Eu no seu lugar
28 Regra não tão nova: confiar um no outro
Pode-se pensar que Katsuki se arrastaria pelos corredores da escola pelo resto da tarde, mas ele vai praticamente voando pra onde tem que ir, querendo sumir de onde quer que ela ou o nerd maldito estejam, a cena que ele viu ainda causando calafrios e enjoos piores do que os que ele sentiu quando ergueu aquela caixa d’água.
Tsk, essa merda serve pra lembrá-lo de porque ele nunca quis saber dessas besteiras de namoro e se apaixonar. Katsuki ganha bem mais se preocupando em quebrar a cara de todo mundo que fique no caminho dele até o número 1 no ranking de heróis, o resto é draminha de criança e perda de tempo.
Que porra, ele tava mesmo pensando em se… confessar pra ela? E dar um tempo pra ela pensar se precisasse? Que ideia estúpida! Ele já tá há tanto tempo nesse corpo que tá começando a ficar idiota e mole igualzinho a ela! Katsuki vem pensando isso há um tempão, mas nunca foi tão sério quanto agora: essa merda de troca de corpos precisa acabar, assim ele vaza desse corpo e esquece que realmente achou que poderia tentar namorar alguém sem isso atrapalhar toda sua vida. Namoro é perda de tempo, ouvir e ficar pensando na maldita Cara de Lua é e sempre vai ser perda de tempo.
— Uraraka-san? — ele aperta o puxador da porta da entrada dos dormitórios ao ouvir esse nome nessa voz irritante do caralho. Katsuki se vira com irritação para encarar o merdinha da turma B — Seu ombro já melhorou, pelo visto. — ele sorri, parando quando Katsuki não sorri de volta — Então hã… você está ocupada no momento? Será que podemos conversar?
— Sobre?
— Ah, é… algo pessoal, não acho uma boa ideia falarmos sobre isso na frente dos dormitórios onde todo mundo pode nos ouvir. Juro que serei breve.
Ele respira fundo, porra, ele acabou de se livrar do Kirishima, que ficou grudado nele quase a tarde toda — o idiota tava todo esquisito! Se não fosse maluquice, Katsuki acharia que o bestão sabe de tudo pela forma como ficou olhando-o como se quisesse consolá-lo, foda-se isso! — e já apareceu outro pra encher o saco. Katsuki com certeza não quer ouvir o que esse otário tem pra falar porque não pode ser nada que preste, mas ao dar uma breve olhada lá dentro, ele vê todos os imbecis da sala estudando ou fazendo porra nenhuma nos sofás, e realmente não tá a fim de entrar lá e fingir que é uma garota alegrinha e encantadora que acabou de mandar bem pra caralho numa prova, ele não quer ficar sendo lembrado do quanto a Cara de Lua é querida por essas meninas e por vários desses moleques, ele não quer ser lembrado do quanto gosta dela, e do quanto ela gosta daquele maldito Deku.
— Tá.
— Oh, ótimo! Podemos ir até o jardim de rosas próximo ao pátio.
— Tem um jardim de rosas aqui? — o merdinha dá uma risada afetada.
— Sim, alguns alunos com individualidades de plantas o mantêm, você nunca esteve lá? — se ele tá perguntando, é óbvio que nunca esteve lá, otário! — Venha, acho que você vai gostar bastante.
Katsuki caminha atrás desse maldito em silêncio, ainda remoendo todo o ódio que sente pelo Deku nesse momento. Imbecil, como um inútil daqueles pode ter conquistado tudo? A confiança do All Might, a admiração de todos os merdas da sala, e ela… Porra, por que ele sequer liga? Katsuki nem falou que gosta dela, nunca vai falar! E é até melhor que seja assim. Quando eles recuperarem seus corpos, ela que fique com o nerd maldito! O Deku é tão idiota que vai andar por aí igual a um cachorrinho atrás dela, e o caminho pra ser número 1 vai se tornar ainda mais fácil! Porra, é isso mesmo! Todo mundo sai ganhando!
Principalmente ela, que vai ser feliz com quem ela gosta.
— Uraraka-san, eu… gosto de você. — o babaca solta de uma vez só assim que eles chegam no tal jardim de rosas. Caralho! Katsuki até sabia que era isso que esse otário queria falar, só não achou que ia ser na lata assim — Eu gosto de você já tem um bom tempo.
— Um bom tempo?
— Sim. Eu já… havia te achado adorável quando a vi pela primeira vez ao chegar na escola, eu… fiquei um tanto quanto decepcionado quando te vi parada na frente da sala da Turma A, você parecia tão… solar e gentil conversando com o Midoriya-kun, naquele momento percebi que minha turma só teria a perder sem você conosco. Eu achei que superaria esse sentimento ao longo do ano, mas aí tivemos o Festival Esportivo… — ele tá falando do Festival Esportivo em que roubou as explosões dele, fez aquele circo todo e ainda ficou de fora das lutas? Ha, otário! — … me incomodou profundamente como as pessoas te subestimaram e acharam que você seria massacrada por aquele selvagem do Bakugou, eu… sabia que você tinha uma estratégia engenhosa, foi admirável te ver lutar, você merecia vencer e… bom, a quem estou enganando? Teria sido sublime ver o Bakugou derrotado. — Filho da… — E no semestre seguinte tivemos aquela atividade em conjunto, eu estava extasiado em lutar contra você e seu grupo e… quando vi você se arriscar para salvar o Midoriya-kun daquela maneira, eu pensei… que mulher! Eu lutaria contra e por ela sempre que ela quisesse! Nós… seríamos um casal primoroso! Traríamos a união entre as turmas A e B, e eu… eu sei que tendo a ser um tanto… — Ridículo? Invejoso? Babaca? Figurante? — ...esdrúxulo em meu comportamento, mas… eu faria o possível e impossível para te fazer feliz, Uraraka-san, se você… me aceitasse. — Katsuki fica encarando a cara vermelha e o olhar de tarado desse moleque — Por favor, diga alguma coisa antes que eu morra de constrangimento.
— Você- você não parece… o tipo que se interessa por essas coisas… de namoro.
— Bom, eu… nunca foi minha prioridade, de fato, mas é que mais que companheiros românticos, eu a vejo como uma parceira em potencial, Uraraka-san, eu… noto como você é subestimada às vezes, sei bem como é não ter suas capacidades valorizadas. Não conte a ninguém, mas quando eu estava me preparando para tentar ser admitido na U.A., muitas pessoas me disseram para não perder meu tempo, minha individualidade poderia ser confundida com parasitismo, não é algo que combine com um herói. — porra, parasitismo? É uma individualidade bem fodida, mas… que caralho esse povo gosta de se meter na vida dos outros e falar quem pode e quem não pode ser herói? Katsuki também ouviu essa ladainha, ele sabe da merda que é — Eu adoraria provar que estão todos errados — o cara se abaixa e saca uma tesoura do bolso do blazer, cortando uma rosa de seu caule, sorrindo enquanto a estende pra ele — E quanto a você, Uraraka-san?
— Eu… — porra, ele tá… corando com a merda que esse otário falou? O merdinha claramente ensaiou isso tudo, até trouxe uma tesoura pra cortar uma rosa, e dá pra ver que escolheu uma sem espinhos. Caralho, não dá pra responder um negócio desses no lugar dela, que merda ele vai falar? Quando Katsuki contou pra ela que esse merdinha aqui gostava dela, ela ficou sem-graça, mas não pareceu curiosa ou interessada, e é lógico que é assim, porque ela só tem interesse em um outro merdinha! — … por que você… por que você tá me falando isso só agora se… se gosta de mim desde o primeiro ano?
— Hum, é uma boa pergunta… a Kendou me aconselhou em não abordá-la já que você tem sentimentos pelo Midoriya-kun, houve até boatos de que você se confessou recentemente. Me corrija se eu estiver errado, mas você não está mais interessada nele, correto? Então achei que fosse válido tentar, já que seu outro pretendente é apenas o Bakugou. — ele diz com desdém — Eu notei como vocês vêm se olhando ultimamente, mas se me permite dizer, essa faceta ligeiramente polida dele dos últimos dias é pura fachada, ele não passa de um egocêntrico que irá te magoar eventualmente, não é adequado para alguém tão magnífica quanto você. — Katsuki quer esmurrar a cara desse babaca, principalmente porque sabe que a última parte é uma puta de uma verdade.
— Você tá errado. Eu não gosto do Bakugou. — nunca gostou. Ela sempre gostou e sempre vai gostar do Deku — Muito corajoso você vir e me falar tudo isso, mas eu não posso te aceitar, desculpa.
— Não quer um tempo para pensar? Eu não vou apressá-la.
— Obrigada, não. Não é justo com você se eu sei que no fim vou te falar não do mesmo jeito.
— Entendo. Nesse caso... — ele limpa a garganta, e Katsuki se prepara pra ouvir um comentário despeitado do tipo “eu sabia que você se achava boa demais como todo mundo da turma A” blá blá blá, mas o merdinha só sorri — ...valeu a tentativa. Obrigado por ser honesta, não esperava menos de você. Nos vemos amanhã na divulgação das notas, sim?
— Hã… claro. — é só isso que ele vai falar mesmo?
— Ótimo. Seja feliz, Uraraka-san, você merece. — o cara põe a mão no ombro dele, é bem rápido, então com certeza não é pra copiar a Gravidade Zero, ele só… pegou no ombro dele mesmo.
E Katsuki fica lá igual a um imbecil olhando pra rosa que o moleque deu pra ele, as pétalas cor-de-rosa são macias e delicadas, como as bochechas desse maldito rosto redondo que Katsuki aprendeu a adorar.
Ela realmente merece ser feliz, e com certeza vai assim que essa troca de corpos acabar.
***
[18:59] ReidasExplosoes#1: oiii! o seu ombro melhorou?
[19:07] Garota_Infinito: quer dizer que o SEU ombro melhorou né cara de lua?
[19:07] Garota_Infinito: a Recovery Girl consertou, n precisa me dar sermão
[19:08] ReidasExplosoes#1: eu n ia dar sermão ;;; só queria saber se tá tudo bem, vc sumiu à tarde, fiquei preocupada
[19:42] ReidasExplosoes#1: Bakugou? Tá aí?
[19:57] ReidasExplosoes#1: ???
[20:01] ReidasExplosoes#1: tô indo jantar, vc quer estudar depois? A gente podia conversar tbm
Ochako relê as mensagens pelo que deve ser a vigésima vez, procurando em suas palavras alguma coisa que tenha dado motivo para ele ignorá-la. Eles não conversam desde ontem antes da prova, é um recorde considerando que desde a troca de corpos, o máximo tinha sido algumas horas. Nada, ela só perguntou se o ombro tava bem, explicou que não era sermão e sugeriu que eles estudassem juntos, só isso. Bom, ela também disse que queria conversar, mas nem especificou sobre o que era. Até porque eles têm muito assunto pra pôr em dia.
Primeiro, sobre a prova, ela ouviu sobre a façanha do grupo rosa e suspeita que a ideia tenha sido todinha dele. Segundo, eles precisam rever a estratégia para invadir a nova sede da organização amanhã à noite, ele ficou de passar o plano detalhadamente. Terceiro, ela precisa contar sobre o Kirishima, nada mais justo já que Ochako já sabe sobre o Deku, então ele merece ser informado de que seu melhor amigo também sabe. E por último, um assunto que talvez não seja tão importante agora, mas com certeza é mais difícil que todos esses outros, e vem na forma de uma perguntinha: “Quando você disse que eu merecia ‘coisa’ melhor, você tava pensando em alguém específico? Se sim, em quem?” Uma coisa é o Deku dizer algo mais ou menos nesse sentido, agora o Bakugou… ele não fala nada que não tenha 100% de convicção, Ochako não sabe se deveria perguntar isso a ele, mas ela quer ouvir o que o Bakugou tem a dizer, ela… precisa ouvir a resposta dele.
O que fica um pouco difícil quando ele ignorou as mensagens que ela mandou ontem à noite e mal olhou na cara dela desde que eles chegaram no ginásio para ouvir a avaliação da prova.
— Ele só deve estar cansado, não se preocupe. — o Deku comenta quando os dois chegam ao ginásio, provavelmente notando que a primeira coisa que ela faz é tentar avistar o Bakugou.
— Você acha? Eu não lembro de ter dito nada pra ofendê-lo, mas como vou saber? Ele é tão… temperamental, e nunca dá pra saber o que tá pensando! Ugh, por que ele é tão difícil? — ela reclama em frustração.
— Eu o conheço desde criança e não sei te responder essa. — ele ri, sem-jeito — Mas sabe que eu acho que você o entende muito bem, Uraraka-san? Eu diria que você é quem o entende melhor.
— Tsk, até parece! — ela revira os olhos.
— Hahaha, você até age como ele meio sem querer! Que bom que vocês se dão bem, não? — o Deku sorri de maneira gentil — Então… eu queria ter te perguntado isso antes, mas… como é usar a individualidade dele, Uraraka-san?
— Bom, é… a minha individualidade e a dele são ativadas pelas mãos, então isso facilita um pouco pra mim, mas de resto, é… uma loucura, Deku, de verdade, o poder dele… irradia! Eu não sei explicar, só tenta imaginar como é ter seu corpo inteiro tomado por um poder muito maior do que tudo que você conhece, da noite pro dia.
— Ah… eu nem preciso imaginar. — ele coça a cabeça, sem-graça. Hã? Antes que ela possa perguntar, a Kodai e a Komori se aproximam, forçando-os a encerrar o assunto e irem se juntar aos colegas.
Alguns minutos depois, o All Might chega acompanhado do Vlad King e do professor Aizawa, todos muito sérios.
— Bom dia, jovens! Espero que todos tenham se recuperado bem da prova de ontem. Também espero que vocês estejam estudando para as provas que estão por vir. Certo? — o All Might parece querer confirmação dos outros dois professores, que apenas acenam com a cabeça — Muito bem, vamos começar, eu vou falar o que notei em cada um dos 10 times e no fim direi a nota e quem passou ou não. — ela sente um calafrio descer pela espinha, Ochako acha que sua equipe foi bem, mas… nunca se sabe, né? Sem falar que a história do gato e do Deku se machucando pode dar problema pra ela, ou pior, pro Bakugou.
A avaliação começa, o time amarelo foi o que mais recebeu elogios até aqui porque, lógico, é o time da Yaomomo, a estação de primeiros socorros que sua equipe montou foi útil para todos os grupos e realmente tava bem organizado. Os times azul e preto também foram bem, encontraram-se por acaso e se juntaram para vencer o Aizawa-sensei, obviamente o Todoroki e a Tokage foram o destaque, não se espera menos de alunos que entraram na U.A. por recomendação. Até aqui, nenhuma surpresa.
— Time rosa: Kendou Itsuka, Kirishima Eijirou, Monoma Neito e Uraraka Ochako. Eu fiquei um tanto… dividido sobre a estratégia de vocês: arriscada, pouco prática e numa situação real, poderia dar problemas para os heróis por destruírem propriedade do governo, entretanto, vocês resolveram um dos maiores problemas, que era o incêndio e… bom, numa situação real, a vida das pessoas é o que mais importa, vocês teriam salvado muitas vítimas e ainda teriam ajudado os outros heróis já que acabaram com a fumaça. Um ótimo trabalho de equipe! Kirishima-shounen, fico feliz em vê-lo sair da sua zona de conforto e atuar como apoio de resgate. Kendou-shoujo, sua postura e calma durante todo o exercício foram primorosas. Monoma-shounen, muito proativo e de raciocínio rápido, parabéns. E Uraraka-shoujo, soube que a ideia foi toda sua, bom trabalho, jovem! O Aizawa e o Kan não vão se lembrar porque são muito novinhos e provavelmente também estavam começando, mas seu desempenho me lembrou muito o da Thirteen no começo de carreira: meio imprudente e desajeitado, mas bem eficiente. — Ochako cora violentamente, o All Might tá elogiando ela! Ele a comparou à Thirteen!!! Ela sente uma vontade imensa de chorar, querendo correr e abraçar o Bakugou.
Mas… e se não fosse ele no corpo dela, e se fosse ela mesma? Ela estaria recebendo esse tipo de reconhecimento? Porque ela com certeza nunca pensaria no que o Bakugou pensou...
— Time verde: Bakugou Katsuki, Komori Kinoko, Kodai Yui e Midoriya Izuku. Assim que eu vi o time formado, fiquei um pouco apreensivo. — você e todo mundo, sensei — Mas lembrem-se, um herói precisa ter a humildade de reconhecer seus erros, e eu fico muito satisfeito em dizer que estava errado em me preocupar, vocês fizeram um trabalho fantástico. Salvaram algumas vítimas e derrotaram um dos vilões mostrando apego aos detalhes e eficácia. Komori-shoujo, grande domínio da individualidade e muita criatividade para usá-la tanto para resgate quanto para ataque e defesa. Kodai-shoujo, te achei um pouco tímida no começo, mas sua capacidade de engajamento com a equipe foi essencial para a derrota do vilão. Midoriya-shounen, excelente desempenho e habilidade de pensar rápido, mas uma prova em que você não termina machucado não é uma prova, não é? — o Deku olha pra baixo, envergonhado e desapontado, e Ochako quer levantar a mão e dizer que foi para protegê-la, mas antes que ela possa, ele segura seu ombro e balança a cabeça negativamente — Pelo menos foi para ajudar seu colega, então dessa vez vamos relevar. E Bakugou-shounen, eu fiquei impressionado! Que você é um grande lutador todos já sabemos, então gostaria de destacar seu trabalho de equipe, sua estratégia montada mesmo com o mínimo de comunicação que teve com o grupo, você também demonstrou conhecimento em primeiros socorros a vítimas com problemas bem específicos e ainda arranjou tempo para salvar um gatinho. Eu vi um lado novo em você ontem, jovem, e espero vê-lo mais no futuro, continue assim, você está no caminho certo!
— All Might-sensei, o gato era parte do teste também? O Bakugou-kun receberá uma nota maior por ter percebido tal fato? — o Iida ergue a mão e pergunta.
— Hã… não, era um gato de rua que entrou no cenário no meio da noite e não conseguiu fugir quando a prova começou. — ele admite, envergonhado — Mas o Aizawa já está resolvendo isso. O nome do gato é Chairo, por sinal.
— Eu não decidi o nome ainda. — o Aizawa-sensei responde em tom ranzinza — Continue, por favor.
Claro que, depois dessa, a equipe dela passou com folga, e Ochako ainda ficou chocada ao ver que teve a melhor nota individual da sala, provavelmente por causa do gato. Que bom! Ela tava com tanto medo de derrubar a nota do Bakugou e prejudicar o currículo quase perfeito dele, mas pelo menos com o All Might isso não vai acontecer.
Ela tá louca pra conversar com ele, e é lógico que ele nunca vai parabenizá-la ou nada do tipo, ele com certeza vai falar “Tsk, não fez mais que sua obrigação, Cara de Anjinho!” mas ela ainda assim quer contar pra ele e deixá-lo feliz. É raro vê-lo contente, e Ochako adoraria ser a pessoa que o deixa hã… satisfeito com algo. Ele merece por todo o respeito que tem por ela e pelo corpo dela.
***
O chão chega a tremer quando Katsuki berra mais um “Liberar!”, derrubando aquela pedra gigante que parece um muro. A poeira é tão densa que forma uma camada por todo o seu campo de visão, tornando difícil de ver os limites do Ground Beta, mas que se foda essa porra. Que se foda tudo!
Ele avança por entre as rochas, tocando todas elas o mais rápido possível sem nem prestar atenção em como elas sobem, Katsuki se lança em um salto mortal sobre uma viga de metal fincada no asfalto, tornando-a tão leve que dá pra puxá-la como se fosse um pedacinho de arame qualquer, o asfalto cede, rachando-se em crateras.
Ele achou que não dava pra aliviar a raiva com a individualidade dela, não como ele costuma fazer com suas explosões, mas Katsuki estava errado. Usando do jeito certo, dá pra derrubar tudo que quiser e deixar um puta de um impacto. Claro que ele tava errado, ultimamente ele tá errado em tudo!
Katsuki achou que tinha uma chance com a Uraraka, nunca teve, ela e o Deku são perfeitos um pro outro, tão perfeitos que mandaram mó bem na prova do All Might e ela nem era ela, o nerd ainda arranjou tempo pra salvá-la e gravar ainda mais seu nome no coração dela. E porra, é uma merda, mas ele pode superar isso, com o Deku ocupado namorando, o caminho pro número 1 fica só entre ele e o Todoroki, e Katsuki sabe que o Meio a Meio é tão otário que não vai ser surpresa se de um dia pro outro ele simplesmente decidir tacar um “foda-se” pro ranking de heróis só pra deixar o papai Endeavor putinho. É a cara dele fazer uma merda dessas, mas como Katsuki não tem nada com isso, que se dane! Com o Deku namorando e o Todoroki fazendo pirraça, o número 1 será dele!
Mas aí é que ele erra de novo, porque o número 1 não vale de nada se o All Might não reconhecer isso, se o All Might não chegar pra ele e falar: “Você me superou, Bakugou-shonen! Você se tornou tudo que desejava e mais!”. Só que isso não vai acontecer, porque o All Might nem sequer o vê assim, nem o reconhece, achou maravilhoso o que a Uraraka fez no nome dele e disse pra ela “continuar assim”. Porra, então é isso? Katsuki só vai ser um herói digno de admiração se for a Uraraka no lugar dele, sendo o herói que ele deveria ser? Logo ela que ama e admira o Deku? Vai ser sempre assim, então, ele só tem uma chance de superar o Deku quando não é ele mesmo, quando não é quem ele sempre se orgulhou em ser?
— LIBERAR, PORRA! — Katsuki derruba todas as pedras que ergueu, criando uma chuva de meteoros. Não tem tantas quanto as que a dona desse corpo derrubou nele naquela vez, mas essas rochas são bem maiores, criando um caos gigante sob o céu de uma manhã confusa, onde o sol teima em surgir por entre nuvens acinzentadas.
Dentre o barulho das rochas atingindo o chão, o estrondo de uma explosão pode ser identificado. Katsuki olha pra trás e vê seu próprio corpo pulando por entre as pedras e explodindo algumas para se aproximar.
— Bakugou-kuuuuun!
O estômago dele dá um nó. Garota maldita, ela não entende que ele não quer falar com ela? Não quer vê-la? Não quer ficar sendo lembrado de que ela não consegue enxergar mais ninguém além do Deku e, de que mesmo assim, ela ainda é um melhor Bakugou Katsuki que ele? O próprio All Might disse isso.
— Vaza daqui, Cara de Lua! Não me atrapalha!
— Você tá treinando? Eu quero treinar com você! Eu quero- — ela detona uma explosão em uma rocha média caindo em sua direção — Eu quero conversar sobre o que a gente vai fazer amanhã pra salvar as crianças!
— Que crianças, Uraraka? Pra quê a gente vai se arriscar pra salvar um bando de pivete sendo que a gente nem sabe se o outro pivete vai destrocar a gente?
— Ué, porque… porque a gente prometeu! O Kisaragi-kun não tem controle da própria individualidade, mas ele parece ser- — boom! — ele parece ser um menino inteligente e dedicado, se ele se esforçar, talvez ele consiga destrocar a gente!
— Destrocar pra quê? Você se vira bem pra caralho sendo eu, todo mundo gosta mais desse Bakugou “fofinho” e “gentil”, o All Might te disse pra “continuar assim”, então vamo continuar assim, porra!
— O- O quê? Do que você-? — boom! — Do que você tá falando, Bakugou-kun?
— Isso que você ouviu! Agora some daqui! Já é uma merda que eu tenho que ficar no seu corpo, então fica longe pra eu não ter que ficar te ouvindo também!!! — ele flutua mais uma pedra, liberando-a logo depois, e vai fazendo isso com tudo que encontra pelo caminho, o estômago se contorcendo em enjoos, a respiração ficando mais e mais pesada.
— B-Bakugou-kun, para! Você vai se machucar! — a voz dela se aproxima.
— Eu não… eu não vou machucar o seu precioso corpinho, vai se foder, Uraraka! Você também acha que eu seria tão escroto assim? Eu não — — ele gorfa todo o café da manhã sobre a pedra, instantaneamente sentindo-se fraco. Katsuki leva a mão próxima à boca para limpá-la, mas uma garrafa de água se estende em sua frente.
— Não, não te acho escroto. Só não quero que você se machuque. — ela diz firmemente, gesticulando para ele pegar a garrafa — A gente pode conversar agora?
— Eu não tenho nada pra te falar. Deixa quieto.— ele pega a garrafa e enxágua a boca com ela.
— Jura? Porque você decidindo que a gente deveria ficar no corpo um do outro sem me explicar de onde veio essa ideia não parece algo pra eu “deixar quieto”.
— Tsk, o All Might… nem percebeu que não era eu, ele só achou incrível o que eu fiz, ou… o que você fez.
— Você… queria que ele percebesse que tem alguma coisa errada?
— Não, porra! Eu só- — ele olha pro outro lado — Ele nunca me elogiou daquele jeito.
— Mas ele sempre te elogia, Bakugou-kun, quantas vezes eu não ouvi ele elogiar sua postura, sua liderança, seu talento? Ele sabe que você é incrível!
— Não incrível como o maldito do Deku! E você tirou uma nota maior até que a dele, não foi isso? — ele a encara, ela arregala os olhos — Não importa o que eu, o eu de verdade, faz, eu sempre fico pra trás daquele nerd, menos quando não sou eu de verdade. — ele murmura entre os dentes, fungando pra segurar essa maldita vontade de chorar.
— Bakugou-kun... É por isso que você tá bravo comigo, entendi. — ela se ajoelha na frente dele — Sabe, eu acho que nunca te contei isso: sabia que uma vez eu tava conversando com as meninas, e a gente ficou imaginando como seria trocar de corpo com alguém da sala, principalmente com os meninos? Adivinha quem eu escolhi.
— O Deku? — ele revira os olhos.
— Não. Você.
— De onde saiu essa conversa? — ele estreita os olhos em desconfiança.
— Não lembro exatamente. Mas só sei que gostaria de trocar com você. E bom… claro que eu nunca achei que aconteceria de verdade, né? Mas… depois que aconteceu, eu cheguei no seu quarto e deitei na sua cama, eu percebi que um ponto positivo é que se alguém estranhasse seu comportamento, eu podia mandar à merda porque… você tem tanta força, Bakugou-kun, tanto… poder! E nem tô falando da sua individualidade. Você age como quer, fala como quer, você… é quem você quiser ser, Bakugou-kun, você pode ser quem quiser e se esforçar pra ser, e isso… não tem nada a ver comigo, com o Deku ou… ou mesmo com o All Might, é você, só você! É meu… hã… traço favorito em você e o que eu mais tento imitar porque… sem ele, não dá pra ser você, deu pra entender? — ela põe a mão no joelho dele e sorri de um jeito que Katsuki nem sabia ser possível em seu rosto. É um sorriso terno, gentil… heroico, um sorriso que lembra vagamente o do All Might em seus dias dourados, Katsuki não sabia que seu rosto é capaz de sorrir assim — Você pode ser quem você quiser, seja o Herói Número 1, ou… uma… Uraraka melhor que a própria! — ela aponta pra si mesma, ainda sorrindo, mas ele percebe o quanto esse é falso — Acho que você tava certo daquela vez no terraço, eu me daria bem melhor na vida se fosse mais como você. — e agora o sorriso dela é só… doloroso.
— Tsk, eu falei aquilo daquela vez só pra te irritar, Cara de Lua, você não tem que levar a sério!
— Não! Mas… não deixa de ser verdade. Eu… nunca fui comparada à minha ídola, eu… nunca teria uma ideia como a que você teve, nunca teria coragem de desafiar o Todoroki-kun e mesmo se tivesse, nunca conseguiria empatar com ele. Você levou semanas pra aperfeiçoar uma técnica que eu venho trabalhando há doze anos e me venceu com ela, e olha que seu corpo e individualidade são muito mais fortes! — ela funga também, não segurando um soluço — Isso me faz pensar que se a gente tivesse trocado há um ano, você teria dado conta de salvar o Nighteye-san, você… você teria me tornado mais forte, mais capaz, menos… sei lá, frágil e inútil… — ela cai de joelhos na frente dele — … e se eu nunca conseguir realizar meus sonhos quando a gente voltar pros nossos corpos porque eu não sou você?
Katsuki encara os próprios olhos, a única vez em que ele mesmo chorou a ponto de ficar com essa aparência deve ter sido daquela vez em que lutou com o Deku e assumiu que se sentia responsável pela aposentadoria do All Might, será que… ele parecia mesmo tão… assustado? Tão… ferido? Ele se lembra de que parecia doer, consumindo-o por dentro, mas vê-la assim dói muito mais. Katsuki se levanta e anda até ela, ajoelhando-se e envolvendo-a nesses braços macios e fortes em todos os lugares certos, ela faz um barulho surpreso, mas logo respira fundo.
— Não chora. Eu odeio quando você chora. — ele murmura só pra ela ouvir — E vê se para de falar besteira, onde que você é inútil e frágil, sua imbecil? Você venceu o Vlad King! Você tirou a gente daquele prédio aquela vez! Você… você vai encher o cu de dinheiro quando for profissional e vai salvar uma caralhada de gente!
— Você… você acha mesmo? — a voz que na verdade é dele soa embargada.
— Eu não “acho”, eu sei. Pau no seu cu se você duvidar de mim! — ela ri suavemente, apertando-o mais forte no abraço.
— Ai, Bakugou-kun… só você mesmo pra me fazer rir assim. — ele se sente ruborizar. Porra, ela não pode falar um negócio desses tão de boa enquanto eles tão abraçados! — E você ergueu uma caixa d’água de 1 tonelada…
— 2 toneladas, presta atenção. — ela ri por entre as lágrimas, fazendo-o rir baixinho também — Não tem jeito, Ochako, agora você vai ter que voltar pro seu corpo e erguer uma de 2 toneladas e meia pra me vencer.
— E você vai ter que salvar dois gatos. Que pressão, hein? — eles riem, e é patético eles ficarem dando risada igual dois idiotas catarrentos — Eu quero voltar pro meu corpo, Bakugou-kun.
— Uhum. — ele a solta do abraço, ignorando o impulso de beijá-la na testa. Porra, ele acabou de botar as tripas pra fora, que nojeira! Fora que ele não vai ficar beijando uma mina a fim de outro cara, que deve até tá namorando com ele. Katsuki quer perguntar sobre o que ele viu ontem, mas ah é, ele não dá a mínima pra isso — Mas a gente tem uns pivetes pra salvar antes.
— Sim. É… uma missão suicida, né? Eu sei que a gente pode dar conta, mas… seria bom ter reforço. — ela parece se lembrar de algo — Ah, por sinal, Bakugou-kun, eu… já sei sobre o De-
— Esquece isso agora, foca na missão. — ela parece querer protestar, mas engole as palavras e acena com a cabeça.
E é por isso que após o fim das provas da tarde, Katsuki usa a Gravidade Zero para subir até a ala masculina dos dormitórios. Ele não vai para o quarto andar como fez algumas vezes nesse mês, ao invés disso, sobe até o segundo. Por um momento, ele não tem certeza se é esse mesmo, mas a decoração de nerd entrega que ele não tá errado. Katsuki bate na porta da sacada com tudo, e não demora pro merdinha abrir com olhos gigantes e a típica cara de trouxa dele.
— K-Kacchan! O… o que foi?
— Eu- nós vamos precisar da sua ajuda, Deku. Tá dentro?
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