagem em seu pescoço. — Alaric mandou um oi, a pedido de Caroline.
Olhei para o vampiro hipnotizado à minha frente, mais dois surgiram atrás dele de forma despreocupada. Abri um sorriso e balancei a cabeça em divertimento, havia sido um pouco mais cedo do que eu havia planejado. Mas quanto mais rápido tudo corresse, mais cedo eu voltaria para minha família.
Jones, o careca hipnotizado, foi de grande utilidade enquanto estive preso, me alimentando, retirando a estaca de meu corpo quando eu queria dar uma esticada, e eliminando junto de seus outros dois colegas os vampiros de Marcel que vagavam distraidamente pelo castelo.
Davina, a bruxa prodígio ficava escondida em uma fábrica próxima a mim, coisa de alguns metros. Não foi difícil descobrir como funcionava a rotina deles estando ali embaixo, eram sempre os mesmos rostos, nos mesmos horários. Quando ela chegava, era o momento em que eles me distraiam com as agressões para que eu não percebesse a sua vinda, quando enfiava a estaca em meu peito me desacordando, era quando ela iniciava o seu treinamento de magia entre os diversos livros e grimórios no local. Era uma pena para eles que em algum momento a estaca houvesse sido trocada por uma menos efetiva, e que durante todo o tempo os meus ouvidos estivessem atentos a tudo o que ocorria acima da minha cabeça.
Destruindo o reino por dentro, peça por peça, logo eu teria um exército completo para me servir e finalmente exterminar os meus pais. Marcel não teria escolha, quando ele finalmente entendesse de uma vez por todas, o poder que eu possuía e que eu estava preparado para absolutamente tudo.
– E como ela está? — perguntei a Elijah assim que o vampiro hipnotizado saiu, meu irmão estava sentado em uma cadeira me olhando pacientemente.
– Vai ótima, ameaçando crianças, sequestrando pessoas, alimentando tubarões famintos com vampiros. — falou pensativo parando por um breve segundo. — Ah! Não poderia esquecer das fantasias, é claro.
– O que… — balancei a cabeça. — É melhor eu não saber de nada disso. Como ela está se saindo?
– Eu não ando fazendo nada, está tudo por conta dela irmão. — ergueu as duas mãos contendo o riso. — Não entendi muito bem o motivo de a torturar psicologicamente.
– Todos precisam acreditar que eu estou preso, deu pra andar bastante pelo castelo e pegar algumas coisas que vão ser úteis. Tem bastante bruxa mentirosa por aí, e algumas dezenas de duplicatas ao nosso redor, Marcel sabe cada detalhe da vida de cada pessoa em Nova Orleans, seja de um humano, de uma bruxa, vampiro ou lobo. Sabe o que é curioso?
– Me diga, o que te chamou a atenção?
– Diana, a bruxa que fez o elo está registrada aqui. E segundo ele, houve uma outra bruxa idêntica a ela por aqui, chamada Sarah. E outra chamada Amanda, e antes disso chamada Raquel… e assim por diante.
– Duplicatas, qual o problema?
– O problema é que não existe registro de nascimento e de morte dessas mulheres.
– Acha que se trata da mesma pessoa?
– Tenho certeza. É uma bruxa velha, muito velha. Se eu encontrar ela, posso resolver o problema com Stefan. Ela com certeza deve saber sobre o feitiço.
– Posso começar a procurar.
– E tente encontrar um homem também, o último registro é como Gaspar. Ele parece seguir a mesma linha de Diana. — me ajeitei esticando os músculos e voltando para a posição anterior, Elijah prendeu meus braços com as correntes e fincou a adaga no mesmo local.
– Se conseguirmos trazer esses dois para o nosso lado…
– Estaremos feitos, imagine quanta energia é necessária para viver tantos anos como um bruxo.
– Procurarei algo. E Niklaus, sobre aquele episódio da marca, eu não planejei tirar Sage de você, eu não sabia do que aquilo era capaz de fazer.
Olhei para Elijah parado diante de mim, ele tinha uma bolsa de sangue vazia em mãos, olhava para os lados analisando o local em que eu estava, estava com uma postura confiante, mas era notável o olhar de desagrado.
Ele me encarava.
Kol e Rebekah haviam se rebelado, se ele quisesse Sage, já estaria ao lado dela a essa altura, sem se preocupar em como eu estaria ou se algum dia eu voltaria. Era a oportunidade perfeita para ele agir, mas ali estava, meu irmão com seu altruísmo pensando em mim, ignorando qualquer coisa que tenha sentido, ignorando qualquer oportunidade de ter o que queria em prol do meu bem estar e da minha felicidade.
Óbvio que Marcel e sua família de vampiros não eram absolutamente nada perto do que nós dois éramos, mas de qualquer maneira, ele estava ali se arriscando para garantir que eu não estava perdendo a minha vida.
– Ah, quase me esqueci. Marcel está sob hipnose.
– Hipnose… Rebekah, Kol? — perguntei analisando por um momento.
– Acho que se fosse hipnotizado por eles, teria uma atitude mais idiota, infantil, fútil e imatura. Ele está preso em um complexo de Deus.
– Faz sentido. Então restam dois, Finn ou Mikael.
– Eu vou te avisar para esperar ela sentado, ela logo vem te buscar. — ele riu saindo de dentro de minha cela e a trancando.
Cristina, o elfo azul estava me procurando. Gargalhei na cara de Marcel, meu abdômen fisgando com a dor intensa.
– Nunca conheci uma criatura tão louca. Não faço ideia sobre quem você está falando.
– Ela estava muito nervosa, o que fez pra ela? Eu estou pensando seriamente em a deixar passar por essas portas para vir atrás do seu pescoço.
– De novo, nunca conheci tão louca. Pode ser uma das minhas ex-esposas, vai saber. — comentei despreocupado.
Ele me olhou duvidoso.
– Faz o teu tipo de mulher, era igual Aurora. Uma mais louca que a outra.
Ri novamente balançando a cabeça. Um elfo azul, incrível! Elijah não havia me contado essa história com tanta riqueza de detalhes.
– Me faça um favor, não me lembro muito bem do rosto dessa mulher. Traga ela aqui da próxima vez, seja lá o que ela estiver querendo, eu acho que vai ser interessante de saber.
Capítulo 7 e 8
Uma festa acontecia acima da minha cabeça, eu escutava o salto das mulheres, a música alta e o barulho das taças batendo umas contra as outras. O som de risadas soava por todo o local, e eu apenas escorei minha cabeça em um dos meus braços sem me preocupar com o que ocorria acima de mim.
Isso até sentir aquele cheiro característico dela, um cheiro intenso e doce que penetrou diretamente minhas narinas, minha boca salivou como se houvesse sido preenchida com seu sangue. Sage estava no local, e estava muito irritada. Eu conseguia distinguir sua voz entre todos, ouvindo a alteração que a deixava mais aguda que o normal.
Eu sentia sua inquietação, a marca queimava em mim como brasa, mas Sage parecia completamente alheia ao fato de que se ela quisesse realmente, ela me encontraria em uma fração de segundos. Eu não poderia a culpar, ela ainda não conseguia entender muito bem o quão poderosa a marcação era. E seus sentidos em relação a isso não eram em nada apurados.
Era algo como um instinto forte e poderoso, como quando você cai em um rio e sente que ao invés de ir com a corrente tem que nadar contra ela, é irracional. Ou quando vê o fogo, e foge dele, mesmo que nunca tenha sido queimado, sabe o quanto vai doer.
Escutei a voz dela próximo da porta que me separava da liberdade, e aguardei pacientemente enquanto a ouvia em um embate com Marcel. Ela se afastou relutante e logo a marca indicou que ela saia do castelo em fúria.
Naquela noite, eles finalmente resolveram me colocar para dormir dentro do caixão.
Era um sono desagradável, muito desagradável. Eu sentia meu corpo endurecido e dolorido devido a estaca que me paralisava, eu escutava as conversas ao meu redor como se as pessoas falassem de dentro de uma lata de refrigerante, era difícil compreender as palavras.
Em algum momento, pareceu que eu estava em meio ao apocalipse. Eu escutei gritos de desespero, barulho de explosões que faziam as paredes e o chão tremer, era uma explosão atrás da outra. O cheiro intenso de gasolina dominou o local, a fumaça invadia o quarto em que eu estava e eu senti a mudança brusca do ar quando alguém abriu o caixão em que eu estava.
– Pega ele, vai! — senti alguns pares de mão me puxarem para fora da caixa de madeira que foi arremessada para o chão.
Os vampiros ficavam tensos a cada explosão que ocorria no local, senti eles pararem por um breve momento antes de um deles soltar minhas pernas. Elas bateram com violência contra o chão, e eu resmunguei baixo sentindo a estaca deslizar um pouco para fora devido ao impacto.
– Bota essa coisa nas correntes, deixa ele queimar ai. Não vale a pena carregar esse peso, só vai nos atrapalhar.
Quando Sage me encontrou, eu estava novamente de pé com os pulsos amarrados. O tempo dentro do caixão realmente havia acabado comigo, e minha energia havia sido praticamente drenada. Eu me lembro de sentir seu toque, da retirada da adaga e de meus olhos capturarem os seus em seguida, sendo a primeira coisa que eu via em dias. Ela era uma bagunça com vestígios de sangue, cinzas, poeira, pó de concreto e fuligem que manchava suas bochechas de preto.
Olhei para trás dela vendo um grupo de híbridos curiosamente obedientes, eu sabia que ela viria, mas admito que esperava a impulsividade que a colocaria em risco tentando lidar com tudo sozinha. No entanto, foi uma grata surpresa saber que ela havia reunido um pequeno grupo que veio voluntariamente. Obviamente, ninguém estava ali por mim, mas foi satisfatório saber de sua capacidade de persuasão.
Marcel não descobriu da melhor forma que ela era a minha marcada, com toda a certeza foi bem desagradável para ele ver um de seus vampiros ser partido ao meio pelas minhas mãos, como se fosse uma folha de papel. Eu já havia explicado há muitos anos atrás o efeito que uma marca causa na vida de um vampiro, mas acho que ele só entendeu nesse instante o quão doentio eu me tornaria se alguém encostasse em um único fio de cabeça daquela mulher.
Nossos olhares se cruzaram por um breve momento, e ele fez um movimento mínimo, quase imperceptível. Um balançar de cabeça, e uma movimentação pequena com o ombro me indicando a porta de saída.
Eu não sou um bom homem, eu não estou aqui para mudar a vida de ninguém para melhor. Sei dos crimes que cometi, sei dos horrores que provoquei e sei o que causaram na vida de todos ao meu redor, mas eu sou totalmente egoísta, os meus interesses importam, as minhas vontades é o que me interessam.
Eu sempre vou estar disposto a fazer o que for necessário, para tomar qualquer coisa que eu acredite ser minha.
Observei tudo aquilo que seria o meu reino completamente destruído, mais alguns minutos em guerra e teria sobrado apenas o terreno. Que ironia, um rei com um trono fincado em um terreno baldio.
- Eu disse que pegaria tudo o que você nos tomou. — Sage se dirigiu a Marcel que a encarava em desespero, ele me lançou um olhar rápido.
– Niklaus… O que foi tudo isso? — Marcel invadiu minha casa, Elijah estava escorado na parede ao lado da porta enquanto eu bebia um copo de Whisky tranquilamente.
– Eu precisava de uma boa bruxa, precisava de livros, precisa espairecer a minha cabeça.
– Não pensou em me pedir?
– Isso nem passou pela minha cabeça, meu amigo.- ergui um dedo. — Ah, também achei que precisava receber uma lição, então achei que me pouparia tempo se eu apenas fizesse tudo ao mesmo tempo. Me poupou o quê? Uns… dois anos de conflito?
Vi a feição dele endurecer e uma veia em seu pescoço latejou antes dele começar a gritar.
– Niklaus, seja mais objetivo, fale logo o motivo de ter botado abaixo tudo o que eu construí!
Me levantei, meu dedo indicador pairando no ar.
– Eu precisava de um reino, precisava te mostrar o seu lugar, precisava de um aliado para uma guerra que vai matar todos nós se eu perder, e precisava fazer você entender que tem pessoas na minha vida que não deveriam entrar nessa guerra, mas que infelizmente não tiveram escolha. E precisava fazer você entender melhor ainda, que elas são intocáveis. Eu precisava que você soubesse o que eu estou disposto a fazer para manter a vida dessas pessoas em segurança, eu não quero cogitar um único minuto que eu vou perder isso. — me aproximei dele. — Eu acho que eu te fiz entender, que as coisas aqui só vão acontecer, se eu permitir isso. E eu não vou, e nem mesmo o carvalho branco que você enfiar em mim, vai ser capaz de me desligar desse mundo, quando a minha maior motivação pra viver estiver aqui. Você me entende? — perguntei entredentes.
– De quem você fala? Daquela criatura diabólica fantasiada? Aquilo precisa ser protegido de quê?
– Falo da minha criatura diabólica fantasiada, e do meu filho.
– Filho? Sequestrou alguma criança? Minha nossa Klaus! Qual o seu problema? Se apaixonou e quer viver uma vida humana?
– Não, Marcel. — o respondi calmamente. — Eu realmente tenho um filho biológico.
O queixo dele caiu, ele me olhou e em seguida se virou para Elijah que se manteve em silêncio.
– Impossível.
– Não, não é.
– Com aquilo ali? — apontou para um retrato pintado de Sage em minha parede.
– Não.
– Que sorte dessa criança então.
Respirei fundo, mas virei de costas pra ele não ver o sorriso que ameaçava surgir em meu rosto. Sage que me perdoe.
Marcel não ficou por muito tempo, saiu furiosamente de minha sala, mas o recado já estava dado e eu duvidava muito que ele gostaria de dar as caras novamente próximo de mim ou de Sage.
– Quando vai contar para Sage que você armou isso tudo? — Elijah se aproximou.
– Não irei. Ela agiu bem sozinha, não vou deixar ela duvidar da sua capacidade. Foi um bom experimento.
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